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Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", o vosso encontro semanal com estes provocadores do mundo da cultura popular: Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Boucherie Mendes. Esta semana vamos falar de uma das estrelas pop mais midiáticas e talvez mais polêmicas do momento. Trata-se de Sydney Sweeney. Esta é a situação, vamos tentar abreviar. Sydney Sweeney, atriz, está a protagonizar toda uma nova polêmica. Não sei se se lembram do caso American Eagle e dos Great Jeans. Agora ela protagoniza um anúncio a uma plataforma de apostas desportivas sob o lema "Just Sports", que é como quem diz só desporto, no qual aparece com acessórios de diferentes modalidades no lugar da roupa. Estou a sintetizar, acho que não estou a errar.
É uma boa imagem.
Ora bem, a atriz, entretanto, foi acusada, sobretudo da parte de várias desportistas, mulheres ligadas ao desporto, atletas, de estar a protagonizar um duro golpe no terreno conquistado pelas mulheres por um lugar respeitado na cena desportiva mundial, falando numa sexualização exagerada e desnecessária em relação ao desporto. Bruno Vieira Amaral, vamos começar por ti. Só isso é notícia, só isso merece o respeito.
Obrigado.
Entre desporto, mediatismo, tudo isto é bastante pop, digo eu. E portanto, a minha primeira pergunta é: parece-te que estas acusações são legítimas ou parece-te que não é o caso?
São parvas.
Eh lá!
São acusações completamente desproporcionais, completamente ao lado.
Isto de falar em sound bites, sim, senhor, assim é que se começa.
Tu olhas para o que está no centro da polêmica, que é um anúncio, uma campanha publicitária, um site de apostas, uma plataforma de apostas desportivas.
Da qual ela tem parte, parece-me. Ela é uma das investidoras.
Ótimo pra ela. Isto não é desporto, isto não é um anúncio institucional a promover o desporto feminino e a participação das raparigas no desporto. Porque depois foi essa a leitura que foi feita do impacto deste anúncio. "Porque as raparigas normalmente aos 16 anos abandonam o desporto por causa das pressões sobre o corpo". O que isso tem a ver com uma campanha publicitária que usa, como usam várias marcas e fazem várias campanhas publicitárias, o corpo como objeto de desejo? O corpo feminino, o corpo masculino. Eu aceito que alguém pudesse fazer críticas: "Está se a despir demais". Sei lá, os Talibã podiam fazer essas críticas, e eu compreendia, os salafitas ou os integristas, o pessoal da Opus Dei. Mas depois ver as desportistas: "Isto é um ataque ao desporto, ao papel da mulher no desporto". Aquilo não é desporto, aquilo é uma campanha publicitária para uma casa de apostas. Se calhar, isso até era mais tema.
E ninguém falou disso, que é extraordinário.
Estás a falar do impacto. Desportistas como a Aimee Ann. Uma das coisas que mais se falou neste verão foi da rivalidade entre a Femke Bol e a Audrey Werner, as duas atletas dos 800 metros. E não se falou do corpo delas. Eu não vi ninguém a falar do que pode vir a ser uma das maiores rivalidades, e que já é neste momento, mas pode vir a ser uma das maiores rivalidades históricas no desporto, e no desporto feminino, em particular. E ninguém estava a falar do corpo, se uma é mais bonita, se uma é mais feia, se uma tem o corpo assim ou tem o corpo assado. Estava-se a falar de qualidade desportiva. Portanto, o estatuto que as mulheres alcançaram, e que foi alcançado ultrapassando muitos obstáculos. Falou-se muito também, ainda agora a propósito do Open dos Estados Unidos, voltou a falar-se das escolhas de indumentária da Aryna Sabalenka. Mas, sobretudo, falou-se da rivalidade desportiva da Sabalenka com a Rybakina, que ganhou o Open dos Estados Unidos. Ou seja, muitas vezes fala-se de assuntos laterais em relação ao desporto Eu acho que isso é válido tanto para o desporto para o setor feminino como para o masculino. Coisas insólitas. Falou-se dos mamilos do Carlos Alcaraz.
Foi?
Sim, foi. Por causa de uma camisola.
Estavam demasiado salientes.
Que apareciam mesmo. Via-se e depois alguém recomendou que ele tapasse aqui.
Ao miúdo.
O que eu quero dizer é que esse estatuto foi alcançado mesmo a Amy Ant, que foi uma das principais vozes a insurgir-se contra esta campanha. Ela é uma velocista britânica. Ganhou este ano, foi a primeira mulher a ganhar quatro medalhas de ouro nos Campeonatos Europeus de Atletismo. Veio e tal: "Isto não pode, é um ataque." A Amy Ant já é muito bonita e também beneficia disso, como beneficiam todos os desportistas que aliam a qualidade desportiva a serem atraentes, a serem sexy. Mas ver naquilo um ataque-
Ou atores ou músicos.
Obviamente, é tudo.
Ou pessoas da rádio.
No desporto, tu tens um lado de desempenho. Tu ou és bom ou não és, ou és o melhor ou não és. Mas depois há uns que ganham mais com contratos publicitários, se tiverem as características.
Porque queremos ser como eles.
Certo, obviamente. E queremos ter os corpos que muitos deles têm ou pelo menos admiramos o trabalho que está implícito nisso. Ela veio criticar e insurgir-se por qual é o impacto que aquilo tem. Honestamente, qual é o impacto que uma campanha publicitária para uma casa de apostas vai ter no desporto feminino? Eu não consigo perceber, mas elas encontraram razões para criticar a Sydney Sweeney.
Maria Ramos Silva, tu queres aqui abordar uma questão que tem a ver com clichês, com uma dicotomia de clichês que, no teu entender, é um pouco absurda.
Sim, e também tem a ver um pouco com aquilo que o Bruno disse, que eu subscrevo, aliás, acho que estamos aqui mais ou menos alinhados.
Eu já sabia.
Por exemplo, eu lembrei-me e ia referir a Sabalenka, porque de facto essa sim, tem responsabilidade. É atleta de provar que é possível fazer mais e ser melhor. E às vezes, por exemplo, é um daqueles casos em que lá está o falecimento de coisas laterais como a roupa e as joias, parece estar mais preocupada, na verdade, com aquilo que veste do que com o desempenho no campo. Porque é aí que as mulheres, de facto, podem fazer a diferença. Há aqui um pedido de responsabilidade e há aqui quase uma exigência moral e de higiene e de retidão que é pedida, por um lado, à publicidade e, por outro, à protagonista da publicidade, que não tem cabimento nenhum. E depois há essa questão precisamente das gavetas, que eu acho que muitas vezes as próprias mulheres se deixam enredar e mal contra si próprias nestes partidos, que é como se estes mundos fossem exclusivos. Quer dizer, só há dois tipos de mulheres: há as atletas virtuosas, santas, purificadas, que é bom até que nem sejam muito bonitas, porque isso vai atrapalhar. E depois temos as Sydney Sweeneys desta vida que correspondem ao extremo oposto e que só criam problemas, como se as mulheres não pudessem ser as duas coisas. As mulheres ou os homens, toda a gente não parece ser muita coisa ao mesmo tempo e não fosse assim um conjunto de inúmeras faces com aspetos positivos, negativos, coisas mais atraentes, menos atraentes. E há outro ponto, obviamente, que o Bruno falou que é fundamental, queiramos ou não. Neste caso, no desporto, que é isso que estamos a discutir, mas numa série de outros domíninhos. O corpo sempre foi historicamente uma arma e um campo de batalha e faz a diferença na forma como as pessoas depois capitalizam também a sua imagem, o seu trabalho, fora do plano em que atuam. Eu já nem vou chegar ao ponto mais absurdo que é nós estarmos em 2026 a discutir um anúncio com uma mulher despida, quando todos os dias basta irmos à internet e mesmo sem querermos, vemos gente despida. Vamos ao Instagram. Nunca essa imagem esteve tão normalizada por todo lado.
Dirias que há uma banalização?
Não.
Não estou a qualificar, é só um facto.
Sim, é o que o Bruno diz. Se nós vivêssemos na sociedade talibã, eu percebo que se estivesse, a pobre da Sydney Sweeney a esta altura se calhar não teria pescoço. Mas nós temos a felicidade, eu pelo menos sinto-me compensada por viver numa sociedade que nos permite ter tudo, incluindo ter pessoas que são maiores de idade e que tomam opções conscientes e que decidem que é ok despir-se e fazer uma campanha publicitária. Sem essa responsabilidade, de facto, terem que fazer mais ou menos pelo empoderamento do desporto feminino. Já nem vou entrar em questões, por exemplo: há uma história lendária do começo do século XX, isto em 1910, 11. Nos Estados Unidos, uma das pioneiras do copyright, que é uma senhora chamada Ellen Reza, que tem um papel absolutamente determinante na publicidade e que fez, nessa altura, uma campanha absolutamente transgressora, imagina em 1911, uma coisa de sabonetes em que tem uma imagem muito reveladora de uma mulher despida, altamente sexual. Ela introduz completamente o sex appeal naquilo. É uma pessoa que percebeu que não é a combinar que se apanham moscas, por um lado, percebeu bem a natureza humana, percebeu bem como é que as coisas funcionam e percebeu uma coisa muito simples. Naquele caso, os homens queriam ser seduzidos e as mulheres queriam seduzir os homens. Isto falando numa sociedade muito heteronormativa, mas é o que é. Agora, eu acho, de facto, espantoso que nós continuemos a colocar esta responsabilidade sobre as Sydneys desta vida.
Pedro Buchinho Mendes, vou fazer uma coisa que gosto muito, que é citar-te. Escrevias tu, na preparação para este programa, preparação exaustiva, que há nostalgia sobre o look pin-up. Estavas-te a referir, obviamente, à Sydney Sweeney. E eu faço a pergunta aqui um bocado ao contrário, que é: não será a Sydney Sweeney também um símbolo anti-woke?
O que eu quis dizer com isso da nostalgia pin-up tem a ver com aquele look da Jessica Rabbit, não sei se se lembram do filme que ela matou o Roger Rabbit. No fundo é uma mulher sedutora com o busto grande, com o corpo em ampulheta. A Sydney Sweeney tem esse tipo de formas. Tem um tipo de formas, não vou dizer à antiga, obviamente, mas uma espécie de padrão ocidental de beleza, sobretudo dos Estados Unidos, depois na Europa. Era o tipo de mulheres que fazia capa na Playboy e nesse tipo de revistas. Creio eu que se as mulheres não tivessem uma determinada dimensão, em certas partes, não teriam hipótese de chegar à capa. Não estou a dizer que está certo ou errado, estou apenas a tentar fazer aqui um traveling sobre essas coisas. Eu acho que foi este ano que as transmissões desportivas, nomeadamente do atletismo, se comprometeram a não fazer close-ups do derrière das atletas, que eram planos bastante procurados. Não sei se era porque os operadores de câmera tinham interesse especial naquilo. Se foi uma dinâmica que foi sendo criada para que as transmissões tivessem mais audiência. Ou seja, temos aqui o desporto, mas também temos aqui umas miúdas giras, vamos lá filmá-las. E a partir deste ano foram evitadas. Já se notou aqui no Europeu de Atletismo e agora nota-se na Liga Diamante, acho que é assim que se chama, onde houvesse a rivalidade entre a Femke Bol e a Aarielle Harrison e aquela inglesa Keely Hodgkinson. Os 800 metros estão a mudar muito e o Bruno tem razão. É por causa da marca, é por causa da competição e da competência das atletas e não por causa das suas formas. Uma destas atletas, a inglesa, por exemplo, maquilha-se sempre, faz sempre maquilhada para as provas. Isto da Sydney Sweeney remete também para o vólei de praia, que é relativamente recente nos Olímpicos e onde também os realizadores, os operadores de câmera e os espectadores lavam a vista, desculpem a expressão, porque as atletas são sempre abençoadas pela natureza. Aqui o que me parece é que o chamado backlash em relação a este anúncio da Sydney Sweeney, ela parece que é acionista desta casa de apostas, vamos chamar assim para simplificar. Isto é mais prediction. Portanto, ela diz: "Este Just Sport", porque as outras casas de prediction fazem também política e coisas pop. Qual vai ser do sexo.
Sim, vão a todas as áreas.
Exato. Portanto, isso aqui é Just Sport.
Exato.
Ela já tinha feito jeans. E eu acho que a reação das outras atletas é compreensível. Não estou a dizer que concordo. É compreensível porque, de alguma forma, a luta vinha sendo ganha. Conseguiram que as câmaras de televisão não se aproximassem tanto. Conseguiram que o vólei de praia mudou os equipamentos também, deixou de ser obrigatório, porque acho que era obrigatório serem tanga ou asa delta. Deixou de ser obrigatório. E de facto é ridículo que o corpo da mulher atleta ou qualquer mulher, que não seja a sua opção, seja objetificado desta forma. Ou seja, eu quero ser uma voleibolista famosa. Caramba, não precisamos sempre de filmar o rabo. Eu acho que isso faz sentido, é lógico e legítimo. Mas também é legítimo a Sydney Sweeney fazer os anúncios que entender. A Sydney Sweeney tem noção do poder da sua feminilidade, para usar aqui um eufemismo. Tem noção do seu valor de mercado, tem noção do impacto que tem no homem médio, comum, e usa isso a seu favor. Eu acho que teria sido pior ou teria sido mau se ela fosse sonsa a esse respeito. Assumindo, e o anúncio é claramente irônico e assume que ela assume as formas. Parece-me que é só uma coisa divertida. Até acho que é comic relief, como estas mulheres que têm este lado Jessica Rabbit costumam ser ou costumavam ser o comic relief dos filmes de terror. Havia sempre uma miúda muito atraente, que era sempre uma das primeiras vítimas.
Scream Queen.
Sim, era sempre a primeira vítima ou segunda.
E normalmente era a primeira.
E aí é que se importava.
E de facto eu acho que é importante separar, até porque o Pedro toca aqui num outro aspecto importante, que eu acho que também não deve ser deixado ficar em lado nenhum, que é: onde é preciso, de facto, fazer esse caminho, e há muito para mudar, é no plano desportivo. Ou seja, é inaceitável que uma atleta está a competir, estejas a filmar um lado qualquer do corpo.
Ou que seja obrigada a vestir.
Precisamente. Portanto, isso aí eu acho que é indiscutível e esse caminho tem que continuar.
Um claro objetivo.
Um claro objetivo, sim. Como tu sabes que havia aquela coisa e que ainda há, de procurar as miúdas giras nas bancadas quando vão aos estádios. Isso prevalece. E nós sabemos qual é a motivação e tudo mais. Agora, depois há este outro plano. De facto, há aqui uma coisa diferente.
Pedro, antes do intervalo.
Sim, rapidamente. A indústria do equipamento desportivo tem vindo a crescer imenso, também porque coloca no mercado um determinado tipo de roupa que algumas mulheres gostam de usar para realçar as suas delas formas. Ou seja, a indústria do desporto deixou de ser apenas coisas que dão jeito para a transpiração, para ser também coisas que realçam.
São sexy, a verdade é essa. A verdade é que são sexy, apostado.
Mas também não está certo nem errado. Quer dizer, quem quiser usa.
Obviamente.
Eu não uso, por exemplo.
O que é uma pena.
Não discuto o teu tópico.
Não estou a dizer que é uma pena. Muito bem, final da primeira parte do PopUp. Voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "Pop Up" com a Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e o Pedro Bucher Mendes. Esta semana estamos a falar sobre Sydney Sweeney, a nova polémica que protagonizou com o novo anúncio e o lugar que ocupa no cinema, na TV, no espaço mediático em geral. Bruno Vieira Amaral, falando em cinema, TV, etc, Sydney Sweeney entrou em séries aclamadas, podemos dizê-lo, como "Euphoria" e "White Lotus". "White Lotus", se não me engano, foi na primeira temporada.
Na primeira.
Fez um ótimo papel aí.
Exato. Já nos filmes, têm sido razoavelmente desconsiderados ou até arrasados pela crítica. "Todos, Menos Tu", "A Criada" ou "Cristi", em que fazia uma coisa um bocadinho diferente, fazia de pugilista.
Queria fazer ali um Charlize Theron.
Exato. Será que Sydney Sweeney vai ser um nome marcante em Hollywood pela representação, não pelas polémicas, e que para isso vai ter que, se calhar, mudar um bocadinho a abordagem fora da televisão e do cinema? O que te parece?
Até agora não lhe tem corrido muito bem. Para conquistar essa respeitabilidade, apesar de ter entrado nessas séries, não era ela o motor das séries. Não dizem: "É aquela série da Sydney Sweeney."
Exato.
E os filmes em que ela tem sido protagonista, e saíram vários num curto período de tempo, também não foram grandes sucessos. Apesar de ter feito algum dinheiro, "A Criada", muito a reboque do sucesso do livro. Muito longe disso, não foi um sucesso de crítica. Portanto, não me parece que ao nível da representação, mesmo como estrela, Sydney Sweeney tenha alcançado o mesmo estatuto que já tem como figura pop no geral, muito graças a estes anúncios. Aquilo que eu dizia na primeira parte, que é as reações desproporcionais em relação a isto. Há aqui qualquer coisa na Sydney Sweeney.
Ela chateia, achas que ela enerva?
Eu acho que sim. Vejamos uma coisa. Nós, no desporto e em muitas outras áreas e no cinema, na verdade, voltamos sempre a discutir a questão do corpo e, em particular, do corpo das mulheres. São corpos gordos, são magros. Falávamos muito antes das modelos na época da Kate Moss.
Isto é surpreendente que em 2026 ainda seja tema?
Ainda seja tema. E parece que suscita até reações mais extremadas nas próprias mulheres. Quase como se ela não tivesse o direito de usar o corpo como bem entende. Ela não está a fazer pornografia. E mesmo se estivesse. No outro dia estava a ler uma reportagem no "Público" sobre as modelos.
Pensava que estavas a dizer: "No outro dia estava a ver..."
Não. No outro dia estava a ler uma reportagem do "Público" sobre as modelos portuguesas do OnlyFans. E isto gera ainda uma grande perplexidade em certas pessoas. Por um lado, pela independência e autonomia das mulheres decidirem fazer o que querem com o corpo e exibirem ou não exibirem o que querem. Mas quando exibe: "Ai, Jesus, não pode ser, porque isto é sexualizar." Continuamos, em certa medida, no mesmo ponto. E eu acho que é isso que, se calhar, valida o estatuto da Sydney Sweeney. É as reações, quanto a mim, completamente desproporcionais, que qualquer coisa que ela faça, gera mesmo as reações negativas aos filmes. Eu creio que passam um pouco pela figura da Sydney Sweeney. Ou seja, os filmes suscitaram uma onda de reações negativas, ou não haveria críticas a esses filmes, ou seriam menos contundentes se fossem outras atrizes. Portanto, não te sei dizer se ela se vai tornar uma grande figura de Hollywood pelo sucesso dos filmes em que participa ou por ter aquela capacidade de ser ela a arrastar multidões para ver um filme. Não te sei dizer. Isso não tem acontecido até agora, mas parece-me que já conseguiu conquistar aqui um espaço de centralidade mediática muito superior a outras atrizes da geração dela, mesmo como a Margaret Qualley. É esse o nome dela, não é?
É.
Ou, um bocadinho, se calhar, mais velha, aquela Alessandra D'Addario.
Também entrou no White Lotus.
Também entrou no White Lotus, também se destacou pelas características físicas muito proeminentes. Mas a Sydney Sweeney conseguiu, por magia, não sei, estar no centro de várias polémicas, de vários debates, em que se está sempre a discutir o corpo dela e essa alcance é muito maior do que seria de esperar olhando, por exemplo, para a filmografia dela, que objetivamente é pobre.
Maria Ramos Silva, este é um assunto, como dizia o Bruno, que se arrasta há bastante tempo. Não sei se ainda é tema, se é relevante ou não, que é a diferença entre homens e mulheres quando chegamos a este campo do corpo e da forma como usam o corpo ou como o corpo é comentado ou é origem de polémicas ou não. Parece-te que continua a ser diferente? Já foi mais? Em que ponto é que estamos?
Vemos que são temas persistentes, mas são temas persistentes. Os números dizem isso, que há uma persistente desigualdade a nível salarial, a nível das condições de acesso a uma série de coisas. Temos indicadores que apontam nesse sentido. As coisas teoricamente estão melhores do que estavam há 50 anos, mas nós continuamos a ouvir casos, por exemplo, de pessoas que não veem contratos renovados porque engravidam. Há muita coisa ainda por resolver, obviamente. Eu acho que o plano do corpo é, de facto, um campo mais complexo, porque percebo que haja aqui mais foco no feminino, por razões óbvias, mas nós temos um exemplo, temos um anúncio com o Brad Pitt na televisão em que aparece o Brad Pitt simplesmente a ser Brad Pitt, calado. Não está despido, mas o Brad Pitt nem precisa de estar despido.
E o anúncio diz isso.
Exato. Que é o mais hiperssexualizado que pode haver.
É a objetificação.
A maior objetificação que pode haver.
O anúncio começa por dizer: "O Brad Pitt está aqui só para chamar a sua atenção". É isso.
E na verdade, ninguém está a falar disso.
E resulta.
Mas eu não ouvi ninguém falar disso. E resulta. A questão é essa. E eu acho que nós às vezes temos uma tentação, que é natural e compreensível, enquanto seres humanos que vamos avançando e progredindo e que tentamos intelectualizar as coisas. Tentamos encontrar explicações mais rebuscadas para aquilo que fazemos no nosso dia a dia. E a maior parte das vezes somos criaturas muito básicas e que seguimos instintos de resposta muito básicos. E eu não quero ter a tentação de pôr a Sydney ou outras pessoas no divã, salvo seja, e perguntar ou tentar descobrir por que ela supostamente precisa se despir para encontrar uma validação. Eu não quero entrar nisso, percebes? É possível, nós podemos estender essa questão a isso, por que há pessoas que se prostituem, por que há pessoas que preferem monetizar o seu corpo no OnlyFans. Mas, como se costuma dizer por cá, também foi para estas pessoas que se fez o 25 de Abril. É para as mulheres quererem ser mulheres que respeitam todos os cânones da emancipação, na nossa cabeça, e para as mulheres que querem estar em casa a cuidar dos filhos e a cozinhar nuas, porque também as há. Acho que isto é uma conversa muito pantanosa, que no fundo não nos leva a lado nenhum, porque o corpo é das armas, volto a isto, mais primordiais que nós temos e que vai continuar a ser tema. E nem a internet, com essa tal banalização da imagem, aparentemente acalmou esta ideia, porque eu acho que nós somos, de facto, muito mais crus do que pensamos que somos. Nós vamos polindo aqui uma série de coisas, e bem. Tomamos decisões que são benéficas, neste caso, para as mulheres. Tentamos melhorar, ou espero que continue a haver este investimento em melhorar as suas condições no desporto, como são vistas, como são tratadas, como a câmera as trata. Mas depois, em última instância, eu não posso obrigar nenhuma destas mulheres a comportar-se como eu gostaria que elas se comportassem. Portanto, prefiro viver num mundo livre, menos limpo e menos asseado e onde há este grão que permite que as pessoas façam o que querem, basicamente.
Pedro Balseirinhos, eu queria saber a tua opinião sobre até que ponto isto tem a ver com a política que hoje vivemos. A Sydney Sweeney tem sido associada muitas vezes a um lado conservador, o Make America Hot Again, o Partido Republicano. Se não vivêssemos o contexto político que vivemos hoje em dia, haveria estas polémicas da mesma maneira? Haveria o tratamento midiático destes casos como tem havido? O que te parece? É tudo política hoje em dia?
Não te quero desanimar, mas há sempre um contexto político.
Não, eu estou a dizer este específico.
Pronto, mas há sempre um. Um pensamento interessante, se me permites, um contrafactual interessante é como é que seria este mundo se não houvesse redes sociais.
Ora bem.
Isto é, imagina Marilyn Monroe e aquela fotografia no metro, sem o vestido. Imagina que naquela altura havia redes sociais. Como é que se teriam manifestado as pessoas, as atletas, as outras atrizes, as escritoras, a Simone Veil, estou a inventar. Nós nunca saberemos, porque essas redes sociais não existiam. O que teriam dito as redes sociais, quando eu digo as redes sociais, significa que uma pessoa de Viseu ou uma pessoa de Santander ou uma pessoa de Nova Deli, está em voz.
Claro.
O que teriam dito essas pessoas no tempo da Princesa Diana se existissem redes sociais? Teriam a favor dela, teriam contra ela, na questão do divórcio com o Príncipe Carlos. Agora temos redes sociais, fazem parte da equação e, portanto, o contexto, os tempos que vivemos são tempos de redes sociais. E nós vivemos tempos de entertainment.
Sim.
Raiva, entretenimento, em que a vida nos corre mal, incluindo a mim.
Imaginem.
Nós temos que descarregar em algum lado.
Não há esperança para imaginarem.
E temos que descarregar em algum lado. O mundo é enorme, mas eu faço um tweet ou faço não sei o quê. E isto da Sydney Sweeney é um alvo seguro.
O saco está mesmo ali à mão.
Exatamente. Quando nós jogávamos em miúdo, não sei como era com vocês, mas eu jogava sempre com batotéis que se iam aproximando do alvo.
Claro.
E depois às tantas já tocavam.
Depois jogava a rodinha com guelas.
Exato. E a Sydney Sweeney, que tem aquele corpo muito eloquente, e faz este anúncio, que ainda é mais eloquente do que o corpo.
Estava mesmo a pedi-las.
Não é mais do que isto, Zé. Se tu atirares a bola, ou a seta, ou o berlinde, acertas. É impossível errar. Há sempre qualquer coisa para dizer. Acompanhando as séries, nós vemos que as séries do Taylor Sheridan, que eu acho que é uma coisa que ainda não chegou a Portugal, essa discussão, são todas muito à antiga, e o à antiga inclui as mulheres terem filhos, por exemplo. O pai trabalha e a mulher está em casa.
Papéis tradicionais.
E faz aquela tarte de maçã que faziam sempre nos filmes. Que depois punham nos livros da Disney, punham na janela a arrefecer, depois havia sempre alguém que roubava.
Exato.
A Sydney Sweeney pertence a esse tipo de universo referencial? Talvez, não sei. Mas com certeza, se fosse uma mulher com o cabelo encarnado, cheia de tatuagens e com brincos no nariz, e não sei o quê, e muito magra, e manda a zacava e um skate baixo do braço.
Essa de certeza que não
Essa, se calhar, seria a filha rebelde da Sydney Sweeney. Eu não sei, até porque não sou mulher e porque não me interessa muito o assunto, eu não sei quais são os desafios estéticos da mulher de hoje em dia. Não sei se elas, estou a generalizar, "Ai, gostava de ser mais alta, ou mais loira, ou mais ruiva."
Não, agora toda a gente quer ser mais magra, por causa do
Ou consegue ser. Não sei mesmo. E isto parece-me que a Sydney Sweeney irrita as outras mulheres porque ela consegue ser assim e parece confortável na sua pele. Até há uma frase, não sei se ainda vais dizer, mas que ela disse. Como é que é a frase?
Sim, ia passar a bola ao Bruno. Tem tudo a ver com o mesmo tema. Quando ela deu uma entrevista aqui há um ano e tal, à Glamour britânica, em que ela dizia: "O maior equívoco sobre mim é que eu sou uma loira burra com mamas grandes. Na verdade, sou morena." A minha pergunta é: eu acho que há bocado dizias isso, que tem a ver com a inteligência e com a perspicácia. Ela, no fundo, está a ganhar?
Claro, parece-me que sim. Vendo todas estas reações.
Porque há aqui uma questão que é: sobretudo, dado aquilo que já aconteceu, chega a este anúncio, este específico, depois do que aconteceu, por exemplo, com o anterior. Ela conseguirá prever o que vai acontecer.
Não sei se consegue prever o que vai acontecer, mas lida muito bem com as reações.
Ou aparentemente, pode estar encharcada em antidepressivos.
Estou a falar das reações públicas.
Aquilo que sai para fora.
Todos nós podemos estar encharcados em antidepressivos.
Nunca se sabe.
Ela também pode estar. Publicamente, as reações dela são de alguém que convive muito bem com as reações que desperta, quer tenha conseguido prevê-las ou não. Não faço ideia também se as conseguiu prever. Acho que há um lado também já de alguma provocação. Sim, daí talvez ela esteja à espera.
Estás à espera agora do próximo anúncio também.
Estamos mais à espera do próximo anúncio do que propriamente do próximo filme da Sydney Sweeney. E é nesse sentido que eu dizia que ela já alcançou um estatuto que está muito acima do que mostrou até agora enquanto atriz, mas ela também parece conviver bem com isso. Parece conviver muito bem com o corpo que tem, com as características que tem. Faz uso, tira proveito disso mesmo e se calhar é isso mesmo que irrita as outras pessoas, é ela ser como é, conviver muito bem com isso, usar isso a seu favor, pôr toda a gente a falar dela por causa destes anúncios, mesmo com interpretações estapafurdias, como aquela do jeans, associá-la à supremacia branca e ao eugenismo. Quer dizer, é de loucos, são coisas que uma pessoa imagina que só poderiam acontecer nos nossos tempos. Eu devo lembrar que uma das reações dela, agora a esta polémica, foi publicar nas redes sociais capas de revistas em que desportistas como a Serena Williams e outras posaram nuas ou com muito pouca roupa. E disse tudo com isso. Foi um argumento em que não precisou de argumentar muito.
Achas que foi uma espécie de mic drop?
Foi. Eu acho que ela nem pôs lá, ou pôs um comentário muito breve e só partilhou essas capas. E no fundo quer dizer: "Minhas amigas, façam aquilo que entenderem com os vossos corpos e está tudo bem."
Também desde muitos tempos. Na altura, aparentemente, não terá havido esse tipo de contas.
Há pouco falavas das diferenças que há entre homens e mulheres e como as mulheres, por exemplo, quando engravidam, são muito penalizadas em termos laborais. Imagina o que seria hoje a Demi Moore posar grávida para uma revista. As discussões que isso não iria gerar. Dizer: tantas mulheres que sofrem por estar grávidas e são despedidas e a Demi Moore, porque é uma privilegiada, está a mostrar a barriga. Enfim, esta é uma tentativa de imaginarmos o que seria o mundo de há 30 anos com redes sociais. Acho que ainda seria pior.
Maria Ramos Silva, para terminar, e uma curiosidade: a Sydney Sweeney conquistou fama no mesmo momento e no mesmo sítio que a Zendaya, com a série "Euphoria".
Mas eu acho que a Sydney, por vários fatores que nós já referimos aqui, e o Pedro tocou também num aspeto importante. Nós queremos ou não, vivemos num tempo de grande diluição dos padrões de beleza, ou seja, e num mundo muito andrógino, se quiseres. Nunca se viveu um tempo tão transversal nesse sentido. E ela, de facto, personifica ali uma figura do ponto de vista estético, físico Que é muito estruturante e muito associado a um cânone que até esteve muito afastado daquilo que era o mediatismo, a preferência na ficção. E de repente parece uma coisa ao mesmo tempo arcaica, de um outro tempo.
Desatualizada.
Desatualizada. E eu acho que isso também causa alguma perplexidade às pessoas, incluindo às mulheres, a quem também foi vendida uma série de coisas e que hoje seguem uma série de coisas. Eu há bocado falava no Ozempic, mas não era por acaso, porque acho que também tem muito a ver com estes tempos. Tu se reparares, e o discurso nas redes nos últimos anos sempre foi um discurso de aceitação, quanto a mim, muitas vezes pseudo ou falsa aceitação, mas enfim, seria outro programa, em que as pessoas têm aquela cultura de: "Eu adoro ser como sou e aceitar-me." Sim, até na verdade me venderem uma coisa que me permite ser mais magro. E não há mal nenhum nisso. As pessoas fazem o que podem para estarem bem consigo mesmas e para mudarem, para melhorarem o seu corpo.
Ou no limite, fazem o que querem.
Pronto, ou no limite, fazem o que querem. E eu acho que aqui, provavelmente, este grande choque extra, se quiseres, que a Sweeney traz, é de facto ela representar quase uma espécie de-- por facto eu olho para aquele anúncio e olho para anúncios de há 50 anos e só faltava, de facto, em vez de ter as bolas, estar com uma esfregona e ser aquelas imagens sexistas dos anos 50.
Eu falava da Zendaya porque parece que simbolizam coisas completamente diferentes.
Mas a Zendaya tem um corpo diferente. A Sydney Sweeney tem um corpo diferente. Se quisermos ir aí, também vamos chegar aí.
Mas é, digo eu, parece-me considerada como uma das mulheres mais bonitas, se quiseres, no cinema atual, em que a imagem vale mais também.
Certo, mas nós estamos a falar-
Mas foram caminhos diferentes.
Nós estamos a assumir que há um consenso em relação à Sydney Sweeney, que também é outra falácia. Fazemos a ideia de que toda a gente e todos os homens ficam altamente interessados. E se calhar, sim, 90%.
Homens e mulheres.
Tudo bem. Mas já nem vou entrar por aí. Que a esmagadora maioria está altamente interessada naquela imagem. Mas se calhar também há pessoas que não estão, porque nós também temos certezas inabaláveis na nossa cabeça de que aquela pessoa é extraordinária, é gira, sexy, toda a gente a adora. E se calhar, não. E se calhar a pessoa está enfrascada entre antidepressivos, como falámos há pouco. Se calhar não se acha gira.
Nós vemos um corpo como o da Sydney Sweeney, eu estou a lembrar-me, ainda há pouco falava da Alessandra Daddario no "True Detective", naquela primeira temporada, e depois damos conta: "Afinal, este tipo de voluptuosidade ainda funciona."
Sim.
Já não deveria funcionar, já é estranho que funcione, mas a verdade é que funciona, e funciona tanto que estamos aqui a falar.
Eu acho que nós tínhamos a ideia de que havia aqui uns tempos mais domesticáveis, se quiseres.
E depois voltas e se calhar é back to basics. Back to basics, sim, senhora. Fecha-se bem este programa final de mais um "PopUp". Já sabem que podem escrever-nos para popup@observador.pt. Sigam-nos nas plataformas de podcast. Nós voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.