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Porque Sim Não É Resposta com Eduardo Sá. Eu sou o Ricardo Conceição. Bem-vindos. Olá, Eduardo.

Olá, Ricardo.

E hoje vamos falar de crianças Covid. Podemos dizer que vamos ter uma geração de crianças Covid-19?

Ricardo, eu acho que a nossa vontade era dizer: "Não, de modo nenhum. Isso não é bem assim, não é razoável sequer que seja assim." Mas eu tenho medo que seja, porque nós estamos a assistir, de facto, a uma turbulência muito grande. Os números são muito inquietantes. No Dia Internacional da Educação, que foi no domingo, a Assembleia das Nações Unidas e a UNICEF, mais em particular, trouxeram números que nos obrigam a pensar muito seriamente, porque à escala global houve uma altura em que 90%, é uma coisa inacreditável.

É incrível!

Dos alunos do mundo não tiveram aulas. E isso faz com que, ainda hoje, 800 milhões de estudantes tenham as perturbações que decorrem daqui. Nós estamos, neste momento, numas férias escolares que não são milimetricamente férias como nós as vamos imaginando ao longo da nossa vida. O senhor Presidente da República já abriu a porta para que tudo isto se prolongue até as férias do Carnaval. E, portanto, o que nós temos? Temos que, de facto, em consequência de dois anos muito trapalhões em tudo aquilo que nós desejaríamos que a escola não fosse assim, nós temos crianças que já estão com sequelas a nível de português, a nível da matemática, e já estamos também com a consciência de que as crianças ficaram mais sedentárias, por exemplo, que a própria saúde das crianças, sua saúde mental ficou mais comprometida, que tomando em consideração muitas delas, o efeito de proteção das escolas não funciona, e que, muito pior do que tudo, a pobreza intergeracional ficou mais difícil de reverter. E só estamos a falar de dois anos, de coisas muito viradas do avesso na escola que vão deixar sequelas. Claro que há também outro tipo de consequências boas. Os nossos filhos percebem que aquela onipotência que às vezes eles tinham, em que tudo parecia adequar-se à sua vontade, afinal não é assim. Portanto, isto também lhes traz um contacto com a dor, com a morte e lhes traz humildade, inevitavelmente. Mas isto vai marcar uma geração, porque tem custos que não se resolvem no próximo ano letivo, nem no outro. E acho que é a altura de nós podermos assumir isso com alguma clareza e imaginarmos como é que todos juntos, famílias, e já agora a escola no seu todo, podemos ajudar a infletir uma coisa que se for assim, vai criar tantos desequilíbrios e vai fazer com que os nossos filhos não consigam ter um nível de vida melhor que o nosso. Que embora sejam temas feios, não podemos fugir.

Peço desculpa por interromper, mas não vamos depois a tempo ainda de corrigir o que foram estes dois anos ou eventualmente ainda o arranque do próximo? Não vamos a tempo de corrigir do ponto de vista acadêmico aquilo que se perdeu?

Ricardo, eu acho que nós temos sempre oportunidades de corrigir, mas todos nós também sentimos que o sistema, às vezes, parece ter quase uma vida própria, que nem sempre se põe tão em causa quando se vê.

E que não espera por ninguém.

É, porque mesmo neste ano letivo, claro que o que está a acontecer não vai de encontro ao que nós queríamos, mas se calhar também não é tão surpreendente assim. Nós fomos vendo o que foi acontecendo noutros países quando as escolas fecharam para o Natal e ainda não reabriram. E isso foi preparando, eventualmente, com outro tipo de recursos, porque esses países também têm outros tipos de recursos que nós não temos. Mas a verdade é que nós estamos a acentuar desigualdades de uma maneira incrível. Tecnicamente, estamos de férias, mas há muitas escolas que conseguiram contornar este hiato de tempo em que se está tecnicamente de férias.

Isso faz sentido, Eduardo, estarmos tecnicamente de férias nesta altura?

Eu acho que não, mas eu também percebo que foi a solução possível quando, de repente, se deu conta que havia uma promessa que estava em cima da mesa em relação a muitos computadores que eram indispensáveis e que não foi cumprida, sendo certo que as notícias de hoje, salvo erro Diziam que esses computadores estarão disponíveis no final do segundo período, portanto, ainda falta um bocadinho até às férias da Páscoa, mas depois continuamos com outro tipo de problemas e estas crianças vão ter dados disponíveis para poderem ter acesso a tudo isto. Foi a solução possível, parece-me a mim, mas não me parece que seja, de facto, a solução melhor. Sendo certo que muitas escolas privadas converteram em aulas de compensação, em aulas de dúvidas e criaram aqui uma almofada para que esta quebra não tivesse um efeito muito significativo na vida das crianças. Mas muitas das escolas públicas não o conseguem fazer. E já agora, os pais estarem em teletrabalho com os filhos a terem escola é uma dor de cabeça tremenda.

Claro.

Os pais estarem em teletrabalho com os filhos fechados em casa, em férias, acaba por ser uma dor de cabeça maior. Tudo isto acentua muitas consequências que nós não podemos deixar de estimar.

Eduardo, estamos aqui a falar mais da vida académica destes miúdos e de toda esta geração. Isto também vai ter consequências na personalidade destas crianças. Eu estou a pensar naquelas que têm agora seis, sete anos, porque a minha geração, que tem 40 e tal, 50 anos, brincou na rua, esfolava os joelhos, trepava as árvores. Os nossos filhos já foram muito mais protegidos. Alguns não sabem andar de autocarro sozinhos ou no metro, não conseguem andar sozinhos. E como é que vai ser com estes miúdos?

Ricardo, por isso é que eu achava ótimo que agora, que já passou a altura em que se viveu uma campanha eleitoral, que nós nos pudéssemos centrar a refletir sobre tudo isto, que eu acho que é indispensável. Muitas destas crianças, já antes da pandemia, eram crianças inacreditavelmente sedentárias, o que não pode ser. Às vezes, não se trata de não saberem andar de trotinete, Ricardo. Às vezes trata-se de não saberem correr, que é uma coisa assustadora.

É incrível.

Connosco, a fecharmos os olhos em relação à utilização de ecrãs, e a escola de alguma forma a favorecer também ecrãs. E de repente, nós temos crianças que hoje já, antes da pandemia, tinham muita dificuldade em pegar num lápis, numa esferográfica e escrever. E às vezes nós não nos damos conta de como a motricidade é indispensável para a atenção, é indispensável para a capacidade de pensarmos. E nós estamos, às vezes, muito deslumbrados com o admirável mundo novo e esquecemo-nos de atentar num conjunto de pormenores que se passarmos por cima deles, nós estamos a criar ali áreas muito comprometidas no desenvolvimento dos nossos filhos aos mais diversos níveis. Outro dia nós estávamos aqui a conversar dos engenheiros da Google e de como eles diziam: "Atenção, os nossos filhos passarem a vida a olhar para os ecrãs, têm mais um segundo de atenção que os peixinhos vermelhos." E às vezes nós passamos por isto e pensamos: "Bom, isso só acontece aos filhos dos outros, não é?" Não! E nós temos que pensar de maneira a criar todos juntos, de uma maneira sensata, toda uma realidade que não precisa de ser fundamentalista e de deitar fora as coisas magníficas que o progresso nos trouxe, mas não precisa de ser distraída ou não pode ser distraída, sob pena de se criarem tantos obstáculos, tantos, ao desenvolvimento dos nossos filhos, que eles correm o risco de ser mais peixinhos vermelhos do que todos nós desejaríamos.

E a capacidade de relacionamento com os outros, por exemplo, como é que vai ser a capacidade de relacionamento destes miúdos no futuro, com os idosos, com os pais, com os avós?

Com os iguais, Ricardo. Porque neste momento eles saem muito menos de casa, reclamam muito menos para sair de casa, que é uma coisa que deixa os pais: "o que está a acontecer, por favor?" E o que é mais grave é que eles comunicam entre eles, não é por SMS, muitas vezes, eles comunicam através das redes sociais, já. E comunicam através das plataformas nas quais jogam. Muitas vezes jogar já é quase o pretexto para estarem uns com os outros a comunicar. E isto é grave, porque perde-se um patrimônio tão fundamental da natureza humana, que nada disto ou muitas dessas coisas não foram trazidas pela Covid. Mas tudo isto acentuou de uma forma tão grande este tipo de custos, que se nós não fizermos as contas ao modo como eles atropelam os recursos incríveis que os nossos filhos têm, nós vamos dar mal e os nossos filhos mais ainda.

Obrigado, Eduardo. Vamos seguramente voltar a conversar sobre este tema, até porque estamos de novo confinados. Eu também já estou confinado, o Eduardo também. Já estamos a fazer este, "Porque Senão É Resposta" à distância. Desde já peço desculpa pela qualidade do som, por algum barulho de ambulância que possa entrar no nosso programa. Só lembrar que pode sempre enviar sugestões e perguntas para eduardosa@observador.pt. O "Porque Senão É Resposta" fica disponível já daqui a pouco no site do Observador. Estamos sempre disponíveis em podcast. Até amanhã, Eduardo. Um abraço.

Até amanhã. Um abraço para si.

Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM. Na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.