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Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", a vossa família radiofónica favorita no mundo da cultura popular. Esta semana, Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Boucher Mendes, bem juntinhos para falarem sobre uma das séries do momento: "Patrocínio". Está na Prime Video. São seis episódios, não estou enganado?

São seis.

Estava a ver se me enganava logo no início do programa.

Já viste os seis?

Já vi os seis, em que ficamos a conhecer, ou pelo menos ficamos a conhecer aquilo que nos dão a conhecer, a família Patrocínio, mais particularmente as irmãs Mariana, Carolina, Inês e Rita. É reality TV, que segue a popularidade de Carolina Patrocínio, apresentadora de televisão já há bastante tempo. Acho que posso dizer, é a mais célebre destas quatro irmãs. Ela própria já tinha sido protagonista de um documentário em nome próprio, também na Prime Video. É uma série que está a fazer sucesso, está a criar amores, está a gerar ódios. O Bruno está-se a rir. Pedro Boucher Mendes, vamos começar por ti. Enorme profissional de televisão. Como eu dizia, há quem goste, há quem odeie, é tudo normal. Na essência, é uma boa série? Qual é a tua avaliação?

A pergunta que tu fazias era se cumpre os requisitos, não é?

Porque eu acredito que este tipo de produções têm requisitos que têm que ser cumpridos.

Nós, na verdade, não sabemos, porque não sabemos qual era a expectativa da Prime. E se teve mais assinantes, teve muitos views.

Qual é o resultado.

Certo. Uma boa série, de facto, é aquela que cumpre os objetivos do canal ou da plataforma.

Muito bem, percebemos.

A primeira coisa para dizer é que eu conheço bem a Carolina Patrocínio, de quem gosto muito. É uma excelente profissional, não estou a fazer nenhum favor. Conheço o pai dela, gosto muito dele. Não conheço as outras pessoas da família. Conheço o marido da Carolina também. É uma boa série? Na verdade, não.

Pronto.

Mas eu vi a série. Tinha espreitado e agora vi o resto por causa do programa de hoje. Eu acho que foi bom para as duas partes. Para a Prime, que tem este falatório todo e terá tido mais interesse e mais pessoas a ver a plataforma. Eles estão com uma estratégia de conquistar o público adolescente e pré-adolescente. Tem uma série de séries passadas com pessoas dessa idade, um pouquinho mais velhas. E eu acho que a família, a Carolina, as irmãs, a mãe, o padrasto e os cunhados que entram, e a criançada, não saem prejudicados, que é sempre um risco neste tipo de produções. Isto é um constructed reality, onde as pessoas, neste caso as Patrocínio, as irmãs, fazem coisas. A Carolina anda de avião e depois toma um banho no gelo.

Quando dizes constructed reality, tem um guião?

Tem que ter, eles têm que fazer coisas.

Não é só ligar a câmera.

Pronto.

Nem no Big Brother.

Claro, também é constructed. Dão-lhes vodka e não sei o quê para eles fazerem disparates.

Exato, ok.

Aqui o que releva mais é a dimensão de Portugal, porque a nossa expectativa de espectador, a expressão não é feliz, mas nós estamos habituados a ver coisas americanas. Em que os tipos têm imensos criados, por exemplo. Este tipo de famílias têm imenso pessoal que ajuda, imensos jardineiros, imensos jardins luxuriantes. E em Portugal é tudo mais pequeno, ou muito mais pequeno, ou bem mais pequeno, consoante a expressão que queiram usar. Eu acho que essa é a parte que mais se destaca. Nota-se que é uma produção não portuguesa. Nota-se que é uma produção espanhola. A televisão espanhola é mais rica que a nossa, tem mais dinheiro, maior número de pessoas talentosas e maior número de pessoas envolvidas nas produções. Por exemplo, se as pessoas quiserem espreitar, vejam como está bem staged os sofás onde elas estão sentadas a falar. As cores contrastam, as almofadas contrastam com o tecido do sofá. Os sofás são novos.

Estive atento aos detalhes.

Mas isso nota-se claramente. São novos, provavelmente não são os sofás da casa delas. As casas estão arrumadas. O feio, o desordenado é repugnante para a televisão.

Não gostamos de ver, não é?

Gostamos de ver quando é a fingir.

Ah, ok.

E nota-se bem, elas estão muito bem vestidas, muito bem maquilhadas. Dá um ar meio fake. A correção de cor, as cores estão muito saturadas, o que está bem feito. Perceba o que eu digo, ficamos ali baralhados. Os carros estão lavados.

Foi uma coisa que eu senti, que é: o que aqui é verdade e o que não é?

Está bem, essa parte filosófica da verdade é altamente irritante. Até parece que as pessoas na sua vida normal são sempre verdadeiras. Estou a dizer que os carros estão lavados, as crianças estão bem vestidas, elas estão muito bem vestidas, provavelmente não é a roupa com que saíram de casa nessa manhã.

Então, mas espera aí, a pergunta que se coloca é: se não fosse uma produção espanhola ou fosse estritamente portuguesa, haveria o risco disso não ser bem assim?

Que os espanhóis têm mais cuidado com isso. As revistas espanholas sim.

Em Portugal tens a mesma pessoa e uma assistente a tratar do guarda-roupa todas. Ali deves ter tido cinco ou seis pessoas.

Mas isso é informação que eu acho pertinente e que o nosso vasto auditório precisa de saber?

Eu acho que a família está de parabéns por ter aceitado fazer

Porque é um caminho que se abre. Podemos achar que é um caminho que não interessa, mas isso é outra conversa. Mas elas ao terem aceitado, pode ser que outras pessoas no futuro aceitem fazer.

Maria Ramos Silva, por que as Patrocínio? Por que esta família, estas pessoas e não outras? Tens ideia?

O Pedro falava desta parte e eu acho que, na verdade, é o mais relevante. Nós já falámos aqui várias vezes de como há uma espécie de deserto por aproveitar. Em relação, por exemplo, a uma certa literatura light que te mostre uma certa faixa do país, um certo estilo de vida, que nós achamos que é uma coisa que podes associar mais a uma elite urbana, em contraste com outras realidades. De facto, não temos essa tradição, eu acho que é uma pena, acho que já concordamos aqui que é um espaço por explorar.

E achas que isso também acontece, por exemplo, neste tipo de coisas, na televisão?

É aí que eu queria chegar. Se nós sentimos isso em falta nos livros, ainda mais no audiovisual, porque as exigências são outras e, portanto, a capacidade de fazer isso, desde logo apostar nisso. Vencer o risco, preconceito e tudo mais. E depois tudo o que se vai investir num formato que, de facto, é um pouco partir pedra, é o que o Pedro dizia, isto acaba por ser uma espécie de tubo de ensaio, quase para ver o que é que pode vir a seguir, eventualmente.

Se podemos continuar ou não.

Obviamente. Acho que nós temos, enquanto público, seja porque nos identificamos ou obviamente por contraste, rejeitamos essa curiosidade de entrar em casa das pessoas. Queremos entrar em casa das pessoas.

Essa palavra é importante, curiosidade.

Acho que o Big Brother nos trouxe esse bicho e, a partir daí, seja o pobrezinho da esquina ou seja o ultramilionário, é uma coisa mais do que humana, isto faz parte de nós. Aqui, de facto, acho que ajuda a tratar a coisa de uma forma muito desassombrada. Agora, dito isto, é evidente que não há muitas famílias mediáticas em Portugal com este nível de exposição como as Patrocínio, que eu acho que conseguiram uma coisa absolutamente invejável do ponto de vista mediático. De facto, a Carolina é a figura mais proeminente, abriu de certa forma também a porta. Mas se há coisa muito curiosa para mim que esta série mostra, e que talvez fosse um pouco improvável inicialmente, é que a marca família, marca apelido, consegue impor-se para lá da figura da Carolina. E elas, de facto, até são muito mais interessantes enquanto dinâmica familiar do que ela a solo. Eu creio que o documentário, porque a Carolina já teve um documentário só dela, uma série só dela. Até nem terá sido tão bem-sucedido e tão interessante quanto o manancial que há aqui, de facto, porque é um dado muito particular. Nós não temos esta dinâmica e este nível de mediatismo que se estende a esta galáxia Patrocínio.

E dá muito jeito, resulta muito bem o fato das pequenas grandes oposições entre as quatro, como se fossem personagens.

Nós temos depois a realidade crua dos números. Se tu somares os milhões de seguidores que cada uma destas personagens têm. Começando pelas irmãs, mas depois também os maridos, que também são, à sua medida, figuras públicas, atores, têm exposição. Depois os pais também vieram para esta equação. Os amigos, que já foram aparecendo alguns e que provavelmente poderão aparecer mais em futuras temporadas, quem sabe.

Tem os ingredientes todos.

Tem, eu diria que sim.

Por falar em ingredientes, Bruno Vieira Amaral, especialista nas coisas em general. Olha, rimou. Das coisas que mais se ouve é: ou isto não tem interesse absolutamente nenhum, que essas pessoas não interessam ninguém, etc. Ou isto está muito bem feito. A minha pergunta é se é possível estas duas realidades viverem em conjunto, se isto é um contrassenso, o que te parece? O que tu sentes?

Não acho que seja um contrassenso. Isto interessará a muita gente. Queria começar por dizer isso. Imagino que a Carolina Patrocínio tenha muitos seguidores nas redes sociais, não sei quantos.

É quase 1 milhão.

E que as irmãs também tenham. O que é que ela mostra? Além de fazer publicidade a marcas, mostra a vida dela. É ela e a família. Tendo tantos seguidores, é natural que haja também, dentro desses seguidores e não só, pessoas interessadas em saber mais, em ver, mesmo que isto seja um pouco construído ou muito construído. Portanto, existe esse interesse. Agora, há claramente aqui uma diferença entre as coisas quando são bem feitas e que têm um interesse parcial, e depois quando são mal feitas. Se calhar, muitas das pessoas que seguem a Carolina Patrocínio iriam ver o programa, iriam ver a série, mesmo que fosse mal feita, e não estão muito interessados nesse aspecto da coisa. Quando tu não tens grande interesse em acompanhar esta história que te é proposta, a história das irmãs e as dinâmicas familiares, podes pelo menos reconhecer que aquilo foi bem feito. Para dar um exemplo, um espetáculo do Tony Carreira. A mim não me interessa a música do Tony Carreira, mas tu podes reconhecer que aquilo é feito de uma forma profissional, com bons músicos, com qualidade, ainda que o conteúdo não te interesse minimamente. Eu aqui acho que, pelo menos para mim, funciona.

Como é que tu te entregaste a esta situação?

Eu vi e fiquei impressionado, de facto, com a qualidade formal da série. Acho que está muito bem feita, muito profissional, muito cuidada a imagem. Isso revela cuidado de quem fez e de quem também é protagonista da série, porque acredito que tenham tido essa preocupação. vendem imagem.

Que é uma coisa que vale muito.

Que é uma coisa que vale e vá.

Ou é o que vale mais, talvez, hoje em dia.

Hoje, pelo menos neste segmento, é aquilo que vale mais. Portanto, é preciso ter cuidado com a imagem. E a forma como a série foi feita demonstra esse cuidado, demonstra essa percepção que pode influenciar negativamente, se não for bem feito, pode passar uma imagem de descuido. E isso é fatal para quem vive claramente da construção de uma imagem. E nesse sentido, acho que é um triunfo, acho que é uma coisa muito bem feita e que não sairão, certamente, as Patrocínio, as protagonistas, a família, não sairão a perder desta aposta.

Pedro Bucher Mendes, uma coisa que não tem nada a ver. Como esse programa também é constructed.

Sim, diz.

Então diz lá.

Eu tinha algumas críticas para fazer.

Força.

A série não tem vilões ou não resultam vilões da forma como a série está feita, o que revela a inteligência da família quanto a mim, porque se a Prime quis fazer, a Prime sujeitou-se a eventuais edições que a família possa ter feito. Imagina, eles viram um episódio e não gostaram de uma cena entre X e Y. "Olha, tira, tens que tirar." Não tem vilões, mas também não tem characters, salvo talvez a mãe delas, que é um bocadinho mais idiossincrática.

Mais vincada.

Mais inesperada.

Sim. Mas e tu achas que aí a série sai a perder?

Claro, o espectador-

Quer ver a oposição.

Precisa do antagonismo.

Nos realities nos últimos anos, não há nenhum reality de jeito que não tenha um vilão ou uma vilã.

Sim.

E também não tem, e aqui parece-me ser o principal, não tem um plot que devia ter tido e teria sido simples de fazer. Podia ser organizar a festa de aniversário de uma das irmãs.

Sim, para chegar a um objetivo final.

Aliás, no primeiro episódio, que confesso já foi aquele que eu vi, ali a história dos Globos de Ouro, que é o dia mais importante. Eu até pensei que fosse esse.

The road to.

Exatamente. Vamos chegar àquele momento. E isso é importante, porque lá está, estamos a falar de uma coisa que é construída. Então é preciso ter esse cuidado. E à partida, e esta é uma diferença que eu vejo, por exemplo, em relação à série da Georgina. A Georgina Rodrigues também não há um antagonista. Até eu estou aqui a pensar alguém que poderia funcionar bem.

Olha aí.

Mas atenção. Mas não tem um antagonista. Só que a história da Georgina, a história de base, vende-se sozinha.

Sim, from wreck to riches.

Já foi feita inúmeras vezes.

Está lá o erré.

Está lá o erré da partida. E que é a rapariga pobre que casa com o homem mais famoso e um dos mais ricos do planeta, praticamente, ou talvez mesmo o homem mais famoso do mundo. Não podia nada e agora pode tudo.

Deixa só ouvir aqui, antes de acabarmos a primeira parte, o fim do raciocínio aqui do Pedro.

E tem um outro problema quanto a mim, que é ser pouco portuguesa.

Mas espera lá, não avances, porque já vamos falar sobre isso. Deixa-me só fechar bem as contas. Chegamos ao final da primeira parte do "PopUp". Voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "PopUp" com a Maria Ramos Silva, o Bruno Vieira Amaral e o Pedro Bucher Mendes. Esta semana estamos a falar sobre a série Patrocínio, sobre reality TV e sobre famosos. Pedro Bucher Mendes, no final da primeira parte, deixaste aqui a ideia de portugalidade. Nota-se que há menos portugalidade, que há mais?

A série é muito assética desse ponto de vista. É difícil para um espetador de Valpaços ou de uma espetadora, imagina, uma miúda de 14 anos, de Valpaços ou de Galeno, identificar-se, porque não há assuntos portugueses, não há temas portugueses. Elas estão sentadas e depois fazem banho de gelo e depois têm umas coisas entre irmãs, um presente, uma amiga secreta ou irmã secreta, ou não sei o quê, se vestem de igual. Essa parte são partes decorativas. Eu acho que faltaria qualquer coisa portuguesa. Imagina, eles estão a construir uma casa, devíamos ver imagens das obras e ele a embirrar com o empreiteiro, esse tipo de coisas que acontecem no nosso dia a dia.

Coisas que nós fazemos, que acontecem.

Sim, e que nos acontecem. Mas também imagino que aquilo não seja candidato aos Óscares, imagino que devam ter tido pouco tempo para fazer. Estou a soltar estas coisas em função da conversa que estamos a ter. A humanidade não vai ficar prejudicada pela série se não vissem essas coisas.

Também há um detalhe interessante que tu falavas antes de gravarmos o programa, que é: praticamente não existem palavrões, não se ouvem palavrões.

Sim, e eles falam de uma forma articulada. Ora, nós nas nossas conversas naturais, não falamos de uma forma muito articulada. Interrompemos e dizemos "pá" e dizemos alguns palavrões. Quer dizer, algumas pessoas dizem, não é o meu caso. E também não é o caso das Patrocínio e da família. Imagina que isto era uma série para a SIC e era eu o encarregado de-

Vou imaginar.

Sim. Tem demasiados personagens. Há muitos personagens metidos a martelo. Temos as irmãs, temos a mãe, o marido da mãe, o pai Os cunhados, crianças, o estilista.

Mas para quem sabe a vida deles nas redes é muito assim, Pedro.

Espera.

Pode não funcionar depois na televisão.

Eu não acho, e não acho mesmo, sob palavra de honra, que esta família se exponha em demasia. Há pessoas em Portugal que se expõem muitíssimo mais nas redes sociais e fazem figuras, enfim, aqui em itálico, que eu acho que estas pessoas não fazem. Acho que são de uma classe social mais alta. São educados.

Têm cuidado com isso.

Sim, não vemos nenhum deles a pôr o pé para fora do pé. Eu não estou a dizer isto por conhecer. Acho que é justo o que eu estou a dizer. Não há nenhuma escandaleira.

Certo.

O que eu estou a dizer é que a própria Prime, e isto acontece muitas vezes em Portugal, não só em televisão, que é: "Conseguimos as patrocínios. Boa, já fechamos o negócio, chegamos a acordo. Pronto, então já está feito." Mas não, aquilo é o barro. Eles têm que construir qualquer coisa que não souberam, não quiseram, elas não permitiram, a família não permitiu, não houve tempo, não houve engenho. Acho que no fundo vemos os seis episódios. Eu gostaria de ter visto mais do ponto de vista televisivo. Não tenho grande curiosidade, mas gostaria de ter visto mais. Por exemplo, a cena da banheira do gelo. Aquilo tens um plano muito apertado, porque aquilo é um ginásio pequeno. Aquilo ocupa, não sei, sete ou oito minutos? Para dar um exemplo de uma cena que deveria se calhar ter demorado 20 segundos.

Exato.

Para depois criar um antagonismo entre o meio irmão que conseguiu, o meio irmão que não conseguiu. Mas não, a cena prolonga-se desnecessariamente durante imenso tempo. É bom para vermos os modelos de fato de banho, mas fora isso.

Maria Ramos Silva, esta é a oportunidade de eu usar uma expressão, que eu não sei se ainda se usa, que é a expressão jet set. Não sei se isto ainda se usa. A minha questão é, aliás, falámos disso na primeira parte, se pode sair daqui uma tendência de produção, se isto se pode repetir com outras pessoas ou com as mesmas pessoas, e se sendo com outras pessoas, se pode chegar a outras personalidades, e se nós temos um circuito, um meio, se temos um jet set português, se assim quiseres chamar, disponível para isto.

O que interessa é que tens diferentes segmentos. O Bruno há pouco falou aí bem do Tony Carreira, que eu acho que é de facto aqui uma outra pista. Também falou da Georgina, que é um belíssimo exemplo de um elemento de um outro clã com um registo totalmente distinto, que eu acho que as pessoas adorariam ver em reality show ou uma série deste género, que é os Aveiro, a vida dos Aveiro, das manas, do Ronaldo, da mãe, que só por si é uma personagem que corre em pista própria no Instagram.

E essa teria audiências mundiais.

Pronto, mas é aí que eu quero chegar. É de facto mais fácil do ponto de vista televisivo, julgo eu. Não só televisivo, quer dizer, a história é desde logo muito mais apelativa quando tu partes desse princípio que é, como por exemplo, a história da Georgina, que é a miúda que em 10 anos passou do balcão da Gucci para poder comprar a Gucci inteira. Isto são aquelas histórias maiores que a vida, que nós só lemos nos livros. De repente, há mesmo uma pessoa de carne e osso que viveu isto. Está lá o barro todo, como dizia o Pedro. Depois é saber fazer isto. Aliás, no caso da Georgina, nem precisas de trabalhar muito o barro. O barro faz os dois terços do trabalho. Nós nem estamos muito preocupados se depois os pratos de presunto aparecem, se são bonitos, se as pessoas são bonitas, se estão bem caracterizadas. É que tu tens, de facto, outra dimensão. Nós estamos a falar de uma gaveta diferente, à qual a maior parte das pessoas, de facto, não acedem, é uma bolha que não conhecem, só conhecem através do filtro das redes. A maior parte das pessoas não vivem casa com casa no Castelo, não têm esta rede de proximidade, não têm sequer este tipo de laços familiares. Acho que até isso causa alguma perplexidade, alguma estupefação, se calhar, para muitas pessoas.

O que é a intensidade.

Sim, mas imagina, é uma bolha da qual eu sou próxima através de uma série de amigos e, portanto, que para mim são perfeitamente normais e que são pessoas que vivem exatamente assim, que têm este tipo de vida, que é ir do monte para a casa da praia e voltam para casa. E portanto, isto é a rotina deles, têm os programas todos organizados até 2027, são famílias alargadíssimas, têm sub-natais.

Não acho que passe nos fins de semana.

Pronto. Ou seja, agora é obviamente uma realidade diminuta num país pobre como Portugal, em que a tal questão do jet set, nem sei de quem é que hoje poderíamos estar a falar. Quer dizer, eu acho que as patrocínios são de facto as nossas Kardashians bem-educadas, com muito mais pedigree que as Kardashians, com muito mais graça também. Ao mesmo tempo, muito mais terra a terra, apesar de estarem esses furos acima do ponto de vista social para a maior parte das pessoas. Eu acho que muita gente também se identificou. Eu falei com algumas pessoas que iam com algum preconceito e depois pensaram: "Bem, até há aqui alguma empatia." Acho que apesar de não haver grande conflito, não deixa de haver aqui uma espécie de Jogos Olímpicos das manas, em que elas competem sempre entre elas e também se geram mais afinidades com uma ou com outra. Também vi pessoas a torcerem, identificarem-se mais por uma ou por outra. Acho que isso também é interessante. Claro, sempre a uma escala muito pequena. Eu não sei, sinceramente. Falava dos Aveiro num outro registo. Eu acho que as pessoas também teriam interesse em, por exemplo, seguir a vida de uma Cristina Ferreira. Mas não há muito mais pessoas.

Certo. E há essa questão do apelido, que faz a diferença.

Mas não é só isso, Tiago. Nós estamos a falar de um país com 10, agora aparentemente 11 milhões de habitantes. Mas para as contas que interessam, estamos a falar de pessoas que apesar de tudo conseguem granjear um milhão de seguidores. Eu acho que é muito, é um décimo do país virtualmente a segui-las, mas não há muita gente que consiga isso em Portugal.

Exato.

Pessoas como a Cristina Ferreira, o Ronaldo então é uma coisa estratosférica.

Mas aí não podemos encarar como português.

Mas as patrocínios, eu acho, de facto, estrondoso, porque estamos a falar de muita gente. Há muitas pessoas no estrangeiro, em países com muito mais população, que não conseguem ter este tipo de impacto. E depois nós sabemos, do ponto de vista comercial e mediático, é real. One in a million, neste caso, literalmente. Não consigo imaginar o que é o jet set hoje. Enfim, talvez se entrássemos mais por realeza. Não querendo me alongar.

Mas aí também. Bruno Vieira Amaral, isto agora é para trazer mais para a literatura, uma palavra que tem sido muito usada para falar sobre essa série, e não só sobre esta, é a palavra "betos". A minha pergunta é se faz sentido. Usar essa palavra nesse contexto faz sentido? O que é que hoje a palavra betos quer dizer?

Vê a série. Viste, não viste? Então é aquilo. Na minha concepção, na minha mundivisão. A Maria estava a dizer que conhece, até por interposto-

Afinitades

...amigos.

Não vamos entrar na vida privada.

Pronto, de cada um. A mim este mundo é completamente estranho. Estas pessoas para mim são autênticos extraterrestres. Não convivo com elas, não tenho contacto social com estas pessoas. Eu não estou a fazer nenhum julgamento, nem moral-

Estás a constatar um facto

...nem estético. É verdade. É como se tivesse que assistir à vida dos extraterrestres. Para mim, fica completamente deslocado da minha realidade. E creio que da realidade da maior parte dos portugueses. Nós temos aqui uns lampejos. Eu não sei se existe o rich porn.

Sim, claro.

Pronto. Acho que há, mas a uma escala muito portuguesa. Por exemplo, quando uma das irmãs ou as duas irmãs vão ver o roupeiro.

À procura do-

O gabinete, o armário onde estão as roupas.

O closet.

Closet. É sempre bom ter alguém a ajudar-nos no léxico. E percebes, claro, que aquilo, para a maior parte da população portuguesa, até as casas, que serão do estilo Vila Faia ou das novelas portuguesas dos anos 80. Para aquelas pessoas, tudo aquilo é absolutamente banal. Mas tu olhas para aquilo e "pá, que casa extraordinária!" E ao mesmo tempo que há esse rich porn à portuguesa, à nossa medida, há também, e eu acho que é aí que marca muito claramente a diferença, por exemplo, para as Kardashian, uma insistência, um sublinhar de certos valores familiares e de trabalho, que pelo menos no primeiro episódio, e isso é muito óbvio quando a Carolina diz: "Eu sempre detestei que as pessoas achassem que eu não trabalhava, que não era profissional."

E ela era superestigmatizada, ainda me lembro da forma como era ridicularizada.

Depois podemos falar da questão. Há aqui um certo preconceito de quem não pertence a esse mundo em relação aos betos. Há um preconceito. Qual é que é a diferença aqui em relação a isso? É que o meu preconceito ou o preconceito de outra pessoa qualquer em relação a eles, não os vai tirar do lugar donde eles estão e onde nasceram. Essa é que é a questão. E aliás, nem lhes deve interessar minimamente, porque isso não afeta minimamente o lugar deles no mundo, que é um lugar de privilégio. Todas aquelas pessoas são bem-sucedidas e nós gostamos de ver histórias de pessoas bem-sucedidas, porque nasceram com uma vida muito fácil. Não estou a dizer que não haja valores que são importantes e que são diferentes até noutros casos, mas se fizermos a comparação com, por exemplo, o "Clã Aveiro", vemos que a dimensão da família, da importância da família, e estamos a falar de pessoas oriundas de meios totalmente distintos, se calhar, é o que explica parte do sucesso e da projeção destas pessoas. Portanto, existem esses valores. Agora, aquilo é um mundo em que se nasce com a vida praticamente feita, só precisas de não descarrilar e depois todas as personagens ali se conformam a esse padrão. Todos, desde os apelidos das famílias, tu sabes de onde eles vêm. Há endogamia social que existe.

O que não quer dizer...

O que não quer dizer que aquelas pessoas não tenham valores e que não sejam profissionais, e que não sejam competentes.

Tal e qual.

Valores, e não falo apenas dos valores profissionais, falo de valores da vida.

Sim. Sociais, morais, o que quiseres.

Isso. E acho que há uma insistência na série em sublinhar isso. Não somos completamente fúteis. Agora, há uma grande diferença, que até pode resultar no motivo de interesse para quem está de fora, porque nós gostamos de ver histórias de pessoas que não estavam bem e que passam a estar bem.

Que dão a volta.

Ou então ao contrário, as pessoas estão lá em cima e depois caem.

Dar uma volta.

Nós gostamos dessa transformação, mas gostamos de ver pessoas que se dão bem na vida, que se deram bem na vida, pessoas que estão bem na vida. É como nas novelas. As novelas brasileiras eram muito acusadas de retratar uma realidade que não era a realidade, porque ninguém queria ver. Acho que era o Aguinaldo Silva, não sei, que dizia: "Para vida de pobre, já basta a vida das pessoas."

Mas as pessoas querem sonhar.

E eu acho que-

E querem invejar.

E querem invejar e querem aspirar àquilo também. Quer dizer, que bom deve ser ter esta vida.

Pedro Mexia Mendes, sobre esta história do rich porn, seja mais à portuguesa ou mais à americana, enfim, cada um na sua escala, tudo bem. É interessante isso. Achas que o espectador médio gosta mais de ver isto de um lado, da perspectiva aspiracional?

Da invejazinha.

Não, mas a inveja já meio: "Espero que um dia percam tudo."

Lá está, esta família, estas imagens que vimos, eu acho que não aguça essa comichão.

Achas que não chega aí?

Vi esta semana um documentário que chegou à Netflix sobre a Chris Evert e a Martina Navratilova. É uma coisa sobre ténis. E depois estamos no presente, na cozinha da Chris Evert. Há uma cena que se passa lá. A cozinha da Chris Evert é maior do que a casa, talvez do que todas as casas das irmãs Patrocínio.

Sim, mas eu digo isso, e ainda assim concordarás que uma boa fatia dos que viram-

Que eu me lembro, na série eles não saem de carro descapotável, ele não se mete num Porsche, não há aqueles óculos enormes.

Esse lado de ostentação tão evidente.

Não têm carteiras Vuitton e Gucci, essas coisas. Portanto, eu acho que está bem defendido do ponto de vista da família. Acho que foram argutos, inteligentes. Terão ganhado dinheiro, espero que sim. A Prime lhes pagou. O benefício que poderão vir a ter algumas das irmãs, talvez as menos conhecidas, decorre de um mundo em que vivemos, em que provavelmente uma espectadora que trabalha numa marca qualquer de cremes do sol, é gestora de marca, essas profissões que as pessoas têm, vai contactar uma das irmãs e perguntar se quer uma parceria, dá-lhe cremes e depois ela faz um post. Nós em Portugal temos essa escala. Vi recentemente uma figura pública a fazer publicidade, não percebi bem se era uma casa de banho para gatos ou se era uma coisa para transportar gatos. Não se imagina a Georgina a fazer isso.

Não.

Ou as Kardashian. E muito provavelmente essa figura pública recebeu apenas uma caixa para o gato dela em troca. Portugal é um país pobre, continua a ser um país pobre, seja qual for a razão, seja quem for o culpado ou os culpados. E eu acho que esta série também reflete um pouco isso. Porque mesmo aquelas casas-

Essa é outra perceção.

Fica ali no limbo.

Estas casas sendo no Restelo e que devem valer, não sei, € 2 milhões, talvez, aquela zona. Mas são pequenas. Em alguns casos, são casas que foram construídas no tempo do Salazar para funcionários, não sei da ONU. São uma espécie de casas geminadas, algumas. Não sei se é o caso destas. Mas acho que é no último episódio, depois eles estão no jardim e a mãe refere-se a uma árvore. Não sei se viram essa coisa. O jardim é do tamanho deste estúdio. Não é um jardim a perder de vista e com seis mexicanos a tratar das palmeiras.

Mas estamos a falar de pessoas que têm até 40 anos.

A mãe não tem, não é?

Não. Estou a falar das filhas.

Eu sei. O que estou a dizer é: mas elas são ricas? Não, não são.

Não, Portugal é que é pobre.

É exatamente, foi isso.

É um país massivamente brutal.

Elas se falarem para Portugal são muito ricas, mas não são ricas Kardashian style ou Georgina style. E é isto. Os reality começaram a existir por causa das greves dos argumentistas e dos atores. Não é bem o pagar, é só podem trabalhar X dias seguidos, têm que sair às 17:00. Há sindicatos de algumas profissões, inclusive em Portugal, por exemplo, os técnicos de cinema e de publicidade têm uns sindicatos muito fortes. Imagina, às 18:00 acabou, porque então tens de pagar overtime. Os realities, a origem, há duas ou três décadas, têm a ver com isso, com poderes filmar livremente o tempo que quiseres, eles são anónimos. E depois é preciso arranjar, no fundo, conteúdo, como agora se diz. Tu segues uma pessoa, quanto mais divertida, idiossincrática é a pessoa, melhor, mas eu acho que as Patrocínio se protegeram muito bem e deram menos à Prime do que se calhar a Prime esperaria, acho eu.

Deixa-me dizer uma coisa.

Rápido.

Sim, muito rápido. Com aquela conversa, eu não queria dizer que estou à espera que este tipo de séries vão ser representativas da sociedade no seu todo. Espero que vão fazer agora ali no Barreiro, encontrar uma família.

Mas eu via.

Mas são muito representativas de uma Lisboa a que as pessoas não têm noção do que é que de facto manda em Lisboa e no país.

Que manda e claro que é importante, mas independentemente da importância, óbvio.

É a zona VIP do país.

É óbvio que se fizeres uma série destas, vais fazer sobre estas pessoas, vais fazer sobre as Patrocínio, como é óbvio. E acho que a Amazon obviamente teve isso em conta. Não se lembraram, não foi uma coisa que lhes passou pela cabeça de fazer um retrato da sociedade portuguesa. Não, foram fazer com aquelas pessoas, obviamente.

E só para dizer uma coisa, desculpa, apesar de ser muito coreografado, eu reconheço isto que o Pedro dizia, mas há aqui alguma virtude, apesar de tudo, que eu acho que elas têm, sobretudo nas redes, mais no seu desempenho nas redes, e que outras pessoas têm, como a Georgina, e que é muito triunfador numa altura em que tudo é muito pensado e estruturado e as pessoas têm muito medo, que é: não têm medo de ser ridículos. Estão-se a borrifar para isso. E eu acho que isso é importantíssimo. Em última instância, é aquilo que acaba por fazer a diferença entre perfis que são só mais uns perfis com muitos seguidores ou não, e pessoas que de facto se destacam porque seguem a sua vida.

E que chegam a outro nível.

E não se importam muito se estão a ser criticadas. Obviamente, têm que aprender a viver com isso e terão que ter aprendido a viver com isso, mas acho que é de facto um trunfo.

Pedro, já que chegaste ao microfone, não se quis por um ponto final.

Na verdade, nós não sabemos se elas se importam ou não.

Não, claro.

Certo.

Mas o trade-off é que lhes deve ter sido vantajoso. Isto é uma maneira muito portuguesa de fazer as coisas, que eu às segundas, quartas e sextas acho um problema e às terças, quintas e sábados acho uma virtude.

Hoje é quinta.

Uma certa discrição, um certo pudor. Não vemos pessoal doméstico, não vemos gritaria, não vemos palavrões, não vemos conflito, não vemos discussões.

Sim, é um pudor de classe.

Mas Pedro, se aparecessem as empregadas, toda a gente ia cair em cima: "Vejam lá, ela acha que tem empregadas." O problema é esse. É o que nós vemos em Portugal.

Quando aparece, calculo que seja uma esteticista negra, uma senhora no primeiro episódio, eu disse: "Isto é capaz de dar."

Arriscado.

Não é fácil.

Muito bem. Mas fica só a dica, se um dia fizerem uma coisa dessas sobre os Vieira Amaral, eu vou ver. Final de mais um "PopUp". Escrevam-nos para popup@observador.pt, sigam-nos nas plataformas de podcast. Nós voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.