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Estamos aqui para nunca desiludir ninguém. Mais uma vez, a dose semanal de sugestões da rapaziada do Popup. Pedro Buxarim Mendes, começamos por ti. E hoje cai-te a ti a fava. Eu não faço ideia do que tens para sugerir, mas sei que são quatro coisas.

São bastantes coisas. Esta é a edição de segunda-feira, não é?

É, sim, senhor.

Não sei se podemos dizer isso. Podemos dizer?

Podemos. Claro.

Na semana passada, no programa normal, eu esqueci-me de recomendar filmes do "007". Os mais antigos.

Sim.

Que agora estão na tela.

Eu comecei a ver os filmes do "007", os mais antigos, na adolescência.

É uma boa sugestão.

E acabei assim.

E aquele filme.

Ainda não acabaste.

Ainda não acabei.

"Ao Serviço de Sua Majestade", acho que se chama assim.

Com o George Lazenby.

Sim. Passa-se em larga medida no Estoril e na Malveira, portanto é uma boa dica para a mãe, que agora não me lembro do nome.

Ana Raquel.

Levar o seu filho adolescente ou pô-lo a ver. Eu acho que está na Prime, na Amazon Prime.

Pois, agora não me lembro qual é, mas sei que estão todos.

Os "007" antigos são ótimos, ele está sempre a fumar, sempre a beber, sempre a ter sexo casual com mulheres lindíssimas. Mas nunca apanha nenhuma doença.

É verdade.

Que é importante. Tenho várias sugestões. O primeiro, um filme inesperado no qual tropecei na Filmin, que se chama "A Chegada". Se quiserem pesquisar no IMDb é "Upon Entry". Eu acho que as pessoas que já foram aos Estados Unidos recentemente, se vão rever nisto, porque é um filme só passado naquela parte da fronteira com os guardas, na alfândega, quando as pessoas estão a entrar.

Sim.

Tem o dedo e não sei se tens ido aos Estados Unidos recentemente.

Não, mas o controle de passaporte, etc.

Que pode ser verdadeiramente uma experiência aterradora. Tem sido uma experiência aterradora. Nos últimos meses que fui, quando demoro uma hora e meia só a conseguir entrar na América, já fico contente. E o filme que se chama "A Chegada" é precisamente sobre um casal de espanhóis. É um filme indie, um filme de baixo orçamento, e é todo passado nessa situação e é um filme que nos deixa muito desconfortáveis. É muito estranho o desconforto que o filme provoca, porque a assimetria que existe entre pessoas que querem entrar no país, neste caso nos Estados Unidos, e a força que os tipos de alfândega têm, e força às vezes legal.

É demasiada coisa.

E também é incrível como é que com pouco orçamento se faz um filme tão forte. Terça-feira, dia 25. Amanhã, não é?

Exato.

Na Barraca, em Lisboa, vai haver um Kilt Test.

Muito bem.

Que é o quê? São stand-uppers, humoristas de stand-up, que vão testar material. Ou seja, para as pessoas que não estão familiarizadas com isto, os humoristas antes de fazerem os seus espetáculos grandiosos, onde estão só vestidos com um microfone e uma garrafa de água e ganham uma pipa de massa, testam o material. E vai haver nesta terça-feira, para quem nunca viu, na Barraca, ali em Lisboa, em Santos, um teste. É a partir das 21h30, mas façam um Google por Kilt Test Comedy. E eu acho que vale a pena ver os próprios humoristas na humildade de tentarem piadas que depois podem ou não ir parar aos seus espetáculos finais. Terça-feira, amanhã, na Barraca. Sexta-feira, acho que vais gostar desta. O extraordinário Tommy Cash. Sabes quem é?

Uhum.

O da Estónia.

Sim. Da Eurovisão.

Vai ao Lav, não é? Acho que é o Lav. Exatamente. Esta sexta-feira, dia 29, vai estar no Lav. Ele é um músico, um artista, um visual artist.

Rockers.

Um provocador. Exatamente.

Sexta-feira é dia 28.

28? Pronto, não sei se é 28 ou 29.

Vou-te já dizer.

Vê lá. Eu acho que é capaz de ser uma experiência francamente engraçada. Ele esteve cá no Sonar.

É no dia 29, portanto será sábado.

Pronto, então no dia 29. Obrigado. Ele esteve cá e é um tipo controverso. Participou no Eurofestival com a música "Expressio Macchiato". Façam um Google, vejam. Eu acho que vai ser uma coisa interessante. Tommy Cash.

E essa música é inacreditável.

Sim. Tomázinho Dinheiro Vivo.

Tomázinho Dinheiro Vivo.

Em numerário.

Sim, Tomázinho em numerário. Acho que é uma boa sugestão. Finalmente, uma sugestão mais diferenciada que eu alguma vez dei aqui.

É lá!

Espera aí, vamos fazer aqui um tamborzinho.

A Casa Courense, em Lisboa. De Paredes de Coura. Courense. Vai organizar também no dia 29, um jantar tertúlia inspirado em Asterix.

Ora, agora é que eu não estava à espera.

Deve ser uma coisa engraçada.

Com javali?

Sim, claro. Procurem imaginar como seria uma aventura de Asterix fora da Lusitânia, mas ainda assim em Portugal, mais concretamente em Paredes de Coura. Esta malta aqui em Lisboa vai. E o menu consta de caldo verde mágico, queijo helvécio com mel de cordebico, javali assado, claro, bem entendido, vinho verde do Alto Minho, hidromel, água, sumo, etc.

Só pelo verde valia a pena.

Mas tem uma conversa, tem um especialista de banda desenhada também e tem um professor de História especializado em Asterix, o Galo.

Eu gosto do esforço em atribuir um ar intelectual à experiência do javali.

O Asterix, como sabemos, acaba sempre com uma patuscada, com uma grande tratada. Alguém que está preso. E há sempre um javali no fogo.

Jantar tertúlia Astérix em Coura, tracinho, a Galécia irredutível. Eu estou a imaginar como seria uma aventura de Astérix e Obelix em Paredes de Coura. Este sábado à noite, na Casa Courense, em Lisboa, aconselho um Google para ver se ainda há vaga, custa 37 sestércios e meio. Nós púnhamos nas rifas.

Inventavas.

Cinco bolinhas.

Até porque provavelmente seria ilegal pôr-

Era exumir turba. Sim. Portanto, o que achaste destas sugestões?

Eu adorei. E esta parte do javali com vinho verde falou-me ao coração.

E superaste a fasquia por ti próprio estabelecida.

Exatamente.

Que o caldo verde mágico vem.

Para a semana vai ser difícil superar isto.

Também tem café. Acho que não tinha chegado à Europa ainda.

Olha, e vão cantar, vai haver alguém a fazer Bardo, não?

Não, acho que não.

Na altura do Astérix, não.

Não, pois.

Maria Ramos Silva, alguma intelectualidade nisto, por favor.

Não, depois disto, o que eu posso sugerir de mais interessante?

Tens uma revista digital e um livro.

Sim, eu queria começar pelo livro, porque é mais a novidade. Saiu o Prémio Leya esta semana, foi anunciado o Prémio Leya esta semana, mas não é tanto pelo Prémio Leya, isto é só uma desculpa, na verdade, porque ele foi para uma autora chamada Carla Pais, que já tem obra publicada. Eu descobri a Carla Pais, e na altura penso que até a entrevistei para o outro meio, em 2017.

Outro meio?

Outro meio, exatamente.

Meu Deus!

Em 2017, quando ela lançou o "Mea Culpa". E foi, de facto, um acontecimento, porque era uma pessoa completamente uma autora, uma outsider, alguém que até tinha um percurso relativamente atribulado. Ela só conseguiu completar os estudos mais tarde. Enfim, vem completamente afastada deste meio mais fechado, literário, e tinha uma obra absolutamente extraordinária.

Do meio do Bruno.

Pronto, exato. Do meio, não frequentava.

Do meio do Bruno.

Isto é dito com amizade.

Claro, e respeito e admiração.

Não há nenhum cinismo nisso.

Mas eu achei, para estreia, ou pelo menos primeiras edições, uma coisa absolutamente extraordinária. Ela fez-me lembrar muito um outro autor, que também tem este lado mais marginal do circuito, que é o Donald Ray Pollock, que vem do interior dos Estados Unidos. Eu quando o entrevistei na altura, e tu até ficavas com dúvida: "Mas será que foi mesmo esta criatura que escreveu este livro?" Porque aquilo parecia uma coisa absolutamente caída do céu. Seria atribuída a alguém com uma longa bagagem, muitos anos de escrita. E, de facto, foi muito desconcertante, mas era ele o autor, ainda bem, e continua a publicar também muito bem. E, portanto, estou curiosa com este próximo livro, que julgo eu sairá no início de janeiro. Chama-se "A Sombra das Árvores no Inverno", parece que chegou a ser rejeitado por outras editoras. Isto é um prémio, como sabem, se concorre com pseudônimo, portanto, as pessoas não sabiam que era ela. Calculo eu. Mas parece que vai mesmo sair e eu estou curiosa para ver.

O pseudônimo sabes qual é.

Aníbal, não é?

Aníbal Correia.

Exatamente.

Um bom pseudônimo.

Um bom pseudônimo.

Já agora, deixa-me também dar aqui a minha colherada como alguém do meio.

Alguém do meio.

Porque fiz parte de um júri que premiou um livro anterior da Carla Pais, "Um Cão Deitado à Fossa", ganhou o Prêmio Cidade de Almada em 2018, em que ela concorreu também com pseudônimo masculino.

Qual é que era?

Não me lembro. Isso também poderia ser estudado. Ela já respondeu isso, ela diz que não sabe por que o faz, mas foi só a segunda mulher a ganhar o Prêmio Leya. O Prêmio Saramago, que agora também é para inéditos, e portanto é um pouco diferente, também só premiou duas mulheres ao longo da sua história, e as duas brasileiras. Não houve nenhuma escritora portuguesa a ganhar anteriormente. Também seria interessante ver se o facto de ser um pseudônimo masculino tem alguma interferência ou não, faz alguma diferença.

Às tantas.

Eu lembro-me que li, e na altura o prêmio foi por unanimidade para a Carla Pais, tal como agora.

Sim.

Mas será que isso teve peso se fosse com o pseudônimo feminino? Teria ganho ou não?

Nós não sabemos também a porcentagem de mulheres que concorreram. Eu não sei se sabemos. Eu não sei. Pergunto isto, não sei se sabemos.

Depois, claro, com a questão dos pseudônimos.

Também é difícil aferir isso. E era esta a colherada.

E bem metida.

Mas é uma autora que eu acho que não tem o reconhecimento que o talento dela merece.

É extraordinário.

Só para dar um exemplo, o livro ganhou o Prêmio Cidade de Almada, ganhou em 2018, mas só foi publicado em 2023. Passou por uma série de peripécias até ser publicado e depois há esta história dela ter enviado este livro para editoras que o terão rejeitado.

Acontece.

E assim acontece.

Exato, era isso que eu estava a pensar.

Carlos Fílinto Botelha.

Maria, segue caminho.

Para algo ligeiramente diferente. Uma revista que não tem nada de novo, no entanto, eu acho que vale a pena, é como os livros, também não perde atualidade, sobretudo porque continuam a escrever, a publicar ótimos ensaios. Chama-se Aeon, A-E-O-N. Seria qualquer coisa como vida ou força vital. Ela foi fundada em Londres em 2012, salvo erro, por um casal australiano. Depois já tem escritórios numa série de sítios, incluindo Nova York e em Melbourne. Mas é basicamente o quê? É uma revista de pensamento, reflexão, filosofia, cultura, atualidade, que eu sinto cada vez mais necessidade de voltar ou de dar mais atenção neste mundo tão espartilhado em que nós não temos tempo a pensar em nada, basicamente. Recebemos a informação, somos abalroados pela informação, pelas novidades. Já estamos a formar um julgamento, ainda nem digerimos bem aquilo, mas nós já temos imensas convicções. Bom, e eles conseguem buscar temas muito atuais, muito corriqueiros, portanto, não se assustem, não pensem que estamos aqui a descobrir ou a A discutir a origem do mundo, nada disso. Mas, por exemplo, esta semana tem um ensaio de uma senhora chamada Helen Mary. Ela é professora da faculdade de Oxford, especialista em história da cultura, das massas. E é um artigo muito interessante sobre o quê? Sobre esta obsessão que nós temos actual da hiperquantificação de tudo. Nós vivemos rodeados de smartwatches, de coisas que nos dizem o que comemos, quantos passos demos, para onde vamos, o que já andamos, o que respiramos, enfim, tudo e mais alguma coisa. Pensamos que é uma coisa muito modernassa também. E o que esta autora nos vai mostrar é que isto afinal tem muito pouco de novo. E basta recuarmos até a uma sociedade como a vitoriana para perceber, para já, coisas muito curiosas como a invenção dos livros, das publicações sobre autoajuda, a imensa coisa que já vem daquele tempo e, sobretudo, esta obsessão do indivíduo com o self, consigo próprio, o registo diarístico, aquela coisa de tomar notas de tudo e mais alguma coisa, o que fizeste durante o dia, o que comeste, o que usaste. E toda esta capacidade de nos pôr as coisas em perspectiva é de facto interessante. É válido para a autoajuda e o autoconhecimento, como devem calcular, para uma série de outras áreas. Portanto, recomendo. Ainda por cima, quase tudo é grátis, está disponível online. Aion procurem e passem algum tempo a ler.

Muito bem. O que eu tenho para vos dizer? Um dia antes do concerto do Tomás Dinheiro Vivo, do Pedro Abrunhosa Mendes, no Lav, em Lisboa, acontece no dia 28 o concerto dos Nation of Language, que é uma banda que eu aprecio bastante. Olha, Pedro, tu ias gostar disto.

Onde é que é?

É no Lav, é no mesmo sítio, só que é um dia antes. É uma coisa muito eighties, muito eletropop, mas com um lado indie rock à mistura, mas que não soa nada antigo e que tem ótimas canções. Havias de gostar. E depois na Filmin estreou-se o filme, eu ainda não vi, e como percebi que estava lá, achei melhor sugerir antes de ver, que se chama "Tudo o que imaginamos como luz", de Payal Kapadia, e que conta a história de três mulheres na Índia, em Bombaim, em realidades diferentes.

Olha, já vi, é um belo filme, recomendo.

E que tem coisas que se cruzam.

Recomendo.

E que se fartou para aí de ganhar prémios, etc.

É verdade.

E depois aproveitar, como sabem, já disse aqui várias vezes, que agora temos um e-mail e recebemos dicas, sugestões e angústias dos nossos ouvintes.

E temos um psicólogo aqui sempre.

Exato. Não, mas esta é uma sugestão. Foi a nossa ouvinte Ana Oliveira, que fez questão de sugerir, para quem não conhecer e para todos os outros que já conhecem, a obra do Júlio Resende, pianista português, vindo da escola do jazz, mas que tem trabalhado com muita gente e muitos géneros diferentes e que tem trabalhado também muito à volta do fado e que tem um álbum recente, tem um ou dois meses, que se chama "Piano Português Namora Guitarra Portuguesa", gravado com o Bruno Chaveiro. Fica aqui essa referência e fica aqui o nosso profundo agradecimento à Ana Oliveira. Enviem as vossas sugestões que serão muito bem recebidas. Bruno Vieira Amaral, tu foste ver um filme que eu sugeri.

Que tu sugeriste.

Eu não sugeri, mas referi.

Referiste. "O Gladiador: The Running Man" foi a primeira adaptação do livro de Stephen King, que na altura não sabia que era Stephen King o autor.

Um pseudônimo.

É um pseudônimo, é de Richard Bachman. E é o que aparece no filme, nos créditos, não aparece nenhuma referência.

E agora há uma nova versão que está no cinema.

Sim, não me interessa. Eu não conhecia este filme na filmografia do-

Eu lembro-me de ver

...do Arnold Schwarzenegger.

Como é que é possível?

Como é que é possível?

Tu não sentes vergonha, quase?

E foi com esse sentimento de vergonha já antecipada, que parti para este filme, quase que disposto a render-me às suas qualidades.

Se calhar é miserável. Eu vi há muitos anos, não me lembro.

Não é grande coisa. O filme foi realizado por um tipo, não interessa.

Um tarefeiro.

Um tarefeiro, mas é um projeto também em que o Arnold Schwarzenegger já estava muito envolvido na escolha com quem é que ia trabalhar. Ou seja, já é ele a determinar o rumo da carreira.

Já era patrão, estamos a falar de 87, não é?

Já tinha sido depois do "Terminator". Foi no ano em que saiu "O Predador". Aliás, o lançamento deste teve de ser antecipado para não coincidir com o lançamento de "O Predador" no verão de 87.

Esse sim, grande filme.

Esse um grande filme. Este aqui, teve este azar, o Schwarzenegger de lhe calhar um realizador um bocado fraco. E eu comecei a imaginar o que é que seria isto nas mãos de um Paul Verhoeven, que nesse mesmo ano lançou o "Robocop" e que viria trabalhar com o Schwarzenegger no "Desafio Total". E há aqui pontos comuns com esse projeto do "Desafio Total". "Desafio Total" acabou por ser o filme que eu acho que o Schwarzenegger queria já ter feito com este "The Running Man". No entanto, vê-se. Está na Netflix, ou pelo menos eu encontrei na Netflix.

Na essência, a história é uma caçada, mas o alvo a abater é uma pessoa.

É uma pessoa.

Que se conseguir ganhar, ganha imenso dinheiro.

Pronto, aquilo passa no futuro, que hoje para nós já é passado.

Exato.

Aquilo, não sei se é 2021 ou 2017, que era o futuro em 1982.

Era o futuro possível.

É. E então há um programa de televisão em que os criminosos têm uma oportunidade de escapar à pena se conseguirem sobreviver.

É tipo "Squid Game". E "Hunger Games" também.

Eles são caçados por uns gladiadores e depois têm de fugir. Se conseguirem escapar aos gladiadores, depois têm direito à liberdade. E essa é a história. É um desperdício, podia ter sido muito melhor.

Mas agora está arrumado e já conheces.

Sim, senhor.

Isso é importante.

Uma sugestão que não tem nada a ver com esta é um livro escrito a quatro mãos ou a duas mãos? Porque as pessoas só as querem ver com uma mão, a não ser que seja no computador.

É quatro mãos. Diz que é escrito a duas barra quatro mãos.

Duas pessoas. J.M. Coetzee, claro, dispensa apresentações, Prêmio Nobel sul-africano da Literatura, e uma das suas tradutoras, neste caso, a tradutora para espanhol da Argentina, Mariana Dimópulos. E é uma conversa, o livro é mesmo uma conversa entre os dois, resultou da troca de correspondência, de e-mails entre os dois sobre os limites da linguagem, as dificuldades e as potencialidades da tradução. Pode uma tradução ultrapassar o original ou não, e pode se tornar o padrão para outras traduções. E aqui há um caso do próprio Coetzee com esta tradutora, em que ele publicou um romance ou uma novela em língua inglesa, mas que se passa em Espanha e chama-se em inglês "The Pole". E em espanhol, esta Mariana Dimópulos traduziu para "El Pulaco". E a ideia do Coetzee era que, a partir daí, todas as traduções do livro se fizessem a partir da versão espanhola, que seria considerada o original.

O cânone.

O cânone. A edição ne varietur. Só que isso não resultou. Imaginem, o Coetzee a dizer isto: devido à pressão da indústria editorial, disseram: "Não vamos andar a traduzir os seus livros a partir do espanhol. Isso vai ser traduzido do inglês." E até o próprio Coetzee, que tinha esta ideia peregrina, se viu condicionado pela força da indústria. Mas é um livro muito interessante sobre estes desafios da tradução, também sobre características das línguas. As línguas são algo com que nós nos relacionamos desde pequenos, portanto, há uma ligação afetiva, mas também foram um instrumento e continuam a ser um instrumento de poder do Estado, de uniformização, também de criação de sentido da identidade nacional. E isso tudo é de alguma forma abordado neste livro, "O Dom das Línguas", está na Dom Quixote. Por último, "Conta Corrente", de Vergílio Ferreira. Foi agora publicado o terceiro volume, terceiro e último, que será dos diários de Vergílio Ferreira. Não têm de ler do princípio ao fim, mas leiam algumas partes e percebam como há escritores profissionais.

E depois há os outros.

Depois há os outros, aqueles para quem a escrita é mesmo um destino. Parece uma música do Tony de Matos.

Mas não ia nada mal.

Não ia nada mal, mas é verdade. É algo a que tu não podes resistir. Tu não escreves pela glória ou porque tens uma ideia. "Epá, tive aqui uma ideia." Não, escreves porque aquilo é-

Foste atropelado pela escrita.

É aquilo, é o que tu és, faz parte do que tu és, porque ninguém escreve um diário, para além dos romances e de outras publicações, ensaios. Ninguém escreve um diário que reúne aqui agora mais de 900 páginas, só este volume, em busca de glória literária. Há algo mais profundo aqui em ação e termos o privilégio de contactar com esse lado é o que nos permite um livro como este de Vergílio Ferreira, um autor que hoje, provavelmente, está praticamente esquecido.

Muito bem, sugestões entregues. Estão sempre disponíveis em podcast. Vejam todos os episódios nas vossas plataformas favoritas e usem o nosso e-mail popup@observador.pt. Enviem as vossas perguntas e comentários e etceteras e nós voltamos na quinta-feira. Até lá.