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Começa mais um "Porque Sim, Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar do caso de uma ouvinte que escreveu ao Eduardo com esta situação: a filha dormiu na cama dos pais durante muito tempo e agora com 11 anos não consegue dormir sozinha e os pais, diz-nos esta mãe no e-mail, não a querem deixar sofrer. Olá, Eduardo. Aqui os pais sentem que recusar o pedido da filha seria desvalorizar o seu desespero. Como é que comenta esta situação?

Olá, Judite. Depende tanto da maneira como os pais perspetivam o sofrimento. Porque eu acho que, de vez em quando, os pais cultivam a ideia de que as crianças serão tanto mais felizes quanto menos sofrerem, o que numa leitura linear até faz sentido. Só que depois tudo isto tem outras nuances. Ou seja, quando elas não conseguem reunir um conjunto de capacidades que lhes permitam ser autónomas, desembaraçadas, despachadas, seguras delas próprias, aparentemente vão sofrendo menos, porque não vão degrau a degrau por ali acima, assumindo esses patamares do crescimento, mas depois, quando tudo isto se voluma e se transforma num obstáculo a um conjunto de comportamentos que em condições normais, todos nós intuitivamente percebemos que são vantajosos para elas, temos a noção de que as fomos protegendo de pequenos sofrimentos e sem querer, involuntariamente, exatamente em sentido oposto àquilo que mais pretendíamos, acabamos por criar limitações que são, elas próprias, um sofrimento grande. Isto serve para dizer o quê? Para dizer que a autonomia das crianças é um bem precioso. É um bem que se dá durante a noite e que se dará durante o dia. Muitas vezes a autonomia vai se consolidando também durante a noite. Por quê? Porque, afinal de contas, dormir sem os pais não significa passar sem eles, até porque as crianças percebem muito bem que mal dizem um "ai", imediatamente a mãe ou o pai lá estão. E eu percebo que estes pais queiram persuadir a filha a fazer esta autonomia, mas a determinada altura, quaisquer argumentos lógicos que possam trazer à discussão podem não a beneficiar. Ela pode chorar se for autonomizada em termos de dormir, mas de alguma forma vai ficando cada vez mais frágil se nós formos adiando este movimento de autonomia. As crianças precisam primeiro de dormir sem os pais para depois aprenderem a passar sem eles, porque no fundo, a autonomia é um bocadinho assim. Eu receio que as coisas tenham crescido, tenham escalado, em boa verdade, a um tal nível, que neste momento não haja argumentos que levem a que esta filha, de braços abertos, diga: "Eu vou por aqui". Sejamos razoáveis também, ninguém está a querer lhe fazer mal. E poder dormir num quarto ao lado, com uma luz de presença no corredor, com a porta aberta de um e de outro quarto, ou seja, criar aqui algumas almofadas para que esta autonomia se dê, não é estar a fazer mal a uma filha, meu Deus, é estar a almofadar dentro do que é possível, um movimento de crescimento que ela precisa de ter mais tarde ou mais cedo, para sua própria proteção. Se nós formos por aqui com estes passinhos, vamos lá chegar. Sendo certo que todos os pais, quando se trata de definirem regras de bom senso, que entendem que protegem as crianças, contrariam-nas muitas vezes, como não podia deixar de ser.

Esta criança dormiu na cama dos pais até aos cinco, seis anos e desde então há sempre um dos pais no quarto dela. Quando uma criança diz: "Não consigo dormir sozinha", como é que se distingue aquilo que é medo, separação ou ansiedade, ou um hábito?

Judite, às vezes está tudo muito embrenhado. É verdade que sim, mas senão repare, quando os pais vão fazendo isto, vão criando a ideia de que, sem a proteção deles, sem a proteção física, alguma coisa, de algum modo, corre mal. Sem querer, então a alimentar um equívoco, porque não é isso que está em questão. Por outro lado, repare, não há nenhuma criança do mundo que conquiste uma aquisição antes de experimentar, mesmo que a certa altura, quando experimenta, haja um conjunto de tremeliques. Isto é, querermos que ela esteja segura, que consegue dormir sozinha antes de a expormos a essa necessidade, é a mesma coisa que querermos que ela aprenda a andar de bicicleta antes de se sentar no selim. É este equívoco que eu acho que estes pais, na sua bondade e se calhar muitos pais acabam por incorrer. É natural que as crianças quando dão o salto para uma coisa nova, dizem: "Não sei, não consigo", porque ainda não experimentaram. No fundo, contradição significa: "Tenho medo de não ser capaz". Coisa mais normal não existe, mas ela pode ter medo. O que não é razoável é que os pais entendam que para ela estar segura não tem de ter medo, porque não ter medo é uma categoria no desenvolvimento humano que não existe, sobretudo quando nós estamos a aprender a dar um salto para qualquer coisa que não conhecemos tão bem, que nos deixa um bocadinho inseguros, sobretudo antes de experimentarmos uma e outra e outra vez, até percebermos as mais-valias incalculáveis que isso representa.

Como é que perspectiva o futuro desta criança quase adolescente?

Eu acho magnífico que os pais conversem conosco por uma razão simples. Aquilo que me preocupa não é tanto o fato de ela dizer: "Não consigo dormir sozinha". Aquilo que me preocupa é a atitude muito receosa que me parece que estes pais foram tendo à medida em que esta dificuldade se foi de alguma forma enovelando. Naturalmente, claro que me preocupa todas as outras dificuldades que podem ter existido nesta ordem de grandeza, porque no fundo as inseguranças das crianças são um bocadinho como uma mancha de óleo. Hoje acho que não sou capaz de fazer isto, amanhã acho que não sou capaz de fazer aquilo. E se os pais em relação a cada dificuldade, na ânsia de a protegerem, volto a dizer, vão tentando proteger. Estão a perder de vista um pormenor. Proteger demais significa fragilizar. E, portanto, se os pais porventura vão fazendo isto em relação a cada dificuldade que a priori esta filha diz: "Eu não sou capaz", então nessas circunstâncias, o que é que nós temos em mãos? Temos uma grande dor de cabeça, que faz com que ela, em vez de ser uma adolescente desempoeirada, seja uma adolescente um bocadinho encolhida. O que é bom nisto tudo de estarmos aqui e, portanto, quaisquer dificuldades que entretanto vão surgindo em relação a isto. Estes pais podem escrever duas, três, 10 vezes, as vezes que entenderem, assim nós possamos ajudar a resolver uma dificuldade que não é só da filha, se calhar é da filha e, sobretudo, digo eu, dos pais.

Exatamente. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Até amanhã, Judite.