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"Operação Stop" na Rádio Observador. Todas as semanas, as principais novidades do mundo automóvel, como sempre, com o Alfredo Lavrador. Alfredo, seja muito bem-vindo. Como é que estás? Como é que foi essa semana?
Lindamente, José Rafael. E tu?
Também, obrigado.
Preparado para me aturar mais uma vez?
Não é aturar, é sempre um gosto enorme. Alfredo, esta semana vamos falar da Volkswagen, que é o maior consórcio automóvel europeu, o segundo maior a nível mundial. Está em crise, vai despedir milhares, fala-se mesmo em encerrar fábricas. Este grupo parece ter tropeçado e os resultados revelam quebras nos lucros preocupantes. A estratégia para a recuperação passa por encerrar fábricas e despedir, para já, 100 mil trabalhadores. Alfredo, como é que chegamos a isto?
Olha, José Rafael, sabes que não é a primeira marca, ou mesmo a primeira empresa, independentemente do setor, que atravessa períodos deste tipo. A história tende a repetir-se, para o bom e para o mau, se não forem tomadas as decisões corretas. Deixa-me só andar um bocadinho para trás, para que quem nos ouve perceba do que estamos a falar. Em 1993, já foi há uns aninhos, o grupo Volkswagen estava a ser ameaçado pela falência. Então, contrataram Ferdinand Piëch, um engenheiro, que se revelou um tipo brilhante, que serviu o grupo durante 22 anos, primeiro como CEO e depois como chairman. O Piëch percebia de carros, apostou nas tecnologias certas quando era necessário e fez o grupo crescer e tornar-se num potentado, crescer tanto em vendas como em lucros. Hoje, o grupo Volkswagen é liderado por indivíduos cinzentos, pequeninos, como se costuma dizer, cujo objetivo é assegurar rendimentos anuais às famílias Porsche e Piëch, que entre elas possuem 32% das ações, mas detêm 53% do poder de voto da empresa. E é este tipo de gestão ao sabor do vento, sem uma aparente estratégia, que conduziu a este mau resultado. Já agora, só para terminar esta parte, curiosamente, as famílias Piëch e Porsche controlam não só o grupo Volkswagen, como a própria Porsche. E, curiosamente, estão ambas a atravessar grandes dificuldades e tudo indica que é pelo mesmo motivo.
Isto, Alfredo, ter duas famílias que têm entre si um terço das ações do grupo Volkswagen e conseguirem controlar uma empresa que produz nove milhões de veículos, isto provoca alguns conflitos ao longo dos anos, ou não?
Sim, mas nota que quando te falei do Ferdinand Piëch, aquele grande engenheiro e gestor que liderou com mão de ferro a Volkswagen rumo à recuperação e a tornar-se um grupo tremendo, em termos de dimensão, correu tudo bem e o esquema era muito similar. Só que quando as pessoas deixam de ser competentes, quando deixam de ter visão, deixam de trabalhar para a empresa e passam a trabalhar apenas para elas, a coisa muda de figura. Por exemplo, ainda recentemente, Oliver Blume, que é, eu não diria fantoche, mas é um homem de mão destas duas famílias, foi colocado, calcula-se, como CEO do grupo Volkswagen, CEO da marca Volkswagen e CEO da marca Porsche, de que o grupo detém 75%. Quando os erros, as más gestões e as más decisões se começaram a tornar evidentes, os acionistas minoritários, aqueles que têm a maioria do capital, mas não têm a maioria do poder de voto, começaram a criticar abertamente as decisões da administração, forçando Blume a ter de optar entre a Volkswagen ou a Porsche, pois era evidente que não conseguia gerir ambas. Mas foi demasiado tarde, pois hoje o grupo Volkswagen viu os lucros operacionais caírem, e eu espero que estejas sentado, 53%, sofrendo ainda de um excesso de capacidade de produção de veículos, que tem de ser amputado rapidamente, o que significa igualmente um corte considerável nos postos de trabalho.
E o que é que acontece agora ao grupo e às várias marcas, se não me engano, são 12 que compõem este grupo Volkswagen.
Exatamente, são 12, sendo que há uma de motos, Ducati, e três de veículos comerciais, entre elas. Mas dizia eu que agora o grupo alemão vai ter que fazer aquilo que falámos de início, vai ter que fazer uma cura de emagrecimento, uma redução drástica de custos e tentar acertar finalmente nas tecnologias que os compradores querem e começar a ganhar dinheiro para fazer face aos investimentos que este tipo de indústria tem que fazer, que são avultadíssimos. Dizia eu que a administração do grupo mencionou o encerramento de quatro fábricas, todas elas na Alemanha, felizmente para nós, que temos uma em Portugal, respetivamente, Eddem, Hannover, Zwickau e Neckarsulm, o que deverá permitir reduzir até 100 mil trabalhadores. Mas o mais curioso, não que seja divertido, mas curioso, é que estas quatro fábricas são aquelas onde o grupo investiu nos últimos três, quatro anos, milhares de milhões de euros para as preparar para a produção de veículos elétricos. Este investimento deverá agora ser oferecido ou vendido por uma quantia ridícula aos construtores chineses, são os únicos que têm capacidade creditária na Europa, pois os diferentes estados federados alemães, que não querem lidar nem com a perda de receita que o encerramento das fábricas implica, e muito menos com a quantidade de desempregados que vão gerar, o que é mau para as eleições, querem arranjar um novo comprador para a fábrica urgentemente, nem que a tenham que oferecer e eventualmente até subsidiar. De maneira que preparem-se para umas surpresas.
Alfredo, falavas aqui há pouco da fábrica que existe em Portugal. Trata-se da Autoeuropa e acredito que seja também um ponto de interesse para muitos portugueses. A Autoeuropa pode ser ameaçada por esta crise, que para já está apenas nas fábricas alemãs?
Sabes que em tempo de crise tudo é possível. Depende da extensão. E há que ter a certeza que os sindicatos alemães, que têm assento na administração, estão a batalhar para que haja apenas o mínimo de trabalhadores despedidos dentro do seu país. Mas despedir os funcionários alemães tem como objetivo eliminar os trabalhadores mais caros da marca e do grupo. Todas as fábricas do grupo fora da Alemanha, respetivamente em Espanha, Portugal, Eslováquia e Chéquia, são mais competitivas, têm maior índice de produção e, sobretudo, menores custos, sobretudo aqueles ligados ao trabalho. De maneira que todas estas deverão estar fora do aperto que vai chegar. Isto esperando que as comissões de trabalhadores sejam inteligentes a ponto de não causar problemas desnecessários, uma vez que está tudo a caminhar sobre um gelo muito fino. De caminho, é bom recordar, e isto é uma boa notícia a favor da Autoeuropa, o novo T-Roc, a segunda geração do T-Roc, está a seguir as passadas da primeira geração, que foi o modelo mais vendido, durante muitos meses, do grupo Volkswagen. Este vai pelo mesmo caminho, apesar desta segunda geração ser 12 centímetros mais comprida e mais cara, devido à adoção de mecânicas mais modernas com a combustão, mas eletrificadas, mas isso não tem impedido de colher grande aceitação dos mercados para onde é exportado, o que é um excelente sinal e quase uma garantia de que a Autoeuropa, desta vez, não tem problemas pela frente.
Ora bem, ficamos por aqui na "Operação Stop" desta semana com Alfredo Labrador, com a promessa de regressarmos para a semana com mais novidades sobre o mundo do automóvel. Até lá, Alfredo, um grande abraço.
Abraço, Rafael.