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Aqui vamos nós, manhã de domingo na Rádio Observador, por pratos nunca antes navegados, em parceria com o TJ jornal e o nosso Manuel Serrão já cá está prontíssimo para dar mais uma dica. Bom dia.

Bom dia. Já cá estou com este calorzinho aqui em março, este calorzinho em Lisboa, já estou a sofrer.

De regresso a Lisboa, isto é uma luta. Dois homens que estão sempre com muito calor. Isto é a minha sina aqui no estúdio. Meu Deus do céu.

Está a aproximar-se o bom tempo outra vez.

Nem vamos falar nisso.

Vem aí a primavera, que é a minha prima preferida.

De regresso a Lisboa, temos hoje um restaurante na Baixa da cidade, ou será mais na alta da Baixa, Manuel?

O problema é este, é que em Lisboa têm sempre a mania que são mais que o Porto. No Porto, o que é a baixa do Porto? A baixa no Porto é toda a zona baixa. Aqui em Lisboa, com o maneiro das vaidades, aquela coisa das sete colinas, a baixa tem altos e baixos. E neste caso, o Zambeze é na alta da baixa. É preciso saber subir bem.

Realmente é uma dificuldade. Lisboa até elevadores tem na baixa.

Exatamente.

Com este nome de rio africano, o Zambeze deve ter ligações a algum país de África, ou não?

Exato. Tem, sim senhora. Tal e qual. E esse país é Moçambique, que já aqui na semana passada também falámos. Mas aqui não é por essas razões guerreiras, é mais por razões económicas. Os donos do Zambeze, que é o grupo Visabeira, têm muitos negócios em Moçambique e por isso decidiram fazer um restaurante onde combinam a gastronomia da região de Viseu, de onde são originários e onde têm sede, com a moçambicana, terra onde também já estão há muitos anos com muitos negócios.

Ao lado do Chapeau, certo? Zambeze?

Certíssimo.

Encontramos então o Zambeze ao lado do Chapeau, portanto já estou a imaginar ter uma vista de cortar a respiração. Mas o pior deve ser lá chegar e estacionar.

Vamos começar. Queres primeiro a má notícia ou a boa notícia?

Senão podemos ter tudo bom, não é?

Pois é.

A má notícia é que para chegar lá, tem muito que se lhe diga. E muito que subir. Desde a Baixa Pombalina até lá, passando pela Rua do Almada, acho que é o nome, e pelo Largo do Caldas, onde já teve sede um partido que ainda tem sede, mas enfim, já não tem deputados. Mas depois ainda é preciso subir do Largo Caldas até ao Zambeze, com uma rua estreitinha. Não é para fácil. Eu nunca levei lá o meu carro, vou sempre de táxi e fico com pena do motorista que anda para ali a subir. Agora, também há lá um supermercado que tem um parque. Se não for para sair a altas horas da madrugada, o meu conselho é que nesse parque, que tem entrada à beira do Largo do Caldas, deixe-se lá o carro, sobe-se de elevador e depois desce tranquilamente. Porque chegar lá a pé é preciso ser um atleta. Chegar lá de carro é preciso ser um mestre na arte da condução. Mas esta foi a má notícia. A boa notícia é que a vista é fabulosa e ainda por cima o Zambeze tem uma esplanada gigante. Ali ao lado do Chapeau, em que se tem uma vista deslumbrante sobre o rio Tejo, a Baixa Pombalina, ainda por cima agora, não sei se muito bem, se muito mal, ainda estou um bocado dividido, essa esplanada passou a ter umas zonas cobertas. Eu percebi qual é a ideia, é poder desfrutar também no tempo frio, no inverno. Embora eu, lá está, sou mais dos calores, tenho pena que eles não tenham mantido aquilo completamente livre.

Mas colocaram vidro?

Tem vidro, sim, é tudo transparente. E continua a haver zonas onde não há cobertura. Eles têm que manter isso porque aquela esplanada tem uma fruição de público e turistas, mesmo de quem não vai lá comer. Portanto, aquilo que tem que estar aberto ao público, faz parte da concessão, tem que estar aberto ao público, para as pessoas irem lá desfrutar da vista, tirar fotografias, etc. Mas a esplanada é uma vista fabulosa. Eu, portuense, me rendo a esta vista de Lisboa, de lá do Zambeze.

Fica aqui registado.

Fica aqui esta dica. Mas entre a comida moçambicana, que já estamos a anunciar, e a cozinha beirã, da zona de Viseu, de que se reclama, quais é que são as melhores opções?

À mesa, em sítios bons, muitas vezes o drama é sempre esse: o que é que eu vou comer hoje? O que é que eu vou optar? Ainda por cima quando conheço, sei que é bom isto e aquilo, apetecem-me logo as duas coisas. E portanto, o melhor é não ir sozinho ao Zambeze, para poder provar as duas comidas, a moçambicana e a beirã. Eu, por acaso, vou lá muito com o Rui Zinque e é isso que fazemos. Começamos pelo caril de camarão ou pelo caril de caranguejo ou pelo camarão à Lorentina. E Moçambique está feito. Depois vamos para as plumas de porco preto com risoto de cebola, que é espetacular, ou para o polvo grelhado com migas de feijão-frade. E ainda há um chacuti de pato, que eu também recomendo. Portanto, na verdade, é melhor lá ir acompanhado, em grupo de preferência, e não ir lá só uma vez.

Já percebi o porquê da dificuldade de escolher.

Mas para as Catarinas deste mundo temos tranches de peixe com leite de coco, que eu não gosto nada.

Agora, para ti, Catarina, tens isto que eu não gosto nada.

O coco para mim não é para misturar na comida, mas cada um sabe a si.

Mais sobra.

Mais sobra. Ainda há um caril de vegetais ou um risoto de cogumelos florestais, que eu também gosto, a acompanhar qualquer coisa, mas a ideia deles é comer só o risoto.

Sim, também eu. Mas não consegue, Manuel.

Ir para a floresta sozinho tem medo. Leva lá um bife ou um camarãozinho, qualquer coisa.

Ai, tão bom, eu adoro, é um dos meus pratos de eleição, risoto de cogumelos, está galho.

Eu também gosto muito.

Florestais, atenção.

Só. Ficas bem só com o risoto ou precisas também do estímulo Manuel?

Não, só o risoto.

Não, vocês somos privilegiados. De qualquer maneira, eu só como cogumelos, sobretudo destes tipo florestais, em sítios onde confio muito. Porque, como sabem, eu já uma vez apanhei uma intoxicação com cogumelos que ia indo desta para melhor.

A sério?

Pois é, os cogumelos têm muito que se lhe diga. É para saber quem colhe.

Eu adoro cogumelos.

Mas florestais há uns que se lhe calha um desses, deixa de gostar.

Sim.

Cuidado.

Lá em Viseu chamam-lhe os míscaros, não é?

Exatamente, são esses, os míscaros.

São muito bons também. Mas é preciso que seja gente com olho para aquilo e que saiba o que está a fazer.

Que saiba o que está a fazer, saber os que se podem comer ou os que se têm de ir logo ao lixo.

É engraçado, porque aquilo até é uma economia local em que as pessoas vão colher os próprios míscaros, vão apanhá-los à mata, e depois vendem. Por isso aquilo é uma economia local que funciona desta forma. Ou seja, não é uma coisa industrializada.

Sim.

Mas tem que se confiar muito na pessoa que escolhe. Tem que saber.

Claro que sim.

Pronto, fica o aviso feito e o lembrete para mim. O serviço é uma das componentes mais importantes de um restaurante, mas hoje em dia muitos perdem a atração exatamente por isso. No Zambeze, que nota, Manel, darias ao serviço?

Tens toda a razão e eu daria nota 18. E só não dou 20 para não ficarem todos babados, nomeadamente o Brahimi, que há lá um colaborador da empresa, moçambicano, que é igualzinho a um sósia do Brahimi, aquele jogador do Porto. E ele acha imensa graça. Já toda a gente sabe, ele agora ficou com este nome, eu batizei de Brahimi, toda a gente de lá vai sabe. "Quer ser atendido pelo Brahimi?" Ele é uma delícia, mas ele é sósia do Brahimi mesmo, é engraçado. É moçambicano.

Vai-se a ver, ainda têm alguma relação.

Nunca se sabe, o Brahimi vinha um bocadinho mais do meio de África, mas pronto. De qualquer maneira, o serviço tem moçambicanos, tem portugueses e é irrepreensível, tanto na receção, é impecável. Eu nunca lá vi nenhum aborrecimento, nunca lá tive nenhum problema. É raro num restaurante nós não nos queixarmos de alguma coisa. Demorou, fui mal tratado, não explicou. Olhe, que eu no Zambeze já lá fui mais de 10 vezes, não tenho uma única razão de queixa, não é fácil.

E agora estou é muito curioso por saber que sobremesas é que temos vindas de Moçambique. Ou será que neste capítulo vem tudo ali das Beiras?

Eu acho que isso-

Eu gosto muito das Beiras, eu sou beirão, atenção.

E bem. Eu não sou beirão, mas sou serrano, que rima. Mas atenção que Moçambique não há lá, que eu saiba, nenhuma sobremesa especial, mas também vindo de Moçambique chegava estragada aqui a Lisboa. Portanto, eles confiam mais nas Beiras. Sobremesas é mais Beiras, no caso do Zambeze. Há um cheesecake de requeijão com doce de abóbora, que é fabuloso, e depois a tábua de queijos, onde está o incontornável queijo da Casa da Ínsua, que também é deles. E portanto, eu lá é ou requeijão com abóbora ou queijo com tostas.

Gosto tanto de requeijão com abóbora.

Que maravilha. Estás sempre tu a pedir estes últimos dias.

É? Não sei.

Se calhar é melhor ser eu a pedir a conta e tu pedes a avaliação.

Então vamos a isso.

Estão mãos lábias.

Então hoje pago eu. Já que estamos a falar da Beira Alta, que é a minha Beira, pago eu.

Só por causa disso, vi logo.

Meu amigo, tendo em conta que estamos em Lisboa e tendo em conta que também há lá camarões à Laurentina à solta, eu diria que para três, a nota de 100 tem que levar um acompanhamento, uma guarniçãozinha.

Muito bem.

De uma nota de 20 ou até uma nota de 20 e uma de 10. Mas sai-se lá satisfeito.

Temos entradas, temos o prato, temos sobremesas.

Entradas, o prato com o camarão à Laurentina, sobremesas, um bom vinho dão, recomendo.

Não nos podemos queixar.

Não, não nos podemos queixar, pelo contrário.

Muito bem.

Mas também não é o melhor restaurante para ir todos os dias.

Sim, claro.

Uma cantina. Aquilo lá é um restaurante, não é uma cantina, atenção. Cantinas é no T.

E garfo, Manel. Acham que vamos ter aí um dourado?

Vamos ter um garfo dourado. Um garfo dourado pela comida, pelo serviço, mas sobretudo pelo serviço e pela vista, de facto, pelas instalações. A decoração é giríssima, como muitas coisas também da Vista Alegre. A coisa do interior é muito bonita.

Fica tudo em casa.

Fica tudo em casa, mas a decoração exterior com aquela vista de que já aqui falámos, não é fácil arranjar outro restaurante com aquilo. Portanto, acho que é mesmo um garfo dourado, sem qualquer margem de dúvidas.

Maravilha. Está dada então mais uma sustão. Ficamos por aqui, por pratos nunca dantes navegados na Rádio Observador, em parceria com o TJ. Manel, para a semana há mais.

Até para a semana.

E que mais?

E que mais? Que levante o véu.

Cheira-me a bacalhau!

Eu não quero.

E não sou o Quim Barreiros.

Até para a semana.

Até para a semana.