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Começa agora mais um "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França e comigo está o Bruno Vieira Amaral e vamos falar hoje de um problema, ou pelo menos de uma preocupação, que tem uma professora do ensino secundário, que no próximo ano letivo vai ter como aluna uma adolescente com um transtorno obsessivo-compulsivo. Ela tem 14 anos, tem sido acompanhada medicamente. Segundo a psicóloga da escola, houve até já o aconselhamento para que esta adolescente passasse um período internada para tentar debelar este transtorno obsessivo-compulsivo e portanto será no mínimo desafiante para esta professora. Eduardo, olá, boa tarde.
Olá Judite, olá Bruno.
Olá Eduardo.
Claro que é muito desafiante, Judite. E aquilo que a mim me preocupa nestas circunstâncias todas é que isto acaba por cair sempre nas mãos dos professores, que invariavelmente não têm uma retaguarda que os ajude a gerir situações tão complexas como esta. Primeira coisa: quando nós vamos ver um filme de terror, eu sei que isto vai parecer completamente ao lado. Quando nós estamos a ver um filme de terror, o nosso sistema nervoso é muito sábio e portanto, nessas circunstâncias, identifica um riso cavernoso, um olhar feio, às vezes aqueles vômitos esverdeados, enfim, aquelas coisas todas que nós já vimos nos filmes de terror, e o nosso sistema nervoso tem ali umas zonas um bocadinho mais arcaicas que disparam como um disjuntor de um quadro elétrico. Nós ficamos com taquicardia, nós ficamos a esconder os olhos e a não querer ver, porque no fundo nós temos a noção que é um filme, mas de repente ele entrou um bocadinho dentro de nós. E aquilo que nós todos fazemos de sensato, aliás, é repetirmos até à exaustão: "Calma, Judite, calma, Eduardo, isto é só um filme", que é uma maneira de nós racionalizarmos em cima de qualquer coisa que estamos a sentir. Um raciocínio obsessivo é isto, ou seja, é levar este racionalizar a uma escala muito maior. E portanto, é como se de repente quiséssemos controlar aqueles sentimentos e a seguir estivéssemos numa escalada cada vez mais intensa, a ponto de querermos já conter a imaginação e por aí adiante. Portanto, este registo obsessivo faz-se não de forma aleatória, faz-se, nós muitas vezes chamamos a isto um mecanismo de defesa, para fazermos frente a qualquer coisa que, de algum modo, nos perturba, que nós não conseguimos perceber, muito menos em tempo real, e que dessa forma tenta ficar aplacada. Quando nós já não conseguimos lá ir só com este registo mais racional, começamos a transbordar para comportamentos um bocadinho compulsivos. E aí temos aqueles rituais que todos nós fazemos de vez em quando, de forma absolutamente insignificante. "Olha, Judite, fechaste o gás antes de sairmos de casa?" "Claro que fechei". E depois: "Mas à cautela vamos ver". E estes rituais de verificação, que são banalíssimos, mas para algumas pessoas são uma espécie de mancha de óleo que vai crescendo. E portanto, claro que uma criança com este tipo de quadro é uma criança muito preocupante. Cuidado, porque este diagnóstico não é só um diagnóstico em termos de uma entidade psicopatológica, às vezes isto esconde outro tipo de funcionamento. O que eu estou a tentar dizer? Que quando as crianças já vão nesta espécie de bola de neve, muita ideação obsessiva e muitos comportamentos compulsivos, isto já é uma bola de neve muito grande que elas têm muito medo de parar, porque é como se ao pararem viesse lá uma avalanche. Ou seja, é quase como se, nos verdadeiros quadros obsessivo-compulsivos, eles fossem um bocadinho da porta de entrada de uma descompensação psicótica. Portanto, estas coisas são de facto graves, bem mexidas, podem-se tratar como deve ser e bem mexidas de uma forma concertada. Portanto, neste contexto todo, o que nós temos? Temos uma professora absolutamente dedicada. Que bom que existem professores assim, mas é muito importante que estes professores, por mais que sejam muito cuidadosos em relação a este tipo de ritualizações e tudo mais, a minha tentação é dizer: por favor, não cedam até onde for possível, não ceda de todo este tipo de coisas, porque quanto mais ceder, mais isto é uma areia movediça. Ou seja, a sua ânsia É de proteger uma aluna, na prática, está a trabalhar para que este tipo de comportamento se transforme numa bola de neve ainda maior. E, portanto, dentro do que for razoável, as regras são iguais para todos e as regras sendo iguais para todos, nós não nos devemos ceder em relação a este tipo de crianças.
Eduardo, confesso que quando ouvi falar de filme de terror, pensei que estivesse a falar...
É perigoso falar de filmes consigo.
Eu pensei que estivesse a falar da professora, da situação da professora e não da situação da aluna, porque esta professora já está preocupada com aquilo que irá viver, com aquilo que poderá ocorrer. Quais são os principais riscos em ter um aluno com estas características na sala de aula? Que problemas é que a presença de um aluno com estas características coloca, no funcionamento das aulas, claro, mas também no envolvimento dos outros alunos?
Bruno, desde logo, voltando àquilo que estávamos a dizer, as regras deixam de ser iguais para todos, o que é muito escorregadio. Depois, se este tipo de comportamentos desencadear de vez em quando episódios, e pode acontecer, episódios exuberantes de angústia, é natural que a turma pare uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes, e esta aluna, contra a sua vontade, mas às vezes, admito, manipulando aqui ou ali um bocadinho as coisas, possa começar a mandar em toda a dinâmica da turma e, portanto, de repente, deixa de haver uma turma e passa a haver um conjunto de alunos, mais uma, que no final de contas, acaba por ter muita dificuldade de se encaixar em tudo isto. É muito importante não perdermos de vista que os miúdos são de uma intuição absolutamente fora do lugar e percebem como ninguém quando é que um sofrimento é um sofrimento genuíno ou quando ele acaba por ter ali um jeitinho, um bocadinho manipulatório. E é natural que nessas circunstâncias, a determinada altura, aquilo que são reações solidárias, que são invariáveis nestes contextos em relação a estes miúdos, nalgumas circunstâncias, passe a dar algum levantamento geral, algum levantamento de rangos, porque a determinada altura, admito, que se esta professora quiser proteger muito esta aluna, de repente lhe fogem os outros das mãos, a ponto de se sentirem discriminados por uma situação de privilégio que começa numa perturbação, de facto, muito exuberante. Cuidado, porque eu acho que essa minha colega, que de alguma forma recomendou essa hospitalização, tê-lo-á feito, provavelmente, em desespero de causa. Acho que talvez possa ter exorbitado um bocadinho, porque, de facto, aquilo que me preocupa nestas circunstâncias é percebermos qual é o sofrimento que está subjacente. Há um sofrimento, estes miúdos e estes adultos com traço obsessivo-compulsivo instalados, sofrem muito. É como se nunca pudessem estar relaxados, estivessem sempre num estado de alerta. E, portanto, é óbvio que uma rapariga destas terá alguma dificuldade de sintonizar como deve ser com os conteúdos escolares, a não ser, como muitas vezes acontece nalguns, ancorarem-se nos desempenhos escolares para tentarem compensar algumas atitudes mais escorregadias que acabam por ter no dia a dia. Todavia, estas famílias precisam muito de ser ajudadas, porque aquilo que depois é preocupante é que os pais, na ânsia de não trazerem mais turbulência à vida familiar, entram nesta onda e quando entram nesta onda, o registo familiar torna-se absolutamente caótico. E, portanto, ajudarmos estas famílias é muito importante, até porque sem quererem, estas famílias podem ter contribuído muito mais do que por vezes imaginam para este tipo de quadros clínicos.
Por todos esses riscos que o Eduardo enunciou, e apesar dessa capacidade intuitiva dos adolescentes também de perceberem o que é que está do outro lado, seria aconselhável, e visto que estamos a falar de uma aluna do secundário e que vai ter diferentes professores, não vai ter só esta, seria aconselhável haver algum tipo de preparação que envolvesse não só os professores, mas também a psicóloga, eventualmente os pais desta aluna?
Sem dúvida nenhuma, Bruno, e mais. Era muito importante que essa figura poderia ser a diretora de turma, mas pode não ser. Pode ser uma espécie de tutor que faça a ponte com aquela aluna, mas claro que estas pessoas têm que estar sintonizadas no mesmo comprimento de onda, porque senão isto fica rigorosamente desgovernado. E cuidado, eu estou a pôr esse cuidado todo por quê? Porque muitas vezes este tipo de comportamentos não têm na base um registo de um sofrimento que, se continua a crescer, dá para uma descompensação daquelas muito feias. Às vezes os miúdos começam a ter este tipo de comportamentos mais obsessivos. Dou duas hipóteses. Por exemplo, quando têm um episódio de pânico E apanha um susto tão grande perante o episódio de pânico que, às vezes, estes comportamentos são, no fundo, uma espécie de antídoto à experiência de pânico, o que em termos de prognóstico é completamente diferente e, portanto, nós não podemos só ver pelo diagnóstico com que esta criança vai, até porque muitas vezes os diagnósticos não batem bem certo com tudo o que se passa. Segunda questão: nós não nos podemos esquecer que a entrada na adolescência, por mais que as mães digam que os miúdos aos oito já parecem estar a ser pré-adolescentes, não é bem à mesma velocidade com que estávamos habituados. E, portanto, quando a sexualidade bate na cabeça, de facto, os miúdos assustam-se muito e alguns ficam com traços muito obsessivos para estarem a lutar permanentemente contra o medo de resvalarem para toda uma ideação em torno da sexualidade que os assusta. O que, mais uma vez, em termos de prognóstico, é muito melhor. Portanto, primeiro nós devíamos pôr as legendas muito direitinhas para percebermos por que esta criança está a ter este tipo de sintomatologia, não ficarmos só pela leitura descritiva da sintomatologia e depois juntarmos professores e pais para darmos uma ajuda como deve ser. Era isso que objetivamente devia acontecer, protagonizado por cada psicólogo que está nas escolas, mas eu também percebo que existe um psicólogo para 2000 crianças e, portanto, nem sempre é razoável.
Mas este psicólogo está atento. Aliás, é este psicólogo que tem passado a informação à professora em causa e que passa a informação que vem do médico que está a fazer o acompanhamento anterior desta adolescente, o que é bom sinal, significa que o sistema está a funcionar.
Muito dentro do que é possível, evidentemente. Seja como for, se nós em off pudermos dar ajuda a esta professora, ela sabe o nosso e-mail e cá estamos para ajudar dentro do que for possível.
Combinado. Está combinado. Nós voltamos amanhã com mais um tema no "Porque sim não é resposta". Até lá, continue a ouvir-nos em podcast, todos os episódios estão disponíveis e escreva-nos também para eduardosá@observador.pt. Já sabe, qualquer problema, dúvida, é escrever para o Eduardo Sá que ele resolve.
Não!
Um abraço, Eduardo. Até amanhã.
Até amanhã. Um abraço, Eduardo.