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Tudo pronto para o "Porque Sim, Não é Resposta". Já estão connosco o Eduardo Sá e o Ricardo Conceição. Boa semana, bem-vindos!
Olá, boa tarde.
Olá, Ricardo.
Olá, Eduardo.
Eduardo, hoje vamos falar de um tema de que já falámos, mas vamos retomá-lo, porque tivemos uma pergunta via e-mail de uma ouvinte nossa. O e-mail, já agora, é eduardosa@oobservador.pt. Esta ouvinte, que não se quer identificar, escreve o seguinte: "Nos últimos meses, a nossa família confrontou-se com a morte duas vezes. Os meus filhos, de 10, oito e três anos, perderam a avó e agora a bisavó. Numa das vezes foi o aniversário do mais velho e na outra o aniversário da filha do meio, no dia do funeral. Demos-lhe a notícia, mas não levámos as crianças ao funeral. Perguntamo-nos até que ponto isto será correto e se seria desejável que as crianças tivessem uma visão mais concreta e real do que aconteceu. Até que ponto as devemos proteger?", pergunta esta ouvinte. Obrigada, desde já. Eduardo, este é um tema complicado.
Sim, claro.
Mas é legítimo existir esta dúvida. Os pais ficam sempre muito confusos sobre qual é a melhor abordagem.
Claro que sim, Filipa. Eu acho que é legítimo e é uma questão que, nestas circunstâncias trágicas, nos toca a todos. Claro que eu compreendo que as pessoas têm os seus pontos de vista, as suas convicções e farão como entenderem, no limite, como não podia deixar de ser. No entanto, eu não acho que seja uma mais-valia para aí além as crianças estarem num funeral. Um funeral é um sítio que eu acho que até devia ser vedado, por mais que eu perceba que é uma maneira de muitos de nós, quando estamos a viver uma perda, termos o gosto de percebermos que as pessoas que são importantes para nós eram também importantes para outras pessoas e, portanto, elas fazem questão de participar e de honrar aquela existência. Mas é um sítio muito privado, muito íntimo e seguramente muito feio, porque, no limite, os pais, que são invariavelmente os rochedos das crianças, ficam numa fragilidade estonteante. E eu não acho que se ganhe tanto assim quando os filhos acedem ao lado mais violento da vida e percebem que mesmo as pessoas que nós amamos perdidamente se constipam e, independentemente de nós acharmos que elas são indispensáveis para nós, vão embora sem sequer se despedirem. E, portanto, numa circunstância como esta, eu entendo que não se leve uma criança a um funeral. Entendo e, francamente, só aprovo. Porque há tantas imagens mais preciosas para se guardarem do que aquelas que são trágicas, de pegar numa avó fechada numa caixinha e deixá-la debaixo da terra, à chuva, ao frio e no escuro. Toda essa visão, que é muito resignada de todos nós, acaba por ser tão desorganizadora para um filho, que já bem basta ele perceber que as pessoas importantes para ele morrem, quanto mais, de repente, se confrontarem com aqueles adultos todos que parecem não advececer, não ter medo, espantar os medos quando é preciso e, de repente, ficam de uma fragilidade tão grande.
Uma fragilidade quase infantil, não é?
Absoluta. De um desamparo sem limites, que feitas as contas, entre homenagearem uma avó estando presentes ou protegê-los, dando-lhes o privilégio de guardarem todas as imagens, menos aquele momento trágico, então, sem dúvida, por favor, não.
Eu lembro-me, quando falámos aqui num outro programa sobre este tema, a história que o Eduardo contou daquela miúda muito pequenina que perdeu o pai e pendurou os desenhos na janela. Não tenho aqui presente qual é o episódio específico, mas se fizerem uma pesquisa aqui no nosso site, nos podcasts, de certeza que vão encontrar esse episódio sobre justamente como explicar a morte às crianças. E o que ficou daí é que, ao protegê-los destas situações, isso não lhes retira a capacidade de compreender o que aconteceu.
Não de todo. Ricardo, pode achar estranho, mas eu já perdi a conta às crianças em relação às quais os pais, quando morre um avô, por hipótese, explicam da maneira possível que eles depois são uma estrela que fica a olhar por elas, que é uma maneira terna de explicar que eles vão para muito longe, mas todavia não desaparecem, pura e simplesmente. E depois os pais justificam com o longe. O longe é muito mais compreensível no céu, perde-se de vista. E há imensas crianças que depois quando fazem uma primeira viagem de avião, em vez de gozarem a viagem, ficam dilaceradas, porque finalmente estão no céu.
Estão à procura do avô.
Exatamente. E, portanto, elas não perdem de vista tudo o que aconteceu, evidentemente. Não conseguem perceber porque é que as pessoas não são fortes o suficiente Ao ponto de as terem abandonado, porque é isso que todos nós acabamos por sentir. Às vezes reagem com tanta dor que aos olhos dos pais parecem quase indiferentes. São aquelas crianças que não falam disso, que de repente até parecem mais desinibidas, quase funcionais, que faz com que um bocadinho dos pais depois fique ali magoado, quase como se os filhos não tivessem sentimentos. O que só é possível quando eles estão a sofrer tanto e estão num estado de choque tão grande, que estão de todas as maneiras possíveis a varrer tudo aquilo para baixo do tapete.
É uma fuga pra frente.
Porque depois passa um mês, passa dois, às vezes passam vários, e finalmente funciona um bocadinho como um abcesso: vai enchendo devagarinho, depois há um episódio qualquer e toda aquela dor vai à superfície. E, portanto, sim, as crianças sofrem tremendamente com uma perda. Porque da mesma forma como nós, não a percebem e, portanto, reagem com uma pequenez que faz com que se sintam muito agradecidas quando têm uma mãe ou um pai a fazer de guarda-chuva e a protegê-los destes momentos, que são, de facto, muito difíceis.
Há outra questão que entronca nesta, que é o facto e as convicções dos pais, por exemplo, as convicções religiosas, quem tem ou quem não tem. Mas até que ponto devemos ser crus na notícia? Ou seja, quando admitimos que há estrelinha no céu, que há uma presença que continua viva, isso radica numa certa ideia, numa certa forma de estar?
Mais ou menos.
Ou não?
Ou não.
Ok.
Sabe por quê? Porque eu acho que há uma leitura religiosa que é muito hábil na forma como interpreta o modo como organizamos simbolicamente a vida. De facto, quando as pessoas morrem, tecnicamente morrem. Ponto. Desaparecem. E depois vão pra onde as convicções das pessoas entenderem, que elas vão de i. O que é facto é que quando elas desaparecem, continua a existir a cadeira da avó, continua a existir todos os pequenos pormenores, o cheiro de casa da avó, o tom da voz da avó.
Os nossos gestos.
Tudo. De tal forma que por mais que as pessoas morram, elas de algum modo estão à solta por ali. Não é por acaso que as crianças e nós, quando perdemos alguém e vamos a um funeral, percebemos que as pessoas não voltam, e somos crescidos. Só damos conta que as pessoas, de facto, não voltam, quando finalmente vamos à casa delas e elas não estão lá. E, portanto, este registo é de tal forma duro que às vezes as crianças vão passando por entre a chuva da forma possível. Às vezes, este pormenor, quando a mãe ou o pai dizem: "Vamos à casa da avó fazer isto, abrir as janelas" ou seja o que for, as crianças passam anos. E às vezes não são só crianças, são adolescentes ou são pessoas muito crescidas. Passam-se anos em que elas não aceitam pôr lá o pé, porque elas sabem que a avó não está lá, mas só o facto de chegarem e perceberem que está um vazio é que finalmente é como se o contador começasse do zero e nós percebêssemos: "Ops, afinal nada disto volta pra trás." E, portanto, esta reação das crianças é perfeitamente compreensível, não é diferente da nossa, de todo. Nós só vamos aos funerais porque não temos alternativa.
Claro.
Mas eu acho que esta ouvinte fez lindamente ao proteger, porque feitas as contas, são imagens tão duras, funcionam como nódoas difíceis, por mais que nós as queiramos apagar.
E é uma realidade inevitável com a qual nos vamos cruzar mais à frente.
Agora, o que é bonito na natureza humana é que longe da vista, é perto do coração. E, portanto, no fundo, esta vida eterna, de que a religião fala com muita sabedoria, tem a ver com aquilo que nós sentimos, todos nós, em relação às pessoas que são importantes pra nós e que de alguma forma morreram. Elas tecnicamente morreram e às vezes quando morrem ficam mais vivas dentro de nós. A importância delas dentro de nós perde-se de vista e, portanto, de facto, há uma vida eterna que é absolutamente inquestionável, independentemente dos credos e das convicções. E às vezes aquelas pessoas muito rígidas, muito funcionais, que acham que tudo é de uma racionalidade pegada, ficam sem jeito perante este lado, que se traduz numa imaginação prodigiosa que todos nós temos. E as crianças, mais do que ninguém, e os pais, independentemente dos seus credos, quando dizem que há uma estrelinha onde estão os avós, quando vão pro céu, estão a adequar-se à imaginação e à fantasia das crianças e nem imaginam o bem que lhes fazem, porque tudo era pior se, no final de contas, nem uma estrela ficasse pra olhar por eles.
Eduardo, nós estamos a falar de crianças entre os três e os 10 anos, mas esta ida a um funeral, a um cemitério, não deve ser forçada em nenhuma idade, não é?
Não. Mesmo quando os adolescentes batem o pé e acham que já são crescidos, ou os jovens adultos acham que já têm mais de 18 anos ou mais de 20.
Ou mais de 30, ou mais de 40.
Sim. Chega uma altura em que é preciso um funeral e eles reivindicam o seu estatuto de filhos, que é a mesma coisa que dizer: "Eu tenho 30 anos, mas faz de conta que sou menor" e fogem até não conseguirem mais. E eu percebo a confusão, porque se todos pudermos ser poupados a isso, é bom. Se bem que eu acho que nós devíamos falar mais da morte do que falamos.
Uhum.
Porque nos ajuda a dar um sentido muito mais sensato a tudo o resto. Ao pé da morte, há tanta porcaria supérflua na nossa vida, que é tão porcaria e tão pouco relevante.
Mas só nos lembramos disso naqueles momentos, depois rapidamente passa.
Às vezes. E portanto, eu acho muito importante que de vez em quando falemos disso pra percebermos que, de facto, ao pé das coisas fundamentais, o resto pode ser só lixo.
Há aqui um detalhe também importante. Desculpa, Ricardo. Esta ouvinte fala da questão dos aniversários dos filhos, que calharam precisamente nesta altura. Isto também é importante, porque há pessoas que depois sofrem com isto a vida inteira. Deixam de comemorar aniversários e os filhos deixam de comemorar os aniversários dos pais.
É incontornável. Porque quando chega a altura do aniversário, está-se a comemorar dois ao mesmo tempo: o aniversário do nascimento e o aniversário de uma perda. E não há como nós desligarmos, não há como ficarmos partidos ao meio. Às vezes são muitos azares num azar só. Mas claro que não é razoável. Por mais que eu perceba que nessas alturas ou a partir desses momentos, os aniversários não tenham propriamente a dimensão de uma festa, aqueles momentos em que tudo o que é nuvens à nossa volta desaparece.
Mas vale a pena o esforço, não é?
Não, é indispensável.
É indispensável.
Porque senão aquilo que era a presença de uma avó ou de um avô, passa a ser uma espécie de fantasma que persegue a vida toda e que se torna uma força de bloqueio onde era suposto que ela não existisse.
Vou entrar aqui já num tema que se calhar dava pra outro programa e qualquer dia falamos disso. A nossa consciência da finitude, a nossa consciência da morte, é uma coisa que só nos acontece mais depois dos 40, perante a morte de alguém que nos é muito querido, ou é algo que não escolhe idade nem momento?
Não, Ricardo.
Nós aos 20 somos todos invencíveis e imortais, não é?
Absolutamente. E mesmo quando nós temos pais ou avós, às vezes fazemos com algum sarcasmo, um comentário do gênero: "Imagina o meu avô a falar daquele rapaz da idade dele". Sou só um rapaz, olha essa. Não, enquanto nós estamos vivos, os psicanalistas às vezes têm aquelas linguagens carregadas.
Vamos lá. A linguagem técnica.
Nós costumamos dizer que é um recalcamento da angústia de morte, que por outras palavras, de uma maneira simples, nós fazemos por esquecer as realidades com as quais nós nos confrontamos todos os dias. Evidentemente, quanto mais nos sentimos amados, mais é fácil fazer por esquecer. E já agora, quanto mais saudáveis somos. Mas esse fazer por esquecer da morte na nossa vida é transversal, acontece quando nós temos 10, 20, quando temos 40, 50, é transversal. Claro, quando temos que fazer um checkup, acende-se uma luzinha. Quando dói, qualquer coisa que dói, uma pessoa faz uns filmes esquisitos, acende-se outra luzinha. Acendem-se muitas luzinhas.
Às vezes parece um árvore de Natal.
Sim. E nós aí fazemos muitas promessas, passamos a ter mais cuidado conosco, etc. Apagam-se as luzinhas e nós continuamos a ser eternos. Nós somos eternos, de certo modo.
O Eduardo Sá está sempre conosco, de segunda a sexta-feira, no "Porque Sim Não É Resposta". Amanhã temos encontro marcado a esta hora novamente. Eduardo, obrigada. Ricardo, até amanhã.
Até amanhã.
Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.