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Agora que acabou o Mundial, precisamos de coisas para fazer, tristemente. E é por isso que aqui estamos com as sugestões da semana, como acontece todas as segundas-feiras. Bruno Vieira, vamos começar por ti esta semana, coisa totalmente inesperada.

Ótimo, fantástico.

O que é isto, "Amend"?

"Amend". É a história da 14ª emenda da Constituição dos Estados Unidos. Eu descobri isto, foi a Netflix que me sugeriu depois de eu ver "The American Experience".

Olha, apostaste.

Só agora é que descobri e gostei. Sim, senhor.

Também gostei.

É muito bom. Este aqui, o "Amend", que é apresentado por Will Smith, eu devia ter percebido que era uma coisa antiga, para ter o Will Smith ali num papel de tanto destaque. Mas só agora é que percebi que é de 2021. É a história da 14ª Emenda dos Estados Unidos, que no fundo assegura direitos de cidadania para toda a gente que nasce nos Estados Unidos. De facto, tu tinhas uma Constituição.

É o chamado birthright.

Exatamente. All men are created equal. São todos criados iguais, mas isto é só para os brancos. Tanto que há uma decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, poucos anos antes da ratificação desta emenda, ou seja, em 1957, que é um tipo, um negro, que era escravo e foi levado para um Estado, que na altura era um Estado livre, e depois o dono dele, o proprietário, morreu e ele volta e então interpõe uma ação em tribunal a dizer: "Bom, eu como já estive num Estado livre, já vivi, então eu agora sou livre." E ele diz: "Espera aí, que de acordo com a Constituição..."

Não é bem assim.

E depois vem o juiz e diz que isso não é bem assim, porque isso não se aplica aos negros. E então, a 14ª Emenda é considerada o momento, de fato, em que são consagrados os direitos de cidadania e que o sonho americano verdadeiramente se torna possível, porque até aí a América é um projeto político de brancos, por brancos e para brancos. E as coisas mudam a partir do momento em que é feita essa 14ª emenda, creio que por um senador do Ohio, se não estou em erro, e é ratificada em 1868. E o documentário, em várias partes, conta a história desse momento pouco conhecido. Se calhar, até pouco conhecido, de acordo com o que é dito no documentário, dentro dos Estados Unidos. E também emerge aqui neste documentário a figura do Frederick Douglass, um homem que também foi escravo e que escreveu a sua autobiografia, que se tornou muito popular na altura. O livro foi publicado pela Penguin cá em Portugal há uns cinco anos também, e é uma figura extraordinária da história da América. Viveu todo esse período que vai desde a guerra civil, depois à abolição da escravatura, à também esta 14ª Emenda, e é uma história individual. Não é a única, mas é uma história individual, de facto, marcante e extraordinária neste período da história dos Estados Unidos. Tenho aí também um outro documentário da Netflix, este sobre um rapto de um vereador do Partido Popular em Espanha, em 1997, pela ETA, e que marca aqui um ponto de viragem na perceção pública da ETA. Não que a ETA tivesse um apoio generalizado em Espanha, do povo, claro, as pessoas eram contra a ETA, mas perdeu os poucos apoios que ainda tinha e uma certa tolerância, para não dizer medo até, em alguns casos, por parte da população do País Basco. A ETA perdeu todas as defesas possíveis. A partir desse momento, tornou-se impossível defender os procedimentos, a atuação da ETA, os métodos da ETA. A ETA, ao longo de 30 anos, matou 800 pessoas, mas a morte, porque este vereador do PP acabou por ser assassinado.

O que é isto?

Temos aí som. Ok. Isto não é a banda sonora do documentário.

Mas foi bonito.

A ETA assassinou mais de 800 pessoas, mas o rapto e a morte deste vereador, que era uma figura perfeitamente secundária, não tinha nenhuma importância política. E a ETA exigiu que em troca pela libertação, deu 48 horas às autoridades para libertar, transferirem os presos da ETA que estavam em França para o País Basco, e deu 48 horas para isso ser feito. Portanto, toda a gente já sabia ou intuía qual seria o desfecho. E esta morte, este rapto e a morte deste vereador, acabou por mobilizar A sociedade espanhola no seu todo, independentemente da sua origem, até independentemente de cores políticas, para acabar com a ETA, para enfrentar a ETA e marca também o começo do fim da própria organização terrorista. É um documentário que está na Netflix. E por último, trago uma coisa diferente, um pequeno livro de Irene Vallejo, autora do "O Infinito no Junco", um livro que se tornou um grande sucesso de estima, de público, uma história do livro e da leitura, pode-se dizer. E este pequeno livro, "Manifesto pela Leitura", é o tipo de livro do qual eu desconfio. Habitualmente, eu desconfio um pouco destas propostas meio humanitárias da leitura como salvação da humanidade. Vamos salvar a humanidade, redimir a humanidade pela leitura e pela literatura, e a literatura faz parte do que nós somos enquanto espécie e essas coisas todas. Mas o livro, a verdade é que trazendo aqui algumas histórias de vários tempos, de várias épocas, de vários escritores, em breves páginas, dá-nos aqui um panorama de como a literatura acaba por nos moldar, sim, enquanto espécie, e acaba por moldar também as sociedades e os indivíduos. Há aqui uma ideia com a qual eu, à partida, não concordaria, mas que, sendo contraintuitiva, eu acabei por aderir a ela, que é esta ideia de que a leitura é um exercício muito solitário. Ou seja, tu precisas de silêncio, precisas de solidão, mas a verdade é que quando estás a ler, e isto agora vai parecer um pouco estranho.

Bruxaria.

Estás acompanhado. Não, é neste sentido. É que, de facto, não estás refugiado dentro de ti mesmo. Estás aqui em comunicação com outros mundos.

É a presença tutelar dos livros que falava o Borges.

Tu estás na companhia.

Estás acompanhado, estás no mundo.

Ou seja, não estás em introspeção. Estás a entrar noutros universos de personagens muito diferentes de ti, de épocas muito diferentes. E é uma ideia que está aqui neste pequenino livro da Irene Vallejo, que eu, apesar das minhas resistências a estes manifestos bem-intencionados pela leitura, recomendo aos nossos ouvintes.

Muito bem, uma dose bastante generosa.

Cavalar.

Maria Ramos Silva, tu tens aí pelo menos duas mulheres.

E chega. Olha, e são duas mulheres que estão ligadas, curiosamente.

Sim, senhora. Então avançamos.

São siamesas, então.

São quase.

Avançamos.

Olha, uma delas foi escrita por uma senhora chamada Belle Burden, norte-americana.

Estamos a falar de livros, não é?

Estamos a falar, nos dois casos, sim, de livros. Ela é neta de uma senhora chamada Babe Paley, talvez o nome te diga alguma coisa, é um dos famosos cisnes do Truman Capote, uma das mais incríveis e grandes socialites do século XX, que depois o mesmo Truman haveria de assassinar em termos de reputação com aquele célebre artigo da Esquire em 75, o "La Côte Basque", em que fala destas mulheres e das vidas e aqueles segredos aí destas mulheres, e aquilo foi uma grande escandaleira da época que faz ecos até hoje. A Belle começou por abrir a porta também aqui de uma história meio escandalosa sobre a sua vida pessoal, sobre o fim do seu casamento, a forma como descobriu a traição do marido no início da pandemia. Enfim, não vou abrir aqui muito o jogo para também não ter efeito de spoiler. Mas começou por escrever uma coluna no Modern Love, no New York Times, depois aquilo ganhou tração, teve imenso sucesso, e ela tomou a ótima decisão comercial de escrever um livro, uma versão um pouco mais alargada sobre a coisa, que entretanto depois fez a sua agitação, a sua polêmica, porque se punha em causa aqui uma série de detalhes sobre se isto era, de facto, não ficção ou quão real isto tinha em termos de pormenores, nomeadamente do ponto de vista do acordo prenupcial, do que estava em causa. Eu acho que é sobretudo interessante porque a Belle Burden faz parte daquele grupo, aquela classe de mulheres que muitas vezes estão estigmatizado, que são bonitas, ricas, podiam ter tido uma carreira altamente bem-sucedida, no entanto, deixaram essas carreiras para ficar em casa, tomar conta dos filhos, do marido, e sofrem muitas vezes com esse preconceito, sobretudo porque depois se colocam financeiramente nas mãos do marido, como é o caso, e quando as coisas ruem, têm ali um dano ao cubo, por assim dizer. A verdade é que a história, o essencial está lá e é verdade, aconteceu mesmo, a história é ótima, escrita de uma forma muito cativante, lê-se maravilhosamente bem na praia, assim numa tarde. Acho que os direitos já foram vendidos à Netflix, vamos ter a Gwyneth Paltrow a fazer a vida desta senhora em breve. E depois, o que é curioso é que o outro livro que eu estava a ler sem saber que no início tinha alguma coisa a ver, é sobre uma outra figura feminina absolutamente fascinante, chama-se Pamela Churchill, que também fez parte daquele reduto ali dos cisnes do Capote e também acabou por ser muito vasculhada e exposta na sua vida íntima nesse célebre artigo. O outro livro, desculpem, penso que não vos disse o nome, chama-se "Estranhos" e é uma edição da Bertrand. Esta é uma edição da Dom Quixote, chama-se "A Fazedora de Reis", de uma autora que também é jornalista, a Sonia Purnell, e que esteve durante cinco anos, eu falei com ela entretanto, esteve cinco anos a investigar esta história. E é um trabalho absolutamente fascinante. Eu penso que é raro nós vermos este nível de detalhe. Ela contava uma coisa, de facto, engraçada, que às tantas o editor já lhe dizia: "Mas quando é que entregas o livro?" Ela dizia: "Bom, de facto, há muita coisa para Compilar, sobretudo, porque ela teve acesso a uma coisa que as biografias prévias sobre esta senhora não contavam com isso, foram escritas ainda durante a sua vida. Ela morre em 97 e na altura da pandemia, ela sabe que a Biblioteca do Congresso torna público o acesso aos documentos, às cartas, à correspondência, aos diários da Pamela Churchill e portanto viaja para Washington e lá vai vasculhar isto tudo e percebe, de facto, tem ali uma grande empreitada pela frente. Esta mulher quem era? Era uma jovem inglesa com apenas 21 anos, uma miúda da aristocracia, que não era propriamente privilegiada inicialmente, nem pela beleza, nem pela sorte. Ela falhou como debutante nas famosas temporadas de casamento, mas percebe que o casamento com o único filho homem do Winston Churchill, lhe permite abrir uma porta para um mundo diferente. O acesso a um reduto altamente diferente daquilo que era a pasmaceira da sua vida no countryside inglês, e tem uma ascensão absolutamente fulgurante. Cai nas graças do sogro e da sogra também, que percebem muito rapidamente como aquela mulher jovem, com aqueles olhos azul safira hipnotizantes, podem fazer mais do que muitas das figuras que têm acesso a Checkers e que têm segredos de Estado, ali na pré-guerra, em mãos. Ela passou à história, no essencial, de uma forma um pouco injusta, diria eu, e percebe-se isso, sobretudo depois de ler esta biografia, como uma simples cortesã, uma mulher que foi saltando de cama em cama e privando com os mais poderosos de todo o mundo, em pleno século XX. Mas na verdade, ela foi uma arma usada assumidamente pelo sogro e absolutamente determinante na captação de ajuda dos Estados Unidos, numa altura em que o Reino Unido sabia que precisava que os Estados Unidos entrassem na guerra para conseguir sobreviver também durante essa campanha. A vida dela é fascinante até ao conflito. Depois do conflito, abre toda uma nova página já nos Estados Unidos, já no seu terceiro casamento, já completamente enfiada nos interstícios do Partido Democrata. É absolutamente decisiva na eleição de nomes como o do Bill Clinton, que depois a recompensa já em final de vida com o cargo de Embaixadora dos Estados Unidos em Paris, onde acaba por morrer na piscina do Ritz. Portanto, é uma história absolutamente maravilhosa.

Parabéns.

Com poder, intriga, glamour, sexo, há tudo. Van Goghs, coisas absolutamente extraordinárias, mas depois também toda essa camada que merece não ficar pelo caminho e não ficar reservada a um rodapé da história.

Muito bem.

Portanto, "A Fazedora de Reis" da Sonia Purnell, uma edição da Dom Quixote.

Rapidamente, duas sugestões, uma minha, outra de um ouvinte. A minha é muito simples. Esta terça-feira, dia 21, Coliseu dos Recreios, Belle and Sebastian ao vivo.

Que depressão.

Não é uma depressão. Vá lá.

Quarentões deprimidos.

Sais do Mundial para ver Belle and Sebastian.

Saem da firma de advogados para ir ouvir o concerto dos Belle and Sebastian e lembrar-se como fumavam ganza.

Mas têm que pôr uma camisa às riscas. Senão não dá. Senão não funciona. Eu gosto muito de Belle and Sebastian.

Tens cara disso.

E pronto, meus amigos, é isso que eu vos tenho a dizer. Canções ótimas e que não envelhecem. Ao contrário de muita boa banda. Percebem?

Não, mas envelhecemos nós.

Ora bem.

E de cada vez que as ouvimos.

Sentimo-nos mais velhos.

Muito rapidamente, uma sugestão que não está na nossa televisão, nas nossas plataformas de streaming, do nosso ouvinte chamado Guilherme Costa, mas que eu achei muito curiosa, porque é uma série. O Guilherme vive na Dinamarca e ouve-nos, imagina.

Imagina lá.

Um grande abraço para o Guilherme.

E para a Dinamarca.

Ele sugere uma série que se chama, não sei se diz "Riget" ou "Riget", que é do Lars von Trier.

O Pedro conhece.

Conheces? Não. Pronto. É uma série que tem três temporadas, que começou em 94.

Não é "O Reino"?

É "O Reino". Traduzido.

Isso já foi exibido na RTP2.

Exato. Eu não sei se deu cá ou se não deu. Sei que nesta altura não dá para ver. A última temporada foi em 2002, se não me engano.

Foi há 24 anos.

Foi há bastante tempo. E citando Guilherme Costa: é uma série que tem muitas semelhanças, ou algumas semelhanças com Twin Peaks, portanto, aqui para o nosso amigo Bruno. Tem a particularidade de conseguir ser hilariante, mesmo para quem não esteja muito por dentro das piadas e alusões aos comportamentos dos povos nórdicos. É filmada no Rigshospitalet, que é, diz ele, uma espécie de Hospital de Santa Maria cá do sítio. Ele diz que pode parecer suspeito porque vive na Dinamarca, mas que é uma série que merece ser redescoberta. Portanto, se alguma vez aparecer por aí.

Olha, já agora, só dizer que eu segui a sugestão do Pedro e fui ver o novo do Larry David, o "The Pursuit of Unhappiness".

E estás muito contente.

É bem divertido.

É mais uma para o ego do nosso amigo. Por falar nisso, Pedro Bosch Mentos, o que é que trazes aí? Vamos embora.

Olha, três coisas.

Sim, senhor.

Começando pela biografia de Charlie Sheen, o livro de Sheen, memórias.

Fiquei com a ideia que era um bocadinho o documentário transposto para filme.

Sim.

Mais ou menos isto.

Sim.

Já vi o filme.

É difícil apreciar este tipo de livros, porque o valor literário não é 10.

É baixo.

Não é um oito, não é um nove, não é um 10. Servem como documento de uma era, mas será que essa era interessa ou não interessa? Mas é um easy read para quem tem curiosidade sobre as suas histórias. No fundo, drogas, mulheres, sobrevivência.

É basicamente isso.

Sobrevivência contra todas as probabilidades.

Eu acho que ele é seropositivo, ou nunca vi uma coisa assim. Li a primeira parte só. Está escrito com muita oralidade. Enfim. Aqui fica para os fãs de Charlie Sheen, o livro "The Sheen", que foi editado agora.

A Bíblia de Sheen.

Exatamente. Um documentário que há muito tempo queria ver, já vi, há muito tempo que tinha ouvido falar, chamado "Abandonados", embora em Portugal tenha um título na Disney+ horrível, que é tipo: "À procura de não sei o quê". Vejam no Google ou no Chat GTP como é que se chama na Disney+, que eu não escrevi. Tenho aqui "Abandonados", que é o título original. Três crianças aparecem numa estação em Barcelona em meados dos anos 80.

Desculpa, essa história foi publicada há uns anos no Guardian, numa reportagem.

Certo. Esse tipo aparece neste documentário.

Sim, é uma história impressionante.

Três crianças aparecem, a mais velha teria cinco, seis, a mais nova teria cerca de dois. Dois rapazes e uma rapariga. Seriam irmãos, não seriam. Estavam bem vestidos, bem cuidados, não tinham sinais de abandono, não tinham sinais de negligência. Estamos a falar em tempos sem internet, obviamente, e sem ADNs e essas coisas todas. Essas crianças não tinham memórias, não sabiam o seu nome, não sabiam o nome dos seus pais, o que é um pouco bizarro, porque era uma coisa que eu, quando tinha aquela idade, tinha obsessão com o meu nome, sabia o meu nome, estava sempre a escrever o meu nome todo.

Chama-se "Origem Desconhecida" na Disney+.

Não sei por que "Abandonados" parece um melhor título, mas posso estar enganado. Eles não sabiam nada. Isto é um documentário em quatro partes, em que participam as três pessoas, hoje são adultos. Enfim, eu não quero dar muitas pistas, mas a vida acaba por encarrilar, acaba por correr bem para o lado deles, até que ela vai ser mãe a dada altura da sua vida, julgo que pelos 30 anos, e decide procurar o seu passado, o seu ADN. O documentário é muito interessante porque mistura investigação, vamos dizer, policial, embora muito ténue, com aquela malta que está na internet a ajudar aqueles amadores.

Sim, os detetives amadores.

Exatamente. É uma mistura de detetives amadores com pistas, depois com memórias que vão surgindo. "Lembro-me de uma casa onde havia uma loja de brinquedos." Imagina. "Lembro-me de brincarmos num sítio onde havia uma loja de brinquedos com um grande crocodilo no teto." Isso é um brinquedo, claro. Vemos uma dessas detetives amadoras a procurar todas as lojas de juguetes, que é brinquedos em espanhol, para quem não sabe. E é interessante, depois eles vão de avião, vão longe, muitas vezes de avião, ver se sempre são espanhóis, se depois se calhar são franceses, e depois a pista leva-os até à Bélgica. Não vou dar grandes pistas. A história é tão forte, que aguenta um documentário demasiado ortodoxo. Temos muitas entrevistas com eles. Eles dizem, e as pessoas não têm que ser dotadas de capacidade descritiva, mas dizem muitos lugares comuns. No fundo, conduzem a história, mas o discurso não é muito interessante. No fundo, estão sempre a dizer: "Queríamos saber" e não sei o quê. Mas a história, de facto, é tão interessante. Nós queremos tanto saber quem abandonou aquelas crianças, quem eram e de onde vêm, que ficamos a ver até o fim ou pelo menos eu fiquei. Portanto, "Abandonados", como é que é? "Desconhecidos do Norte-Express."

"Origem Desconhecida."

"Desconhecidos do Norte."

"Identidade Desconhecida" já é o Matt Damon.

E para terminar.

Finalmente, não ia ao cinema à 12:50 há muito tempo.

É bom, está pouca gente.

Não está tão pouca gente assim.

Atrás do fresquinho.

Não, muitas pessoas que estão na fase final das suas vidas, trabalharam muito e agora estão reformadas e querem conversar e o cinema é um bom sítio para conversar.

Ora bem. E está fresquinho.

Pronto, exatamente. Então quando está pouca gente, e estão pessoas a conversar, para o meu feitio, não.

Imagino.

Não, não imaginas.

Isso quer dizer que odiaste o filme?

Não, não imaginas. Fui ver o filme "The Invite" de Olivia Wilde.

É "O Convite" em português?

Creio que sim. Com Edward Norton, Olivia Wilde, Seth Rogen e Penélope Cruz. Como é que se diz?

É Cruz. É "O Convite", sim.

"O Convite". Conta a história de um casal que convida os vizinhos de cima para virem jantar. Está toda aquela tensão de ela estar nervosa porque preparou a refeição e ele está mais descontraído. Ele é o Seth Rogen, ela é a Olivia Wilde, realizadora do filme e também protagonista. Às tantas percebemos que o marido está um bocado chateado porque esses vizinhos fazem imenso barulho, eventualmente a ter relações sexuais. Suponho. Estão acordados às 4:00 da manhã.

A bater qualquer coisa na parede.

A enganar muito bem os vizinhos. É um remake de um filme espanhol, que por sua vez acho que é um remake de uma peça de teatro, uma informação que surge muito pequenina e durante um centésimo de segundo. Vou pesquisar. E então, no fundo, são quatro atores. Vemos o Edward Norton com muito-

Em estado de graça

...com muito botox na cara, aquelas coisas que paralisam as rugas. Não sei porque é que ele fez aquilo. Vemos uma Penélope Cruz muito bonita, uma Olivia Wilde ansiosa e um Seth Rogen, que é um ator que foi escolhido para este filme por causa de uma série que eu não gosto, que é "The Studio", na Apple. Mas ele acaba por ser o tipo que sai por cima aqui do filme. É um filme a fazer lembrar um bocadinho os filmes do Woody Allen e os filmes nórdicos. Passa-se num apartamento magnífico, não sei se tem oito milhões de metros quadrados o apartamento.

E tem aquelas conversas de casais e tal.

Sim, essa parte. Mas o apartamento é o Está muito bem decorado. Eu estive a ver, aquilo é um cenário, foi construído. Mas sabes aqueles apartamentos que têm arte nas paredes e tu pensas: "Bolas, porque é que a minha casa não tem esta arte nas paredes?" Apesar de eu ter investido meio milhão de euros na arte da minha casa. Fica-se com a ideia que o filme podia ter sido mais bem feito. Não vou agora também estragar o barato, mas é um filme bom para se ver se se for casado ou se se viver junto e se se tiver-

Problemas conjugais.

Não, 30 e tais, 40, 50 anos.

Caramba, não acerto uma.

Nenhum casamento é perfeito.

Olha para onde isto está a ir.

Tem alguns momentos francamente bem conseguidos.

Como todos os casamentos, aliás.

E outros momentos no filme em que desejaríamos que tivesse sido outro realizador ou mesmo o próprio Woody Allen.

A tomar conta da cena.

A tomar conta daquilo.

Mas vale a pena.

Eu diria que de um 10, dá um 7.

E vale a pena irem a uma sala onde não estejam pessoas a ter conversas.

Em final de vida.

Final de vida.

No crepúsculo.

No crepúsculo.

E não tem oito horas o filme.

No outono. No ocaso da vida.

E não tem oito horas o filme.

Muito bem. Rapaziada, sugestões entregues, estão sempre todos bem.

Não, mas essas senhoras ficaram mesmo chateadas porque o filme ia começar, de facto.

Ah, ok.

Depois daqueles-

Caramba, interrompeu a nossa conversa.

Estamos mesmo aqui.

Depois daqueles-

Mas olha, mas falaram para além dos comerciais?

Não, depois daquelas quatro horas de anúncios, que agora as cinema têm sempre aqueles anúncios longos, há sempre uma miúda a fazer surf e que no fim bebe qualquer coisa, um café.

Produções elaboradas, muito investimento.

No caso dos filmes portugueses, eu acredito que os anúncios são mais caros.

Olha, nota 10. Mas é isso que eu estava a dizer. Está tudo em podcast, sigam-nos e não percam nenhuma destas doses. Nós voltamos na quinta-feira. Até lá.