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Começa agora mais um "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos partir da entrevista do jesuíta Afonso Seixas Nunes ao Observador sobre a Magnifica Humanitas, a primeira encíclica do Papa Leão XIV, que alerta para um novo colonialismo digital. Olá, Eduardo. O Papa fala de colonialismo, de formas sofisticadas de escravatura, a propósito da inteligência artificial. Do ponto de vista psicológico, o que nós perdemos quando delegamos pequenas ou grandes decisões numa máquina sem verdadeiramente darmos por isso?
Olá, Judite. Deixe-me só fazer dois apartes, me dá licença. Primeiro, não que tenhamos alguma coisa a ver com o Observador, mas é uma entrevista incrível, e é magnífico ver jornais que façam entrevistas, porque às vezes parece que isso caiu fora do uso, e é tão estranho que se pense isso.
Vale mesmo a pena ler.
Então, não vale? Meu Deus, só vale. E segundo: temos um Papa a utilizar termos claros, duros, e eu acho que independentemente das confissões das pessoas, como se compreende, não acho que seja um luxo nós manifestarmos gratos por haver pessoas que nos interpelem, nos desafiem a pensar, como é o caso. Judite, aquilo que todos os especialistas em inteligência artificial dizem, de uma forma muito enfática, é que a inteligência artificial, e nós vamos observando isso quando fazemos estudos longitudinais com os desempenhos cognitivos dos adolescentes, é que a inteligência artificial está a contribuir devagarinho para que os nossos filhos, que de facto têm capacidades incríveis, capacidades cognitivas, simbólicas, etc, fiquem cada vez menos inteligentes, o que é uma coisa absolutamente assustadora. Eu vejo isso no dia a dia das universidades, quando os miúdos fazem um trabalho que, na realidade, não foi feito por eles, foi feito por um ChatGPT qualquer, e que estão a alimentar uma preguiça que não os obriga a pensar, a criar, a discorrer sobre as coisas. E nada contra a inteligência artificial, que fique claro, mas esta ideia de que há máquinas que pensam melhor do que nós até tem graça. Eu costumo dizer, num tom ansioso, que se a inteligência artificial fosse realmente muito inteligente, conseguia ter dúvidas. Ainda estamos longe, de facto. Por outro lado, eu acho que nós somos cada vez mais colonizados. Voltemos aos adolescentes e a um pormenor que eu acho que nos devia tomar a todos e às pessoas ligadas à educação, Ministério da Educação à frente de todos. Sem dúvida nenhuma, é que os adolescentes e os jovens nos 20, 30, leem muito poucos jornais, Judite. Eles leem notícias que lhes chegam através de algoritmos que vão formatando as notícias aos interesses deles, o que lhes dá a ideia de que o mundo é quase milimetricamente desenhado à altura dos seus olhos, sem contraditório, sem dúvidas, sem interrogações, e isso é muito preocupante. E portanto, quando a inteligência artificial contribui para que as massas humanas, que de alguma forma são manipuladas. Basta ver algumas eleições. Mas o problema não são as eleições, é tudo o resto que faz parte da natureza humana, que é manipulado, e há pessoas inquietantes. Não são aquelas que insultam nas redes sociais, são as outras que desenham determinados funcionamentos das redes sociais, para não ir mais longe, porque veja lá como é dramático que as redes sociais tenham em consideração alguns conteúdos, e só não têm em consideração outros conteúdos porque não querem, e porque têm a noção que com isso manipulam melhor os adolescentes. E portanto, este lado coloniza-nos e de alguma forma desafia-nos para não pensar. Se me disser assim: "Fica muito preocupado?" Não, Judite, fico um bocadinho preocupado. Primeiro, porque há muitos especialistas a dizer: "Olhe, não vão por aí". Depois há um Papa que de uma forma sensata e dura diz assim: "Olhe, estão um bocado enganados". E porque depois há cada vez mais as pessoas mais esclarecidas, em termos sociais, independentemente da formação acadêmica que têm, que percebem que o caminho não pode ser por aí e que vão desenhando medidas para proteger o crescimento das crianças. E, portanto, eu tenho sempre a ideia que quem tem alguns devaneios ditatoriais da história, porque se aprendesse percebia que todos aqueles que já estiveram, depois acabam mal. Mas se nós pudéssemos proteger as pessoas, era ótimo, e protegê-las deste lado colonial, que é: há quem pense por nós, há quem decida por nós. Havendo pessoas desequilibradas, só pode ser, que cada vez mais dizem: "Mas para que são necessárias as eleições?" E outras coisas do gênero Como se, no fundo, "Um Admirável Mundo Novo" fosse um mundo de imbecis comandado por máquinas, quando, de facto, a natureza humana é tudo aquilo que eles não percebem que é. E que bom! Porque nos dá a entender que, não havendo outras disciplinas que às vezes batam o pé e chamem a atenção para isso, eu acho que a psicologia vai ter um protagonismo muito grande a esse nível, em consequência desta conjuntura um bocadinho delirante.
Há aqui uma diferença entre o Estado saber informação sobre nós, algo que de alguma forma já estamos habituados, mas que tem garantias associadas, e uma empresa ter esse mesmo conhecimento. Nós sentimos a diferença ou já nos habituamos a não distinguir?
Nós condescendemos com isso. Mesmo em relação ao Estado, eu devo dizer que eu gostava de pôr algumas reticências, porque eu acho que uma ideia de Estado pressupõe uma lei, pressupõe um bem comum, já não tem que pressupor que o Ministério das Finanças ou a Segurança Social vão às nossas contas, mexam nelas, façam o que entendam com os nossos bens, porque é quase como se dissessem: "Não, o que é teu é nosso e depois logo se vê". O que já de si implica que nós tenhamos que pensar muito bem o que é que são isso de liberdades e garantias que os cidadãos têm. Mas, de facto, cada vez mais nós disponibilizamos os nossos dados de uma maneira inquietante. Há estudos que se não fossem muito preocupantes, eram muito divertidos. Que têm a ver com o número de likes que nós fazemos e o modo como qualquer motor de busca, em resultado do número de likes que nós fazemos, acaba por fazer um perfil muito imediato acerca de nós, a ponto de com 200 likes, à volta disso, o motor de busca saber mais de nós do que muitos dos nossos amigos e mais ainda do que a pessoa que vive connosco, que é uma coisa absolutamente inquietante. Eu às vezes pergunto-me quantos likes é que nós podemos pôr para que o motor de busca saiba mais de nós do que nós próprios. E, portanto, de facto, nós vivemos num mundo em que disponibilizamos os dados e basta cruzá-los. Outro dia eu estava numa conferência com alguém da Polícia Judiciária que, de uma forma muito clara e muito desconcertante, dizia que localizar alguém, saber o que fez nas últimas 24 horas, o que comeu, o que deixou de comer, etc. É facílimo, porque tudo está concentrado no telemóvel e não há essas fortalezas inexpugnáveis que às vezes nós imaginamos que um telemóvel tem. Portanto, nós às vezes deixamos de ser nós, cidadãos, e passamos a ser os nossos dados, o que é uma coisa absolutamente inquietante, porque evidentemente que o equilíbrio das pessoas que vão gerando e vão gerindo estes dados não é tão grande assim, muitas vezes é hegemónico, às vezes tem uma avidez, uma ambição, uma ganância tão grande que de repente passa por tudo o que são os nossos direitos e, portanto, nós temos que estar muito certos daquilo que é razoável para que nós possamos exercer a nossa cidadania. Eu tenho muita esperança que depois destas parvoíces todas, que estas hegemonias digitais acabam por fazer, a política vá ressuscitar de uma forma muito mais bonita no seu espírito original, como uma forma de ter opinião sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre o futuro e sobre as regras que nós temos que ter uns em relação aos outros, porque de outra forma, tudo o que aparentemente é fácil, como por exemplo disponibilizarmos dados a torto e a direito, se torna preocupantemente perigoso. E tão perigoso que de repente nós devíamos falar disso mais vezes e ainda bem que há uma encíclica sensata. Essa entrevista chama a atenção para esse aspeto e muito bem, devia ser mais concisa, com mais capacidade de comunicação para que não fossem precisas 70 páginas para que de repente se comece a falar de uma forma claríssima. Mas ainda bem que há pessoas que comunicam isso, ainda bem que há jornais que fazem entrevistas sobre isso, porque significa que independentemente de todas as parvoíces que andam no mundo, há pessoas que continuam a preocupar-se com as pessoas e essas nunca são demais.
A ler esta entrevista do jesuíta Afonso Seixas.
Obrigatório.
É procurar no site do Observador. Obrigada, Eduardo. Até amanhã.
Até amanhã.