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Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", o programa de cultura pop da Rádio Observador, que tanto se dedica às produções de séries milionárias como abana a anca ao som dos ritmos das favelas. E hoje, como sempre, os melhores bailarinos disponíveis aqui conosco: Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Boucher de Mendes, os tais que esta semana vão requebrar ao som de Anitta. Lancemos esta boa dica. Anitta, que é provavelmente a estrela mais internacional do funk brasileiro, que das favelas do Rio de Janeiro foi conquistando o mundo, esteve em Lisboa, atuou no último domingo no Rock in Rio. De acordo com os números da organização, estiveram no Parque da Bela Vista 80 mil pessoas. Além disso, o concerto foi transmitido na televisão. Juntando tudo isso, surgiram quase em simultânea, eu diria que mesmo em simultânea, enquanto o concerto já acontecia, aquilo que podemos chamar críticas virais nas redes sociais, porque Anitta, ao que parece, não sabe geografia, porque o que Anitta faz não é música e porque ela devia era ter vergonha, resumindo. Maria Ramos Silva.
Tanta coisa.
Falando em vergonha, vamos começar por ti.
Claro.
A minha dúvida é: como é que um concerto pode enervar tanta gente? O que aconteceu aqui de tão extraordinário?
Eu também não sei, Tiago Pereira. Como diria o povo na sua imensa sabedoria, eu penso que é um daqueles casos em que se diz que o rabo é o pior de esfolar. E eu prometo só voltar a esta questão anatómica.
Será que eu posso pôr isso no título deste episódio?
É uma boa dica.
Exato.
Mas, de facto, não entendo. E já podemos passar à questão das qualidades mais artísticas de Anitta. Mas eu penso que a principal polêmica terá sido, primeiramente, a questão da bandeira. Não sei exatamente onde é que começou e o que incomoda mais o público português em particular, mas eu diria que é a questão da bandeira, que me parece perfeitamente esparatada. Porque basicamente, acho que não se compara, nem de perto nem de longe, àquele célebre episódio da Whitney Houston em Alvalade em 98, em que saudou o público dizendo: "Boa noite, Madri", alguma coisa do gênero. E na altura indignou muita gente. Eu consigo até compreender, de facto, que as pessoas não tenham encarado muito bem essa falha geográfica.
Se calhar rias-te e passavas à frente.
Sim, não iria propriamente tirar emoção nessa questão. Mas neste caso é ainda mais ridículo o incômodo, penso eu, porque nós estamos a falar de um festival que, como outros, estou a pensar, por exemplo, no Alive, que é bastante internacional, que atrai hoje, e felizmente, julgo eu, um público que não é estritamente português. Nós conseguimos ter cá pessoas de todo o mundo, incluindo espanhóis, quer os que vivem cá, quer os que vêm, neste caso, especificamente de fora para ver Anitta e outras estrelas do cartaz, e que deixam cá o seu dinheiro, que vêm cá consumir.
Aliás, os cartazes e os festivais são construídos para isso, precisamente.
Para isso, exato. Portanto, eu não entendo esta visão um bocadinho limitada, para não dizer muito limitada, em que nós achamos que uma pessoa, pelo simples fato de estar a segurar uma bandeira, está automaticamente a assumir que aquela é a bandeira do país em que está. Quer dizer, isso é a mesma coisa que eu agora imagina ir ao Glastonbury com uma bandeira de Portugal. Tenho a sorte do Paul McCartney pegar na minha bandeira.
O Harry Styles pega na tua bandeira.
O Harry Styles, para alguém mais atual.
Estamos mais jovens.
Estamos mais jovens. E eu fico super contente e os britânicos vão ficar incomodadíssimos com isso, a achar que o Paul McCartney ou que o Harry Styles achavam que estavam em Portugal, a atuar em Portugal.
Não é patriota.
Exato, que seria pouco patriota. E eu acho que aquilo que seria eventualmente grave é se de repente tu tivesses uma estrela como a Anitta, que lhe tivessem passado um cartaz a dizer: "Morte aos gays" ou alguma coisa do gênero, e a Anitta andasse despodoradamente, alegremente, pelo palco a fazer campanha no seu ativismo de uma hora, duas, três horas, o que seja. Resumindo, acho que é uma não questão. Depois podemos passar, de facto, à questão da música, para quem ainda acha que a pop, estamos a falar estritamente de canções e não de toda uma dimensão performativa, da construção de uma personagem, hoje com extensão nas redes. Porque basta tu seguires um bocadinho a Anitta, não é preciso ser um doutorado em Anitta, tu em cinco segundos consegues perceber que há toda uma narrativa à volta da personagem.
Qual é a dinâmica.
Qual é a dinâmica. Aliás, só pelas stories, ela contou toda uma história que tinha perdido a roupa, e que eventualmente até ia atuar nua, depois tinha trazido a família. Tudo aquilo faz parte do repertório Anitta.
Do show.
Do show Anitta, exatamente. E não percebo como esta polêmica ou não polêmica, deu tanto brado sem saber.
De onde é que veio?
De onde é que veio?
Pedro Boucher de Mendes, tu és a pessoa mais experiente neste painel, na vida, no geral, e há uma frase que foi escrita muitas vezes nestes dias sobre a Anitta, que é as frases que começam por: "No meu tempo". E o riso. Sacana. A pergunta é: este tipo parece-me sempre uma espécie de intolerância entre gerações. Eu julgava que talvez isso já tivesse desaparecido, mas se calhar não. Tu achas que isto vai durar para sempre? Vai acontecer sucessivamente este "no meu tempo é que era" etc?
Acho que vai. Mas deixa-me só dizer duas ou três coisas. Em primeiro lugar, a seguir foi o cantor Post Malone.
Exato.
O músico americano. E ele estava a fumar cigarros normais. Agora já está toda a gente a fumar umas coisas que não são bem cigarros.
Cigarros normais.
Eu, sempre o pessimista, estava a pensar se iríamos, e digo iríamos, porque foram transmissões da SIC Radical, um dos sítios onde eu trabalho, estava a pensar se iríamos ser multados por alguma queixa de algum espectador, porque estávamos a mostrar um jovem a fumar. E eu não tenho a certeza que não possamos ainda vir a ser alvo de uma queixa e a ERC abra um processo. Muitas vezes há questões que ultrapassam o entendimento do espectador comum. Por exemplo, a Anitta disse imensos palavrões antes das 22h30, em canal aberto, a SIC Radical é um canal aberto, e nesse sentido, os espectadores podem queixar-se e a ERC pode abrir um processo. Só para vermos que para além da questão do meu tempo e da música ser boa ou má, aquilo que as pessoas viram, ao fim e ao cabo, foi uma transmissão televisiva, com uma determinada mistura. Mistura significa as escolhas dos planos das câmaras que foram vistas pelo espectador, em tempo real, aquilo é uma escolha do realizador. E assistiram a um espetáculo do Rock in Rio, da cantora Anitta. Que teve partes chocantes? Para mim, não. Mas admito que seja pelo menos heterodoxo face a outro tipo de concertos mais tradicionais. Nós vimos, ou quem viu, eu vi o dos a-ha na véspera, aquela banda norueguesa, e foi bastante tradicional, até um pouco sem saborão. É assim a vida. Também houve uma banda de heavy metal que ganhou o Eurofestival. Uns tipos vestidos com umas roupas estranhíssimas. A Madonna também faz questão de chocar, de chamar a atenção e assim parecer uma artista de vanguarda. Temos também a Lady Gaga, que também já teve fases da sua carreira em que foi muito outrageous. Mas aquilo que significa, quanto a mim, é que o impacto do festival Rock in Rio na sociedade portuguesa é enorme, por mais que as pessoas, de uma forma geral, e é aquilo que eu oiço, digam que não sabem, não veem, não fazem ideia, não foram, nunca vão, jamais irão, não gostam. E depois é assim, o concerto é transmitido e é visto por centenas de milhares de pessoas e comentado nas redes sociais. Deve ser uma circunstância qualquer que me escapa, porque não estou a ver a lógica das pessoas dizerem que não vão, que não ligam, que não querem saber, e depois estarem a comentar uma coisa que não ligam e que não querem saber.
Bruno Vieira Amaral, houve quem me dissesse isto, queria saber o que tu achas, se é de facto óbvio que se fosse um homem a fazer o mesmo espetáculo, se alguém se mostraria indignado? Parece-te?
Sim, creio que sim, mas sendo uma mulher, creio que as reações são mais intensas ainda. Mas creio que podia acontecer o mesmo se fosse um homem, ou mesmo ou parecido. Mas sabemos que nestas circunstâncias, o peso sobre as mulheres é maior. De toda a gente que comenta, tem um peso diferente. Mas nós não somos muito originais nesta polêmica.
Nem noutras.
Nem noutras. Nesta em particular, não somos originais, estamos é atrasados. Quando a Anitta foi escolhida para fazer a abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, para participar na cerimônia de abertura juntamente com o Caetano Veloso e o Gilberto Gil, houve uma grande polêmica também no Brasil, e ela foi chamada de favelada, e que não merecia estar ali. E ela reagiu a isso, já falou entretanto. Entretanto, foi acolhida por estas grandes figuras que nós tanto amamos cá em Portugal, o Gilberto Gil, o Caetano, o Chico, a Maria Bethânia, todas essas grandes figuras acolheram a Anitta, deram-lhe esse colo, como já artistas consagrados de outra geração, e ela própria, num perfil muito interessante, foi publicado no New York Times, não foi na revista ou no jornal da paróquia. Ela disse isso mesmo, que no tempo deles, quando eram jovens, o Gilberto Gil, Maria Bethânia, Caetano Veloso, eram as Anittas do tempo deles. E é verdade que há semelhanças. Causa sempre algum incômodo que uma nova geração fale nos seus próprios termos e fale entre si, fale para si. E quando as gerações mais antigas olham para isso, sentem-se de alguma forma excluídas esteticamente, moralmente. E isso é bom, é bom que isso aconteça. Quando se trata de mulheres, quando são as mulheres a dominar a conversa, a reação ainda é mais exagerada. Vimos, por exemplo, no caso de Madonna, nos anos 80. As críticas que ouvimos agora a propósito da Anitta, que não tem voz nenhuma, que nem sabe dançar. Eu ouvi essas críticas, e acho que todos nós ouvimos essas críticas, em relação à Madonna. Isto não é nada de novo, na verdade, nem mesmo em relação, como eu dizia, à Anitta, isto é uma polêmica nova. Todas as críticas eu acho que são Feitas para explicar alguma coisa e não parecer apenas umas reações epidérmicas, têm alguma utilidade para nós até compreendermos o fenômeno e como é que as pessoas se relacionam com estes fenômenos. Aqui o que eu vi foi muito uma reação de incompreensão geracional em relação ao que é isto, ao que é o fenômeno Anitta e o que é a música que a Anitta canta e dança. E foi isso que depois me levou também a pensar um bocadinho sobre o tema. Há muito uma reação epidérmica, geracional, em relação a isto. E depois houve essa questão da bandeira. Eu estava a ver o concerto na televisão e assim que a vi a pegar na bandeira de Espanha e levar a bandeira para o palco, eu disse: "Pronto."
Está tudo estragado.
Já está tudo estragado, mexam com tudo, mas não mexam com a nossa querida pátria e a nossa bandeira.
Mas já vamos falar melhor dessa bandeira daqui a bocado. Antes do final da primeira parte, vamos lançar aqui as sugestões da semana com o post-it. Maria Ramos Silva. Um pouco de literatura, não é?
E um pouco de ioga também.
No meio do funk.
E um pouco de ioga, exatamente, para baixar aqui um bocadinho o ritmo. "Ioga" do Emmanuel Carrère, é uma edição da Quetzal. Eu confesso que tinha algumas reservas antes de começar a folhear e me aventurar no livro, mas de facto não é preciso fazer ioga ou meditação para ler esta edição, porque de facto acaba por não ser um livro estritamente sobre ioga ou sobre meditação, é um livro sobre a vida, sobre o sofrimento, sobre angústias, ansiedade e muitas coisas boas também.
Temas bons, Maria.
Temas bons, incluindo essa reconciliação conosco próprios e também muita paz pelo caminho. E eu acho que vão gostar, mesmo que não sejam como eu, seguidores desta modalidade.
Depois isso era o que eu ia-
Estás surpreendido.
Sim, digo-me um pouco admirado, porque não estava à espera deste teu lado zen. Muito bem. Pedro Boucher de Mendes, queres falar-nos, ora o título que nos traz é "Da Guerra".
Sim, o clássico do general prussiano Carl von Clausewitz, que foi publicado depois da sua morte, já no século XIX. Ele nasceu no século XVIII. É um dos clássicos do pensamento contemporâneo, neste caso, sobre a questão da guerra e da questão de como os Estados se ligam. E uma das ligações é precisamente através do poder e da violência, do exercício do poder através da violência. No fundo, este general fascinado pela lógica napoleônica dos exércitos de massas. E é um livro, sobretudo, que foi editado agora pela Relógio d'Água, numa edição bastante sóbria. Portanto, não tem cá armas na capa e ilustrações antigas. Não quero repetir, mas Clausewitz era, e confessa ser, um entusiasta da guerra, só era feliz a fazer a guerra. Mas o livro é de facto importante para perceber porque é que, ao fim e ao cabo, o maldito Putin ou o malvado Putin decidiu invadir a Ucrânia, ou porque é que as nações e porque é que os homens teimam em guerrear.
Bruno Vieira Amaral, vamos agora, sim, às tuas duas sugestões para esta semana.
Sim, são dois documentários. Um tem até muito que ver com o assunto desta semana, que estamos a discutir, a Anitta, que é um documentário na HBO Max sobre a Tina Turner. E é muito interessante ver algumas reações na altura em que a Tina Turner começou a carreira, não só em relação à Tina Turner, mas a outros músicos, a outros artistas, e também muita resistência que ela enfrentou quando procurou reinventar-se no início dos anos 80, resistência por parte dos patrões das editoras discográficas, e como ela conseguiu ultrapassar isso tudo. Claro que agora se diz: "Não, isso é Tina Turner, é uma diva, não se pode comparar a Tina Turner com ninguém, com nenhuma Anitta deste mundo." Pois, eu acho que se pode, e acho que quem vir este documentário estabelecerá alguns paralelos, algumas comparações muito pertinentes entre o percurso de uma e de outra. Mas o documentário vale por si, independentemente desta comparação que se possa fazer com a atualidade. Depois há um outro documentário que está na Filmin, que se chama "O Rapaz Mais Belo do Mundo", e é sobre Björn Andrésen, que se tornou famoso como o Tadzio, de "Morte em Veneza", de Luchino Visconti, e que ficou para sempre preso a esse filme e não se percebe bem se o filme foi uma bênção ou uma maldição. A verdade é que sem o filme não estaríamos a falar certamente desta pessoa, que depois na sua vida privada teve uma sucessão de problemas e de tragédias. Quanto a mim, esta é a minha opinião. Ainda bem que Visconti o descobriu, porque ele para sempre continuará como esta referência, este exemplo, este símbolo de uma perfeição que é tão mais dolorosa por durar tão pouco.
Esta frase agora, foi poético, Bruno, como sempre, aliás.
Foi um momento Anitta. Ainda não me viste a dizer com o fio dental.
Exato. Gostava de ver isto a fazer uma Rebolation. Começámos este baile na primeira parte com a Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e o Pedro Boucher de Mendes. Vamos continuar a dançá-lo agora, que é hora do Pop de Arroz. Não sei se perceberam, mas eu agora, que é hora, também foi um trocadilho com a Anitta. Eu esforcei-me imenso para chegar a este ponto. Maria Ramos Silva, queria começar por ti desta vez. Houve uma outra preocupação que surgiu enquanto Anitta dava o seu show e depois, que foi algo como: e as raparigas de 15 anos que veem a Anitta uma referência? O que vai ser delas?
A juventude está perdida.
Exato.
A juventude está perdida.
E a minha questão é, além de te querer perguntar se tu achas que a juventude está perdida, é se há alguma diferença entre a Anitta ser uma referência para adolescentes, e lembrei-me de nomes diferentes. Lembrei-me da Madonna ou lembrei-me das Doce, por exemplo, ou o Elvis, ou Mick Jagger.
Sim, olha, o Elvis é um belíssimo exemplo, porque, passe a redundância, o Ed Sullivan teve que pensar muito bem até levar o Elvis ao seu programa.
O que é que lhe fazia à cintura.
O que é que lhe fazia à cintura, porque aquilo, de facto, não era muito agradável, podia gerar muita discussão. Mas não é o único, a história está cheia de casos destes, nomeadamente nos anos 50, com canções que vêm desafiar mais as convenções. As pessoas se calhar não saberão, mas canções que hoje nos parecem tão inocentes como o "Wake Up Little Susie" dos Everly Brothers foi censurado na rádio. Aquilo é muito engraçado, porque era suposto ser um tema sobre adolescentes que adormecem no cinema e que têm medo que as pessoas entendam aquilo como estando a fazer algo imoral. E, na realidade, foi tomado como isso e, portanto, censurado à boleia dessa suposição. Isto para ver a quantidade de manobras possíveis que é possível termos num caso destes. Mas, de facto, é muito bizarro quando nós damos esse exemplo das miúdas, porque não me parece que as adolescentes hoje, e pensando na influência direta no feminino, já que estamos a falar da Anitta, não me parece que deixem de usar crop tops se a Anitta sair de cena. Não me parece que isso seja o fator mais determinante. É muito curioso, aliás, porque este caso fez-me lembrar uma discussão relativamente recente, não deste ano, mas eu penso que da edição do interior da Met Gala, quando a Kim Kardashian, essa figura também muito emblemática da forma como usa, explora anatomicamente a sua presença, apareceu toda ela muito coberta. Kim Kardashian, ela que anda muitas vezes praticamente despida. E as pessoas insurgiram-se muito. A polêmica na altura era porque parecia que estava a fazer a apologia da burca e do véu e tudo mais. Eu acho que o que nós podemos resumir daqui, e a Kim Kardashian é paradigmática nesse exemplo, é que tem a sorte de viver numa sociedade e numa comunidade em particular, com todos os defeitos que nós conhecemos, e que não são poucos, mas que lhe permite tanto andar praticamente despida e sair à rua dessa maneira e apresentar-se assim publicamente, sem ser censurada ou cancelada, como andar totalmente coberta. Tem essa liberdade. Não tem ninguém a policiá-la para além desses costumes da internet e dos fãs e da óbvia questão de gosto, porque isto, no limite, é uma questão de gosto. Nós podemos subscrever ou não. Eu posso gostar ou não da forma como a Anitta se apresenta e da cartilha que traz com ela, mas essencialmente, para além disso, não me diz muito mais respeito. Portanto, acho que essa questão geracional também da influência que é exercida sobre quem vai ouvir aqueles álbuns, quem vai assistir àqueles concertos, é, de novo, uma questão geracional e cíclica. Alguém escrevia, eu penso que um livro muito interessante de uma autora norte-americana sobre a música pop, em particular, e o seu impacto na comunidade norte-americana, neste caso. E tinha uma perspectiva que era a música pop, de alguma forma, sobretudo nos anos 70, foi muito uma resposta mainstream à pornografia. Muito pegando nessa ideia do papel do corpo, da sexualidade, que de vez em quando nós vamos discutindo. Nós estamos aqui a falar da Anitta, mas todos nós nos recordamos do caso, por exemplo, do "Blurred Lines" em 2013.
Do Robin Thicke.
Do Robin Thicke e do Pharrell, que incluía na letra coisas como, numa tradução livre para português, "o que tu queres sou eu". Quer dizer, volta e meia, esta questão volta à baila, seja de uma forma mais direta ou menos direta, seja ao vivo ou em diferido. Acho que não vai morrer por aqui e vamos continuar a ter novas Anittas.
E assim será. Pedro Boucherie Mendes, há bocado falavas da questão da transmissão televisiva, dizias, e bem. Eu não sei se foram todos os concertos, mas muitos dos concertos do Rock in Rio foram transmitidos pela SIC Radical.
Todos do Palco Mundo.
Todos do Palco Mundo, exatamente. Sobre isto, duas questões. Uma já abordaste mais ou menos, que tinha a ver com a velha história do eu não gosto, eu não vou, eu não quero saber, mas depois, ao que parece, muita gente estava a ver aquele concerto. E à boleia disso, até que ponto é uma boa aposta transmitir concertos na televisão? Se há pessoas que veem, se vale a pena, se é um conteúdo que vale a pena, comercialmente falando.
Do Rock in Rio vale sempre a pena, porque tem audiências, eu diria, estratosféricas. A SIC Radical não tinha estes resultados de audiências, provavelmente desde o último Rock in Rio. Eu lembro-me de um outro concerto polémico, que foi o da Amy Winehouse em Portugal, pouco tempo antes de ela morrer, lembra-se? Em que ela estaria num estado muito alterado, as pessoas comentaram isso. A questão é que o Rock in Rio é o único festival em Portugal cujo palco e cuja dimensão sugerem a grandiosidade que realmente tem. Portanto, não parece um palco de queima das fitas, que é o que acontece com os outros festivais. Ou seja, o Rock in Rio é um evento assumidamente Para marcas, para que marcas possam estar junto das pessoas. E isso, para a inteligência portuguesa, é um crime, porque os portugueses, como sabes, são muito dados às artes, e muito artísticos, e muito exigentes naquilo que consomem, e não gostam de coisas com marcas comerciais. De qualquer das formas, ironias à parte.
Alerta irônico.
Exatamente. O Rock in Rio permite criar emissões televisivas próximas do chamado DVD. Ver um concerto num DVD, não sei se vocês veem, ou em vídeo, nós não vemos, com certeza, um concerto escuro e mal iluminado e num sítio meio esquisito, que é o que acontece nos outros festivais portugueses, que são, de facto, eventos de público. Eventos muitas vezes musicais, artísticos e eventos de público lá. O Rock in Rio é uma criação que inclui uma dimensão de marketing, uma chamada dimensão de marketing, muito importante e, como tal, o espetáculo televisivo beneficia largamente disso. Tanto assim é que a escolha do cartaz também assenta um pouco nesses pressupostos. São concertos que poderão interessar a maiorias e não espetáculos de minorias. Para isso têm os outros palcos.
Bruno Vera Amaral, na primeira parte falávamos da bandeira espanhola, que um elemento do público terá dado à Anitta, e ela foi rapidamente descrita como ignorante e que alguém lhe disse que ela estava em Portugal. Além do caso particular, isto fez-me pensar, de facto, que vivemos muito uma época de conclusões precipitadas, em que não há hipótese de contraditório para eventualmente escrever qualquer coisa nas redes sociais. A minha pergunta é: qual é a tua solução para isto?
É acabar com a humanidade.
Cá está.
Vladimir Putin acho que já teve essa ideia.
Está a tratar disso.
Está a tratar do assunto. Não tenho solução nenhuma em relação a essa questão.
A solução é aprender a viver com isto.
Olha, é lidar.
É lidar.
Eu imagino algum desses patriotas indignados com a questão da bandeira, ir dar um concerto ao Congo e darem-lhe uma bandeira do Mali para as mãos. Nós achamos que somos o centro do mundo, se calhar acontece com todos os povos. Existe um grande preconceito em relação aos brasileiros e às brasileiras, em particular, mas é esta ideia, que também é um pouco aplicável aos americanos, que são muito ignorantes. É verdade que estes países que têm estas dimensões continentais, muitas vezes são muito autocentrados e o Brasil, mais do que autocentrado, se calhar olha muito para os Estados Unidos como referência. Quer dizer, eu não sei se a Anitta tinha consciência ou não de que aquela era a bandeira de Espanha, isso não me interessa muito. Mas também se não tivesse. Honestamente, vamos fazer agora um concurso, se as pessoas sabem identificar as bandeiras dos países.
Está aí uma ideia. Está aqui uma ideia.
Eu acho que seria dramático. Seria interessante fazer um programa desses, mas seria dramático para a autoestima dos portugueses, que rapidamente iriam perceber que sabem muito menos sobre bandeiras do que aquilo que julgam. Mas eu acho que essa é uma questão que tem mais que ver com algum preconceito que nós temos muito em relação aos brasileiros, que são basicamente ignorantes. E as críticas à Anitta, e ao corpo da Anitta, e a forma como ela explora a sexualidade e a sensualidade, tem muito que ver com uma ideia prevalecente ainda do que é a mulher brasileira, uma ideia muito prevalecente ainda na sociedade portuguesa.
É evidente que muitas destas críticas foram só xenofobia e misoginia, isso é evidente. Não quero estar aqui agora a empunhar a bandeira.
Por falar em bandeira.
Aquilo que o Bruno diz, ele tem toda a razão, para muitos portugueses, as mulheres brasileiras, jovens e atraentes, é quase sinônimo de prostituta. E isso é uma coisa que se calhar tem que ser dita.
E está a ser muito bem dita.
Sim, concordo absolutamente com o que o Pedro está a dizer. Não estou a dizer que todas as críticas foram nesse sentido. Muitas vieram disfarçadas de apreciação musical. Mas muitas foram apenas essas reações preconceituosas, xenófobas e misóginas à figura-
Os festivais não têm a ver, o festival do Rock in Rio e outros, não têm a ver propriamente com música ou só com música, têm a ver com muitas outras coisas.
Ou só com música, exato.
Claro.
Maria Ramos Silva, ainda pegando aqui nesta parte mais física e ligando ao corpo. Além da Anitta, um dos grandes protagonistas disso tudo foi o chamado rabo. Rabo para aqui, rabo para ali, abanar o rabo, etc.
Não há outra forma de por a questão.
Eu perguntei a mim próprio se haveria outra palavra possível ou que eu devesse usar, mas rapidamente cheguei à conclusão que isso não é possível. Eu lembrei-me do Springsteen imediatamente.
Olha, eu também me lembrei da capa do Sticky Fingers, por exemplo.
O Sticky Fingers tem uma mão ali no bolso.
Também me lembrei de Iggy Pop sempre tomc nu, por exemplo.
Iggy Pop. Mas lembrei-me logo do Springsteen, porque há uma capa em que ele tem o rabo virado para o ouvinte que vai tirar o disco da capa. E depois tem aquele vídeo em que convida até uma fã ao palco para dançar e basicamente um dos grandes protagonistas, agora eu esqueci-me do nome da canção, mas o Bruno vai me ajudar. E convida uma fã para dançar e um dos grandes protagonistas do vídeo É o raro do Bruce Springsteen, mas parece-me que nunca ninguém se preocupou muito com isso, a não ser pela positiva.
É o "Dancing in the Dark"?
Voltamos à questão do género, que é um bocadinho incontornável aqui, apesar de tudo. Há um estudo do European Journal de Psicologia, que vale o que vale, é uma coisa já com alguns anos, mas que eu recordo-me de achar interessante, porque segundo eles, o nosso cérebro está treinado para fazer uma perceção total dos homens e fragmentada das mulheres, digamos assim. Ou seja, nós as mulheres vamos vendo partes. Não sei até que ponto isto é verdade, mas é de acreditar que tem alguma margem. Não sei se podemos culpar o nosso cérebro por esse tipo de interpretação. Mas distanciando-nos um bocadinho disso, de facto, eu acho que há aqui uma dificuldade ainda de encaixar a forma como este tipo de artistas gere o seu próprio corpo e a sua sexualidade, porque no limite, nós estamos a falar de uma manifestação nesse sentido. Isto tem um lado de statement, tem obviamente uma dimensão performativa e também afirmativa, e é válido para a Anitta, como foi válido para a Miley Cyrus e para uma série de outras pessoas que foram fazendo a sua intervenção à medida do que a linha podia ser esticada. Quer dizer, do que uma Marilyn fez noutras décadas, do que hoje conseguimos fazer e do que poderemos eventualmente fazer amanhã. Eu não sei o que é essa ginástica e até onde é que o elástico pode, de facto, esticar. Mas uma coisa é óbvia: não esticou o suficiente, porque nós continuamos a falar disto, continuamos a discutir isso, continuamos a discutir a margem para isso ser feito em palco, o impacto que tem, a forma como as mulheres escolhem fazer isso e como, de facto, em comparação com homens, artistas que já decidiram fazer isso, isso não foi um assunto tão premente e como continua a ser. E portanto, alguma coisa há para discutir. Se nós de facto continuamos a analisar isto e continua a gerar este estrondo, não é um assunto que esteja arrumado claramente num canto.
Maria, e deixe-me dizer, a propósito dessa questão que estás a levantar, de estarmos aqui a analisar, provavelmente haverá pessoas, eu li muitas reações. Depois há as reações sobre toda esta situação, que diziam que havia aqui a intelectualização, o excesso de intelectualização do fenómeno da Anitta. Ora, eu acho que os intelectuais devem intelectualizar. Parece-me óbvio. O que estamos aqui a fazer é também trabalho intelectual. Não sendo nós trabalhadores braçais, operários, o que fazemos é intelectualizar, pensar as questões. Eu, por exemplo, escrevi um texto no Facebook, que não é uma tese de doutoramento nem de mestrado, é quase um artigo de opinião, da minha opinião sobre este tema e algumas das reações. Mas é normal que se faça isso e que os intelectuais, atenção, façam isso, intelectualizem, reflitam sobre as questões e que não se limitem a uns grunhidos ou uns monossílabos no Facebook ou noutras redes sociais. Portanto, eu acho que a discussão à volta deste tema não é de dar dignidade a uma música que é completamente indigna, como eu li de algumas pessoas. Quer dizer, não tem salvação possível, não há defesa possível. Agora é que é o fim do mundo e da civilização ocidental. Não, eu acho que é sempre possível discutir os temas, os assuntos, os estilos musicais, a arte em si, mesmo que para algumas pessoas isto não seja arte, isto não seja música, isto não seja nada e a defesa seja completamente impossível. Eu acho que são essas reações que tornam ainda mais necessária a discussão sobre este tema.
Muito bem. E rapidamente, antes do final do programa, vamos fazer a habitual viagem no tempo com o Isso É Que É Bom. Esta canção que estamos a ouvir é um clássico de Marco Paulo, apropriadamente intitulado "Anitta". Eu gosto muito desta cantiga.
Nós, na verdade, só falámos da Anitta para podermos chegar aqui.
E a pergunta é muito fácil: qual é a vossa canção favorita de Marco Paulo? Pedro Boucher Mendes, vamos começar por ti.
Eu reconheço grandes capacidades vocais ao Marco Paulo. Não tenho propriamente uma música favorita, acho que passa pouco na rádio. Acho que se eu estivesse no carro e estivesse a passar na rádio, talvez cantasse uma meia dúzia durante algum tempo. Mas olha, talvez o "Maravilhoso Coração".
Muito bem. E se há coisa que eu gostava na vida era de te ouvir cantar o "Maravilhoso Coração". Maria Ramos Silva.
Eu gosto muito desta "Anitta".
É uma bela cantiga.
Provavelmente mais do que a outra Anitta, a Anitta mais recente, que me desculpe, apesar de tudo. Vou também notar as "Imanias", claro, e do "Ninguém, Ninguém".
"Ninguém, Ninguém" é maravilhosa.
"Ninguém, Ninguém", aquela velocidade.
Aquele speed.
Aquelas palavras ali, parece uma metralhadora.
Na, na, na, na, na, na.
Exato. É a tua favorita, Bruno?
É uma das favoritas. Gosto também muito de "Mulher Sentimental".
Ok.
"O meu amor quem é, quem é? O meu segredo quem é, quem é? A minha aventura quem é, quem é?"
Cá está, se isto não é intelectualizar, ninguém sabe o que é. Final de mais um "PopUp".
E a tua, Tiago?
"Ninguém, Ninguém". Gosto muito, aprecio bastante.
É muito bom.
É uma bela cantiga.
Intelectualiza, Tiago.
Sim, let's do it. Final de mais um "PopUp". Voltamos na próxima semana. Até lá.