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Bem-vindos ao "Porque Sim, Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França e hoje vamos falar de um tema que tem sido muito polémico nas redes sociais. A história conta-se rapidamente: durante um direto da RTP Notícias numa escola em Castelo Branco, os alunos estavam animados a acenar pra câmera, como fazem habitualmente nestas ocasiões. O diretor do agrupamento, logo a seguir a ser entrevistado, faz um gesto muito rápido na direção de uma criança, rápido demais para se perceber bem o que foi, mas lento o suficiente para que as redes sociais não parassem de partilhar. Pode ter sido aquilo que na minha terra se chama um cachaço, eu acho que em Lisboa se diz mais carolo, mas é com certeza mais do que um pôr na ordem a algazarra. O certo é que o gesto extrapolou da televisão para o telemóvel de toda a gente e os comentários dividem-se. Olá, Eduardo. Aquele gesto foi rápido demais para ser inequívoco. Há outros miúdos à frente, portanto, não é possível ver, mas o que isso nos diz sobre a forma como os adultos exercem a sua autoridade formal sobre as crianças? Isto é um gesto inconsciente ou é um gesto revelador?
Olá, Judite. É uma pergunta muito difícil, Judite, mas eu vou tentar corresponder. Eu acho que naquele contexto toda gente estava excitada, porventura nervosa com a presença de uma câmera de televisão e, nomeadamente as crianças, como se compreende, estavam ali a acotovelar-se, a fazer os possíveis e os impossíveis para aparecerem no boneco e para que, mais tarde, quando chegassem em casa, tivessem essa enorme surpresa junto da família, como se finalmente fossem famosas. Até aqui tudo é tranquilo. A mim parece-me, todavia, que um professor tem um conjunto de compromissos sobre si e, por mais que possa ser um gesto irrefletido, um gesto reflexo, ainda assim, indicia qualquer coisa que não pode acontecer. Felizmente que a escola dos castigos físicos pertence ao passado. Felizmente que se assume com toda a clareza que todo este tipo de abordagem, às vezes mais acalorada, mais impulsiva, que não se justifica, que fique claro, ainda assim é compreendida de outra forma quando é protagonizada pela mãe ou pelo pai, portanto, pessoas íntimas, mas que não pode, em circunstância nenhuma, normalizar-se, quer pela mãe ou pelo pai, quer, muito menos, num contexto escolar, por alguém tão importante para aquelas crianças como seu professor.
Num contexto de escola, há uma relação de poder. O diretor é uma figura de autoridade, claro, para as crianças, também para os pais e para os professores. Como é que isto condiciona aquilo que achamos aceitável numa situação destas?
Judite, eu acho que é preciso ter um perfil muito particular para ser diretor, porque gerir uma escola, gerir muitas vezes os saltos que as normas que emanam do Ministério da Educação acabam por trazer, e gerir, no fundo, todos aqueles recursos humanos, é um desafio muito difícil. Eu acho que em muitos momentos há escolas que têm muita dificuldade de ter um diretor. Seja como for, um diretor, regra geral, é alguém muito empenhado. Eu conheço diretores que são os primeiros a chegar a um agrupamento e os últimos a sair. E quando falam do seu agrupamento, o olhar brilha-lhes nos olhos. E, portanto, eu não acho que seja fundamentalmente uma pessoa de poder, mas acho que a autoridade é um exercício de bom senso, de sabedoria, de justiça e, portanto, eu tenho muita esperança que os diretores não se escondam atrás dessa preciosa função para se porem bicos de pés. Não precisam, em quaisquer circunstâncias. E, portanto, como figura da autoridade, por maioria de razão, têm que ter todos os cuidados indispensáveis, porque eles, os professores, os diretores e nós, os pais, educamos com bons exemplos. E, portanto, se nós damos maus exemplos, qual é a legitimidade que temos para que depois as crianças, quando os reproduzem, sofram advertências ou reparos da nossa parte?
Este gesto, esta cena aconteceu em direto, com câmeras, com uma equipa de reportagem da RTP e há quem tenha dito nos comentários que andei a ler: "Se faz isto com a televisão ligada, imagina quando ninguém vê." Este tipo de raciocínio faz sentido ou vamos olhar pra isto como uma situação extemporânea de descontrole?
Judite, eu quero acreditar que perante todo aquele nervosismo, isto possa ter sido só uma reação impulsiva, sendo que o só não retira relevância àquilo que aconteceu. Aliás, por uma razão simples, porque já lá vai o tempo em que os pais entregavam os filhos aos seus professores e diziam: "Se tiver que lhe dar uma palmada, esteja à vontade." Portanto, isso felizmente já não existe e eu acredito que os pais, perante qualquer limite transposto por um professor que vá além daquilo que é o bom senso, só o bom senso, que se espera no contexto de uma escola, claro que os pais são as primeiras entidades reguladoras e têm que chamar à razão quem porventura possa ir muito para lá do que é admissível. E, portanto, eu quero acreditar que não. Às vezes, este tipo de episódios leva-nos a discutir a relação entre os pais e a escola, e lá está, a escola tem uma autoridade sobre os alunos que é ancorada na sabedoria, na justiça e na bondade. Mas admito que às vezes algumas pessoas possam exorbitar aquilo que devem ser as suas verdadeiras funções e em vez de desempenharem com parcimônia e com bom senso essa autoridade, o façam resvalando para um exercício de poder que, a acontecer, tem que ser inevitavelmente objeto de grande censura e de consequências a quem o protagonizou, como não podia deixar de ser.
Claro.
Mas isto já pertence ao passado. Aconteceu, ajuda-nos a perceber o que era de injusto a escola no antigo regime, mas isto já pertence ao passado, felizmente, e, portanto, quero acreditar que tenha sido só um ato isolado e que não se repita nunca mais, se quer.
Com certeza. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Até amanhã, Judite. Um abraço também.