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Esta é a Tarde, em directo, vai até às 20h e agora tenho o "Porque Sim Não é Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Vai estar à conversa hoje com o Ricardo Conceição, também a propósito deste regresso das crianças às escolas e os efeitos nos anos letivos desta pandemia. "Porque Sim Não é Resposta", com Eduardo Sá. Eu sou o Ricardo Conceição. Bem-vindos. Olá, Eduardo, bem-vindo, como está?
Olá, Ricardo, como está?
E vamos terminar esta semana com o anúncio do regresso das crianças mais pequenas às escolas, às creches, pré-escolar, primeiro ciclo. Eduardo, é um alívio para todos?
É, sobretudo, um alívio para os pais.
Eu não quis ser eu a dizê-lo.
Ó Ricardo, não imagina a quantidade de pais que confidenciam isso. Ainda hoje de manhã, uma mãe me dizia que estava tão ansiosa que eu perguntei: "Dormiu mal? Só pode ser." E ela disse: "Não, estou ansiosa que chega segunda-feira para o meu filho finalmente ir para a escola." Portanto, eu acho que é uma ânsia muito grande para os pais, porque obviamente, aquilo que nós estamos a pedir, sobretudo a todos os pais, mas então aos pais dos mais pequeninos, estamos a pedir uma coisa dificílima, porque não é razoável nós imaginarmos que o espaço digital compense tudo o resto que a relação indireta e ao vivo pode dar. Mas é muito importante também para as crianças, porque os pais estarem divididos no papel de pai ou de mãe ou de educadora de infância ou de professor, é tão exigente, é tão sem sentido ao mesmo tempo, que de repente recoloca as coisas no lugar e as crianças vão agarrar essa oportunidade como quem apanha uma onda e faz ali um movimento de quem surfa diante com uma alma absolutamente imparável. E, portanto, para elas, o regresso vai significar crescerem numa semana aquilo que seguramente não cresceram na quarentena.
Este anúncio foi feito ontem e há quem pergunte se isto não é rápido demais, se pais e miúdos estão preparados para voltar já na segunda-feira.
Ricardo, eu não sou daquelas pessoas, como eu já ouvi, com alguma tristeza, devo dizer, que afirmam que, de repente, não há decisões políticas neste país, são os técnicos a mandar no governo. Eu não acho isso. Eu acho que tenho pena que, em determinada altura, não tenham escutado os técnicos com a atenção devida, porque isso de alguma forma teria sido muito importante para todos. Seja como for, aquilo que eu acho que é fundamental é que nós tenhamos a noção de que há um tempo para tudo e parece-me a mim que nós estamos a começar pelo lado correto. Estamos a começar pelos mais pequeninos, porque, de facto, é tremendo, é terrível, é demais, que eles estejam privados daquilo que é absolutamente um fator de crescimento, para que eles possam apanhar o ano letivo onde quer que seja. Agora, é bom que nós tenhamos a noção que já são dois anos letivos cheios de trambolhões e que isto não vai ser tão simples a seguir.
Eduardo, vou já a esse ponto, mas queria antes perceber melhor isto. Nós aqui chegados e as férias da Páscoa já espreitam. Não seria melhor esperar pelas férias da Páscoa e depois então arrancar em força para outro setor?
Sabe o que eu costumo dizer às vezes?
Eu só faço perguntas, Eduardo.
Não, por favor. E sabe que eu gosto tanto delas, portanto, não é por aí. Ricardo, eu acho que às vezes os pais têm sempre aquela ânsia de encontrarem a janela de oportunidade ótima para o que quer que seja, nunca tenha as consequências que devia ter. E portanto, se nós estivéssemos mais um bocadinho à espera, evidentemente que ganharíamos por um lado, mas perderíamos mais por outro. Havendo condições de segurança, eu devo dizer o mais depressa possível. Se me disser assim: "Mas depois ali dois ou três dias, ou quatro, sejam quantos forem, de férias da Páscoa". Paciência. Quanto mais depressa, em condições de segurança, eles possam voltar à vida, mais toda a gente ganha. Eles mais do que ninguém e as famílias logo a seguir.
Vou então pegar aqui numa mensagem que nos enviou o nosso ouvinte Francisco Rangel. Já nos enviou esta mensagem há algum tempo. Francisco, pedimos desculpa por demorar tanto tempo a responder, mas hoje então faz mesmo sentido a pergunta que faz. E pergunto ao Francisco: qual seria a consequência de termos uma transformação destes três anos letivos, os dois que estamos a viver e o que virá no próximo ano, em apenas dois anos letivos? Escreve o Francisco, que é pai de três miúdos: "Tenho refletido sobre isto e talvez perder um ano seja menos mau do que ter dois anos coxos". O que é que acha, Eduardo?
Eu assino por baixo. Há países, às vezes mais prudentes, digo eu, eventualmente de forma injusta Que já criaram essa oportunidade e a colocaram um bocadinho nas mãos dos pais. Ou seja, se no entendimento dos pais, eles sentirem que há ali bases, conhecimentos, conteúdos, e claro que os pais têm que falar com os professores e com a escola, que estejam assim meio estremidos. Eu devo lhe dizer que perder um ano no crescimento não é bem como os pais às vezes imaginam. Crescer depressa às vezes não é crescer bem. E, portanto, se para que eles possam crescer tratando a escolaridade por tu. Se eles puderem, de algum modo, perder um ano com as tais aspas, eu devo dizer, Francisco, sim, eu não hesitaria. Porque eu tenho a noção que às vezes os pais querem muito que os filhos façam um percurso muito direitinho, sem sobressaltos, mas às vezes os sobressaltos são silenciosos e quando se manifestam, manifestam-se de uma forma exagerada, exuberante, e nós não ganhamos nada com isso.
Mas seria possível reorganizarmos agora os anos letivos para tentar condensar em dois, ou a máquina é demasiado pesada e demasiado complicada para conseguirmos isso?
Ricardo, a máquina é demasiado pesada, mas de uma semana para a outra, uma máquina pesadona fez transformações ao nível do ensino, que se calhar, se nós estivéssemos em grupos de trabalho, nunca conseguiríamos fazer em 10 vezes mais tempo. Eu gostaria muito, devo dizer-lhe, que essa decisão não estivesse nas mãos dos pais. Gostava muito mais que de uma forma sensata e prudente, se assumisse com toda a ponderação aquilo que é óbvio. Dois anos todos tremidos, como nós fomos observando, com as crianças em casa, com as crianças na escola, com janelas abertas, com avaliações cheias de pontos de interrogação e muitas reticências, mereceria, a meu ver, uma leitura ponderada, de maneira que se reorganizasse um plano educativo, de maneira que o que é sensato para alguns, possa ser sensato para todos. Eu tenho a noção que muitos pais ficariam zangados. Claro que eu tenho essa noção. Claro que isso permitiria, eventualmente, a alguns pais não se sentirem vinculados ou obrigados a isso. Claro que sim. Mas eu gostava tanto que de uma maneira sensata, mas clara, que nos desse segurança a nós, pais, de que se estava tudo a pensar com contrapeso e medida, que se pudesse repensar o plano educativo e no fundo, a organização dos anos letivos, porque, de facto, para todos os nossos filhos, sejam pequeninos e tenham cinco anos ou estejam ali no secundário. Claro que os de secundário são outro campeonato, são mais crescidos. Ainda assim, às vezes algumas avaliações à distância são o que são.
Claro.
Mas nomeadamente a alguns níveis, eu gostava mais que houvesse um plano que fizesse sentido para que nós disséssemos assim: "Caramba, há pessoas que pensam conosco e têm como única finalidade proteger o desenvolvimento escolar dos nossos filhos, mesmo quando nos dizem: 'Cuidado, nem sempre o que é o mais rápido, é o melhor para eles'."
Isso seria um sarilho grande para o governo explicar, calculo, Eduardo, essa opção.
Não sei. Um político que eu admiro profundamente, um dia, numa conferência pública, virou-se para mim e eu disse: "Professor, mas está a me dizer que não é possível ganhar eleições falando verdade?" E ele virou-se para mim com a bonomia que o caracteriza e disse assim: "Eduardo, mas anda em que mundo, se faz favor?" E eu não tive coragem para dizer: "Mas eu acho que ando neste mundo". Sinceramente, eu acho que quando os governos têm uma ideia que pode ser ancorada nalguns aspetos técnicos, por que não? E tratam os cidadãos falando verdade, os cidadãos respeitam-nos muito mais do que quando nós temos um ou outro membro do governo que faz de equilibrista e que tenta defender o indefensável. Mas eu também tenho a noção que às vezes nem sempre a política é tão falar verdade como todos nós gostaríamos, mas eu tenho esperança que mesmo esta pandemia tenha ajudado muitos políticos a entender que nós, as pessoas, somos pessoas que pensam, somos pessoas escolarizadas e que exigimos que nos falem de olhos nos olhos, porque quem não ganha com isso?
E os miúdos que vão regressar agora à escola, vão cheios de vontade ou também vão com medo, Eduardo?
Os mais inseguros vão com medo, como é evidente.
E como é que os ajudamos?
Obrigados a ir à escola.
Não dando hipótese.
Por favor, porque os outros, de cada vez que regressam à escola, é mais uma declaração de amor que fazem em relação a ela, como nós nunca imaginamos os nossos filhos a fazer. Nunca. Dantes, escola significava eu quero só ficar mais 10 minutos a dormir e hoje escola significa, como eu oiço tantos adolescentes: "De acordo, eu vou, mas eu não volto pra casa". E este é o lado fantástico de uma pandemia, que é mostrar aos nossos filhos como a escola é um bem essencial e como se pode fazer uma declaração de amor à escola, como se calhar nós nunca imaginávamos que eles fariam.
É uma bela forma de terminarmos o "Porque sim, não é resposta" e também a semana. Obrigado ao Francisco, que nos enviou a pergunta por e-mail para eduardosa@observador.pt. Pode sempre enviar perguntas, sugestões, críticas, elogios, o que quiser. Escreva-nos para eduardosa@observador.pt. Eduardo, voltamos segunda-feira. Bom fim de semana.
Um grande abraço e bom fim de semana para si também.
Um abraço.
Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM. Na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada!