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Começa agora mais uma Operação Stop na Rádio Observador, sempre com o Alfredo Lavrador. Bem-vindo, Alfredo.

Olá, Miguel.

Hoje temos aqui um programa sobre quase um caso de polícia, não é?

É, sobre roubos, que é sempre uma coisa muito desagradável, mas que acontece a todos.

Sim. Deixa começar por aqui. Eu fiquei surpreendido porque vi que a GNR, que é uma das forças das autoridades, que é suposto defender-nos a nós e aos nossos bens, claro, que veio a público tentar ensinar a proteger os catalisadores dos nossos carros. Isto faz sentido?

Olha, Miguel, eu concordo contigo, é estranho, mas se tiveres em conta que em Portugal, durante 2021, segundo dados da própria GNR e PSP, foram roubados em média 20 catalisadores por dia, ou seja, houve 20 condutores, pelo menos que as polícias saibam, uma vez que apresentaram queixa. O que dá um total de 7 mil catalisadores por ano. Não há dúvida que é um problema grave e muito abrangente, o que em parte justifica este pedido de ajuda que a GNR fez através das redes sociais, no caso, o Facebook.

Então, mas por que razão este súbito interesse nos catalisadores? Isso, de facto, é súbito, não é? Se isso não acontecia antes, mas por que este aumento?

O problema aparentemente já existe há algum tempo. Aliás, começou-se a falar em 2019 no Reino Unido, que houve uma onda de gamances, digamos assim, e em 2020 começou a falar-se cá com mais frequência, e tudo indica que terá subido em 2021, e daí que a GNR tenha pedido ajuda. Basicamente, há dois motivos para este tipo de roubo. Primeiro, são os carros recentes, os carros novos, ou quase novos, com um ano, dois anos, três anos, em que os catalisadores são roubados para abastecer o mercado de substituição, ou seja, para serem vendidos a condutores cujo catalisador do seu carro deixou de funcionar corretamente, ou por acidente, ou pelo número de quilómetros percorridos, ou por outro motivo qualquer, e precisam de o substituir. E não querendo comprar uma peça original, acabam por comprar um catalisador roubado. O que não é uma decisão inteligente sequer, uma vez que se é um catalisador roubado, foi roubado a alguém e potencialmente ele será a próxima vítima. O segundo tipo-- diz, desculpa?

Não, faz sentido.

Exatamente. É que não faz sentido algum comprares uma peça roubada pra montares no teu carro, que tu deixas estacionado na rua à noite. Quem faz isso não está a pensar bem. O segundo motivo de roubo, talvez o mais frequente, é que os catalisadores, o catalisador é uma peça, parece uma panela de escape, é tudo igual a uma panela de escape, com cerca de dois palmos de comprimento. Só que lá dentro há uma estrutura tipo ninho de abelha, normalmente numa base cerâmica, que é revestida por um fio muito fininho com 30 mícrons. 30 mícrons são três centésimas de milímetro, pra te dar uma ideia, por metais nobres.

Ok.

O que sucede é que parece pouco, não é? Aquilo são dois palmos de catalisador, 30 mícrons também é pouquíssimo. Só que aquela rede de cerâmica é tão fininha, tão pequenina, que acaba por dar origem a uma superfície, se fosse possível estender, ficavas, em alguns modelos, com uma superfície equivalente a três campos de futebol, o que é uma barbaridade. E se tu pensares em três campos de futebol cobertos por uma película de 30 mícrons, começa a ser já muito interessante recuperares esses metais nobres. E sucede que esses metais nobres valem bastante dinheiro, porque, por exemplo, um deles, que é o paládio, tem uma cotação no mercado superior à do ouro, e toda gente sabe que o ouro é um metal muito procurado.

Ok, isso começa a fazer sentido. Mas então o que é que pode um condutor fazer para evitar ser vítima deste tipo de crime?

Olha, este pedido da GNR, por muito que tenha causado alguma estranheza entre nós, na prática não difere muito daquilo que acontece nos outros países. Eu lembro-me de ter visto, em 2019, a polícia britânica pedir ajuda e avançar com sugestões para diminuir a probabilidade de o furto acontecer. As sugestões eram essencialmente aquelas: estacionar em áreas movimentadas, nada de estacionar nos becos onde não passa ninguém, etc. Tentar estacionar em zonas em que as carrinhas altas não possam passar, por exemplo, em garagens, etc. Ou se tiveres uma garagem, tentar aplicar uma barra pra impedir que carrinhas de uma certa altura possam passar, uma vez que quem vai roubar os catalisadores precisa de os transportar numa carrinha, normalmente um furgão com alguma dimensão, e estar atento a veículos ou pessoas estranhas a rondar, que é uma coisa que está basicamente a pedir às pessoas para fazerem polícia. Eu acho que seria mais interessante juntar mais um pormenor, que é equipar o veículo com um alarme que detecte alterações no posicionamento do carro Normalmente os alarmes apitam quando partem um vidro, se tiver um sensor de movimento lá dentro ou se arrombarem uma porta, etc. Mas há alarmes, e não é nenhuma invenção recente, é uma coisa já muito corriqueira, por exemplo, todos nós já vimos um carro ser rebocado pelo reboque da polícia quando está mal estacionado e a maior parte deles vai apitar alegremente com o alarme a tocar. Isto por quê? Porque quando levantas qualquer dos lados do veículo, o alarme tem uma valvazinha de mercúrio ou algo que aquilo e acaba por detectar o movimento e apita. Um alarme desse gênero desataria a apitar, o que tornava muito difícil, apesar desta intervenção do roubo, digamos assim, sério, ocorrer durante um período de um, dois minutos, depende da experiência do larápio. A verdade é que estares debaixo de um carro, com o carro a apitar, não só não é muito agradável, como dá nas vistas e eles querem roubar, não querem chatices.

Claro, mas para perceber aqui a importância do catalisador, o carro pode circular, continua a conseguir circular depois de roubarem o catalisador?

Ele funcionar, se calhar até funciona. Só que eles quando roubam o catalisador, na prática, o que eles fazem é pegam numa serra de corte de metal. Os mais sofisticados e que não querem fazer barulho para não assustar as vítimas que estão a dormir descansadamente algures, usam umas serras de calor. Tem um corte diferente, não faz ruído, mas basicamente o que eles fazem é cortar uma fatia ao tubo de escape, o que significa que, como o catalisador é a primeira panela que aparece, muito antes daquela panela que se limita a abafar o ruído do motor, que é a última, significa que o teu escape fica livre cerca de 1 m depois de sair do motor. E tu não vais saber que o carro foi roubado. Há larápios que deixam o macaco ainda no carro, o carro assim meio levantado, quando têm que fugir assim por qualquer motivo. Mas, na prática, quando tu deres à chave e o carro trabalhar, tu vais apanhar o susto da tua vida, porque ouves um barulho monumental e cavernoso por baixo de ti, rigorosamente por baixo de ti.

Ok.

De maneira que se tentares andar com ele, vais ser o rapaz mais popular da tua rua sobretudo se saíres muito cedo, acordando a vizinhança.

Faz sentido. Mas que tipo de veículos é que estão mais expostos a este tipo de roubo? E aqui, se calhar, até fazer distinção, os equipados a gasolina ou a gasóleo? Faz sentido esta pergunta?

Faz. Miguel, estes ladrões são basicamente uns verdadeiros democratas, porque gamam tudo o que podem roubar.

Ok.

Os catalisadores dos motores a gasolina são diferentes dos que equipam os carros a gasóleo e há uma certa preferência por os catalisadores dos motores a gasolina. Por exemplo, lembro-me de início, as vítimas número um eram os Toyota Prius, porque eram híbridos, logo, como circulam parcialmente, durante períodos de tempo limitados, em modo elétrico, para o mesmo número de quilómetros têm um catalisador em melhor estado, digamos assim. Logo, capaz de lhes ser extraído os metais nobres, os tais que valem muito dinheiro. Mas, na prática, eles roubam qualquer tipo de catalisador. Tanto mais que se a ideia é lançá-los no mercado de substituição, qualquer catalisador é bom. Ou seja, na prática, não há nada que se possa safar ou é interesse dos ladrões.

Muito bem. Então vamos lá ajudar as autoridades e ajudar-nos a nós. O que é possível fazer para ajudar as autoridades a apanhar estes larápios?

Miguel, eu acho que essencialmente nós podemos ajudar as autoridades exigindo que eles nos protejam melhor, neste caso, protejam melhor os nossos bens. A PSP anunciou que em 2020 criou uma equipa que chamou Equipa Regionais de Investigação à Criminalidade Automóvel para acompanhar este fenómeno do roubo dos catalisadores e outros. Aparentemente, tem de reforçar estas equipas regionais ou criar mais brigadas móveis em carros descaracterizados, porque basta irmos ao Facebook da GNR e ver os comentários das pessoas que leram o aviso e se interessaram pelo assunto, para ver que a generalidade considera insuficiente a reação das autoridades quando os ladrões são apanhados, porque isto é um crime relativamente leve em termos de pena, de maneira que a reincidência é quase garantida. Eu, se fosse a ti, apostava num alarme daqueles melhorzinhos.

Sim.

Talvez dos mais barulhentos.

Talvez. Parece-me um bom conselho. Temos também aqui o caso da polícia para resolver e ter atenção também ao sítio onde estacionamos os carros. Pelo menos esse conselho parece-me ser o mais imediato. Está feita mais uma "Operação Stop", hoje aqui com uma situação a envolver roubos, a envolver polícia e a envolver os nossos carros. "Operação Stop", sempre com o Alfredo Lavrador. Para a semana há um novo episódio.

Obrigado, Miguel.