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A quarta temporada vai ser muito condicionada pela terceira. E os executivos vão se meter mais na vida do Mike White do que se meteram até agora.
Sejam muito bem-vindos a mais um popup, o vosso suplemento vitamínico de cultura popular, garantido por estas três doses de conhecimento e bom gosto: Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Bucho Mendes, que esta semana vão fazer uma viagem até à Tailândia, porque, caso não tenham reparado, acabou mais uma temporada do White Lotus, mas antes temos aqui um tema importantíssimo para esclarecer. Havemos de falar sobre a série de Mike White, mas antes vamos falar aqui de outro criador. Chamava-se Rogério Settele, a mente que ficou conhecida por clássicos da TV como "Zé Gato" e "Duarte e Companhia", ainda que não tenha feito apenas isso. Já vamos esclarecer essa questão. Morreu esta quarta-feira aos 88 anos e há uma grande curiosidade aqui, um trívia que toda a humanidade deve saber. Rogério Settele e Maria Ramos Silva partilham a mesma terra natal. Maria.
Eu, por acaso, não sei se a terra natal é mesmo essa.
Pronto, mas a terra a que são associados.
O Rogério vivia em Alhandra, mas é ali geográfica.
Estás a estragar uma ótima narrativa.
Pronto, continua.
Diz-me, Rogério Settele era uma estrela na tua apaixonante região?
Eu não sei se seria bem uma estrela. Há uma história particular, ainda mais próxima do Rogério, que eu acho que é curioso, já que vais por aí, partilharmos.
Claro, isto é um livro aberto, este programa.
Eu nunca conheci o Rogério, mas conheci o primo dele, o José Settele, que também já não está entre nós, um tipo incrível, e que esteve durante muitos anos ligado à União Desportiva Vilafranquense, que é o clube da minha terra. Como jogador, aliás, a família esteve há vários anos, antes de haver União, que nasceu em 57, ele já jogava, a família já jogava, há 90 anos de história de ligação ao clube até hoje. E ele também estava ligado a um departamento muito interessante, isto num clube de futebol, o que é extraordinário, que era a secção cultural. E a secção cultural, naquela altura, e estamos a falar ali alguns anos antes do 25 de abril e daqueles tempos quentes, fazia um trabalho absolutamente extraordinário, em termos de divulgação de cinema, nomeadamente. Imaginem um tipo que joga bola, mas depois organiza uns ciclos de Eisenstein. Isto é uma coisa que hoje parece meio dissonante.
Parece complexo.
Não, isso é Portugal pós-revolucionário. Comissões de moradores, cineclubes.
E essa própria secção cultural, que acaba por estar na origem do cineclube, resulta do quê? Toda esta amálgama de uma cisão entre PCP e MRPP, entre uma ala mais ligada a um ponto, uma outra que quer introduzir ali umas mudanças. É assim que se forma mais tarde o cineclube e é aqui que também passa muito daquilo que são os protagonistas, com mais ou menos relevo, que acabam por aparecer nos filmes do Settele. Nomeadamente o meu pai, que esteve durante alguns anos ligado ao cineclube, que também jogava no União.
Um grande abraço.
E que teve não só uma participação como figurante, acho que aparece num filme de 76, o "Antes do Adeus", que é um dos mais emblemáticos do Rogério. No bingo, a gritar bingo, provavelmente, e que eu adoraria rever essa cena, se pudesse. Portanto, faço um apelo, se tiverem o filme por aí, por favor.
Enviem pra aqui.
Reponham. E que tinha também uma dois cavalos branca que serviu como figurante no filme e como apoio à produção. Porque era descapotável. Mas eu quando falei com o meu pai, ele disse-me: "Atenção, isto parece uma coisa amadora, muito amadora, mas o Rogério era um realizador e nós tínhamos noção que era um realizador com peso, e aquilo era um filme à séria, porque tens ali nomes como Ana Júlia, Adelaide João, o Canto e Castro, o argumento é do António Pedro Vasconcelos, tens o Carlos Zinger na música. Aquilo não era propriamente uma turma de miúdos a fazerem coisas." Agora, há obviamente todo um enredo que também passava muito por essa resistência cineclubista e pela relação com o mundo do desporto.
E pelo que se estava a passar na altura.
Sim, obviamente. Havia sempre ali uma dimensão política muito forte. Eu acho que ele acaba por captar muito bem, de alguma forma, aquela época, sendo que há um filme anterior que também é muito interessante, e que é de 72, salvo eu, e que não chega a estrear porque é apanhado pela censura. Mas isto também para mostrar aqui um lado do Rogério que é menos conhecido.
Exato.
E que é anterior, depois, esses sucessos de grande popularidade, como o "Zé Gato", o "Duarte e Companhia", e que, de facto, acabam por ficar também muito associados ao contexto da terra, com cenários e com pessoas, muitas delas que já não estão cá, mas que eu me lembro perfeitamente delas. Há aqui um elemento um bocadinho local, se quiseres, nesta história toda.
Isto foi uma visita guiada, meus amigos, é um privilégio.
Local.
Pedro Bucho Mendes, podemos dizer que há um antes e depois de Rogério Settele na TV, em Portugal?
O Rogério Settele, cuja morte se lamenta, obviamente, não dava entrevistas, não é?
Não, e nós muito tentámos.
Muitos jornais tentaram, muito se tentou. Ele faz parte daquele movimento do cinema novo, aquele cinema um bocadinho antes do 25 de abril, ou um bocado antes do 25 de abril. Ou seja, faz parte dessa geração. Ele tentou com o Zé Gato, e conseguiu, quanto a mim, fazer televisão ou audiovisual comercial com qualidade. Aliás, isso nota-se depois também no Duarte e Companhia, cujo primeiro carro é um Mini, o dois cavalos só vem depois, já vai ficar aqui a informação. É uma pena, e é uma pena que não saibamos mais sobre ele
E quais as suas referências, quais os seus pensamentos. Faço um apelo à família que possa partilhar connosco, porque eu acho que ele foi bastante importante, podia ter sido mais. Sabemos muito pouco sobre ele, a não ser o que nos deixa o Zé Gato e o Duarte e Companhia, e ainda bem. Bruno Viegas Amaral, agradece ao senhor Rogério as belas séries que ele te deu?
Claro, e acho que é uma dívida de gratidão geracional. A nossa geração, a geração que nasceu em meados dos anos 70, final dos anos 70, que cresceu nos anos 80, tem essa dívida de gratidão. Ele conseguiu fazer objetos comerciais, porque eram objetos comerciais na estação pública de televisão, pegando em formatos internacionais, que eram importados como quase tudo em Portugal, mas conseguiu introduzir nesses formatos internacionais, por exemplo, da série policial, características distintamente portuguesas. Desde logo nas personagens, nos meios em que se movimentam, nos hábitos que têm. E isso está em uma série um pouquinho mais hard-boiled, como o Zé Gato, está também em uma série que é um pouquinho mais paródica, como o Duarte e Companhia. Eu acho que esse é o grande mérito das duas séries, que se liga um pouco ao que a Maria estava a dizer. O glocal aqui não será a Vila Franca, mas é conseguires misturar Nova York, não com Braga, mas com Portugal, e com Portugal que era naquela altura. O Zé Gato, da memória, já não vejo a série há algum tempo. Vi uns episódios agora há uns tempos, tinha havido uma reposição na RTP Memória, e há uma atenção aos espaços onde ele se movimenta na cidade e essa ligação ao Portugal físico daquela época. Isso é um pouco como o cinema americano dos anos 70, que parece que saiu do estúdio e foi para as ruas. Não por acaso, uma das séries policiais dos anos 70 chamava-se As Ruas de São Francisco. E o Rogério Sottile fez um pouco disso, as ruas de Lisboa e alguns subúrbios. E isso é um contributo inestimável para a história do audiovisual em Portugal e também para a sociedade, como registo da sociedade portuguesa desse período.
Muito bem, agora sim, vamos avançar para a Tailândia. Terminou mais uma temporada de White Lotus, a terceira. E Maria Ramos Silva, tu que viste semana após semana cada episódio, viste o último e o que achaste deste final de temporada?
Olha, já que falamos da minha terra, havia um restaurante onde nós costumávamos ir.
Opa, não estava nada à espera disto.
Em miúdos, ou já não tão miúdos, mas era um daqueles tascos.
Como é que se chamava?
Eu acho que era o Gomes. É melhor nem dizer, porque eu acho que ainda pode estar a funcionar. Mas eu recordo-me, nós saíamos de lá sempre muito mal-dispostos. Por quê? Porque ele tinha muitos fritos, muita gordura.
Se calhar vocês também comiam demais.
Provavelmente também. Mas o que acontecia? Nós depois disso íamos sempre beber uma água com gás, mas voltávamos sempre ao local do crime, literalmente, porque era aquela coisa que tu acabas por voltar. E eu acho que White Lotus, senti-me nesse registo, um pouco de ir voltando, ir regressando.
Voltando a comer comida gordurosa.
Exato, voltando a sujar os dedos e tudo mais. Mas depois acabei por ver desmontada muito aquela premissa inicial de que se calhar o mais importante era, de facto, chegar ao fim. Não só porque eu não acho que o fim tenha sido absolutamente incrível, foi o que foi, mas porque talvez pelo caminho tenha acabado por valorizar um pouco mais o enredo que se foi construindo. Ou seja, eu não esperava gostar tanto do desenvolvimento até chegar ao final, entendes?
Ok.
Ou seja, esse clímax acabou por não ser tão importante como eu julgava que seria. Se calhar, eventualmente pediria uma coisa mais retumbante, mas depois também fico a pensar: mas o quê? O que me deixaria profundamente agradada?
Mas ali a meio da temporada ficaste...
Eu acho que fui dando oportunidades, mas não me senti absolutamente defraudada. Eu acho que há ali subtramas que foram construídas de uma forma interessante, inteligente, há ali personagens que foram crescendo e se tornaram entusiasmantes. Mesmo algumas a quem eu não dava grande oportunidade no início, acho que foram bem. Portanto, no cômputo geral, eu acho que foi menos mal do que aquilo que eu inicialmente previria. Basicamente é isso. E o mais certo é, quando vier a quarta, der por mim vendo outra vez, provavelmente. O mesmo restaurante, a mesma hora.
É uma questão crônica. Pedro Boucherie Mendes, para já, viste o último episódio, quero saber o que achaste do final desta história. E depois, eu quero saber a tua opinião, como é que esta temporada fica classificada se fizermos um ranking White Lotus, se é a pior, se é a melhor, ou se é mais ao médio?
Acredito que vá melhorar com a memória que temos da série. Deixa-me só dizer duas ou três coisas, que eu acho que é importante.
Ou mais.
Em primeiro lugar, esta série é um êxito inesperado.
É verdade.
Isto foi feito, a primeira temporada, por causa da Covid, portanto, em ambiente controlado, tudo passava-se no mesmo sítio, uma espécie de mistério, assim, da "murder mistery", esse tipo de coisas, para usar referências que as pessoas puderam identificar. Depois transformou-se num sucesso porque Transformou-se numa série que eu designo por ler a Playboy por causa dos artigos. Comprar a Playboy por causa dos artigos. Porque são séries muito carregadas de sexualidade. Não sei se concordas.
Muita tensão sexual.
E as pessoas, em princípio, gostam desses assuntos, relacionam-se com esses assuntos.
Sim, normal.
Não sei se é normal.
É biológico.
E claro que a parada vai subindo, mas também o poder do criador da série, que é Mike White, que escreveu todos os episódios e dirige a série, é o showrunner, deve decidir tudo. E, sobretudo, chegando à terceira temporada. Neste momento, The White Lotus é uma das propriedades mais fortes da Warner, da HBO, da Max. Portanto, em princípio, o Mike White fará o que entender.
Será uma marca valiosíssima, não é?
É isso. Portanto, se ele quiser fazer uma temporada na lua, em princípio, arranja-se a massa. Será interessante ver um dia que se zanguem, se ele leva a marca White Lotus com ele ou se fica com a Warner.
Isso já deve estar previsto no contrato.
Pronto, também acho que sim.
Esta rapaziada não brinca.
Acho que vai acabar por acontecer mais tarde ou mais cedo. Já há aqui umas polémicas com o tipo que faz a música para as outras séries.
Parece que ele quis fazer umas mudanças.
E como tu disseste, e bem, ele é que manda. Qual é a principal variável no cinema e na televisão? É o tempo. O Mike White, a pessoa, pode ter tido montes de ideias, mas depois o episódio tem que ter certo tempo. Estes episódios até são mais compridos do que a norma. E este até tem uma hora e meia, este episódio final.
Tem quase uma hora e meia.
Já se sabe que ele deixou um pequeno plot point de fora. Sabe-se isso. Não sei se podemos dizer.
Foi.
Foi aquela miúda que quer ir pro mosteiro.
Sim.
Em princípio, numa ficção, os personagens têm razões para fazer o que estão a fazer. E depois há aquela questão da arma de Tchekhov.
Que aparece no primeiro ato.
Pronto.
Alguém tem que disparar no último.
O irmão, que é o Patrick Schwarzenegger, diz à irmã que a irmã tem que ter sexo, que isso lhe fará bem. E pelos vistos, isso estava previsto no final da série, mas depois não houve tempo e tiveram que cortar. E, portanto, a miúda ainda não teve sexo, pelo menos no mundo da ficção.
Olha o tambor aí.
Só para simplificar, esta temporada é mais negra, é mais à noite. Tem menos wide shots, portanto, tem menos planos abertos, em praia, toda a gente muito contente e muita luz. E parece-me que é um chamado slow burn. Anda tudo muito devagarinho.
Queima mesmo.
A vela queima mesmo muito devagarinho. Eu acho que abusa em algumas coisas. Se me convidarem para consultor, para dar a minha opinião.
Deixa eu fazer parte de um focus.
Mas acho que, sobretudo, a série é prejudicada pelo excesso de atenção e de expectativa que nós próprios acabamos por ter e acabamos por ver nas redes sociais.
Sim.
Eu só consegui ver o episódio ontem, por razões profissionais, mas no meu Instagram estavam sempre a falar da série. E uns gostam, outros não gostam. Tem mais a ver com a expectativa, acho eu, porque eu acabei por gostar bastante da maneira como o final foi resolvido. Tem um lado tipo filme do Trinidad.
Sim.
Mas eu convivo bem com isso. Depois, há certas coisas que eu não gostei tanto, mas eu lembro-me que a série Seinfeld era conhecida pela série onde não acontece nada. E era elogiada por causa disso.
Exatamente.
Portanto, fica esta reflexão.
Muito bem, Bruno Vieira Amaral, ainda temos aqui uns minutos, poucos, para lembrar as pessoas que tu desististe de ver esta terceira temporada.
É correto.
Isso tudo não está a fazer repensar toda a tua vida?
Li mais sobre a série do que ver a série.
Sentes que já nem sequer precisas de ver.
Não preciso, mas há de fato um buzz.
É verdade.
Um ruído, toda uma parafernália.
Eu era capaz de jurar que na segunda-feira apareceram artigos sobre o final, ainda ao final.
Sim.
Aquilo já estava.
Tinhas que desistir da internet, senão ias saber tudo.
Não, existe toda uma parafernália hermenêutica à volta da série que eu podia tentar escrever, por exemplo, uma crítica sobre a série.
Sem a ver.
Só com base nas coisas que fui lendo, nas opiniões que fui recolhendo.
Mas tem um ótimo exercício.
Eu dou de barato, porque eu li muitas coisas e ia ler. Só que não tive paciência para ver a série. E isto começou, eu vi a primeira temporada, toda, e gostei.
Sim, senhora.
Sim, senhora, muito bem. Segunda temporada, até meio, praí. E esta, epa, foi um episódio e depois fui ver assim.
A segunda temporada também tinha uma mais-valia: Itália. E nós ficamos sempre assim um pouco...
Sim, mas lá está, aqui é o que diz o Pedro, tu mal vês praia. Tu estás na Tailândia, eles podiam estar num estúdio em São Francisco.
Eu acho que nós já falamos disso. Acho que a primeira temporada aparece no momento certo, capta ali. É aquelas coisas, aqueles fenômenos que acontecem no momento certo por diversas razões. É uma coisa leve, eu acho que a premissa é leve, que é um crime num resort, ricos. E pronto, chegava. Acho que começou a pôr progressivamente um peso da série como uma espécie de revelação da verdade.
Tem que significar muito.
Sobre a alma. É. Que a própria estrutura daquela ideia de ser um who done it, basicamente, não suporta isso, honestamente. Eu não acredito que o Mike White tenha assim tanto para dizer sobre a vida dos ricos e de diferentes ricos e de diferentes personagens, que seja preciso isto, três temporadas. Se a coisa tivesse optado por um registro até mais leve, talvez se tornasse
Mais cativante
Mais cativante, pelo menos para quem já não está previamente rendido, como era o meu caso.
Muito bem. Chegamos ao final da primeira parte do "PopUp", voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "PopUp" com Maria Ramos Silva, Bruno Vera Manhal e Pedro Boucherie Mendes. Esta semana estamos a avaliar o que nos fica após o final de mais uma temporada da série "White Lotus". Foi a terceira, que acabou esta semana. Maria Ramos Silva, contas feitas, que personagens sobressaem desta temporada?
Os dentes dela.
Não, mas isto é um bom exemplo.
Isso foi uma conversa que demorou.
Eu penso que o enredo de "White Lotus", mais do que ser media darling, de facto alimentou. Acho que nem é tanto aquela coisa de ser a série dos jornalistas. Alimentou de facto conteúdos, porque eu vi coisas sobre as roupas delas.
Mas alimentou porque é media darling.
Não é só isso. Há, de facto, ali muitos conteúdos de coisas, muitos factores de distração, se quiseres, que é desde a dentição da Emily Lou, até o que é que as outras vestiram, o facto de eles andarem todos com Rolex e com relógios caríssimos.
O pênis do pai que se vê a certa altura, se era uma prótese ou não.
Porque isso importa.
Isto alimenta uma indústria e se o final é bom ou se não é bom, acabas por ter uma coisa completamente secundária. Mas à margem disso. Personagens. Era o que eu falava um pouco na primeira parte. Há ali sub-enredos que são relativamente interessantes, se analisarmos sempre por aquela lupa e admitirmos que estamos a falar do estereótipo e da caricatura. Porque na verdade estamos. Nós estamos a falar ali de retratos, e também falávamos isso um pouco à margem, que muitas vezes não são simpáticos, sobretudo para as mulheres. E é verdade, há ali uma série de composições de personagens que são altamente estereotipadas e negativas e ficamos a pensar, de facto, se isto não poderia ter ali um peso.
Mas deve ser esse o objectivo dele.
Sim, mas eu não sei se as pessoas são assim tão inteligentes a ver as séries. A questão é essa, porque depois nós falamos com o espectador comum, digamos assim, e eu às vezes deparo-me com observações que são totalmente contrárias àquilo que seria a minha expectativa inicial ou provavelmente aquilo que seria o pressuposto inicial. Eu gostei muito do Patrick Schwarzenegger. No início achei que ele-
Também concordo
...era um tipo muito irritante e pensei: "Pronto, é só mais um nepo baby irritante aqui." Mas acho que ele vai muito bem.
Ele irrita, mas é porque dá uma ideia que fez bem o que tinha para fazer.
Sim. Devem ter dito: "Sim, tu ser irritante."
Tu tens que ser irritante.
Sim. E eu acho que ele, de facto, vai muito bem, portanto, estou curiosa para ver outras coisas que possa fazer.
12 Pontos.
12 Pontos, pronto. Exatamente, Portugal, de Vila Franca.
Imagina que era um trabalho de curso. Vamos imaginar.
Uma tese.
Uma área escola.
Enfim, vocês têm que escrever uma série, agora estamos a avaliar. Nós somos os professores, estamos a avaliar. A série tem problemas gravíssimos de plausibilidade e de lógica. Por exemplo, nós temos um monólogo de uma personagem que fala com o Walton Goggins, acho que ele se chama Sam Rockwell.
O Sam Rockwell.
Sam Rockwell. Depois ele faz umas revelações e o mundo inteiro falou disso.
Aquela em que ele vai para o convento.
Sim, até acho que inclusivamente foram interrompidas reuniões com os políticos para poder falar desse assunto. Foi altamente topical nessa semana no Instagram. Pronto, ok. Admitamos que sim. Mas depois no episódio a seguir, o tipo demora três minutos a voltar a beber.
É verdade, reparei nisso.
A sério? Pronto. Mas não faz mal.
E depois foram os dois para a night.
Eu gostava de tomar aqui a posição do moderador deste programa e volver aqui o Bruno, virar o manual, porque a ideia que me dá, na qualidade de escritor.
Isto é imperialismo.
Se fores da corte, ya. A ideia que me dá, e já gosto da tua opinião também, é que o Mike White criou demasiados personagens e demasiadas situações. Nós temos a família não sei quê, depois temos o tipo da porta. Como é que se diz?
O segurança?
O segurança, exatamente, que é autóctone e que fala em tailandês com uma-
Com a sua apaixonada
...com uma funcionária. E depois temos tantos personagens e obviamente o espectador, ainda por cima, gostou tanto da série e das outras temporadas, investe emocionalmente. "Eu quero saber o que é que vai acontecer. Será que este vai não sei o quê, se vai enrolar com aquela não sei o quê." Depois o massagista que é russo, vai não sei o quê. Que depois dá a ideia, e mais uma vez estamos a avaliar o trabalho de fim de curso do Mike White, dá a ideia que ele não conseguiu resolver todos os personagens, porque depois tem opções criativas de realização. Nós temos longos planos do Walton Goggins.
Sim.
A ponto de nós termos visto na internet, não sei se apanhaste, que receding hairline, portanto, ficar careca de certa forma é sexy.
Aí está mais um caso de um artigo, de um tema levantado pelo White Lotus que uma pessoa foi apanhada.
Tiago, é bom para ti?
É ótimo. Eu acho que houve demasiado Walton Goggins. Eu, na verdade, somente precisava de duas coisas, que era a família e tudo o que a Carrie Coon fazia.
Pronto, a Carrie Coon, sim. Mas se tu estás sempre a dar o Walton Goggins, depois não tens tempo, e aqui é literalmente tempo, para resolveres os outros personagens. Nomeadamente aquele filho daquela personagem que levanta uma questão racial, para mim, interessante, que é: como é que nós, os espectadores brancos, aceitamos que os personagens negros possam ser interpretados por negros que são diferentes? Quer dizer, ele nunca poderia ser filho daquela mulher. Enfim, é uma questão à parte. Mas é verdade.
Estou a perceber.
É como se fosse uma família portuguesa e o pai era russo, mas chamava-se José Almeida. Não faz sentido. O tipo tem ar de russo, não se pode chamar José Almeida. É um à parte.
Podia ser do Minho.
Exato.
No Minho há pessoas que parecem russos.
É verdade. Isso é por causa das invasões francesas, parece. Mas só para acabar
Ele, o Mike White, o criador da série, que deve ter tido, não digo carta branca, deve ter tido um lençol branco para fazer o que quis.
Exato.
Acabou por colocar demasiados personagens, demasiada carne na assadeira, para usar aqui uma imagem comum, e depois faltou tempo, ficou sem tempo para resolver, literalmente. A miúda vai à Tailândia, quer ir para o mosteiro, não sei o quê. E depois, afinal, não quer ir para o mosteiro porque não gosta da comida.
Mas eu devo confessar que achei muita piada a isso.
Eu também achei piada.
Ela estava numa demanda filosófico-espiritual.
A família foi toda para a Tailândia por causa dela.
Ela move a família toda e de repente, afinal, não vai dar porque eu preciso dos meus luxos.
Ninguém gosta mais do que eu desse tipo de coisas, que eu já fiz noutras vidas.
O quê? Tu estás a ir para um mosteiro?
Não, às vezes tens uma grande quest, e depois desistes por razões comezinhas, tipo: "Já não tenho baterias".
Adoro.
Eu também.
Adoro isso.
Sim, mas não haver ar-condicionado no mosteiro, quer dizer...
É uma razão tão plausível como outra qualquer.
Está resolvido mais ou menos com os pés, ou reconheces?
Certo. Eu concordo contigo.
Há aqui um problema de base na série.
Claro que há.
Apelamos ao Bruno como criador.
Exato.
Eu aprecio o esforço do Pedro para me envolver.
Não sei se resultou.
Tu que não viste vais editar isto.
Não, há aqui um problema de base no conceito, que é: tem de haver vários núcleos, devem ser pelo menos quatro em cada série, não menos do que isso. E depois tens de apresentar todos estes núcleos, tens de desenvolver harmoniosamente todos estes núcleos e tens de fechar a história para todos estes núcleos.
Por isso é que isto não é para quem quer.
Em poucos episódios, o que, por vezes, está um bocadinho overcooked, está demasiado passado.
Mal passado.
E às vezes mal passado, mas é um problema do próprio conceito. Porque se tu pensares nos Sopranos, que tens não sei quantas temporadas e muitos episódios por temporada para desenvolver tudo, as personagens.
Certo.
O chamado arco narrativo. Aqui é um arquinho.
Desculpa, a verdade é que nesta série não faz sentido levar personagens para uma próxima temporada.
Mas acho que se fala disso.
Mas há aqui personagens que vêm de outras temporadas.
Não, mas foi uma na anterior, agora a outra.
Pronto.
O que eu digo é: a história tem que começar e acabar de alguma forma.
Claro, mas é isso, é fechado. E então é um grande desafio. Eu acho que é também uma das coisas que dificulta a interação ou a adesão à série por parte do espectador, porque a cada temporada tens de fazer reset e estabelecer novas ligações.
E subir a parada.
E se gostaste, se estás bem e se foste surpreendido com a outra, agora a fasquia sobe. Eu acho que há essa dificuldade, que é inerente ao conceito, que pode perturbar um pouco a escrita e isso prende-se com a outra coisa que tu me querias perguntar.
Então, mas avança. É uma coisa que nós já temos falado fora dos microfones várias vezes, que tem a ver com a história de: deveria haver um limite ao número de temporadas que se deve fazer de uma série?
Eu acho que todos os executivos perceberam que não podes matar a galinha dos ovos de ouro de cansaço. Ou seja, não podes deixar que aquilo se esgote.
Vamos perguntar aqui ao executivo daqui.
Não, eu acho que existe essa ideia e há muitas séries que, por exemplo, o Succession podia continuar, prolongar-se.
Se quiser, claro.
E eles percebem que bem.
Agora só teve quatro temporadas?
Quatro temporadas. Pronto, e é isso. Aquilo, parece-me que era um sucesso tão grande que se os executivos olhassem só para-
Era um sucesso.
Exatamente.
Desculpe.
Está bem, está giro. Continuava interminadamente, mas aí também pesa o poder do showrunner. E também tu perceberes que não vamos cansar o espectador e não vamos deixar que isto se degrade. Vamos fechar isto quando ainda está bom. E aqui, eu não tenho a certeza que tenha sido assim, apesar de já ter lido muitas coisas, mas parece-me que a primeira temporada do White Lotus correu muito bem. Foi excepcional para toda a gente, toda a gente ficou de parabéns e feliz.
Até nós.
E de repente, o Mike White deve-se ter visto com uma quantidade de poder.
E dinheiro.
E dinheiro absolutamente brutal. E vamos continuar a fazer isto.
Às vezes as pessoas ficam reféns, depois, de si próprias.
Não tenho a certeza de que a ideia inicial fosse fazer várias temporadas. Não tenho a certeza. Posso estar enganado.
Mas tornou-se inevitável.
Com o sucesso da primeira, tornou-se mesmo inevitável ter mais. E agora a questão é saber onde é que isto para.
Pedro-
Se o mandam parar ou se ele próprio diz: "Não, eu já não..."
Pedro, esta questão é interessante. Vamos dar a volta ao nosso guião. Como é que isto funciona? Enquanto o criador quiser, o canal nunca vai dizer chega, se tiver este sucesso?
Já depende do que se entende por sucesso. Eu não tenho a certeza que esta terceira temporada não tenha já criado problemas à quarta. Imagina que já houve ou que está a haver uma reunião sobre a quarta temporada e o Mike White diz: "Vou fazer na Colômbia." Imagina.
E se calhar os executivos dizem: "Mas atenção, não faças tão escura, porque fizemos aqui um estudo e os espectadores queixam-se que é escuro." Até um programa numa rádio portuguesa dizia isso. Essas coisas contam. Porque há uma coisa nesta indústria da televisão, do audiovisual, como eu suponho que haja, por exemplo, no vinho, que é as pessoas que supostamente não interferem no processo criativo, também acham que entendem do assunto.
Em Portugal, isso acontece em todas as indústrias.
Talvez.
As obras, por exemplo.
Sim, talvez não digas que sabes perceber como é que se colocam janelas, mas posso ter a certeza que todas as pessoas que eu conheço que trabalham na minha empresa acham que percebem de novelas e concursos. Não quer dizer que não percebam, obviamente, mas em princípio há pessoas que percebem mais do que elas. Isso é porque é uma atividade que tem um lado técnico.
Implica alguma especialização.
E a pergunta que tu me fizeste é uma pergunta técnica. Antigamente, as séries existiam para ocupar as horas. Portanto, às quintas-feiras, às 20h, há uma série que costuma ser uma série de hospitais, imagina. "WeAre" eu acho que era à quinta-feira à noite. E portanto, se esta está a funcionar, vamos continuar a fazer. Por que é que a série para? Antigamente paravam por falta de audiências, ou então porque se torna um balão tão grande. O ator pede tanto dinheiro para continuar e o não sei quantos já não pode ver não sei quem à frente. E o Dr. House já está farto.
Torna-se impraticável.
Torna-se impraticável e acaba por morrer, não digo de morte natural, mas por uma espécie de eutanásia. Eu tenho a certeza absoluta que vai haver uma quarta temporada do "White Lotus" e tenho a certeza absoluta que o facto de esta não ter sido tão bem recebida pelo público, porque a satisfação do público é uma coisa muito gratificante, é como o sabor do chocolate ou do morango ou da baunilha, é uma coisa que toda a gente sabe o que é, o sucesso público. Depois, tudo o resto, podemos dizer: "Não, mas existe umas nuances" e não sei o quê. Tenho a certeza absoluta, só para voltar à minha questão, que a quarta temporada vai ser muito condicionada pela terceira. E eles, os executivos, vão se meter mais na vida do Mike White do que se meteram até agora, porque devem lhe ter dado o tal carte blanche para fazer. Acresce que esta série tem uma outra particularidade, que é os atores gostam de a fazer. E fazem fila para ter as personagens. E aceitam fazer cenas. Nós temos duas cenas de nudez feminina nesta temporada, da Carrie Coon e da miúda dos dentes, que se calhar não aceitariam. Não me lembro do nome dela, desculpem.
Aimee Lou Wood.
Pronto. Que se calhar não aceitariam fazer se fosse uma série que fosse escrita por mim ou por ti. Essas coisas são importantes também.
Claro.
Significa que os atores confiam que aquele produto as vai tratar bem.
E que vale a pena o trabalho, etc. E tudo o que é preciso.
Vale a pena mostrar o corpo.
O corpo, claro.
Como sabes, a internet não vai com certeza esquecer a nudez destas atrizes.
E também sabes que é uma coisa que não ficas preso nove temporadas. Vens fazer, e mais ou menos faz o detox rapidamente.
Mas nós vamos ter mais temporadas do "White Lotus" e mesmo sem o Mike White. Acho que se o Mike White morrer amanhã, bate na madeira, nós vamos ter uma quarta temporada, obviamente.
Muito bem, eu tinha-vos pedido aqui que refletissem um pouco para uma das nossas famadas listas e pedi-vos que recordassem péssimos ou maus finais de séries ou temporadas. Isto porque se fossem bons, não tinha graça nenhuma. Séries ou temporadas que acabem bem. E por que não gostaram? Maria Ramos Silva, chegaste a alguma conclusão?
Nenhuma. Era isso que eu ia dizer.
Não era possível.
Eu juro-te que procurei.
Eu não duvido.
O Pedro tem coisas para dizer.
Nem "Lost".
Eu não vi "Lost". Eu escrevi que não vi.
Então por isso é que não tens.
Há coisas que não tenho, porque há coisas que eu pus logo à margem desde o início.
É que as minhas séries preferidas, as séries que gostei muito e que vi do princípio ao fim, eu não pensei tanto em temporadas, pensei no final da série.
Sim, sem problema.
Gostei também do fim. Acho que o fim, por exemplo, "The Sopranos", claro. Mas mesmo "Breaking Bad" com aquela cena um bocadinho estranha, do "The Wire". O "Succession" eu gostei, o Pedro acho que não gostou, do final do "Succession".
Ele está-se a rir.
Mas gostei eu, portanto, quem não gostou de finais foi o Pedro.
Portanto, é uma pergunta de origem óbvia.
O final de uma série, para mim pelo menos, tem mais a ver com o after taste.
Com aquilo que fica.
Com aquilo que fica, do que propriamente por terminar uma obra, uma série. Agora no último romance do Bruno, o Bruno pelo visto tinha uma coisa prevista e acabou por fazer outra. Finalizaste de outra forma. O final é uma coisa muito difícil de fazer.
Claro.
Porque é uma espécie de vida interrompida. São vidas interrompidas. De longe, o pior final dos últimos tempos é o final de "House of Cards". Lembramos que Kevin Spacey foi despedido. O senhor ainda gravou dois ou três episódios dessa última temporada, deitaram esses episódios para o lixo, fizeram uma série mais pequena com Robin Wright, que fazia a mulher de Frank Underwood, de Kevin Spacey. Revelou-se que ela não tinha mãozinhas para aquilo. E irritou-me bastante que não se tivesse discutido isso nesses termos, que é afinal a mulher não aguenta uma série sozinha. Se calhar outra mulher teria aguentado, mas aquela não aguentou, de certeza. E o final é penoso, a última temporada de "House of Cards". Felizmente, não afetou o meu after taste, continua sendo uma das minhas séries favoritas, mas é um final absolutamente lamentável. O final de "Seinfeld" também. Também não gostei nada. Acho que é um final paródia. É uma hora e meia, são dois episódios, são presos e depois aparecem os personagens antigos. Achei uma coisa que podia ter sido escrita por--
Meio casamento no final da série.
É uma espécie de celebração. E falo de "Seinfeld" porque foi o primeiro final no qual eu investi a sério. "Vem o final, como é que vai ser?"
"Vou-me sentar."
Sim, quero ver, quero muito ver, quero saber, quero ler. Acho que não havia redes sociais na altura. E depois quase todos os finais das séries que nós fomos seguindo, do "Dallas" aos "Ficheiros Secretos", todas essas séries acabaram mal, porque a malta desinteressou-se, os próprios criadores desinteressaram-se, depois era preciso acabar com aquilo, faz lá mais uma temporada, está bem chatinho.
Lá está, porque se arrastou.
Esvaziou.
São falsos finais.
É como aquelas festas em que já não há cerveja.
Exato.
Começa a sair um, outro, e quando dás por ti já não está ninguém.
Sim, exatamente. Já ninguém tem cigarros. Ou pior ainda.
O feto camarão acabou.
Ou pior ainda, alguém tem cigarros, mas já não há isqueiro.
Ou já não acende. Estás ali, a pedra. Agora já não é assim, que há aquelas máquinas. Enfim.
Essas máquinas não têm bateria.
Pois, é verdade. Não disseste isso. Disseste isso? Que maravilha!
Eu tenho putos.
Muito bem. Sim, senhor. Meus amigos, chegamos ao final de mais um "PopUp!" voltamos, como sabem, na segunda-feira com as sugestões da semana em podcast. Sigam-nos na sua e na vossa, de todos, plataforma favorita para não perderem nenhum episódio. Até lá.