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Se quiser ouvir todos os episódios de seguida, basta ser assinante standard ou premium do Observador. Para assinar, vá a observador.pt/assinar. O ano de 1965 está a terminar e Raymond Candau vai regressar a casa na Suíça, sem a mulher. O diplomata já sabia que no fim do ano iria terminar a missão em Havana e rumar a Berna para outro desafio, mas os acontecimentos mais recentes apressaram tudo. Com a mulher ainda desaparecida, Raymond recebe ordens para sair de Cuba o mais rápido possível. Tem documentos secretos a passar-lhe nas mãos todos os dias e com o estranho desaparecimento de Annie, nem os suíços nem os norte-americanos estão confortáveis com a presença dele em Havana. Raymond nunca confiou em Annie a 100%. Há de dizer que nem a missão de deixar uma carta no correio lhe daria, quanto mais permitir-lhe ter acesso a dados da embaixada. Isso nunca passou pela cabeça do diplomata. Mas não é fácil que todos acreditem nessa versão. Seja como for, Raymond vai mesmo deixar Cuba. Mas antes de regressar à Suíça, ainda tem outra coisa a fazer. Apanha o avião em Havana com destino a Nova Iorque. Faz uma escala de dois dias nos Estados Unidos e a 23 de dezembro de 1965, aterra em Lisboa, no aeroporto da Portela. O sogro e diretor da Polícia Política, Silva Pais, já tinha conhecimento da chegada de Raymond. No momento em que se prepara para passar no controle de passaportes, o suíço é abordado por um agente da PIDE. Raymond entra no carro. O destino é a Rua de Moçambique, a casa dos sogros. O diplomata suíço foi mantendo os pais de Annie a par de tudo o que se estava a passar, do pouco que foi sabendo. Por isso não tem grandes novidades para contar sobre o desaparecimento. Mas quer comunicar-lhes uma decisão. Vai pedir o divórcio. Raymond sempre foi recebido como um filho na casa dos sogros. É um homem bem parecido, educado e com uma boa posição, que ainda para mais não suporta comunistas. Depois de várias relações falhadas, sempre sem a bênção da mãe, o diplomata suíço era tudo o que os pais sonhavam para Annie, diz Madeleine Anita Palhota. Armanda Palhota, a mãe de Annie, que Raymond trata carinhosamente como dona Anita, suplica ao genro que não se separe. Não vê futuro para a filha como divorciada. Já para não falar na reputação da família. Não aceita. Implora. Vê a decisão de Raymond como uma afronta pessoal.

Quando ela desaparece, eu acho que na altura estavam angustiados. Não eram zangados, estavam angustiados. Não sabiam o que se passava, o que é que estava a passar.

Ao pai faltam-lhe palavras. Fernando Silva Pais não quer acreditar. Está destruído. Nunca imaginou ter de passar por isto. O genro está a anunciar-lhe o divórcio numa altura em que o diretor da PIDE não tem notícias da filha há dois meses. Não sabe se ela está viva ou morta. Dentro de poucos dias vai finalmente saber. A carta que chega à casa dos pais de Annie, na Rua de Moçambique, é curta, mas pelo menos sossega Armanda e Fernando Silva Pais em relação a um dos maiores medos que tinham. A filha está bem. Annie deixa claro que não está a ser coagida. É uma mulher livre. Garante que ninguém a está a maltratar ou obrigar a fazer nada. E não se alonga mais. Não diz onde está, nem quando ou se vai voltar. Aos poucos, as dúvidas começam a dissipar-se. Por muito que não revele a localização, há cada vez mais sinais de que Annie está mesmo em Cuba. E se está em Cuba, só pode estar a ser protegida pelo regime de Fidel Castro. Resta saber porquê. "Os Escândalos de uma Revolucionária" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Bárbara Branco, com banda sonora original de Frankie Chavez. Episódio 2. Deslumbrada por Che Guevara. Conhecer a verdade muda tudo. Muda histórias, muda caminhos. Na estrada, também há escolhas que fazem a diferença. A gama elétrica Kia tem cinco modelos, com opções para todos os estilos de condução e momentos da vida. Uma nova forma de avançar com liberdade em mais de 600 km de autonomia. Gama elétrica Kia. Elétricos sem limites.

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Fernando Silva Pais é escolhido por António de Oliveira Salazar e nomeado diretor da PIDE a 6 de abril de 1962. O historiador Duncan Simpson, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, com trabalhos sobre a PIDE, diz que há duas grandes razões para Salazar ter escolhido Silva Pais para chefiar a polícia política: a lealdade e um perfil discreto.

O facto de Salazar querer ter uma mão cada vez mais forte ou mais controladora na PIDE, este perfil de uma pessoa ligada a trabalhos mais administrativos do que um militar no ativo, por exemplo. Naquele tempo, o Silva Pais já tinha passado na reserva. Combinando isso com o facto do Silva Pais ser mesmo um devoto incrivelmente fervoroso do Salazar e talvez menos propenso a criar-lhe problemas, de tentar afirmar a sua autoridade de maneira demasiado forte.

A devoção que Silva Pais tem por Salazar faz com que se torne rapidamente um homem da confiança do presidente do Conselho. Ao longo dos anos de trabalho, das reuniões semanais e de casos muito complexos, como o da morte de Humberto Delgado, os dois tornam-se mais próximos. Salazar foi tendo um papel cada vez mais direto na ação da PIDE ao longo dos anos, mas Silva Pais era tão dedicado e fiel que não via nisso um problema. Ainda que Silva Pais formalmente reporta ao ministro do Interior, a verdade é que há uma comunicação direta entre ambos. O diretor da PIDE informa o ditador sobre prisões de adversários do regime, sobre ações do PCP e também sobre a atividade dos movimentos independentistas em Angola, Moçambique e Guiné. Em 1965, Silva Pais envia a Salazar vários relatórios sobre a Conferência Tricontinental, que vai juntar representantes de países da América Latina, Ásia e África, incluindo dirigentes dos movimentos de libertação que atuam nas colónias portuguesas. Essa reunião vai acontecer em Havana, onde vive a filha do diretor da PIDE. Quando Silva Pais é nomeado diretor da PIDE, em 1962, Annie e Raymond já estavam casados há dois anos. O diplomata suíço chega a Portugal em abril de 1959. Tem 36 anos. Faz a viagem de carro e entra pela fronteira de Vilar Formoso. Conhece bem a língua porque viveu cinco anos no Brasil, mas não encontra em Portugal o calor e o ambiente de festa que o surpreendeu do outro lado do Atlântico. É tudo muito triste, recordarão quatro décadas mais tarde, a José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz, autores do livro "A Filha Rebelde", sobre a vida de Annie Silva Pais. Descreve Portugal como um país fechado, de pessoas fechadas, em que as pessoas se vestiam de preto e viviam na mentalidade de Salazar, para quem bastava haver batatas e bacalhau. Raymond Candau arrenda um apartamento na Baixa de Lisboa, passa os dias entre a casa, a embaixada e os passeios pela capital. É solteiro e sente-se sozinho. Procura a redação do Diário de Notícias. O edifício é grande e dá nas vistas. Enche-se de coragem e dirige-se à zona dos anúncios. O diplomata quer publicar um que diga: "Cavalheiro deseja conhecer senhora para excursões, piqueniques e campismo." O funcionário do DN acha o anúncio esticado, impossível de publicar. Sugere algo mais sóbrio, como: "Cavalheiro estrangeiro deseja conhecer senhora para falar português." As respostas chegam devagar, quase sempre com recusas quando se coloca a hipótese de um encontro cara a cara. Há uma mulher francesa que aceita conhecer Raymond, mas não dá em nada. Ou melhor, parece que não vai dar em nada, mas é o início de tudo. A mulher francesa diz que tem uma amiga muito livre, que gosta de falar francês, é simpática e tem uns olhos bonitos. A história de amor de Annie Silva Pais e Raymond Candau é uma operação relâmpago Conhecem-se, apaixonam-se e namoram durante poucos meses. Têm o primeiro encontro em julho e em outubro estão a caminho da Suíça para se casarem. A prima Madalena não vai ao casamento. O pai e a mãe são as únicas pessoas da família da noiva a assistir à cerimônia.

Ela, no pecado, era uma pessoa normal. Ela era uma mulher alegre e era uma pessoa que tinha mais a ver com meu tio. Era uma pessoa muito virada para o trabalho, com uma carreira para sustentar, uma carreira para progredir, que conheceu uma mulher bonita por quem se apaixonou, que era ideal para o cargo dele, que vinha de um ambiente com o qual ele se identificava. Eu acho que sim, que ele estava apaixonado por ela.

Armanda e Fernando Silva Pais fazem a viagem de carro. É longa e cansativa. Passam por uma violenta tempestade em França, mas finalmente chegam à Suíça para casar a filha. A boda é em um restaurante e a mãe oferece dois pratos em prata aos recém-casados. Quando regressa a Lisboa, o casal instala-se num apartamento no Bairro Alto. É lá que estão a viver quando, dois anos mais tarde, chega uma notícia da Suíça. Raymond foi escolhido para uma missão diplomática em Havana. Annie fica radiante. Trabalhou numa livraria e é apaixonada por livros. Lê Hemingway, que escolheu o país para viver. Sabe que Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre estiveram na ilha com Fidel Castro e Che Guevara e que escreveram maravilhas sobre a vida em Havana. Já à distância, está apaixonada por toda a atmosfera que se vive em Cuba no pós-revolução.

Eu acho que ela estava deslumbrada. Casar com um diplomata é sempre uma maneira de sair do nosso país e do nosso ambiente. Lembro-me de ir ao aeroporto despedir-me deles. Isso eu lembro. Eu lembro de estar numa sala VIP toda xpto, por causa do meu tio. Parecia-me bem, parecia contente.

Raymond e Annie partem de Lisboa, fazem escala em Miami e aterram em Havana no dia 12 de outubro de 1962. Annie e Raymond só estão em Cuba há quatro dias, quando a ilha é colocada no centro daquele que foi o momento mais perigoso da Guerra Fria. 16 de outubro de 1962. São 08h45 em Washington, quando o presidente John F. Kennedy é informado da descoberta. Um avião espião sobrevoou Cuba e captou imagens alarmantes. Os Estados Unidos tinham agora a prova de que a União Soviética estava a instalar mísseis nucleares apontados para o território norte-americano. Os Estados Unidos estudam a possibilidade de bombardear as bases de mísseis em Cuba e até de invadir a ilha. Teme-se que um ataque norte-americano possa desencadear uma resposta soviética, principalmente na Europa. Ou pior, uma guerra nuclear. Os Estados Unidos podem estar prontos para um ataque em poucos dias e para uma invasão numa semana. A 20 de outubro, oito dias depois de Annie e Raymond se instalarem em Havana, Kennedy faz um discurso em que revela que o mundo tem estado à beira de uma guerra nuclear. Raymond Candau, que é o diplomata suíço responsável por descodificar mensagens secretas, assiste a tudo com preocupação. Sobretudo porque em Cuba não existe embaixada dos Estados Unidos. A Suíça é a representante dos interesses norte-americanos na ilha. Quarenta anos mais tarde, em entrevista aos autores do livro "A Filha Rebelde", Raymond Candau vai admitir que foram momentos muito tensos. Depois do anúncio do presidente americano, Cuba fica sem comunicações com o exterior. Durante três dias, o país está completamente isolado do mundo. Raymond e Annie nem sequer podem avisar as famílias de que estão bem. Os espaços aéreo e marítimo estão bloqueados e o povo manifesta-se nas ruas. Os cubanos não querem uma cedência da União Soviética de Nikita Khrushchov aos Estados Unidos. Estão contra a retirada dos mísseis de Cuba. Nas ruas de Havana, há gritos de ordem. O casal conhece os recantos de Havana, faz amizades e é convidado para festas, algumas delas em embaixadas. Dentro de pouco tempo, Annie vai estar tão à vontade que também começa a convidar os amigos, muitos deles ligados à revolução cubana, para a visitarem em casa. Fala muito bem francês e espanhol. Isso facilita a integração, tanto com cubanos como com estrangeiros, sobretudo embaixadores e embaixatrizes. E claro, é portuguesa, coisa que não é assim tão comum em Cuba. Por isso, rapidamente começa também a ser recebida pelo encarregado de negócios, Luiz Gonzaga Ferreira, e pela mulher, Milu De quem se torna muito amiga.

Ela era recebida na embaixada, eles estavam naqueles círculos diplomáticos que têm outro tipo de tratamento. E depois deve ter achado piada à revolução cubana, porque se calhar eu na idade dela também acharia.

Os primeiros tempos são felizes. O casal envia cartas e fotografias à família que mostram isso mesmo, diz Madalena Palhota. A prima ainda hoje guarda uma fotografia a preto e branco, em que Annie e Raymond, cada um com um cão ao colo, aparecem sorridentes.

Sim, ela só falava em festas, receções na embaixada, festas na embaixada, portanto, parecia estar bem.

Annie e Raymond estão em Havana há pouco tempo, quando decidem ir assistir a um discurso de Che Guevara. O diplomata suíço não esperava tanto entusiasmo por parte da mulher. Não que seja a única. Na verdade, Raymond recorda um batalhão de mulheres deslumbradas pelo ícone da revolução cubana. Mas começa a prestar especial atenção a Annie. Um dia, o casal Candau é convidado para uma receção no Banco Nacional de Cuba. Che Guevara também está presente. É nessa ocasião que são apresentados. Raymond repara que Che Guevara e Ani falam longamente. Não sabe sobre o quê, mas vê a mulher entusiasmada. Noutra altura, viu-a a conversar com Fidel Castro e havia interesse e dedicação à conversa, mas não era a mesma coisa. Che Guevara parece especial aos olhos de Ani e até o marido dá por isso. Em casa, já se tinha apercebido que a mulher tinha uma devoção particular pelo ícone da revolução cubana. Mas a partir desse dia, muda muita coisa. Ani começa a imitar Che Guevara, até fisicamente. Passa a usar o cabelo o mais parecido possível com o do comandante. Raymond não gosta. Vai revelar em entrevista para o livro "A Filha Rebelde". Olha para aquela veneração como um culto doentio. Acredita que aquele comportamento, ainda para mais numa mulher casada, é decrépito, muito próximo da senilidade. Sente que tudo aquilo é insuportável. Começa a ficar sem paciência para a mulher, que está deslumbrada com a revolução cubana. Ani não quer saber da opinião do marido. Está feliz e a viver uma vida de sonho, cada vez mais integrada na sociedade de Havana. Aos poucos, há cubanos fardados a entrarem na embaixada da Suíça para irem ter com ela. Um deles é René Vallejo, secretário e médico de Fidel Castro. Outros são José Abrantes Fernandes, membro da polícia política do regime, e até o chefe de protocolo, Roberto Melendez. Che Guevara não é visita de Ani, mas há quem alimente a ideia de que existe algo mais entre eles. Não apenas uma grande admiração. Esta noite a festa é na embaixada da Holanda. Juntam-se diplomatas de vários países. É um hábito haver receções deste género. Os convidados são quase sempre os mesmos, só rodam os anfitriões. O embaixador, um conservador do norte da Europa, não gosta da revolução cubana nem dos ritmos de festa entre embaixadas, mas a mulher dele organizou tudo. Naquele dia, para desgosto do diplomata, Che Guevara, que não é dos convidados mais assíduos, aparece mesmo. Vem atrasado e com as botas cheias de lama. Nesse momento, Raymond está na casa de banho. Quando sai, tem a sensação de que está noutra festa. Toda a gente está à volta de Che Guevara. Toda a gente quer falar com Che Guevara. O ícone da revolução cubana aproxima-se de Ani. Trocam poucas palavras. Ele elogia-lhe o vestido. Na verdade, não é só um elogio. É um memorável elogio de Che Guevara a um vestido de renda vermelho, mangas curtas e decote pronunciado. Este momento vai mudar a vida de Ani para sempre. Quem o diz é Maria Carla Baseggio, amiga e confidente de Ani, nora de Raul Roa Garcia, destacado membro da revolução e, nesta altura, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Cuba. Anos mais tarde, conta aos jornalistas José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz que aquele momento abalou profundamente a amiga. Aquele vestido nunca mais voltou a sair do armário. Mas a história entre Ani e Che nunca foi além de uma paixão platônica. Nunca aconteceu nada entre eles, garante. Rui Ferreira, jornalista e amigo de Ani, diz o mesmo.

Eu acho que é fantasiosa essa história dela com o Che. Desde que ela se separou do marido, o Che já estava fora de Cuba, estava em África. E eu nunca a ouvi falar que teve uma relação com o Che

Melly López tem outra versão. Durante a ditadura de Fulgencio Batista, foi costureira da primeira-dama. Agora trabalha como modista para as mulheres dos diplomatas que vivem em Cuba. Também é amiga de Ani e diz que entre ela e Che houve, sim, alguma coisa. Tiveram uma chispa, mas foi tudo muito discreto, porque os dois eram casados e aquilo era um amor impossível e imortal. Alfredo Duarte Costa nunca chegou a conhecer Ani, mas ocupou o posto de embaixador português em Havana e tornou-se amigo de Aleida e Célia, as filhas de Che Guevara.

Elas ouviram a história também, embora nunca tenham conhecido a Ani, e disseram que é absolutamente falso, que o pai nunca teve uma relação com ela. Encontraram-se duas ou três vezes em eventos sociais, a cocktails ou nas embaixadas, etc. E Aleida Guevara, a filha, até me contou: "O meu pai era tão fiel à minha mãe que era impossível."

O diplomata português, que esteve em Cuba entre 1999 e 2004, conta que para comprovar a fidelidade do pai, Aleida Guevara chegou a mostrar-lhe uma carta dele para a mãe.

Ele dizia nessa carta enviada da Argélia: "Estou completamente apaixonado por ti e ser-te-ei sempre fiel, mas queria te confessar, porque em pensamentos, fui-te infiel várias vezes. É que há aqui umas mouras, umas argelinas com uns olhos negros grandes, que me tentaram, mas foi só em pensamento." Portanto, ele era um homem muito estrito nessas coisas.

Apesar da simpatia cada vez mais assumida pelo regime, a vida que Ani leva em Havana, a morar na embaixada da Suíça, é pouco condizente com os rigores impostos pela revolução cubana.

Era muito agradável, porque havia lojas em dólares e nós tínhamos acesso a todos os bens, mariscos, vinhos, espumantes, tínhamos tudo. Como era pago em dólares, os cubanos obviamente não tinham dinheiro para ir a essas lojas onde se pagava em divisas estrangeiras.

Tem uma vida de luxo. Não precisa de se preocupar com dinheiro. Pode alimentar relações de amizade, estudar a revolução, conhecer pessoas e sentir o ambiente de festa que se vive em Cuba.

Toda a gente me disse, como eu, que estavam fascinados como é que aquela senhora acaba em Cuba e toda a gente dizia que era uma mulher extremamente bonita, muito bonita, e que entrava em qualquer lado, todos os homens olhavam pra ela.

Está tudo a correr bem a Ani. Tudo, tirando o casamento. A vida social vai se tornando mais intensa, ao mesmo tempo que a relação com Raymond se deteriora. Estão casados há quase cinco anos e a viver em Cuba há praticamente três. Nos últimos tempos, a convivência em casal é cada vez mais difícil. Discutem muito, nem sempre no recato da chancelaria onde moram. A viagem para o México surge como uma solução, uma pausa pra tentarem melhorar a vida em comum. Ani precisa de férias. A ideia, explicará Raymond 40 anos depois, era passar 15 dias na capital do país com a amiga Laura Bosques. Tinham se conhecido em Havana porque o pai, Gilberto Bosques, foi embaixador do México na cidade. Como a casa dos Bosques está em obras, Ani fica instalada no hotel. As duas amigas passam praticamente todo o tempo juntas. Passeiam, vão ao cinema, assistem a tertúlias de escritores e pintores e até têm tempo para uma visita às pirâmides de Teotihuacan, na Cidade do México. Porém, aquela que Raymond achava que ia ser uma viagem para tentar melhorar o casamento dele com Ani, foi tudo, menos isso. O amigo Rui Ferreira não tem dúvidas de que já havia um plano no momento em que a portuguesa deixou Havana e rumou ao México. Foi tudo preparado até ao mais ínfimo pormenor.

A viagem ao México e o regresso é o que se chama, em termos de espionagem, uma exfiltração. Ela foi, talvez a amiga dela, mexicana, não saiba, para criar uma separação com o marido.

Raymond só se irá perceber que o caso pode ser mais estranho do que parece, quando vir que Ani não levou apenas roupas e sapatos pro México. Na mala de 20 quilos que despachou pra o porão do avião, a portuguesa guardou vários objetos pessoais. Além de cartas, moradas e contatos, levou até fotografias dos pais. Quando entrou no avião, já sabia que ia deixar Raymond. Ani mentiu-lhe. Faltam poucos dias para o início da Conferência Tricontinental em Havana, quando o encarregado de negócios de Portugal em Cuba recebe a informação de que Rogelio Montenegro, diretor político do Ministério das Relações Exteriores de Cuba, quer marcar uma conversa. Não é a primeira vez que acontece. Os dois homens conhecem-se bem e mantêm relações cordiais. Mas o habitual quando se reúnem é Luiz Gonzaga Ferreira ter de se deslocar ao ministério. Desta vez, o governante cubano sugere outro local para se encontrarem. Escolhe um território neutro Esta não é só mais uma conversa. Rogélio Montenegro tem uma mensagem para lhe entregar e vem diretamente da parte de Fidel Castro. O comandante manda dizer que o caso não vai ser utilizado na conferência tricontinental. Não chega a dizer o nome dela, mas é óbvio. O caso é o desaparecimento de Ani Silva Pais. O próprio Fidel achou que deveria tranquilizar os portugueses. Estão inquietos há semanas com a possibilidade de a filha do diretor da PIDE poder ser usada como arma de propaganda perante as centenas de delegados estrangeiros que estão prestes a chegar a Havana. De facto, Fidel Castro decidiu não atingir o regime de Salazar, mas vai ser durante a Tricontinental que todas as desconfianças se vão confirmar. Ani está mesmo em Havana, vai aparecer e vai juntar-se à revolução. Vive-se um momento de tensão internacional. Os Estados Unidos aumentaram a intervenção militar no Vietname e invadiram a República Dominicana. E depois da crise dos mísseis, Cuba tenta afirmar-se como o centro mundial do anti-imperialismo.

Seguir adelante frente a los imperialistas!

São os primeiros dias de janeiro de 1966.

Em consideração das delegações que nos fazem a altíssima honra de visitar-nos.

E em Cuba, a Tricontinental, a primeira conferência de solidariedade dos povos de África, Ásia e América Latina vai finalmente começar. Havana para para a realização do megaevento. E a confusão que se vive por aqueles dias vai dar jeito a Ani, que assim pode reaparecer sem dar nas vistas. Não há nenhuma aparição bombástica, nenhum escândalo. Os cubanos cumprem a promessa. A portuguesa simplesmente volta a ser avistada nas ruas da cidade. Como se nada tivesse acontecido, pronta para começar uma nova vida como uma cubana. A família fica em choque, recorda Madalena Anita Palhota.

Há um alívio, porque a gente sabe que ela está viva. É um choque para todos por causa das circunstâncias.

Ani esteve sempre em Cuba, escondida do marido e dos amigos portugueses, sem dar notícias à família. Numa casa do regime, está oficialmente do lado da revolução. Abandonou tudo para se juntar à luta de Fidel Castro e Che Guevara.

Depois de se conhecer os desfechos, logicamente ficaram zangados, eu também ficaria. Vamos lá ver a situação, ela põe a família toda, principalmente o pai, numa situação complexa. Portanto, é natural que estivessem zangados.

José Covas é amigo de Ani, um comunista português que viajou muito para o país em trabalho e por isso mesmo, acredita que só por convicção, seria possível trocar uma vida de mulher de diplomata pelas dificuldades do dia a dia em Cuba.

Apaixonou-se pela revolução, de facto, largou o suíço, diplomata, com quem era casada, e dedicou-se àquilo. As condições não eram como deve calcular, não foi pelo dinheiro nem pelas condições de vida. Aproximou o projeto, apaixonou-se pelo projeto.

Ani está de tal forma integrada na sociedade cubana, que passa a ter de usar senhas de racionamento para comprar bens essenciais. Raymond fica a saber que a mulher voltou a Havana exatamente por isso. Um diplomata suíço conta-lhe que a viu com uma senha na mão, numa fila para comprar comida. Nem sequer tenta contactá-la. Décadas depois, em entrevista para o livro "A Filha Rebelde", vai explicar porquê. "Para mim, ter uma mulher que se passou para um regime comunista era intolerável." Em Lisboa, o diretor da PIDE pede uma reunião com caráter de urgência. Está prestes a entrar no gabinete de Salazar. É difícil controlar os nervos. Costuma ir ali todas as semanas, mas sempre a propósito de assuntos que não lhe dizem diretamente respeito. Nunca teve de falar sobre a vida pessoal Mas agora não tem alternativa. Como assinala o historiador Duncan Simpson, o caso tinha potencial para causar graves danos ao regime e ser facilmente utilizado pela oposição de esquerda.

O próprio diretor da PIDE tem uma filha que parece estar completamente contra ele, contra os seus propósitos. Esta nova geração queria passar a outra coisa e estava muito mais alinhada com a oposição, neste caso, comunista, do que com aquela geração passada do Fernando Silva Pais, com a qual ela rompeu com esta brutalidade um pouco chocante para a altura.

Silva Pais conta a Salazar o que se passou em Havana com a filha. Não se alonga em pormenores, mas deixa claro que a Ani não partilha dos valores que ele próprio defende. Depois, demite-se.

O que aconteceu com a passagem da sua filha para a revolução comunista castrista em Cuba era suscetível de criar uma enorme crise, eventualmente, para o regime. Era uma coisa quase impensável. A filha do diretor da PIDE agora ser vista com Che Guevara, com Fidel Castro, e ser uma fervorosa defensora da revolução castrista. Acho que, neste sentido, sentiu que o seu dever era simplesmente, pelo menos, propor a sua demissão a Salazar.

Quando ouve o pedido de demissão de Silva Pais, Salazar mantém-se impassível. Diz-lhe para não se preocupar e pede-lhe que continue o trabalho como diretor da PIDE.

Talvez contrariamente ao que poderíamos pensar inicialmente, mantém a sua confiança em Silva Pais. Em 1965, é o início do momento em que Salazar está cada vez mais convicto de que o mundo ocidental está num estado de decadência moral. Parece que o Salazar vê o caso da Ani Silva Pais um pouco como um exemplo desta desorientação do mundo ocidental e da sua juventude, em particular, desorientação que, neste caso, faz com que ela caia nas mãos do inimigo número um, o comunismo, que Salazar vê desde os anos 30 como uma força maléfica. Parece-me até que vê o Silva Pais, de uma certa forma, quase como um pobre pai vítima, precisamente, desta desorientação do mundo contemporâneo.

Desorientada. É justamente assim que Fernando e Armanda Silva Pais imaginam a única filha. Acabada de fazer 30 anos, prestes a ser uma mulher divorciada e a viver num país comunista. Têm de fazer alguma coisa para a salvar dela própria e das más decisões que tem vindo a tomar. O cargo do pai não lhe permite meter-se dentro de um avião para tentar demover Ani, mas com a mãe a situação é diferente. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No entanto, se for assinante standard ou premium do Observador, pode ouvir já todos os seis episódios. Se ainda não for, basta assinar em observador.pt/assinar. No próximo episódio.

A sensação que eu tive quando ela ficou em Cuba foi um bocado: finalmente arranjei maneira de fugir de duas situações.

Esses acontecimentos sucedem-se porque, obviamente, há um senhor que se chama Fidel Castro que dá autorização para isso.

Ela teve uma relação extraconjugal com o médico do Fidel, isso toda a gente falava. A sensação também que eu tive foi que ela foi muito bem trabalhada.

"Os Escândalos de uma Revolucionária" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Bárbara Branco, com banda sonora original de Frankie Chavez. O guião e as entrevistas são de Inês André Figueiredo. A sonoplastia e o desenho de som são de Pedro Oliveira. O design gráfico é de Miguel Fraso Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Prainha. A coordenação é de Miguel Pinheiro e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Se tem alguma informação para partilhar sobre este podcast, ou se conhece alguma história que acha que deve ser investigada, pode escrever-nos para podcastplus@observador.pt.