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Bem-vindos a mais um "Porque SIM não é resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de crianças, ou melhor, não vamos falar de crianças, vamos falar dos casais sem crianças que, a título de exemplo, já representam 5% da população francesa. Olá, Eduardo, boa tarde. Isto é uma nova tendência? Aliás, pela nossa pirâmide demográfica que está invertida, conseguimos perceber que, de facto, crianças nascem poucas.
Olá, Judite. Olá, Bruno.
Olá, Eduardo.
Olhe, Judite, não sei se é uma nova tendência, é pelo menos uma realidade que algumas pessoas, de uma forma muito clara, assumem quando, se calhar, noutras circunstâncias, não se sentiriam muito à vontade pra o fazer, porque seriam objeto de muitos comentários críticos, cáusticos, uma surpresa muito invasiva e, portanto, talvez se fossem resguardar nesse sentido. E neste momento sentem que não têm uma necessidade por ir além, por andarem a esconder-se com aquilo que entendem que não faz sentido pra elas e, portanto, num registo destes, eu entendo, porque aqui vemos todos de nos sentir identificados com a dimensão da maternidade ou da paternidade, até porque essas pessoas terão as suas razões e muitas delas, se calhar, não têm experiências tão gratificantes assim como filhas ou até têm e por variadíssimas questões, depois de ponderarem, decidiram: "Crianças, não, obrigado".
Eduardo, este tema pode ser dividido em dois planos. Um é o das motivações pessoais de cada casal para não terem filhos e que podem ir de motivações mesmo pessoais a outras econômicas, a outro tipo de considerações. E o outro plano é o efeito que isso tem, as consequências dessas decisões pessoais, depois, a médio, longo prazo, para a sociedade. A sociedade, nós todos devemos contribuir para que essa tendência seja alterada?
Eu acho que sim. Eu estava a rir porque estava a pensar, eu à minha conta já dei a minha ajuda. Pronto.
Não precisa ser convencido.
Não. Mas sejamos razoáveis. Eu acho que nunca houve uma política séria de natalidade. Não houve, eu acho absolutamente inacreditável que nunca tenha havido. E não é por se aumentar o abono de família, outros tipos de coisas, que de repente essas coisas ganham sentido. Não é! Eu vejo aquilo que se passa noutros países em relação ao apoio que se dá aos pais que decidem ter filhos e desde o tamanho da licença de maternidade e de paternidade, obrigatórias, aliás, à forma como nessas alturas as pessoas têm o ordenado por inteiro pago pelo Estado, sem descontos. Portanto, ainda ganham mais, no sentido de ter essa noção que um bebê implica gastos iniciais muito significativos e outras coisas do gênero. Eu acho que há todo um conjunto de políticas que em Portugal parecem ser supérfluas e, portanto, eu acho que é como em tudo, nós andamos sempre despreocupados com aquilo que se passa à nossa volta e depois, quando finalmente temos uma catástrofe nas mãos, deitamos as mãos à cabeça e perguntamos o que fazer. Eu acho que, de facto, estas pessoas que escolhem não ter filhos, fazem-no porque entendem que não têm condições psicológicas, financeiras, ou seja lá o que for, ou relacionais, seja o que for. E, portanto, é absolutamente legítimo. Agora, o que não é compreensível é que quando nós olhamos para os casais que têm filhos, muitos afirmam de uma forma muito clara que idealmente gostariam de ter dois ou três filhos e, na maior parte das circunstâncias, têm um. E quando isto se passa e nós não interpretamos os dados e não criamos políticas que viabilizem a natalidade, evidentemente que nós estamos a ser absolutamente irresponsáveis. E quem gere toda a dinâmica social, e, portanto, quem nos governa, há muitos governos a esta parte, e não só, outros órgãos de soberania, entendem que isto é uma coisa tão supérflua que nunca a tornaram numa questão de regime. E, portanto, sim, é qualquer coisa que corre de forma paralela, mas acerca da qual nós devíamos falar muito a sério, porque é muito séria. E eu acho que nós não estamos a lidar com ela com a seriedade devida.
Eu há pouco, quando falava na questão da moda, porque acho que de alguma forma aquele anátema que existia, sobretudo sobre as mulheres que não querem ter filhos, é cada vez mais esparso. Ou seja, hoje em dia é aceitável que uma mulher não queira ter filhos, é uma decisão dela, é uma decisão do casal. E isso é cada vez mais evidente, se calhar, até nas sociedades mais desenvolvidas ou do primeiro mundo, em que a carreira está à frente, o bem-estar material, econômico, os projetos de vida mais leves e sem atilhos. Não acha que isso é Também facilitador desta questão de não ter filhos?
Acho, Judite. E a questão da moda eu também não excluo, porque infelizmente, este tipo de coisas às vezes não tem tanto a ver com um balanço que se faça no sentido de desejo, não desejo, quero, por que não quero, etc. Mas às vezes tem a ver com estes mimetismos que se fazem por impulso. Mas, para todos os efeitos, sejamos razoáveis, se as mulheres fossem a ponderar e não tivessem na experiência de maternidade a gratificação que de facto têm, provavelmente decidiriam na sua maioria neste sentido, porque depois de serem mães, são regra geral prejudicadas. Prejudicadas no trabalho, porque compatibilizar filhos, sobretudo quando eles são pequeninos e dependem mais da presença efetiva de uma mãe e trabalho, é uma coisa tremenda. E obviamente, quando se pondera o quanto custam, custam muito dinheiro por dia. Portanto, nestas circunstâncias, se fossem a ponderar só por esse tipo de fatores, se calhar a natalidade teria caído ainda mais a pique. Isto era mais vulgar ainda. Mas, de facto, os filhos a determinada altura são atilhos. E eu, sem nunca pôr em causa a importância de um filho no nosso crescimento e do que isso tem de experiência mágica, eu tenho a noção que tomando em consideração um casal, um filho é aquilo que mais une um casal e que mais patifa uma relação. E se nós ponderarmos isso tudo neste pacote de atilhos, eu compreendo que haja muitas pessoas que, ponderando, digam: "Não, não quero. Não faz sentido, não me apetece", sem pensarem em mais nada.
Eduardo, quem é que vive mais feliz, afinal? Os casais com filhos ou os casais sem filhos? Porque ouvimos muitas vezes essa discussão entre uns e outros. Uns dizem que são mais felizes com mais liberdade, outros dizem que um casal com filhos é um casal completo. Quem é que vive melhor com a opção que toma? Ou pode-se viver perfeitamente feliz-
E deixa-me só meter aqui outra variável, que é: alguém se vai arrepender?
Judite, há uma tendência no momento, que eu acho que é uma tendência significativa. É que eu conheço também muitas destas mulheres que dizem: "Não, não quero ter filhos".
Que depois, ao último minuto...
Ou não, fazem neste momento, sobretudo em estratos socioeconômicos mais favorecidos, evidentemente, fazem estimulações hormonais e depois recolhem não sei quantos óvulos que congelam para o que der e vier.
Pelo sim, pelo não.
Pelo sim, pelo não. Pode ser que ali entre os 40 e os 50, de repente me bata uma coisa e pelo sim, pelo não, eu faço isso.
E às vezes bate, não é?
E às vezes bate. Bate muitas vezes, é verdade que sim. Em relação à pergunta do Bruno.
Quem é que é mais feliz?
Eu sou suspeito, percebe.
Gostas mais do pai ou da mãe?
Exato. Eu percebo que quando nós não temos filhos, podemos ir jantar fora e vir às horas que nos apeteça e não estamos condicionados, seja em relação ao que for. Queremos fazer uma viagem, por que não? A quem é que vamos deixar as crianças, etc. E como é que nós vamos fazer com a culpabilidade quando lá chegamos e de repente temos uma vozinha ao telefone a dizer: "Estou com saudades" e esse tipo de coisas. Mas eu acho que os filhos são absolutamente fantásticos para nos pôr problemas e nos devolvem à beleza da vida. Nós às vezes andamos tão perdidos com tanto lixo, com uma poeira que se cola à pele, que de repente os filhos dão-nos uma dimensão tão simples das coisas e trazem-nos de volta uma beleza tão desconcertante que perante isso, eu estava tentado a dizer-lhe que, mas eu sou parcial, atenção, que são mais felizes as pessoas que têm filhos quando sabem ser pais.
Eduardo, eu vou terminar com esta, porque acho que terminamos em alta e voltamos amanhã para mais um episódio. Até lá, estão todos sempre disponíveis nas plataformas habituais, no site "O Observador" e, mais importante, continue a escrever-nos para eduardo@observador.pt, porque gostamos muito de ler os seus e-mails. Eduardo, um grande abraço, obrigada e até amanhã.
Até amanhã, Eduardo. Um abraço.
Um abraço para todos e até amanhã. Muito obrigado.