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O que é isso de saber perder e como é que isso se explica a uma criança? Olá, Eduardo, boa tarde.

Olá, Judite, boa tarde.

Não é fácil de explicar a uma criança como é que se pode perder e que perder pode não ser assim tão mau.

Judite, é sempre mau.

É? Mas não traz ensinamentos pro futuro?

Quer dizer, isso é aquilo que depois resulta desta resignação que todos aprendemos a ter quando perdemos. E percebemos, aliás, e é verdade, que muitas vezes há derrotas que nos ensinam mais em muitos aspectos do que muitas vitórias. Isso é inequivocamente verdade. E mais, é verdade que crescemos mais. Não que eu esteja aqui a fazer apologia da derrota, mas crescemos muito mais diante de uma derrota, porque também somos obrigados a perceber o que nós queremos, onde é que nós falhamos, que é uma coisa que nem sempre acabamos por aceder, porque com mais ou menos sorte, temos sempre a ideia de que conseguimos fazer as coisas e nem sempre fazemos a leitura adequada, sobretudo do contexto onde vamos a jogo. Portanto, nessas circunstâncias, sim, eu acho que aprender a perder ajuda-nos a educar a frustração. Hoje perde-se, amanhã ganha-se. E é verdade que muitas vezes uma derrota muito bem gerida cria condições pra uma vitória não tarda nada. Portanto, tudo isso é bom. Agora, num primeiro momento, Judite, ninguém gosta de ganhar. Aliás, eu até fico preocupado quando as crianças, ao perderem, reagem com uma certa compostura, porque é quase como se uma pessoa perguntasse: "Meu Deus, mas o que se está a passar com esta criança?" Portanto, eu percebo que não gostem, que às vezes, quando perdem, mesmo já bem crescidas, fiquem ali com uma lágrima ao canto do olho e com uma raiva inacreditável, que às vezes até tentem fazer alguma batice, mas é à medida que vão experimentando isso tudo e que vão perdendo e que nós, não de uma forma compulsiva, mas de uma forma educativa, não lhes poupamos algumas derrotas, porque temos a noção que há derrotas que são, de facto, educativas, que tudo isso junto faz com que eles cresçam e aí, sim, aprendam a perder, mas sempre muito contrariados, porque perder dói sempre.

É preciso enquadrar, sobretudo pros mais novos, uma forma de lidar com essa derrota, porque pode trazer aqueles sentimentos de "não sou suficientemente bom para".

Judite, é verdade, sobretudo quando se perde sempre. Mas lá está, eu acho que nós, sobretudo os pais e as mães, somos às vezes muito protetores perante algumas derrotas. Sejamos razoáveis, é muito comum que os nossos filhos, das duas, uma, quando chegam a um sítio e começam a ter um sucesso muito fácil numa tarefa qualquer, o clássico dos clássicos é, por exemplo, a música. E há um professor de música que, coitado, na ânsia de os motivar, diz que ele tem imenso jeito. É comum que, em muitas circunstâncias, eles tão depressa percebem que podem ser capazes como a seguir desistem. Desistem, com a mãe e o pai a dizer: "Mas o que se passa? Por que ele começa tudo e não acaba nada?" Mas também é verdade que a primeira derrota, muitas crianças, se puderem, dizem: "Já não quero mais". E aqui é que os pais podem ser muito importantes, não deixando que eles desistam quando estão a ganhar de caras e não deixando que eles desistam quando eles têm a primeira ou a segunda derrota, porque então nas atividades desportivas, Judite, meu Deus, há um ano em que eles perdem os jogos todos e no ano a seguir, quando estão no segundo ano de um escalão, aí a fia mais fina e ganham muitas vezes. Mas aquele primeiro ano ou às vezes o modo como estão tempo demais no banco de suplentes e só jogam um bocadinho na parte final, só pra dizer que não jogam. Tudo isso são fatores de aprendizagem muito importantes, que são fundamentais nas atividades desportivas, na escola, na vida e às vezes nós poupamo-los a isso e quando fazemos não os estamos a proteger. Não estamos, de certeza.

Há a parte importante do fair play e do desportivismo, que às vezes falta aos próprios pais, até mais do que às crianças. Mas isso é uma parte muito importante, sobretudo do crescimento no desporto. Lá está, há épocas em que só se perde, há outras em que só se ganha. Perceber esta questão aleatória, que muitas vezes depende do azar ou da sorte, é difícil explicar a uma criança.

É, mas sobretudo aprende-se com a experiência, não é, Judite? E eu acho que se ouvir aquilo que se passa, por exemplo, nalgumas atividades desportivas, as equipes de futebol, as equipes de basquete Que são aquelas que às vezes envolvem mais os pais, e sobretudo as de futebol, que fazem com que os pais se envolvam um pouco para além do que é razoável. Eu tenho que reconhecer que olhando 10 anos de distância para trás, a diferença é inacreditável.

Para pior?

Para muito melhor, Judite.

Para melhor?

Era muito comum ver pais a mandarem treinadores, a fazerem comentários no contexto dos treinos, já nem falo dos jogos, francamente mal-educados e antidesportivos. E a diferença hoje é enorme. Os treinadores educaram muitos pais, em boa verdade, não permitem de modo nenhum que os pais façam as equipes e se ponham a dar palpites que passem para além do que é razoável e obrigam, e muito bem, no final de um jogo, ganhe-se ou perca-se, que os miúdos se cumprimentem, nem se discute. E tenham que cumprimentar o público. E eu acho que isso são atitudes tão didáticas e tão sábias, que são tão transversais a todas as áreas, que fazem toda a diferença, porque eles hoje podem perder por uma questão de azar, às vezes é literalmente de azar, mas também sabem à medida que jogam, que hoje se perde, amanhã se ganha. O que não é razoável é poupá-los à exposição destas coisas, porque se nós os poupamos, estamos a criar peças de porcelana, onde queremos, sobretudo, crianças todo-o-terreno.

Que não estão preparadas depois para a vida adulta, não é?

Não estão, de todo.

Saber fazer a gestão desses sentimentos que acompanham a derrota, tem implicações também na escola e na forma como é apresentada a famosa competitividade. Ela é demasiado feroz, por vezes?

Judite, às vezes é estúpida, que é uma coisa que não devia ser. E quando é que é estúpida? Quando há mães, não quer dizer que o pai não assuma atitudes semelhantes, certamente que fará. Mas há mães que antes de quererem saber a nota de uma criança e de saberem o porquê destes desempenhos, querem saber as notas de todos os colegas da turma. E quando há crianças que quando têm 80% num teste de 100% de valor máximo, repreendem e castigam os filhos porque só tiveram 80%. E portanto, aqui eu acho que os pais têm que perceber que as crianças muitas vezes têm maus resultados, porque às vezes também têm maus professores. Quando uma criança tem um bom professor, pode até ter um ódio de estimação em relação à matemática, que de repente o ódio vira paixão. E portanto, às vezes nós somos um bocadinho precipitados. Aprender no contexto de uma turma é também competir e não é razoável que nós partamos do pressuposto que há uns que são oficialmente inteligentes e outros que não. Todos eles são capazes. Todos. E os que não são muitas vezes capazes, são aqueles em relação aos quais a escola ainda não percebeu qual era a password para lá chegar. E tem que descobrir. Agora, competir a este nível não é obrigatoriamente mau, porque também é outro tipo de competição. Às vezes ganha-se, às vezes perde-se. E é muito importante que às vezes os nossos filhos tenham uma negativa para aprenderem com a dor que isso desencadeia, a terem outro tipo de empenhamento a seguir. Eu às vezes, tentando ser um bocadinho provocatório, entendi que devia ser proibido entrar na universidade todas as pessoas que nunca tiveram uma negativa, porque se não percebem o elementar daquilo que às vezes é uma derrota, vão ter que o fazer mais tarde ou mais cedo, por uma razão simples: porque a exposição a estas pequenas dores ajuda-nos a conviver e a crescer com a dor. E às vezes, de tanto querermos poupar a dor aos nossos filhos, arranjamos assim uma espécie de imunodeficiência adquirida à dor, que feitas as contas pela vida fora, só funciona contra eles.

E, portanto, não há como evitar. Eduardo.

Não há mesmo.

Também não há como evitar o fim de semana, ainda bem. Ele está aí à porta. Nós voltamos a nos encontrar na segunda-feira. Entretanto, continue a ouvir-nos em podcast e a enviar as dúvidas e as inquietações para eduardosa@observador.pt. Eduardo, um grande fim de semana. Muito obrigada e até segunda-feira.

Um grande abraço e atenção.

Um abraço.