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Tudo pronto para um novo episódio das Outras Histórias do Desporto, o último da semana, hoje com a jornalista do Observador, a Mariana Fernandes. Olá, Mariana, bom dia.
Olá, bom dia.
E começamos no futebol e em Inglaterra.
Sim, começamos com uma notícia que é cada vez mais habitual, também cada vez mais assustadora. Denis Law, antigo internacional escocês que jogou nos anos 60 e 70, que brilhou principalmente no Manchester United, onde formou a chamada Santíssima Trindade do United com George Best e com Bobby Charlton, que também ganhou a Bola de Ouro em 1964, foi diagnosticado com demência. E é mais um caso de um jogador de campo dos anos 50, 60, 70, que acaba por ser diagnosticado com uma doença neurológica degenerativa, e a origem, mais uma vez, e como já falamos aqui noutras ocasiões, volta a ser atribuída aos cabeceamentos em bolas de couro pesadíssimas, como eram naquela altura, muitas vezes ensopadas em água. E o pior com Denis Law é que ele foi um dos antigos jogadores mais ativos sobre este assunto nos últimos anos.
Sim, tem falado muito sobre o tema, é isso?
Sim, porque ele quase viu a doença aproximar-se dele nestes anos que passaram. Só assim num resumo muito rápido, Bobby Charlton, diagnosticado com demência no ano passado, foi o quinto jogador da seleção inglesa que ganhou o Mundial de 66 a ser diagnosticado com a doença. O irmão, Jack Charlton, assim como Nobby Stiles, morreram ambos o ano passado e sofriam os dois de demência, enquanto que Martin Peters e Ray Wilson, que morreram em 2019 e 2018, também já tinham sido diagnosticados. Todos estes jogadores eram, e são, amigos próximos de Denis Law, que entre os funerais ou entre homenagens, foi dizendo sempre que era preciso continuar a estudar os efeitos dos cabeceamentos dos jogadores, que o futebol devia isso a estes homens que foram dos melhores do mundo no seu tempo e que agora ficaram doentes precisamente por terem sido os melhores do mundo. E só para termos uma noção, um estudo da Universidade de Glasgow concluiu que os antigos jogadores de futebol têm quatro vezes mais probabilidade de desenvolver demência ou qualquer outra doença neurológica degenerativa do que a generalidade da população.
O que é impressionante. Mas agora a questão, Mariana, é perceber o que é que pode ser feito.
Existe a ideia, que aparentemente é errada, de que tudo isto vai resolver-se com a tecnologia e com o facto de hoje em dia as bolas serem de materiais sintéticos, não ensoparem com a água como o couro ensopava, não serem tão pesadas e muitos outros motivos. Mas a verdade é que, ao contrário do que seria de esperar, os números de casos de consequências neurológicas em antigos jogadores não baixaram com os jogadores que acabaram as carreiras nos anos 90, quando estas bolas já eram mais leves. E o grande problema, principalmente, é que estas bolas são mais leves, mas também são mais rápidas, o que aumenta a violência do contacto com a cabeça do jogador, para além de que hoje em dia os cabeceamentos são treinados milhares de vezes no treino e acontecem muito mais vezes durante o jogo do que aconteciam anteriormente. Não há uma solução mágica, como é óbvio, mas muitos estudos apontam para a necessidade de acabar ou de reduzir drasticamente os cabeceamentos no futebol, algo que como sabemos, iria mudar o jogo por completo.
Bem, e de Denis Law e destes casos de demência e de doenças degenerativas, passamos para a ginástica com uma história mais leve, Mariana?
Não, o problema é exatamente esse. E com outra notícia bastante grave, bastante importante. Pela primeira vez, a Federação Britânica de Ginástica assumiu e admitiu a existência de abusos físicos no interior do organismo. O Mike Darcy, o presidente da Federação, emitiu um comunicado onde pediu desculpa e reconheceu que o organismo tinha defraudado os seus atletas, explicando que o rápido crescimento da ginástica britânica na última década não foi acompanhado pelo crescimento noutras frentes. Revelou que o Conselho de Administração da Federação fez um balanço dos últimos meses, concluiu que toda a direção fracassou ao longo de muitos anos por não ter estado perto das ginastas, por não as ter protegido, por não ter ouvido preocupações. E aqui estou mesmo a citar o comunicado. E ainda falou também sobre abusos psicológicos, garantindo que não existe espaço na Federação Britânica para práticas abusivas que tinham acontecido, como treinar com lesões, como gritos ou como discriminação com base no peso.
Mas o que é que esteve na origem desta demissão de culpa agora?
Tudo começou nos primeiros meses deste ano. Portanto, ao longo de janeiro, de fevereiro e de março, um total de 37 ginastas, incluindo 13 atletas olímpicas, enviou uma carta à Federação onde revelava a existência prolongada e sistémica de abusos físicos e psicológicos por parte de treinadores, garantindo que essas 37 testemunhas eram apenas a ponta do iceberg. O grupo incluía atuais e antigas ginastas entre os 15 e os 43 anos e acusavam um leque de treinadores que se estendia pelo período de 40 anos. Uma das atletas que acabou por revelar a identidade nos últimos dias foi Claire Hafford, que competiu nos anos 90 e no início dos anos 2000, que explicou que deixar a Federação de Ginástica era como deixar um culto e é mais uma página negra na ginástica internacional e parece cada vez mais que nenhuma vai acabar por ser a última.
E é importante falarmos aqui destas coisas, mas espero que terminemos com uma história mais alegre. Terminamos pelo menos com Messi.
Exatamente. Terminamos com uma história dos nossos tempos. Ora, na conferência de imprensa que deu para se despedir do Barcelona, o jogador argentino usou um lenço para limpar as lágrimas.
Já é o lenço, não é um, é o.
Um lenço que lhe foi dado pela mulher, Antonela, e agora esse lenço está alegadamente a ser leiloado na internet por $ 1 milhão. A pessoa que o colocou à venda registou-se com perfil anônimo, garante que esteve presente no auditório em 1899, portanto, no Camp Nou, em que decorreu a última conferência de Messi como jogador do Barcelona, e que tirou o lenço de um caixote do lixo já no final do discurso do argentino. Claro que é impossível saber se este é ou não o lenço verdadeiro de Messi, mas para mim, mais engraçado do que tudo isto, é a descrição que este vendedor faz das possibilidades que este lenço permite. E para além de explicar que se trata de um elemento histórico do desporto mundial, ele diz que a tecnologia do futuro, utilizando o ADN de Messi que ficou no lenço, poderá permitir clonar o jogador e criar um novo Messi. Portanto, isto é muito mais do que um lenço, isto é a possibilidade de termos um novo Messi no futuro.
Pronto. Olha, agora é guardar.
Toda uma visão futurista.
Exatamente. E resta saber, lá está, se o foi buscar ao caixote do lixo, não tem certeza que era de Messi, não é? Portanto, ainda vamos clonar alguém mais desaconselhável. A jornalista da Editoria do Desporto do Observador, Mariana Fernandes, no fecho das outras histórias do desporto. Mariana, segunda-feira há mais. Bom fim de semana.
Bom fim de semana.
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