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Ora bem, novo ano e a vida do costume. Aqui estamos, segunda-feira, dia de sugestões da semana com a rapaziada do "Pop Up". Pedro Xermentes, vamos começar por ti. Eu tenho aqui que queres sugerir uma série e um livro.

Não, duas séries.

Se demorássemos mais uma hora, seriam três. Então avança.

A primeira descobri, tropecei na Disney+, finalmente chegou: "Murder at the End of the World", uma série da Brit Marling com a Emma Corrin, que fez de Princesa Diana no "The Crown". É uma minissérie, e é um mistério, não é uma série que se tem que ver em temporadas. Uma série da Hulu.

E vale a pena?

Vale francamente a pena. Uma filha de um médico legista aprende a resolver mistérios e, sobretudo, aprende a lidar com os mistérios não resolvidos, os chamados John Does ou Jane Does, quando não se sabe a identificação dos cadáveres e dos restos mortais. E ela vê-se embrenhada a um milionário, tipo crypto bro, que é casado, e esse casal convida-a e convida outros ninjas da ciência e do mundo para um resort, acho que é na Islândia, onde ela vai ter que resolver um crime por vicissitudes várias.

Estou a apreciar tudo até agora.

Sim. Está muito bem filmada. A câmera acompanha muito bem a Emma Corrin, que é a protagonista. Eu não me impressiono com facilidade.

Eu sei, e estou a gostar de ver o teu ar.

Nós já fazemos este programa há alguns anos.

Não me impressiono com facilidade e estou a gostar francamente. É uma daquelas séries que eu estou a comer devagar. É um pouco como se te tivessem oferecido um daqueles presuntos de belo corte inglês e que tu vais cortando um bocadinho todos os dias.

E fininho. Com uma bela faca.

Com aquela faca e aquilo tudo abradilhado.

Sabes como é que se chama a faca de cortar presunto?

Fiaca?

Não. É uma jamonera.

Uma jamonera.

Pois é.

E ainda-

Uma fiaca?

Não é só polonês, é espanhol.

É la fiaca.

Era um bom nome para uma banda.

La Fiaca.

La Fiaca.

Deixei a minha fiaca no meu Kiaho. No coche. O meu coche está na calhe e a minha jamonera-

Está no coche

... está no coche.

Muito bem.

E depois, talvez a série que eu mais gostei em 2025, que vi já nos dias finais do ano, barra princípio de 2026, que é "The Chair Company".

Também comecei a ver isso.

Que é do Tim Robinson, que é do "I Think You Should Leave", que é aquela série de humor que está na Netflix e que os jornalistas portugueses não apanharam. Algumas pessoas apanharam, mas não o jornalismo português, portanto, não é muito conhecida. O Tim Robinson, eu chamo-lhe sempre Tim Robbins e tenho que pensar, desculpem. É um humorista, ator diferente, este diferente aqui está em itálico, não é bem o que estamos à espera. Este "The Chair Company", aparentemente, ele é um tipo normal, casado, meio estressado, meio tenso, trabalha numa empresa que promove centros comerciais e no dia em que estão a anunciar um novo centro comercial, ele senta-se na cadeira e a cadeira parte. E então ele acha que há uma grande conspiração a acontecer porque a cadeira se partiu. E tudo isto parece um pouco ridículo e eu vi o primeiro episódio e vi: "Isto é um bicho passado".

Aposto que foi tal e qual.

Deve ter sido assim. E desisti. Mas depois comecei a ler "The Chair Company" isto, "The Chair Company" pra aqui, "The Chair Company" pra ali. E de facto, é talvez a melhor série que eu vi no último ano e talvez das melhores séries que eu vi nos últimos anos. Sobretudo, e eu já escrevi sobre isso, porque o raio da série é um pretexto para os criadores, o Tim Robinson e o seu sócio, que eu agora não me lembro do nome, desenvolverem personagens secundários e situações perfeitamente acessórias. Dou um exemplo: ele está em casa e quer resolver o mistério e continua sempre a ver se a Chair Company, se a companhia das cadeiras é boa ou má. E tocam à porta, e é um tipo que vem comprar uma estatueta dos Beatles, onde o Ringo tem o nariz partido, uma coisa assim. E ele: "O quê? Mas isto não é aqui." E só essa cena, só esse diálogo, que não tem nada a ver com a conspiração, vale bem. Humildemente, foi a melhor série que eu vi o ano passado, "The Chair Company" na HBO Max.

E não tinhas um livro?

Tinha, mas substituí por duas séries.

Por causa do teatro.

Não é isso, eu julguei que não tinha havido substituição. Peço desculpa.

Não.

Ok, muito bem. Sim, senhor. Então avançamos aqui pro Bruno Vieira Amaral hoje.

Então vamos lá. Eu até preferia, mas pronto.

Diz, o que é que tu querias?

Não, já agora não vou perder.

Não é tarde demais.

Porque estão contentes.

Porque eu queria dar um toquezinho a coisas que a Maria vai falar, mas a Maria vai falar dessas coisas. Vais falar dessas coisas e eu depois dou um toquezinho.

Ele quer dois momentos para falar.

Eu queria falar dos especiais do Dave Chappelle e do Ricky Gervais, que estão na Netflix.

Isso ainda tem graça?

E que são uma bela porcaria. É o que eu tenho a dizer. E eu adoro o Dave Chappelle, mas este é francamente mau.

Aposto que não era essa a palavra que tu querias usar.

É fraco. De início até tem algumas coisas, mas depois ele arrasta. É tão constrangedor que ele vira-se pro público e diz: "Vocês devem estar a achar isto um bocado aborrecido". E acho que toda a gente estava. E é fraco para o padrão do Dave Chappelle. Se calhar é melhor do que-

Sabes o que é outro problema? Eu vi

E achei o texto fraco, como dizes e bem. Fraco. Mas ele de fato tem uma capacidade de agarrar o público. O tipo podia estar ali a dar a receita de uma feijoada brasileira.

Sim, isso ele tem.

Ele tem um timing impressionante.

Tu estás sempre à espera que aquilo vá depois dar algum lado. E não funciona tão bem, ou funciona mal, em comparação com o que ele já fez noutras alturas em que está tudo como uma engrenagem. É um mecanismo que aquilo que é lançado em determinado momento vai aparecer mais à frente e tu ficas surpreendido quando aparece, apesar de estares à espera que apareça. E aqui, apesar de também ter esses momentos, parece-me tudo mais calibrado de uma forma um bocadinho deficiente.

Saiu de surpresa este especial.

Sim.

Para aí o 27º especial.

Eu estava a perguntar-me quando é que sairia, porque tendo ele um contrato.

Com a Netflix.

Sim, seria suposto ter aí qualquer coisa a sair, mas fui surpreendido por ter aparecido nesta altura. Acho que foi antes do final do ano passado. E o do Ricky Gervais, eu não consegui ver até o fim. Acho que é muito mau. Muita conversa sobre: "Ai, os espetáculos que eu dou."

Adorei.

Eu por exemplo não discutei.

Eu adoro o Ricky Gervais. Eu casava com ele facilmente.

Eu acho que ele também tem essa capacidade de agarrar.

Como eu estava a dizer, isto demonstra a extraordinária dificuldade que é fazer uma coisa destas. Fazer um especial, um espetáculo de stand-up comedy que seja mesmo muito bom, é tão difícil quanto fazer um grande filme ou escrever um grande romance. Porque exige um bom texto, exige um excelente, extraordinário timing, uma excelente gestão do material que se escreveu. O Dave Chappelle na maior parte das vezes consegue fazer isto, acho que desta vez não conseguiu. O Ricky Gervais, eu não consegui ver até o fim.

Porque achaste "feijão com arroz" é assim que se diz, não é?

Achei mau. Achei as piadas fracas. Achei a forma como ele entrega o texto mau. Já vi aquilo dele, acho que é tudo muito mais fraco do que outras coisas que ele já conseguiu fazer. E eu gosto do Ricky Gervais, mas deste, francamente não gostei. O "Batalha atrás de Batalha", que vi finalmente no streaming.

Pronto, é pá, tudo bem.

E tu, o que achaste?

Gostei.

Com tudo, porém...

Não, gostei. Já gostei mais de outros filmes do Paul Thomas Anderson, mas gostei deste. Olha, gostei mais do "Licorice Pizza", que nós fomos ver, mas gostei deste. Acho que tem um bom ritmo. A banda sonora, que é do Jonny Greenwood.

É ótima.

É uma coisa extraordinária. E o DiCaprio, acho que finalmente passou para outro nível.

É o maior. É uma espécie de Ricky Gervais.

Quase tão bom como o Ricky Gervais.

Pois, é. Possível.

Não sei de outros concorrentes, mas acho que é um desempenho muito superior ao que ele teve no "Renascido" que lhe valeu o Oscar. Acho que ele aqui passa para uma outra dimensão de representação, coisa que nem sempre tem conseguido fazer, apesar dos bons projetos em que sai, dos filmes em que ele entra quase sempre serem bons. Estou a dizer que o desempenho dele, para mim, raramente passa para um outro nível de qualidade. E aqui há momentos em que deixas de ver o DiCaprio e estás a ver aquele tipo naquela situação.

É engraçado que nós chegamos a um ponto em que provavelmente o vamos ver sempre em contenda com o Chalamet. Ou seja, são duas gerações, também dois estilos aqui de sex symbol.

Duas movie stars.

Sim.

Foi uma belíssima análise que fizeste agora.

Mas não é?

É.

É uma passagem de testemunho. Tu ainda o vês ali na sessão, o DiCaprio, é um tempo, um modo. O DiCaprio que ficou retido em Saint-Barth, não sei se viram, porque agora durante aquelas na Venezuela, estava lá de férias, depois aquilo foi uma grande confusão, portanto ele conseguiu falhar.

Coitado.

Não esteve em Palm Springs.

Este filme tem pontos de contacto com o Agente Secreto, que é interessante, aquele filme brasileiro.

É pá, também vi, também gostei muito.

Tem pontos de contacto estes filmes. O DiCaprio, o que parece estar a funcionar a favor dele é estar a ficar com menos carinha de bebé. Não sei como é que se diz.

Baby face.

Sim. E a ideia que dá é que ele, de fato, se deve entregar completamente aos projetos, aos realizadores.

E há outra coisa que aqui também conta.

Ele também não tem mais nada a que se entregar. A verdade é essa.

Não, há aqui uma coisa muito importante, é que estamos a falar de alguém que, eu não sei se será dos poucos atores importantes, a sério, que ainda não fez nada para as plataformas ou já fez alguma série?

Acho que não.

Que eu me lembre assim de cabeça.

Nem séries, nem nada.

É cinema. E eu acho que isso também faz a diferença na forma como nós nos relacionamos com ele. Ele tem poupado muito. E o Brad Pitt também, acho que não fez nada.

Acho que não.

Pronto, eles estão a trabalhar.

Eles gerem muito bem aquilo em que estão.

E isso também que influencia a relação que nós temos com ele.

É verdade.

Porque é pequenas doses de, e quando queres ver, tem que ser ali, meu amigo. Ou então esperas que chegue ao streaming.

Ora bem, deixa-me só dar uma colherada, duas sugestões muito rápidas. Uma ainda não vi, tenho curiosidade para ver e para perceber se vou gostar, que é uma série documental que se estreou, julgo que esta semana na RTP 2 e que está na RTP Play, que se chama "Intervalo para Publicidade" e que anuncia uma história da publicidade em Portugal.

Já vi o primeiro episódio.

Eu não tenho muito mais a dizer porque ainda não vi, mas pelo menos só pela premissa parece-me interessante e importante. O Pedro já viu o primeiro episódio, está a acenar com a cabeça, eu vou ver o que se passa. Outra coisa: dia 16 de janeiro, sexta-feira, sai um novo EP dos They Might Be Giants, que é uma daquelas bandas indie de velhos, e eu estou entusiasmado.

Tenho dois ou três Maxis deles.

Obviamente, eu sei o que estavas a fazer. Chama-se "Eyeball" e fica a dica, meus amigos, para quem queira. Maria Ramos Silva, o que é que tens a dar ao povo?

Tenho dois documentários da Netflix que saíram ainda no final do ano.

As pessoas saem daqui já com matéria para o ano inteiro.

Sabes por quê? E eu falei contigo também sobre isso.

Nós falamos muito.

Sim, e consultando aquelas listas, não as nossas, de melhores do ano, eu percebi uma coisa óbvia, que é: imensa coisa boa que saiu e que eu não dei por ela, da música, etc. E de facto, nós andamos sempre ali a apanhar os restos, mas restos muito bons, que vale a pena trazer para este novo ano. Até pela atualidade, um documentário que gostei muito, que é o "Breakdown 1975" ou "1975: O Ano da Ruptura", acho que é assim o título em português. Mais uma vez do Morgan Neville, já falei dele na outra parte do programa. Ele também fez outras coisas interessantes, desde o "Under the Influence" do Cliff Richard ou o "Roadrunner", do Bourdain, também é dele. Isto é um documentário que está muito bem montado sobre esse ano determinante na história dos Estados Unidos, ali muito na ressaca do escândalo Watergate. E eu acho que ajuda muito a pôr as coisas em perspectiva, que é uma coisa que nos falta quase sempre, mas em particularmente nesta altura. Há um sentimento que nós às vezes deixamos instalar, que é: está tudo péssimo, é horrível, vivemos tremendamente mal e o mundo vai acabar, e que é perfeitamente compreensível, até nós recuarmos anos como este, a contextos como este, e percebermos que havia alturas de muito maior turbulência, de coisas que são absolutamente incomparáveis, desde questões sociais como o desemprego, as questões económicas, a agitação, a alienação, quer dizer, as pessoas perdidas completamente sem rumo, a questionarem as lideranças políticas, tudo mais. E depois, ele faz um diálogo muito competente entre aquilo que é esse contexto social e político e a produção no cinema, com a emergência de grandes nomes independentes e a consolidação desde o Scorsese, que aparece, por exemplo, e que te mostram como esse cinema que está completamente perdido foi, ao mesmo tempo, um ano, uma fernada absolutamente fabulosa, com títulos como "Tubarão", em que tu podes perder tempo a pensar qual é a mensagem disto e outros acharem: "Isto não tem mensagem nenhuma. Isto são pessoas que querem ser aterrorizadas e que estão deslumbradas com aquele terror." A forma como o cinema daquele tempo conseguiu, de facto, criar coisas absolutamente prodigiosas e que nós celebramos até hoje com esta distância, e a forma como também capturou muito bem esses tempos e como ele consegue exprimir a agitação e a turbulência que se viviam nesses tempos, eu acho que vale muito a pena. Vejam, até porque para nós conseguirmos ir dormir um pouco mais descansados e perceber que ciclicamente as coisas não são fáceis.

O meu comentário: gostei muito.

Pronto. É um pouco isso, não é, Bruno? Acho que tu acabas por, quem não viveu essa época, como é o meu caso-

Enquanto se destruía a economia portuguesa, nos Estados Unidos faziam-se filmes inesquecíveis. O fundo é esse.

Filmes inesquecíveis e perturbadores.

Também.

É um ponto de vista, Pedro.

Não é um ponto de vista, é um facto.

Um outro documentário que está na Netflix e que de alguma forma também acaba por tocar com esses tempos, é uma experiência um pouco complementar. Estreou-se em Veneza, no festival, e depois chegou à plataforma também em dezembro. É um documentário sobre o Seymour Hersh. Quem é o Seymour Hersh? É uma espécie de último moicano do jornalismo, de investigação.

É o José António Serejo.

Exatamente. É uma belíssima descrição, uma belíssima comparação. De alguma forma, quando nós vemos este documentário, ficamos sempre com aquela sensação de uma certa nostalgia, de tempo perdido, mas ao mesmo tempo aquele sentimento de que a inquietação acaba por ser uma coisa fundamental para a profissão, mesmo que os instrumentos mudem, os meios mudem, e isso independentemente da tua idade, tem que estar lá ou é importante que esteja lá. Enfim, ele cobriu e desmontou uma série de conflitos e tramas que puseram a Casa Branca em xeque. Venceu o Pulitzer, inclusivamente, no início dos anos 70, porque expôs o massacre de My Lai no Vietname e o seu encobrimento, obviamente. E aqui é interessante porque também a história como é feita, isto é realizado pela Laura Poitras, eu nunca sei bem como dizer o nome da senhora.

É Poitras.

Poitras, norte-americana, que também fez o documentário sobre o Edward Snowden, que é há uns anos, e que andou 20 anos atrás dele a tentar convencê-lo a falar. E o senhor não queria, dizia que não, mas ela consegue vencer essa relutância. Ele mesmo assim aparece de uma forma muito relutante, o que é engraçado, rodeado com os seus papeizinhos, os seus documentos todos, seu arquivo. Mas acho que também é uma viagem interessante para perceber não só como se trabalhava, mas também o que é possível ainda manter, o que se deve, de alguma forma, manter, sobretudo para quem está mais ligado à profissão, mas não só. E depois, para despedida, a minha, mas falando de uma que supostamente é uma despedida, de facto, o último livro do Julian Barnes, que vai ser editado agora em janeiro pela Quetzal, chama-se "Partida". Ele tem 80 anos, diz que é, de facto, a última conversa com os leitores. Vamos ver se é. Supostamente, a ideia era ele conseguir acabar o seu livro ao seu ritmo, para não correr o risco de ver a palavra interrompida a meio caminho. Ou, como ele diz, negar-se à morte a sua agência, pelo menos naquilo que é possível fazer. É um livro que é Barnes. Para quem gosta, acho que vai gostar. Não sei se é o melhor livro, mas lê-se sempre muito bem. Fala da vida, da morte, essas coisas banais, nada banais, e depois ainda da história de um casal amigo dele que se reencontra 40 anos depois de uma relação e que tenta uma nova relação. Só por isso acho que a premissa vale a pena. E se puderem, leiam.

Muito bem, rapaziada. Sugestões entregues estão sempre disponíveis em podcast. Sigam-nos e não percam nenhum episódio. E já sabem, usem o nosso e-mail, se assim quiserem: popup@observador.pt, com perguntas, comentários ou dicas. Nós voltamos na quinta-feira. Até lá.