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Começa agora mais um "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos responder uma pergunta de um ouvinte que não é nada fácil, porque é sobre défice de atenção e hiperatividade. Nós já falámos sobre isto algumas vezes, mas nunca é demais voltar ao tema, porque é uma questão que afeta tantas famílias e que deixa tantos pais preocupados. E o que se põe, Eduardo, olá, boa tarde, é: como é que se sabe se uma criança tem défice de atenção, se tem hiperatividade?

Olá, Judite. Nós já falámos, de facto, algumas vezes, mas é um diagnóstico muito tentador. Às vezes é um diagnóstico com aspas, mas é muito tentador, porque quando uma criança sai um bocadinho fora dos parâmetros habituais numa escola, até há professores que se aventuram por ali adentro e põem esse tipo de diagnóstico. Fica claro um aspecto: nós temos que contextualizar os comportamentos das crianças. Evidentemente, que se elas têm uma vida muito agitada desde que acordam de manhã até que chegam a casa e às vezes passam-se 12 horas. Se têm muita atividade escolar, às vezes demais, se têm aulas positivas e às vezes em turmas que não são nada fáceis e às vezes até professores difíceis, etc. Há um conjunto de fatores do ambiente, chamemos-lhe assim, que contribuem pra que elas não consigam estar atentas. Chama a atenção que o cansaço, só por si, já é um fator de estresse e, portanto, não é suposto que uma criança que esteja muito esticada até o limite das suas capacidades, consiga estar atenta quando muitas vezes está com o nervoso biodino e às vezes muito cansada. O facto é que o diagnóstico de hiperatividade deveria ser fazido ao, porque há, de facto, crianças que são tremendamente impulsivas. Crianças, vamos dizer, dos seis, sete, oito, sobretudo pra frente, que são muito impulsivas, que incomoda inclusive a agitação que têm. Às vezes nós observamo-las, todos nós, num contexto de um restaurante e é muito incomodativo ver, porque nós percebemos que há ali um sofrimento subjacente que parece ser imparável, tipo efeito dominó, que faz com que elas não estejam sempre ligadas à corrente, sempre a provocar, nomeadamente os pais, a desafiá-los. E este tipo, de facto, de hiperatividade não tem tanto a ver com aquilo que são os diagnósticos a torto e a direito que se põem sobre pretensas hiperatividades de muitas crianças. Qual é a baliza, como está a dizer? A baliza tem a ver com as crianças que são predominantemente agitadas, predominantemente impulsivas, predominantemente irrequietas e as crianças que são episodicamente irrequietas, episodicamente mais agitadas. O episodicamente recomenda-nos a dizer não. Não é um diagnóstico que prevaleça, por mais que de vez em quando haja alguns episódios desse tipo. A mesma coisa em relação à atenção. Quando uma criança fica muito mal disposta, quando vai fazer trabalhos de casa, mas quando, em contrapartida, está diante de desenhos animados ou até de um videojogos, ou até numa conversa. E ela, nessas circunstâncias, fica agarrada às situações e sintoniza a atenção, que é de facto uma consensualidade de sentidos que faz estar muito atenta a absorver tudo aquilo que lhe dão. Esta assimetria faz com que, muitas vezes, nós tenhamos a obrigação de dizer: cuidado, por mais que haja episódios em que ela parece estar no registro de alguns défices de atenção. Uma coisa são alguns défices de atenção, que nos obrigam a perceber porque é que ela os tem e que é uma coisa completamente diferente daquelas crianças que, sim, senhor, são hiperativas e têm défices de atenção, porque estão numa agitação tal que faz com que muitas pessoas digam: calma, isto parece ser muitas vezes constitucional. Não é tanto assim, porque há quadros clínicos na psicopatologia que se traduzem desta maneira, o que não quer dizer que não precisem de ser manifestamente tratados, porque estas crianças estão num sofrimento exagerado para o que deviam estar.

O déficit de atenção, por algum motivo, afeta mais rapazes ou mais raparigas, ou é indiferente?

Não, não é indiferente. Afeta mais rapazes por uma razão simples, porque os rapazes não são, de facto, iguais às raparigas e, portanto, nessas circunstâncias, acabam por ter uma atividade Mais física, como as mães costumam dizer. E, em muitas circunstâncias, as escolas mal vão poupando nos recreios, vão poupando nos espaços de recreio abertos, onde eles possam andar a correr e tudo mais. E nessas circunstâncias, obviamente, se são obrigados a estar muito mais contidos do que precisam, têm mais probabilidades depois de ter esse tipo de manifestações.

É preciso reduzir os estímulos ao pé da criança, dar-lhe mais tempo para realizar uma tarefa, partir a informação, como se costuma dizer. Não tornar a informação muito complexa e muito longa, porque a criança tende a distrair-se. Há estratégias, não é?

Claro, e essas podem ser algumas delas, mas outras estratégias podem ter a ver com uma coisa tão simples como: "Por favor, escolas portuguesas, tenham outra atenção aos recreios. As crianças precisam de ter recreio. Não significa que tenham de ter uma hora entre cada período expositivo de 90 minutos de aulas, mas, por favor, não é com cinco minutos que elas, de alguma forma, respiram fundo e partam para a aula a seguir mais competentes para estarem atentas".

Já agora, para ter um diagnóstico certo, é sempre difícil dizer, porque não estamos a falar de uma ciência exata, mas para ter a certeza que temos o diagnóstico mais firme, é preciso fazer muitos testes.

Não é preciso obrigatoriamente fazer muitos testes. Nestas circunstâncias, é como nas outras áreas da clínica. Ou fazemos uma avaliação clínica, um exame clínico, e isso se calhar só está mais disponível para as pessoas que têm muita experiência clínica, porque basicamente têm muitos algoritmos na cabeça, cruzam muita informação e são capazes de discernir por pequenos apontamentos aquilo que são sinais que indiciam este tipo de perturbação ou sinais que contrariam esse tipo de diagnóstico, por mais que aparentemente toda a gente os esteja a encaminhar para aí. Ou, no caso das pessoas não estarem tão capazes de fazer exames clínicos, terem exames complementares de diagnóstico e esses exames complementares têm muitas vezes a ver com escalas e outros tipos de instrumentos psicológicos, de avaliação psicológica, que nos permitem, em caso de dúvida, esclarecer aquilo que qualquer exame clínico às vezes não deixa muito claro. Aquilo que me preocupa é que muitas vezes estes diagnósticos são colocados por pessoas que são muito generosas, sem dúvida absolutamente nenhuma, mas que não têm a experiência clínica adequada e, em muitas circunstâncias, introduzem este tipo de informação junto dos pais e acabam por condicioná-los tanto na sua parentalidade que a seguir cola-se um diagnóstico que muitas vezes não tem nada a ver com aquela criança. Às vezes medica-se quando não se devia e depois é como os slogans na política: fica tudo tão colado que parece que é uma realidade, quando de facto às vezes tudo começa por um diagnóstico mal feito, por um equívoco.

E esse é o problema, não é?

Esse é o grande problema.

E a terapia farmacológica é dada muito rapidamente.

As prescrições às vezes têm uma mão demasiado leve e os ganhos às vezes não justificam os custos, sendo certo que fazer prescrições perante diagnósticos que não são tão robustos assim não é razoável na saúde mental, como não é razoável em nenhuma área da saúde, claro.

Ficam aqui os pontos principais para quem se depara com esta questão agora. Hoje ficamos por aqui, amanhã voltamos com mais um tema e até lá já sabe: escreva-nos para eduardosar@oobservador.pt. Ouça-nos em podcast, nas plataformas habituais e também, claro, no site "O Observador". Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Um grande abraço para si, Sítio. Até amanhã.