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Começa agora mais um "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de autoestima a propósito de um e-mail de uma ouvinte. Olá, Eduardo. Quando uma criança de sete anos repete vezes sem conta os elogios que ouviu, o que ela está à procura?

Olá, Judite. Depende dos elogios e de quem lhos deu, como se compreende. Mas de alguma forma estará a fazer aquilo que um departamento comercial faz melhor do que ninguém, que é de se promover junto das pessoas a quem vai repetindo este tipo de elogios, quase como quem diz: "Caso não tenham reparado, vejam bem o que estão a perder quando não estão atentos a todas as qualidades que eu tenho aqui para dividir convosco". É isso que ela está a dizer.

A mãe interpreta como falta de autoestima. Faz algum sentido esta leitura?

Judite, eu acho que não. Sabe por quê? Porque eu acho que as crianças são muito sábias quando se trata de reclamarem a pontinha de atenção que lhes falta, apesar de toda a atenção que elas têm. Portanto, nessas circunstâncias, quando repetem uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes, cinco vezes, não quer dizer que estejam assim tão encolhidas. Por uma razão simples: porque uma criança com uma autoestima pequenina, muito amarrotada, porventura muito encolhida, não tem nem força para marcar presença, para ter uma opinião. Às vezes, faz de versão infantil do Homem Invisível e tenta, de alguma forma, comportar-se como quem diz: "Se vocês não repararem em mim, eu até agradeço". Isso é o que as crianças com uma autoestima muito frágil acabam por fazer. São um bocadinho apagadas, como se diz nas escolas, em relação à forma como se colocam no meio de uma turma e como tentam não ocupar espaço. Quando uma criança é muito segura de si própria e entende que trazer pra casa elogios de que acabou por ser o alvo favorito, pode fazer com que a sua cotação tenha uma revisão em alta junto da mãe. Pode-lhe faltar tudo. Autoestima não falta, de certeza, Judite.

A mãe pergunta se pode ser uma espécie de necessidade de confirmação ou de atenção.

Judite, tem a ver com os nossos filhos, quando são muito mimados, têm sempre a ideia que se nós gostarmos deles, dizemos sim a tudo que eles querem e, portanto, tudo o que lhes damos é manifestamente motivo de gratidão pra eles. Mas ao mesmo tempo, se puderem ir buscar mais um bocadinho, aí estão eles. Portanto, uma criança que faz isto junto de uma mãe percebe, em primeiro lugar, que esta mãe tem um coração maior que sei lá o quê. Segundo, que é uma mãe atenta e preocupada e que entre nós, que ninguém nos ouve, dito francamente, porventura um bocadinho insegura, a ponto de achar que tudo aquilo que dá a uma criança e que faz com que ela tenha esta luminosidade toda e estes argumentos inacreditáveis, que chegam a que ela mal põe os pés em casa, de repente começa a reproduzir os elogios que lhe fazem, sejam verdade ou não. Uma criança destas tem uma mãe que percebe que é tão especial, mas eventualmente tão insegura, que depois instrumentaliza isto para fazer com que a mãe fique ali num "ai Jesus" muito particular e a seguir estique mais um bocadinho e lhe peça mais um bocadinho de mãe e, portanto, está havendo aqui alguém inseguro. Judite, ainda bem que a mãe não nos está a ouvir, mas eu acho que é mais a mãe do que propriamente a criança.

A família está longe de casa, mora noutro país, sem rede de apoio. Há um irmão de três anos. Este contexto pode ter algum peso no comportamento?

Judite, tem. Eu acho que um destes dias nós temos que fazer a sério um programa sobre a rivalidade dos irmãos, sem fazermos disto um drama. Mas ela existe, Judite, porque é tão difícil, às vezes, uma pessoa durante um ano, ou dois, ou três, ou quatro, ou cinco, ou 10, ser filho único e de repente nasce um irmão. Às vezes os pais dizem: "Por que nós tivemos este bebê? Porque o meu filho mais velho pediu", o que às vezes é batota, porque às vezes os pais, de alguma forma, sentem que um pedido de um filho acaba por corroborar o desejo deles, como não podia deixar de ser. E portanto, a certa altura, é tão complicado ser promovido pelas escadas abaixo e passar de filho único a filho mais velho, porque claro que tem outras prerrogativas, tem outros direitos Ok, tem outras responsabilidades. Mas, ao mesmo tempo, parece que o engraçadinho oficial da família passou a ser o bebê que ri, diz as primeiras palavras, vejam lá as gracinhas que ele já faz e a maneira como anda. Sem quereres, sem dar por isso, mas seguramente sem quererem, os pais fazem com que o mais novo ganhe algum protagonismo. As crianças mais tristonhas pedem chucha e às vezes até pedem uma fralda, quase como quem diz: "Pronto, se o que está a dar é ser bebê, por que não fazer por isso? Talvez eu tenha de volta a qualidade e a quantidade de mãe que eu perdi". Os mais habilidosos vêm pra casa e montam todo um espectáculo do gênero: a pessoa A elogiou-me desta maneira, a pessoa B daquela, etc. Que é como quem diz: "Como é que tu podes não estar atenta a este Fórmula 1 de filho que tu tens aqui, enquanto vais dando atenções à quem tem síndrome de nós e que, na verdade, não tem graça nenhuma, ou pelo menos não tem nem metade da graça que eu tenho". Quer dizer, uma criança que faz uma coisa destas a uma mãe, é uma criança que pode lhe faltar tudo. Autoestima, não, é uma criança engenhosa, lindíssima. Uma criança que tem a habilidade de fazer uma coisa destas, é uma criança tão bonita que eu acho que a mãe pode se sentir sempre insegura. Quem é que são os pais que não se sentem inseguros quando têm um segundo filho? Mas orgulhosa deste filho? Meu Deus, Edite, essa mãe devia ser, entre aspas, como compreendo, obrigada a sentir-se muito orgulhosa, porque este filho tem uma pinta que Nossa Senhora, Edite.

E como é que se reage a estes autoelogios?

"Olha, meu amor, ainda bem que tu dizes que a tua professora acha que tu és a pessoa mais simpática e que a tia diz que tu és inacreditavelmente bem-educado. Isso tudo, porque a mãe acha que tu às vezes ficas a pensar: 'Hum, eu acho que a mãe gosta muito mais do mano do que gosta de mim'. E se tu queres uma opinião", ali um bocadinho de silêncio, Edite, "é verdade". E quando uma criança olha e fica perplexa, como quem diz: "Será que a mãe bateu com a cabeça num sítio qualquer?" A mãe ri-se de uma forma cúmplice, passa-lhe a mão pela cabeça e diz assim: "Pronto, agora quando vires com essas parvíssimas outra vez, e eu em vez de ficar bem disposta, até sou capaz de me zangar, ok?" E tudo se resolve.

Esta mãe descreve que a criança exagera perante pequenos toques que não magoam. Isto é uma forma de chamar a atenção?

Mas, Edite, nós temos a ideia que há alguns políticos que conseguem ser populistas e que fazem uma gritaria enorme na Assembleia da República, etc. E é verdade, infelizmente é verdade. E é uma forma de dizer: "Atenção, eu existo". De acordo? E quando dizem que pleitos, pulbóis: "Atenção, eu existo", claro que é uma forma de chamar a atenção. Mas que a mãe não fique preocupada, porque não significa que uma criança está deprimida e completamente destroçada, com uma autoestima a bater no zero. Nada disso. Quer dizer que tem uma criança engenhosa, habilidosa, com um bocadinho de astúcias, Edite. E pode ter muitas dificuldades, mas que sabe fazer pela vida como ninguém, há isto de certeza absoluta.

Eduardo, hoje ficamos por aqui. Voltamos amanhã com mais um tema. Um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Outro abraço, Edite, e até amanhã.