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Bem-vindos a mais um "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de um tema que pode ou não ser um mito. Afinal de contas, há um instinto maternal como se fosse um equipamento de base ou isto não é uma questão biológica? Olá, Eduardo, boa tarde. Em que é que ficamos?
Olá, Titi. Olá, Bruno.
Olá, Eduardo.
Olá, Titi. Equipamento, talvez não seja assim tão milimetricamente. Nós todos temos uma capacidade absolutamente fora de lugar para nos sintonizarmos com o bebê. Quando o fazemos, somos cuidadosos aos mais diversos níveis, na forma como pegamos, na forma como falamos, na forma como olhamos, na distância a que colocamos os nossos olhos, no modo como colocamos a cabeça para um lado ou para o outro do nosso corpo. E portanto, nessas circunstâncias, é um equipamento que é um pouquinho transversal aos homens e às mulheres em relação aos bebês. E isso é instintivo. Ponto. Acresce, ainda outro dia estávamos a falar das transformações que existem durante a gravidez e em consequência do aleitamento também, e isso são transformações neuroendócrinas que se traduzem em comportamentos. Comportamentos, vamos dizer assim, automáticos. E quando nós dizemos que são instintivos, quer dizer que, no fundo, são um reservatório incrível de sabedoria que a nossa espécie, nomeadamente, tem, não só a nossa espécie, mas sobretudo a nossa espécie. A única coisa que me preocupa no instinto maternal é partir-se do pressuposto que um equipamento de base é uma coisa tão poderosa, tão forte, tão absolutamente inacreditável, que chegada a hora de ter um bebê, funciona até debaixo d'água. Isto é, todas as mães acabam por ser capazes de manifestar isso, o que não é verdade. Ou seja, há muitas mães que, infelizmente, em consequência de quadros clínicos de grande complexidade ou às vezes porque estão atropeladas por tanto sofrimento, tantas preocupações, etc, acabam por inibir ou às vezes, aparentemente, vamos pôr isso entre aspas, bloquear este tipo de comportamentos e, portanto, não é tão linear assim. Por último, eu tenho medo que às vezes se fale tudo isto como, aliás, se o fez durante muito tempo, dando a entender que, estabelecendo aqui uma relação de causa e efeito, para que uma mulher seja uma mulher, precisa de ser mãe e, portanto, como se o instinto maternal fosse a peça que falta para que uma mulher de alguma forma apure todas as suas qualidades de mulher e de alguma forma se manifeste nas mais diversas circunstâncias, e este saltinho é que eu acho que pode ser um bocadinho excessivo.
Eduardo, não se confunde muitas vezes o instinto maternal com uma personalidade mais afetuosa? Não são a mesma coisa.
Não. Quando nós falamos de instintos, nós estamos a dizer que há um conjunto de respostas que nós acabamos por ter, que são transversais a todos nós e que de alguma forma são inconscientes, ou seja, temo-las em piloto automático sem que tenhamos às vezes a noção que as estamos a ter ou o porquê de como as temos. Eu dou um exemplo, que eu acho que é particularmente ternurento: quando nós pegamos num bebê ao colo, sejamos destros ou canhotos, quando chega a hora da verdade, temos a sensação de que funciona muito melhor quando colocamos a cabeça dele pousada no nosso braço esquerdo, sem nos darmos conta, por exemplo, que o ruído cardíaco dá um jeitão imenso para que o bebê se sinta mais calmo e, portanto, mais aconchegado no nosso colo. Ou os bebês não têm uma capacidade visual a parecer de vista e, portanto, têm uma capacidade de ver de forma nítida a 15, 20 cm de distância e nós não precisamos de fazer nenhum curso de pós-graduação em maternidade ou paternidade para, quando falamos com eles, debruçarmos o nosso rosto e todos o fazemos. E, portanto, são comportamentos que estão guardadinhos aqui, que a nossa espécie foi lapidando ao longo dos séculos e que dá um jeitão muito grande. E é isto que nós muitas vezes chamamos de respostas instintivas, é um equipamento de base, é um lado animal em nós. É um lado animal no sentido não tão linear como pode parecer, porque objetivamente há muitos comportamentos que nós temos, que os outros animais, até porque a espécie humana nasce com uma fragilidade tão grande que precisa de muito trabalho de mãe ou de pai, que eles não têm, mas de facto são comportamentos muito mais biológicos. Na boa verdade, estão guardados ali Na nossa memória de espécie, no nosso código genético para o que deve vir. Os comportamentos afetivos têm muito a ver com a forma como nós sentimos as coisas, vamos das emoções aos sentimentos, pomos lá umas palavras e ainda por cima traduzimos isso em gestos. Isso, obviamente, que é proporcional à nossa capacidade de termos equilíbrio mental, psíquico, se preferir. E portanto, quanto mais nós equilibrados somos, mais somos capazes de fazer isso de uma forma espontânea, de uma forma expressiva, sem grandes barreiras e sem grandes medos de manifestarmos. As duas coisas juntas potenciam-se e portanto, é isso que dá aquela capacidade das mães, sobretudo, quando falamos de instinto maternal, mas as mães e os pais terem esta capacidade de serem mães e pais com o coração absolutamente imenso em relação ao bebê.
Esta questão do instinto maternal não acaba por pôr pressão na ideia de uma mãe perfeita?
Muitas vezes. Claro que sim, porque aparentemente, parece que não dá a oportunidade a uma mãe, começando desde logo pelo princípio de se estar cansada, que é uma coisa que a mim me arrepia, porque eu fico sempre completamente embasbacado quando vejo o equilíbrio emocional das mães. É preciso um equilíbrio absolutamente inacreditável, porque quando se amamenta e quando uma pessoa dorme, quando dorme em suaves prestações de duas horas, uma noite, duas noites, três noites, um mês, dois meses, um ano, dois anos, às vezes, eu acho absolutamente inacreditável como as mães têm um equilíbrio comovente, porque teriam todas as condições para cair para o lado, às vezes, de exaustão, literalmente exaustão. E de facto, quando nós pomos as coisas assim, e às vezes de uma forma castigadora e cáustica sobre algumas mães, parece que estamos a dar a entender que é um pacote de comportamentos que nós associamos ao instinto maternal, que tem que funcionar e ponto final, independentemente de a mãe estar bem, estar mal, estar com preocupações financeiras ou não, estar com preocupações em relação à sua relação ou às vezes aquelas preocupações que todas as mães têm quando têm o primeiro filho, de uma forma absolutamente impactante, que é: "Mas por que ele não está a aumentar de peso? Será que eu não estou a ser capaz de amamentar como deve ser?" E estas contas de cabeça todas, às vezes são muito grandes e fazem muito mal. E quando nós falamos do instinto maternal, parecemos dar a entender que estas coisas são todas de somenos importância. Isto funciona assim de uma forma irrepreensível, com uma pontualidade britânica, e as coisas não são obviamente assim, porque nós não somos de ferro.
Eduardo, resumindo ou tentando aqui resumir e partindo do princípio que de facto existem mulheres com instinto maternal mais apurado do que outras, isso não é uma linha divisória que separa boas mães, mães perfeitas de mães incapazes.
Não, de todo. E eu acho até muito importante isso, porque eu durante muitos anos trabalhei com aquelas mães que estavam classificadas como tendo grandes debilidades cognitivas e, portanto, tinham mesmo grandes debilidades cognitivas e que obviamente tinham muitos comportamentos maternais. Mas como se compreende, depois é preciso muito amor para pôr legendas no choro, para perceber qual é o passo a seguir na relação que se tem com o bebê. E, portanto, para que nós fiquemos todos à vontade, eu nunca conheci nenhuma boa mãe que de vez em quando não fosse um bocadinho má mãe. E um bocadinho má mãe não significa que seja uma mãe negligente. Coisa nenhuma. As mães, por mais que queiram ser os representantes de Deus na Terra, felizmente que não conseguem ser. São pessoas como todos nós e portanto já dão tanto. Não precisam é de ser perfeitas e portanto, quando se atrapalham, quando erram, quando se deprimem, como todos nós, são um bocadinho piores, porque o bebê tira-lhe imediatamente as medidas, fica um bocadinho assustadiço, mas depois a mãe o que faz a seguir? Enche-se de alma, olha para ele fazendo um grande plano como na televisão e ele de repente volta ao seu e tudo desconcerta. Não é por aí. Portanto, esta ideia de estarmos a apontar e dizermos: "Não funciona o instinto maternal, mães de segunda categoria", é de uma maldade que não é sequer admissível.
Eduardo, hoje ficamos por aqui. Amanhã voltamos com mais um tema. Até lá, continuem a ouvir-nos em podcast, também no site do Observador e a escrever para eduardosa@observador.pt. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Um grande abraço para os dois e até amanhã.
Até amanhã, Eduardo.