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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de problemas de comunicação. Olá, Eduardo. Os problemas de comunicação entre duas pessoas são mal-entendidos ou podem ser manobras de manipuladores à procura de vantagem durante a conversa?

Olá, Judite. Às vezes são mal-entendidos, é verdade que sim, mas eu também tenho a ideia que os mal-entendidos, quando duas pessoas estão disponíveis pra comunicar, se resolvem muito depressa, sobretudo quando uma delas entende que há ali páginas em branco que precisam de ser esclarecidas e põe tudo isso à discussão. Habitualmente, os problemas de comunicação são uma forma habilidosa de não se pedir desculpa, que é uma coisa que eu não entendo. Eu se calhar até preferia que as pessoas argumentassem quaisquer desencontros com o erro no sistema. Mal ou menos, Judite. Porque ficávamos sempre com a ideia que eram as máquinas que andavam ali com alguns softwares fora de prazo e a precisar de atualização. Mas os problemas de comunicação são uma maneira habilidosa quando nós nos desencontramos e nós dizemos: "Mas o que se passou?" As pessoas nunca pedirem desculpa. E quando põem as coisas assim, de uma forma superhabilidosa, eu tenho que reconhecer, é como se, afinal de contas, dividissem a responsabilidade por aquilo que não ficou claro por eles e por nós. Ou seja, é como se dissessem: "A culpa não foi só minha". À escala das discussões entre os nossos filhos é: "Foi ele que começou", que é como quem diz: "Mas por que é que cada hora de alguém assumir as responsabilidades, elas pendem para um só?" Aquilo que me preocupa ainda mais é que depois as pessoas, às vezes sem terem a consciência de que estão a ser um bocadinho manipulatórias, mas as pessoas pegam imediatamente neste tipo de fórmulas e usam-nas até à exaustão, e usam-nas desde os negócios até à política, se for preciso, porque de repente fica a ideia que o problema é, de facto, o processo de comunicação e não tanto aquilo que se comunica, como se ao querermos ser claros pra alguém, acabássemos por ter problemas de comunicação e não conseguíssemos dizer sim ou não, branco e preto, o que eu pretendo é isso, o que é que tu achas. E às vezes, lá está, é o tal mundo de meias-verdades em que nós vivemos. Não deixa de ser um problema de comunicação, mas o problema não é o processo, é aquilo que muitas vezes as pessoas não querem dizer, as pessoas não querem muitas vezes ser claras ou não conseguem, por qualquer motivo, e quando chega a altura de o assumirem, o problema é do processo, nunca é daquilo que elas dizem ou das dificuldades que elas têm.

Mas custa-nos assim tanto escutar o outro sem estarmos já a preparar uma resposta?

Até me engasguei, veja bem. Custa tanto, Judite. Pra maior parte das pessoas, custa tanto. Por isso é que eu às vezes, quando ouço tanta gente falar, até com ar pomposo, de empatia, eu fico com pele de galinha, porque obviamente se percebe que é assim uma maneira pré-fabricada de dizer: "Vejam como eu sou capaz de escutar". E não é verdade. Há 150 anos, eu estava a conversar, já não sei o propósito de quê, com a Laurinda Alves, e ela teve uma expressão que eu nunca mais esqueci, porque acho que é muito bonita. Ela disse que escutar era ouvir com o coração, que, com tradução simultânea, assim ela me permita, significa o que é que eu estou a sentir quando estou a falar com esta pessoa. Estou a gostar dela, não estou a gostar dela. Sinto que, não sei quantos nós a formarem-se na minha cabeça ou pelo contrário, estou a ficar cada vez mais inteligente quando falo com ela, que é uma maneira de nós, em tempo real, fazermos aquilo que em piloto automático fazemos muito bem, mas que se estivermos atentos, fazemos muito melhor. Esta pessoa está a ser clara pra mim, sim ou não? Eu sinto que ela está a ser leal comigo, sim ou não? Está a ser verdadeira ou não? E no fundo, quer me perceber, quer me escutar ou quer me convencer de alguma coisa. E quando nós fazemos isso, fica mais claro, porque de facto, aquilo que parece é que comunicar parece ser um exercício manipulatório de alguém que depois ganha um braço de ferro com outra pessoa. E eu sei disso, porque às vezes as pessoas, de uma forma pateta, só pode ser pateta, imaginam que um psicólogo é alguém que tem a arte da manipulação. Manipula tudo, controla. Quando é exatamente o contrário. Quando nós trazemos a pessoa à transparência, estamos a libertá-la dos preconceitos. E as pessoas que não escutam, que não querem ou que não conseguem escutar, são pessoas que estão mais cercadas de preconceitos do que elas próprias imaginam.

Todos manipulamos de uma forma ou de outra?

Ó Judite, claro. De vez em quando, a sedução é um exercício de manipulação, não é? Às vezes, numa entrevista de emprego Damos o nosso jeitinho para parecermos as pessoas mais incríveis do mundo. Aquela expressão, que eu acho deliciosa: "Agora vou mostrar a melhor parte de mim". No fundo, dá a entender que no resto do tempo andamos a comunicar o refugo, que sentido é que isso tem? E, portanto, de vez em quando manipulamos, claro. Qual é o drama? O drama é quando isto se torna a regra, quando nós não somos capazes de perceber que estamos a ser demagógicos. Veja os nossos filhos, Tita. Fazem uma parvoíce qualquer e vamos lá e fazemos aquelas cenas que as mães então são imbatíveis. E isto e aquilo, e falam aquelas coisas que as mães fazem melhor do que ninguém. E depois, quando se deveria tratar de ele dizer: "Realmente tens razão, não devia ter feito", o melhor que ele consegue dizer é: "Olha, mas escusavas era de falar nesse tom". E, portanto, todos nós somos um bocadinho manipuladores, sim, nalgumas circunstâncias. Estamos encurralados, tiramos um coelho da cartola, como os nossos filhos. Percebemos que fizemos mal, não temos a coragem de o assumir. O problema é da comunicação, não é do sistema. É como no futebol. O futebol é uma parábola magnífica do mundo. Porque o grande problema não é a primeira bola, é quando somos capazes de ir atrás da segunda bola. E quando às vezes fazemos mal, sermos capazes de dizer assim: "Realmente tens razão, enganei-me, não fui tão refletido como dizia. Desculpe." Que de repente pareceu ser uma palavra que parece em vias de extinção, como se pedirmos desculpa fosse um rasgão na autoestima e se não fosse, pelo contrário, um ato de elevação humana que nos devia deixar orgulhosos.

E os pais têm noção de estar a ensinar os filhos a dialogar?

Os pais às vezes são pequeninos. Está a ver um filho adolescente, Tita. Às vezes está em casa da mãe, é suposto telefonar para o pai. De repente, parece que nunca tem agenda e que falar cinco ou 10 minutos ao telefone com o pai é estar a picar o ponto, em vez de dizer: "Estou bem, estou mal, aconteceu isto ou aquilo". E muitas vezes os pais, o que fazem? Ficam magoados. Compreensivelmente, aliás. Mas o grande problema não é ficarem magoados, é que depois não são exigentes o suficiente para dizer assim: "Olha, mesmo que tu faças isso sem querer, estás a magoar. Não podes magoar a mãe, não podes magoar o pai. Pai e mãe são dependentes sagrados, vamos lá com calma, jovem." E nós não os ensinamos a comunicar. Desde logo, na própria família. E, portanto, sim, há problemas de comunicação, o maior de todos é o silêncio, muitas vezes. Sim, há problemas de comunicação. E sim, os pais e os filhos, as pessoas quando convivem umas com as outras, são obrigadas a ser claras, porque se forem claras no seu habitat, a seguir, quando saem de lá para conviver com outras pessoas, vão se engasgar de vez em quando e ser trapalhonas e vão tirar coelhos da cartola. Tudo o que nós fazemos quando, de repente, somos apanhados em contrapé, mas acima de tudo, a seguir conseguem ser honestas, que é aquilo que falta quando nós pomos os problemas de comunicação à frente de tudo e temos dificuldade em falar a verdade. Os problemas de comunicação são uma maneira de, hostil, não falarmos verdade. Eu acho que isso é que é tão estranho no mundo em que nós vivemos. Parece que paga imposto de luxo, já viu?

Vai ficar essa reflexão no ar. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Por consigo, Tita. Até amanhã.