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Julho, meus amigos, também é mês de sugestões e por isso aqui continuamos com mais uma dose semanal. E vamos começar pelo Bruno Vieira Amaral. Vais começar por Riefenstahl?
Riefenstahl, uma senhora muito simpática.
Um nome novo.
Jovem, muito querida.
Uma nova proposta.
Algum de vocês já tinha falado. A Maria.
Eu falei. Foi esta mesma semana.
Exatamente. A Maria foi ver ao cinema, pelo Zoom. Eu não, eu vi no videoclube.
Era o que faltava.
É muito difícil, é muito complicado. Leni Riefenstahl, a realizadora do nazismo. Quer dizer, contra isto.
Para não gastar mais palavras.
Não errou.
Claro que é uma personagem fascinante. Eu, nos tempos em que frequentei a faculdade, tive uma cadeira que era Sociologia da Arte. E na altura, entretanto perdi isso tudo, fiz um trabalho sobre o Olympia - Os Deuses do Estádio, que é o filme oficial dos Jogos Olímpicos de Berlim de 1936.
E esse documento não existe.
Esse documento, eu também não tive uma grande nota. Eu acho que o professor era o Alexandre Melo, se não estou em erro. Imaginem, Sociologia da Arte.
A quem envias um abraço.
A quem envio um abraço.
Sentido.
Acho que nunca falei com ele. Fui aluno dele, mas acho que nunca falei com ele. Ou se calhar falei.
Quem será que perdeu mais?
Ficámos todos a perder. O mundo ficou a perder, como teria perdido se Riefenstahl tivesse tido um pingo de decência e tivesse dito: "Eu não aceito fazer estas encomendas".
Se Riefenstahl fosse de esquerda, também tínhamos perdido.
Não, no documentário ela diz: "Se fosse o Stalin a encomendar, eu também fazia. Quer dizer, estou aqui para isso".
Estou aqui para trabalhar.
Estou aqui é para trabalhar, meus amigos. E quem me dá trabalho é que é o meu amigo. Claro que ela tentou, ao longo de toda a vida, separar claramente a dimensão moral, a dimensão ética da arte. Mas não há maneira de escapar a isso, porque houve realizadores que foram perseguidos, que foram obrigados a fugir da Alemanha nazista. E ela sabia disso. Portanto, foi uma escolha que ela fez. Ela podia dizer quando estava viva, morreu aos 101 anos, em 2003, que só queria trabalhar, estava lá a fazer o meu trabalho e não tinha nada a ver com o extermínio.
Lá começa.
Com as perseguições. Não, enfim, isso são tudo desculpas. Ela fez uma escolha e estava dentro daquele terreno. Outra coisa é, de facto, a qualidade artística, que não só este filme, Os Deuses do Estádio, mas o próprio Triunfo da Vontade, que é um filme sobre um congresso do Partido Nazista, em Nuremberg, creio que em 1934.
São extraordinárias.
Eu, na altura, para esse trabalho, vi só Os Deuses do Estádio, o Olympia, e foi revolucionário desde o prólogo, que também é mencionado e que é diferente, que é quase uma coisa de celebração e de encontrar uma ligação entre a antiguidade clássica, a Grécia antiga e o culto do corpo, e aqueles Jogos Olímpicos, depois permitindo aqui também interpretações e leituras ambíguas. Seria aquilo também a celebração do corpo e do culto do corpo ariano, da perfeição. Numa entrevista, creio que ela deu em 1970 e tal. Teria filmado corpos de deficientes, de pessoas com deficiência? Também é um bocadinho já esticar a corda, porque está a falar das filmagens daquele evento desportivo em concreto. Portanto, ela tinha que filmar aqueles corpos e não outros. O conteúdo do filme não a faz defensora de teses racistas e de eugenia. E são, de facto, filmes brilhantes que influenciaram realizadores da altura. O Frank Capra, por exemplo, que depois fez filmes de propaganda para o governo, para o exército norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial, foi inspirado por ela. Muitos outros realizadores que não concordavam e que estavam em espectros políticos opostos, falaram da influência, da qualidade, do grau de revolução que representou aquele tipo de filmagens, e isso não se pode apagar. De facto, tal como não se pode apagar o facto de ela ter aceitado trabalhar em estreita colaboração com Hitler e com o nazismo. Claro que é uma personagem fascinante.
E escreve ela tão bem coisas ao mesmo tempo. Então aquela fase, aquele périplo africano dela é uma coisa...
Sim, que é uma tentativa de mitigar toda aquela carga, porque ela continuou sempre, como é óbvio, a ser associada ao nazismo, porque, verdade seja dita, aquilo que fica da obra de Leni Riefenstahl foi feito naquele período e foi feito para o Partido Nazi, foi feito para Hitler. Não há forma.
Assim não é fácil, amigo.
Não há como escapar a isso.
É propaganda, mas é ótima propaganda. A verdade é essa.
É muito bem feito.
Tem pena. Muito bem. E Borges?
Borges também, coitado, levou muito na cabeça por outras considerações, nomeadamente em relação à ditadura de Pinochet. Atribui-se a isso o facto de nunca lhe ter sido dado o Prêmio Nobel.
Havia.
Mas eu quero falar de um outro livro, que é "O Livro dos Prólogos", recentemente editado pela Quetzal, em Portugal. Eu creio que não tinha sido editado, se não estou em erro, ou pelo menos pela Quetzal não tinha sido, e a Quetzal tem feito reedição de muitas obras do Jorge Luís Borges, e este é "O Livro dos Prólogos", que é quase uma obra borgesiana por excelência. Por quê? Porque é uma compilação de prólogos que ele escreveu, prefácios que ele escreveu para livros de autores como o Kafka, o Robert Carlyle, escritores argentinos mais ou menos obscuros, mas também Melville, Ray Bradbury. Há aqui uma série de nomes e de literatura. Este olhar para a literatura de várias épocas, e em particular os clássicos, ele também fala do Cervantes, é um olhar borgesiano, erudito. E há um lado também aqui de jogo, porque ele no prólogo a este "Livro dos Prólogos", acaba por dizer que tinha um projeto, e que foi feito por outros escritores, que era de escrever um livro que fosse só de prólogos a livros inexistentes. E esta ideia é uma ideia que nós associamos a Borges e que ele aqui faz com livros que existiam mesmo. Portanto, são prólogos a sério, para livros a sério, mas em que o próprio conceito acaba por ter um lado quase lúdico e de brincadeira meta literária, sendo que aqui estamos a falar mesmo de livros que existiram. E também estão aqui algumas reflexões que ele depois tem. Encontramos noutros ensaios, por exemplo, quando ele reflete sobre o Francisco de Quevedo, escritor espanhol, creio que do século XV, XVI, se não estou em erro. E ele tenta explicar por que Quevedo nunca alcançou a glória, por exemplo, de um Cervantes ou de outros escritores, que alguns ele até considerava menores do que Quevedo. E essa reflexão que está aqui no prólogo a um dos livros de Quevedo, também está noutros ensaios de Borges. Portanto, encontramos aqui também reflexões sobre Melville, que ele usa noutros ensaios. É uma excelente porta de entrada para este lado, não o lado da poesia de Borges, nem da ficção, mas do Borges ensaístico.
Francisco Quevedo, nascido no século XVI, morreu no século XVII.
Morreu já no século XVII.
De facto.
Paz à sua alma.
Bruno Vieira Amaral, já chega ou tens mais qualquer coisa?
O que eu tinha dito?
Tens a história.
Do Costa Concordia.
Daquele navio.
Um documentário sobre o Schettino. Não é sobre o Schettino.
Grande personagem também.
Aquele navio é uma personagem, na altura ficou célebre, mas eu vi este documentário sobre o naufrágio do Costa Concordia, que na altura todos nós centrámo-nos um pouco no lado mais burlesco do comandante, do capitão Schettino, o que era inevitável, e esquecemo-nos da tragédia que aconteceu.
Aborda mais a tragédia.
Aparece lá também o Schettino, mas não está centrado nessa figura muito italiana do comandante. Mas, de facto, aquilo foi uma tragédia. E nós se calhar perdemos um pouco a noção da dimensão da tragédia e este documentário que está na Netflix recupera. Aquilo foi, de facto, muito assustador.
Uma tragédia com um navio de cruzeiro.
Com um navio de cruzeiro.
No Mediterrâneo.
No Mediterrâneo. Nós perdemos essa dimensão. Morreram 12 pessoas.
Foi já este século?
Foi em 2012. E nós perdemos essa noção da tragédia humana que foi, das circunstâncias em que a catástrofe aconteceu e o documentário na Netflix ajuda a recuperar isso.
Morreram 32 pessoas.
32, é preciso.
E o amigo Francesco Schettino-
Foi condenado
...foi condenado a 16 anos de prisão. Maria Ramos Silva. Só tenho aqui uma indicação tua, "Espião Zigzag".
Sim, mas eu trago esse livro, trago outro.
Ora bem, eu não duvido. Vamos a isso.
Mas posso começar por aí. Não é novo, a história não é nova. Eu acho que está publicada agora este mês pela Dom Quixote, uma edição em estreia. Eddie Chapman, "Agente Zigzag", é a história de um lendário agente duplo da Segunda Guerra Mundial. Um senhor chamado Ben Macintyre, ele é um jornalista inglês que se dedica muito a este tipo de enredos com personagens quase sempre masculinas, julgo eu, muito ligadas desde a Segunda Guerra, Guerra Fria, por aí fora. Quase todas elas têm como fato terem vidas maiores que a vida, como se costuma dizer, absolutamente lendárias. São personagens iminentemente do século XX. É difícil imaginar como é que se moveriam estas pessoas hoje e se poderiam fazer coisas semelhantes. Provavelmente não. Este Eddie Chapman era Um pequeno criminoso. Começa por ter uma história muito banal, acaba preso na ilha de Jersey e a partir daí tem uma vida absolutamente fascinante, porque ele passa ali a bailar com os nazistas, ao mesmo tempo que os aliados, numa vida dupla, com uma curiosidade extra de, como muitas outras ou algumas pessoas nesta fase da guerra, terem passado por Lisboa, ter chegado de barco a Lisboa, com um planeamento, eu não vou dizer muito mais. Visitar alguns pontos que também são na cidade reconhecíveis para quem lê, que também é interessante. E portanto, recomendo. Acho que é uma belíssima leitura de verão, daquelas que se devora num instante. Eddie Chapman, "Agente Zigzag", da Dom Quixote. Depois trago uma outra edição também da Dom Quixote. Foi por acaso, não foi propositado, e é um romance belíssimo. Parece que é o primeiro romance. Ela tem outras coisas publicadas em termos de poesia e prosa também, mas é o primeiro romance publicado cá, chama-se "Pirilampo". Venceu o Prêmio Lumen no romance em 2024, de uma senhora chamada Natalia Litvinova. E é uma história absolutamente fascinante, muito bem contada. Ela nasceu na Bielorrússia em 86, precisamente poucos meses depois do desastre de Chernobyl, da central nuclear. É uma coisa lá está, que para nós, eu penso que ainda é muito presente, as nossas memórias dos anos finais dos 80, 90. Durante muitos anos crescemos e lidamos com esse pano de fundo. E imaginar aquilo que é a história desta, na altura, criança que vive na Bielorrússia, portanto isto antes da queda do muro, com toda a desinformação soviética pelo meio. Como é que foi, de alguma forma, ser criança e depois até ao exílio, a fase da sua vida já na Argentina, porque eles depois instalam-se em Buenos Aires. É uma história absolutamente extraordinária, que também recomendo, "Pirilampo", da Dom Quixote. Por fim, trago música. Está para sair, penso eu, mas eu penso que já está disponível. Para mais uma viagem no tempo, neste caso aos anos 90. Uma box incrível com oito vinis de DJ Shadow. São os da Mo' Wax Singles, de 93 a 97. Basicamente, o que era a Mo' Wax? Era uma editora de música britânica fundada por James Lavelle em 92, muito pioneira no trip-hop, no dub e hip-hop alternativo de meados de 90. Deu-nos muita coisa boa, pelo menos a mim, eu acho que deu muita coisa interessante, nomeadamente este DJ californiano, DJ Shadow.
Experiências. Deu-nos experiências, certamente.
Também. Isto é muito interessante, porque havia uma série de faixas, isto é pré-iTunes. Portanto, era uma série de faixas que estavam ali, andavam sabe-se lá onde, e que agora estão finalmente reunidas, para quem gosta de ouvir estas coisas, assim como grande empreitada. É uma bela edição, daquelas mesmo de colecionador. Para quem não quiser uma coisa tão vasta, pode sempre fazer o que eu fiz, que é regressar ao "Introducing", que é um álbum que parece que não tem 30 anos e continua absolutamente extraordinário, portanto, é ouvir.
Sim, senhora. Três coisas para vos dizer. Primeiro, vi o primeiro episódio de uma série que está na Apple TV+, que se chama "Lucky". É uma série protagonizada pela Anya, a moça que fazia o "Gambito de Dama".
Exato.
Fiquei desgenerosamente interessado em ver para onde é que aquilo vai. Aquilo é uma série sobre uma fuga. Portanto, ela é uma bandida, que está envolvida com outros bandidos e basicamente aquilo que me deu a entender é: ela vai passar a vida a fugir. Aquilo são seis ou sete episódios, portanto, não sei se vai ser apanhada ou não.
Gostaste do primeiro?
Vi o primeiro episódio.
Boa.
Parece-me uma coisa razoavelmente bem feita dentro do gênero ação na televisão, que é uma coisa que normalmente eu odeio. Se aquilo vai para algum lado ou não, vamos ver. Estou curioso, mas vou dar o benefício da dúvida. Segunda, um livro, chama-se "A Sudden Flicker of Light" e é uma nova história do cinema, que é do David Thompson, que é um crítico que escreve há cerca de 200 anos sobre cinema em vários sítios. Parece que tem pontos de vista muito particulares. Fiquei muito curioso para ver isto. Em terceiro, mas não último, fui ver o "Odisseia", meus amigos.
E então?
Fui ver o "Odisseia". Não fui ver no IMAX, porque não há bilhetes. É uma coisa extraordinária. Está tudo cheio. Também não há muitas salas com IMAX. Mas fui ver numa sala assim-
Simpática. Boa
...chamada XL ou assim uma coisa. Grande, tem um ecrã bastante grande.
E então?
Olha, então.
Gostaste?
Gostei médio, médio menos. A história é extraordinária, mas a culpa não é do Nolan.
Conseguiu estragar a história extraordinária?
Mais ou menos.
Olha, mas são quantas horas?
São aproximadamente três. Não sei se chega mesmo a três horas. Mas o tempo, está tudo bem, desde que a cadeira seja confortável, não é por aí. O que se passa? Ele obviamente tem que fazer uma adaptação, senão vai ter que dar uma de Villeneuve e fazer o "Dune" em dois ou três filmes, e aquilo se calhar vai correr mal. Há soluções de adaptação que eu acho que correm bem. A "Odisseia" é uma história muito longa, é um poema. É um epic muito longo, tem muitas personagens. Há quem se queixe que não aparecem os deuses, e é verdade.
Deu para perceber que montes de escritores portugueses são peritos na "Odisseia".
Pois, parece que sim.
Fiquei feliz com isso.
Obviamente, não consigo confirmar se de facto são peritos ou não.
Pelos posts que fizeram nas redes sociais, são.
Mas há uma coisa interessante, que eu acho que vale muito a pena, que é: há muita gente que assume, naturalmente, que nunca leu a "Odisseia"-
A sério?
...que não conhece a história e que ficou muito interessado.
E que vai ler agora.
Ou pelo menos-
Agora é que vou ler "Odisseia".
Mas isso não é mau, eu acho que isso é ótimo.
Mas ó Tiago, mas acho que é interessante, é que as pessoas esquecem-se que a "Odisseia", na verdade, tem um formato absolutamente moderno e fragmentário, que tem a ver com o TikTok de hoje. Exato, sim. Os episódios.
Vai aqui, vai ali.
Exatamente. Eu a primeira vez que vi qualquer coisa relacionada com a "Odisseia", da mesma forma que vi qualquer coisa relacionada com o "Dom Quixote", foi através dos desenhos animados
E depois com a adaptação do João de Barros.
Também fez isso com Os Lusíadas.
Pronto.
Para os garotos.
Eu, por acaso, há dois anos li aos meus filhos essa versão.
Nós somos de um tempo em que, nos anos 90, se levava Tchekhov para a praia. Não, é verdade, Camilo, sempre, muito Camilo.
Kafka, estás a brincar, mas eu tenho uma prima.
Espera. Não estou a falar das figuras públicas, estou a falar da tua prima.
Como é que ela se chama?
Alzira.
Alzira?
A minha prima.
Grande baiana.
Alzira ou Alzirinha?
Zira.
Que em 1980 e tal eu via ler o livro "O Castelo", de Franz Kafka, na praia.
E bem.
Acho que era "O Castelo". Ou era "O Castelo" ou era "O Processo". Ela também estudava filosofia. Também é compreensível.
Fica aqui a cunha para um programa do ano, do verão, seja sobre isto. Os nossos intelectuais, nos anos 90, os jornais tinham muitos inquéritos de verão. Lembram-se?
Sim.
Lembram-se?
Ainda há.
O que vai ler?
Também há menos jornais.
O que as pessoas diziam sempre era que se queriam afastar das praias com muita gente.
Já nem o verão é a mesma coisa.
E que era desta que iam ler o Proust.
Os volumes todos?
Todos. O "Ulisses", do Joyce.
E os russos.
E os russos. E o Dom Quixote, naquela edição de oito milhões de páginas. E agora, pelos vistos, os novos escritores portugueses é "A Odisseia". Pessoalmente, eu fico feliz.
Ou o Bolão. Mas deixem-me voltar. O Ulisses é uma personagem extraordinária.
É verdade.
O Matt Damon é péssimo a fazer aquilo. E eu acho que esse é um dos grandes problemas do filme.
Que ele não tem o brilho.
Não tem carisma.
Fala de Lisboa?
Não.
O Ulisses, o Ulíssipo.
Eu olho pra ele e penso: "Não, é o meu vizinho. Isto não me leva pra ali".
E o Brad Pitt no "Tróia", também era o Aquiles.
O cara é filho das de Jalino.
Esse era o Alexandre, o Grande.
Já estamos aqui a misturar mitologia e história.
A adaptação.
Mas olha que o Matt Damon, desculpa, vou ligar com o programa da semana passada. O Matt Damon daria um bom Luís Represas num biopic.
Dava. Lá está. Mas eu acho que esse é que é o problema do filme, que é: o filme por vezes consegue ter a dimensão de espetacularidade que eu acho que o Nolan gosta de dar aos filmes dele habitualmente e que, por exemplo, eu acho que ele conseguiu fazer isso melhor no "Oppenheimer". Acho eu.
Achas que não é um bom biopic do Ulisses?
Não, aqui acho que ele às vezes consegue, mas na maior parte das vezes, o que eu sinto é que é um filme banal, e não era isso que eu esperava. E acho que não era essa a ideia.
Acho que as pessoas estão à espera de um epic.
E depois, acho que lhe falta muita ambiguidade que existe na história do Homero, nosso amigo, e que ali não aparece. É tudo muito clean, é tudo muito direto, é tudo muito binário.
Porque o Ulisses era um grande manhoso.
Acho que isso falta muito. Acho que o Tom Holland, enquanto-
As coisas têm que ser ditas. O Ulisses era um cara manhoso.
Enquanto o Telêmaco também é um aborrecimento, se bem que a personagem dele também é aborrecida por natureza.
E sabiam que o cão é de raça portuguesa? O cão que aparece no filme.
Não. Um podengo, claro, então não sei.
Mas aparece um cão, viste o cão?
É o Argos. Claro.
Há uma cadeia de supermercados inglesa, acho que é a de supermercados que é Argos.
Alguns twists na história, quanto a isso, tudo bem.
Twists?
Sim, ele não foi àquela ilha naquele momento, não foi bem assim a flor de lótus.
E aparece o Camões? Acho que podia aparecer.
Não aparece Camões.
Podia adaptar Os Lusíadas.
Tens um desenho que queres mais?
Eu senti falta dessa, não fiquei com esse sentimento de "estou aqui perante um épico extraordinário."
The olds of the Restelo.
O Vítor Norte dava um bom velho Restelo.
E depois há aquela questão que a Maria, que não viu o filme ainda, mas que eu sei que ela vai ver e depois podemos falar.
Eu pensei que era uma coisa de roupa.
Todos os filmes agora têm o Tom Holland e a Zendaya. Todos.
Pensei que era uma coisa de roupas.
E estão lá os dois?
Claro. A Zendaya é a única deusa que aparece. É a Atena que aparece aqui.
E a Lupita, não sei o quê, também está.
Essa é a Helena ou a irmã, agora não me lembro.
As redes sociais deviam estar os escandalizados por ser negra.
Não, mas isso já passou.
Não, acho que ainda.
Quanto a isso não brinquem comigo.
Acho que até houve uma deputada do Chega a protestar.
Acho que isso não é assunto.
O Nolan já registou.
Deve estar preocupadíssimo. Agora, digo-vos uma coisa, salas ao barrote e aquilo está farto de fazer dinheiro, é impressionante.
Mas lá está, deve ser mais por causa da Zendaya do que do Homero, não é?
Deve ser mais o Nolan.
É o Nolan, de fato. Ele consegue isso.
Portanto, ainda não viste o projeto Hail Mary?
Ainda não vi.
Pois. Andas a ver esses filmes da moda, das redes sociais.
Muito bem.
E os nossos ouvintes, nada? Nenhuma sugestão pro Bruno?
Não, acho que esta semana não há sugestões pro Bruno. Já tu tens sugestões pra nós todos, Pedro Bucherimenos.
Sim, mas não tenho assim muitas.
Mas olha, vão lá ver A Odisseia, depois falamos sobre isso. Diz lá.
Museu Gulbenkian.
Já foste?
Ainda não fui.
Eu fui ver A Odisseia, não consegui ir ao Museu Gulbenkian.
Reabriu depois de uma nova configuração. É sempre um sítio da cidade de Lisboa e de Portugal Onde parece que estamos noutro sítio mais evoluído.
O que queres dizer com isso? Estou a brincar.
É aquilo que nós poderíamos ter sido. Portugal normalmente é muito feio, numa fealdade arquitetónica que eu acho ofensiva. Como dizem os portugueses, tenho direito à minha opinião.
E tens.
E que a Gulbenkian é um dos poucos sítios com pensamento, com urbanidade. E o Museu Gulbenkian vale sempre a pena.
E entregarmos a gestão do país à Fundação Gulbenkian.
Isso aqui.
Justo acabar com as eleições.
Um filme de que eu gostei bastante e não estava à espera de gostar bastante, "Marty Supreme". Chegou à Amazon Prime.
Eu acho que na altura tu não tinhas gostado. Já não me lembro, já foi há tanto tempo.
Gostei imenso das cenas de ping-pong.
É ótimo!
As cenas de ping-pong. É sobre um campeão de ping-pong.
Gostei mais de ver o "Marty Supreme" do que o "Odisseia". Não sei o que é que isso diz sobre mim.
As cenas de ping-pong têm uma energia catita.
E tudo aquilo é muito nervoso.
Não, todo o filme tem energia.
E eu gosto disso.
O tipo joga com um pulôver de lã o ping-pong.
Porque o Matt Damon, imagina. Agora vem lá aquele gigante. E o tipo tem sempre aquele ar de: "Agora cheguei aqui às finanças e está uma fila enorme." E não é isso que eu espero de um herói.
Tem o ar de quem vai à final do mundial com a mulher.
Pronto.
E foi. E foi. Eu tinha também aqui o "Agente Zig Zag" e tenho aqui o livro para o provar.
É verdade, sim, senhor.
Certo. Portanto, "Marty Supreme", Museu Gulbenkian e "The American Experiment".
Netflix.
Cinco episódios na Netflix.
Apreciei bastante.
Viste os cinco episódios?
Vi os cinco episódios.
Eu também vi os cinco episódios. O último episódio é demasiado inclinado para a esquerda.
Tem um lado, às vezes.
Não é um lado. É um lado do tamanho do acaluto.
Mas também tem história.
Tem vida.
Do tamanho do acaluto. Mas acalutos não foram os romanos, cara?
Dizer duas coisas.
O que é que os romanos alguma vez fizeram por nós?
Dizer duas coisas, se as pessoas forem ver e se estiverem interessadas nessas coisas da televisão e naquilo que nós dizemos, se nos estão a ouvir, em princípio estão. Verem a luz e a velatura do documentário, que nos aproxima de uma espécie de passado.
É verdade.
Importante.
Está bem feito, meu amigo.
Portanto, essa luz, essa velatura, a quantidade industrial de reenactments, que é o termo técnico para reconstituições, que existe.
Deixa-me só dizer, é uma coisa que normalmente me aborrece muito nos documentários.
Era isso. Portanto, é aqui a minha dica que o Tiago vai explicar porque é que é a minha dica.
Só a comentar.
Este tipo é tramado.
Parece aquelas conversas de casal, em que um vai contar a história: "Chegámos a Porto Covo e..."
Olha, na verdade.
Nós somos um casal a quatro.
Bem, nem imaginas. Chegámos a Porto Covo e o homem disse: "Agora podes continuar."
"Ó Manuel!"
Não, "The American Experiment", que é sobre os anos anteriores à constituição dos Estados Unidos enquanto nação independente. Portanto, os Estados Unidos eram uma colónia, uma parte dos Estados Unidos, que nós chamamos Costa Leste, onde é Nova Iorque. Aquela zona de Nova Iorque, aquela zona mais perto de Portugal. E era uma colónia britânica, não sei o quê, depois a independência, o George Washington e os ingleses, e as batalhas, e as guerras. Mas uma coisa que nunca é dita: Portugal tem a sorte de ser o país do mundo com mais especialistas em política americana, como vemos diariamente.
E noutras coisas.
Não, mas em política americana.
É o melhor.
É uma grande sorte. É o melhor, não sei, mas em política americana é uma grande sorte nós podermos ver todos os dias a explicarem-nos como é que funciona a América. Um país tão superior como Portugal a explicar como funciona. É um país eco, que é a América. Uma das grandes proezas americanas e que raramente é referida, ou nunca é referida, para ser mais preciso, é esta supremacia no audiovisual. Portanto, os tipos fazem um documentário sobre os anos iniciais da América, enquanto era uma colónia, depois há ali umas batalhas e depois conseguem, depois a Constituição. Constituição essa que nós, espetadores de ficção americana, estamos habituados a ouvir falar na ficção americana e porque é uma manifestação política, eles estão constantemente a falar da Constitution, certo?
Certo.
E da Amendment e não sei o quê, Fifth.
Sim, estão sempre a levantar essa bandeira.
E nós isto desde que nós éramos miúdos e ainda os Trovaão tocavam, já eles falavam disto. A supremacia audiovisual dos americanos é de tal forma que eles, para retratarem uma discussão do George Washington com o Madison, contratam atores, caracterizadores, figurinistas, iluminadores, cenógrafos. Algumas daquelas cenas são mais caras ou foram mais caras do que uma produção de um programa português, toda uma temporada de um programa português. Portanto, fica a dica para os especialistas em política americana que nós temos. É uma dica.
Produzido pelo Tom Hanks.
Mas isso dá o nome.
Não, mas isso também tem a ver com esse lado.
Não achas que ele esteve nas reuniões, o Tom Hanks?
Não é isso, mas tem a ver No início estávamos a falar também-
Não vai ser que o Tom Hanks é descendente de açorianos, foi não?
Não.
Mas é.
Mas parece algo risonho ou não?
A questão da ideologia, que também aparece volta e meia, não está separada das pessoas que fazem o documentário e que o pagam.
Mas como é que em 250 anos os Estados Unidos, que eram dirigidos por uns tipos que não queriam ser ingleses, e não se percebe bem por quê, e depois acabam por ser.
Não queriam pagar impostos.
Tinha umas cabeleiras e depois tinham uns mosquetes.
Sim.
E como é que 250 anos depois-
"No taxation without representation."
Exatamente.
Estamos aqui.
E depois o Bill of Rights, e depois não querem, depois uns querem. Andava tudo à batatada. Não tinham especialistas em política portuguesa na altura, acho eu, lá a debater.
Eu acho que uma coisa interessante-
A beberem, de inspiração.
Não discutiam as cortes portuguesas. Uma coisa que aquilo ajuda a perceber melhor é de facto o caráter de experimentação que foi a construção daquele país. E isso está muito bem sacado.
Até podem ver a eito, mais ou menos ao calhas, para usar uma expressão popular. O último episódio não é preciso verem.
Não, claro que é. Não sejas assim.
Acho que não é preciso verem.
Vejam tudo.
É interessante como a culpabilidade, e isto aqui agora não é uma crítica, vou tentar ser rigoroso, é interessante como eles falam pouco da escravatura, falando da escravatura, porque de facto é um país que nasce e se assenta em mão de obra escrava.
Há várias omissões nesse campeonato.
E é um projeto político, e isso é óbvio. Eu na outra semana falei de outro documentário precisamente sobre uma das emendas à Constituição. É um projeto político pensado por brancos, homens brancos, para a população branca.
Isso.
A integração política da população negra é uma coisa tardia. O projeto inicial político, aquilo que está na Constituição, não exclui diretamente os negros, não diz: "Os negros não fazem parte", mas implicitamente, aquilo não é pensado para aquela população.
Quase que não há a palavra escravatura, escravos na Constituição, segundo este documentário. Mas sim, ter escravos era tido como uma coisa normal.
Claro.
Mais do que aceitável, normal.
George Washington tinha escravos.
Sim.
Jefferson.
Mas depois eles no documentário cuidam de dizer que deu a liberdade.
É um pormenor.
E bem.
Só isso.
Mas aconselho vivamente, nos intervalos de verem os especialistas portugueses em política americana, podem ver este documentário. Muito bem, meus amigos. Chegamos ao fim de mais uma dose de sugestões. Tal como sempre, ficam disponíveis em podcast. Sigam-nos. Não percam nenhuma destas entregas. Nós voltamos na quinta-feira. Até lá.