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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje trazemos uma carta longa e difícil. É o retrato cru de uma família em fratura, uma ouvinte que vive afastada do irmão, ressentida com os pais e que não quer, nem procura uma reconciliação, antes encontrar uma forma de sobreviver aos Natais, à Páscoa, às férias em família, às celebrações, sem sair sempre ela a perder. Eduardo, olá. Esta ouvinte sente-se excluída funcional da família, não porque cortou com eles, mas que de alguma forma todos se acomodaram ao corte vindo do irmão. E ela pergunta: há algo que possa fazer para lidar com estas datas sem sacrificar o pouco que ainda tem?

Olá, Judite. Isto é tão difícil, porque, em primeiro lugar, é muito fácil, quase em contramão, que nas famílias, sobretudo nas famílias maiores, haja desencontros. Às vezes, por coisas pequeninas que têm a ver com histórias antigas, a maneira como alguém sente que um pai e uma mãe deram mais importância a um do que a outro, etc. E depois é muito fácil que os pais, perante uma atitude mais fraturante de um dos filhos em relação a um dos outros ou em relação à família, fiquem como crianças quase desamparadas, sem saber o que hão de fazer, assumindo tudo isso como se, no fundo, eles fossem vítimas. E, no fundo, são, mas como se deixassem de ter o protagonismo devido, que os pais têm que ter, no sentido de chamar os filhos à razão e de gerirem aquilo que, acima de tudo, também tem que ser gerido pelos pais ou deve ser, sobretudo, gerido pelos pais. Portanto, chegados aqui, é muito fácil, apesar de tudo, e são raros os irmãos que ao longo da vida mantêm uma relação francamente fraterna, independentemente dos solavancos, das heranças e de outras coisas que de alguma forma atravessam. Portanto, chegados aqui, o que nós temos? Aquilo que nós vamos vendo, Judite, não é que chegados à Páscoa ou particularmente ao Natal, se tenha a ideia que é quase um protocolo de Estado para gerir relações, quase com pinças, e para gerir suscetibilidades e para fazermos de conta que somos uma família quando às vezes, tragicamente, já não somos tanto assim. Não há como uma pessoa ficar indiferente a isto, nem há como uma pessoa ter uma barreira, um escudo invisível, que lhe permita passar por este sentimento de que uma família não é de todo o presépio que todos desejamos muito que ela seja. Isto faz com que haja sempre uma pedra no sapato, qualquer coisa semelhante. É uma dor que nunca se resolve e que vai estando, e que nunca gera indiferença. Eu entendo que se for possível fazer a ponte com os pais, eu acho tão difícil quando isso se fratura, porque de repente é uma parte de nós que se arranca e é uma dor tão grande, tão absurda, por mais que tudo aquilo que os tenha separado possa ter uma justificação mais ou menos racional, que se se puder tentar fazer essa ponte, nem que seja uma ponte frágil, mas uma ponte, todavia, se calhar eu estaria tentado a desafiá-la a fazê-lo.

E como é que se lida emocionalmente com esta ambivalência? Uma família que magoa, mas da qual ainda se deseja algum vínculo.

Judite, eu tenho a ideia que as famílias são um sítio absolutamente único. Eu acho que são mesmo um verdadeiro sindicato de bondade, mas a verdade também é que elas promovem muitos sofrimentos, por uma razão simples, porque nós colocamos tantas as nossas melhores e as nossas maiores expectativas sobre elas, que inevitavelmente é natural que nos suscetibilizemos por coisas que vão acontecendo, algumas que são absolutamente acidentais. Aquilo que me parece é que a determinada altura, nas famílias, nós acabamos por ser muito egocêntricos. Eu sei que a palavra é feia, mas se calhar faz sentido. Somos todos um bocadinho mimados. Temos sempre a ideia que o pontapé de saída de um gesto qualquer não deve ser o nosso, porque as nossas dores são sempre um bocadinho maiores e mais justificadas que as dos outros. E aqui eu acho que nós temos que ser crescidos. Ou seja, uma família é, de facto, muito importante. Magoa-nos muitas vezes, muito mais por omissão do que de outra forma qualquer, mas permanecermos com estas dores em banho-maria, à espera que elas se resolvam magicamente, é que funciona como a osteoporose. Não fratura, mas vai esboroando tudo aquilo que é de mais saudável que existe dentro de nós.

Quando os pais assistem à ruptura, mas nada fazem, que impacto tem isso em quem ficou no lugar do invisível? E como é que se digere essa dor, que no caso é antiga, porque não sentiu prioridade em criança, sequer.

Pois, e as coisas começam muitas vezes aí. É muito difícil, porque é como se, no fundo, nós tecnicamente tivéssemos uma mãe e um pai que se vão, de certa forma, inabilitando para a função, à medida que as suas omissões se acumulam. E quando estas omissões se acumulam, não significa que aqueles pais sejam destituídos nem sequer de bondade. Às vezes são só pais muito assustados, que passaram a vida muito orgulhosos quando afirmam que: "Os meus filhos dão-se muito bem, são muito amigos", mas que depois quando é preciso gerirem um conflito, são crianças muito assustadas, sem saber o que hão de fazer com elas. E portanto, isto é um abandono em vida. E um abandono em vida é uma coisa brutal. Eu ia dizer que quase mais vale perder um pai ou uma mãe com uma dor lancinante, mas com a consciência de que no fundo eles estavam sempre lá e não nos decepcionaram um horror de vezes, do que ir perdendo a mãe ou o pai aos bocadinhos, porque no fundo é verdadeiramente absurdo. É de sermos filhos, de termos todo o direito de reclamar esta função independentemente da nossa idade e ao mesmo tempo termos os pais lá, mas de certa forma, em parte incerta.

Esta ouvinte refere algo que já ouvimos outras vezes, que são padrões familiares que se repetem de geração em geração. A mãe foi negligenciada e agora negligencia. Isto é inevitável?

Não, não é inevitável. Mas é verdade que nós, de certa forma, vamos olhando muito os exemplos dos nossos pais. E acontece consigo como comigo, Judite. Às vezes nós, quando estamos a ser pais, às vezes mais de um primeiro filho, estamos a dar conta que estamos a repetir alguns vícios de forma que juramos de todas as maneiras nunca repetir quando fôssemos pais. E, no entanto, fazemo-lo. E repetimos muitas coisas, às vezes muito mal feitas. É por isso que eu tenho muito medo, que nestas circunstâncias, nós fracturemos a relação com os nossos pais e estejamos a dizer aos nossos filhos: "Olha, atenção, agora passam a vigorar só os exemplos que eu e a tua mãe ou o teu pai te estamos a dar", porque estamos a esquecer que eles também observam estes aspectos. E às vezes quando damos conta, estamos no meio de uma espécie de labirinto, onde os nossos filhos replicam até estes exemplos, que nós acima de tudo queríamos que eles nunca sequer tivessem reparado e que, afinal de contas, não só reparam como copiam. Portanto, estes padrões que se repetem estão muito mais ao alcance de todos do que pode parecer. E é por isso que eu acho que, enchendo muito peito e pegando em todo o bom senso de que nós somos capazes, invertermos esta tendência um bocadinho trágica, é meio caminho andado para darmos um excelente exemplo aos nossos filhos e para evitarmos que estes padrões se repitam sem fim.

Só para terminar, Eduardo. A falta de afeto parental na infância condiciona as relações amorosas futuras?

Judite França, guardou o melhor para o fim. Condicionam as relações amorosas, claro. A maneira como nós somos amados tem muito a ver como fomos aprendendo a ser amados. Já agora, a forma como nós amamos. E pior ainda, a maneira como nós fomos amados também condiciona muito a maneira como amamos enquanto pais e por isso, nada como olharmos para tudo aquilo que está desarrumado, arrumarmos como deve ser, para não comprometermos o nosso futuro muito mais do que parece à primeira vista.

No fundo, é tentar merecer amor em todo lado onde ele não está, não é?

Exatamente isso.

Eduardo, um grande abraço. Nós encontramo-nos amanhã, porque apesar de ser feriado em Lisboa, a rádio continua sempre a funcionar e portanto cá estaremos amanhã para mais um programa. Já sabe, até lá. Continue a escrever-nos para eduardosá@observador.pt. Um grande abraço, Eduardo, e até amanhã.

Um grande abraço, Judite, e até amanhã.