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Começa agora mais um "Porque sim não é resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França e hoje vamos falar de pais separados. A pergunta que se impõe todos os anos nesta época: onde é que as crianças passam o dia e a noite de Natal? Olá, Eduardo. Para uma criança, o que é mais importante no Natal? Estar com todos ou sentir estabilidade?
Olá, Judite. O mais importante é que a poupem à força de cabeça. Judite, o mais importante é ter quem decida por ela, que não a coloque numa espécie de conflito de lealdades, que não haja cronômetros a medir os tempos que está com cada um dos pais, que não haja aquela tensão no ar que estrague todo o ambiente de Natal. E, portanto, o que é mais importante é que lhe deem uma justificação que seja plausível, claro, mas que ao mesmo tempo a poupem a atmosferas, que às vezes são pesadas, Judite, porque é tudo a correr, porque as pessoas estão um bocadinho zangadas, tensas. A criança sente-se muito embrulhada no meio deste tipo de coisas e o Natal não tem graça nenhuma.
Faz sentido alternar o Natal todos os anos entre pai e mãe? É um dos modelos muitas vezes usado.
Judite, faz. Depende um bocadinho da logística também, não é? Porque às vezes a família do pai é de Bragança, a família da mãe está em Lisboa. Às vezes é difícil. Embora haja pais que façam um esforço tremendo para conciliar estas coisas todas, faz. Mas também é importante que, de alguma forma, se não for assim, o Natal possa começar a comemorar-se a 22 ou a 23, ou acabe a 26 ou a 27. Eu acho que com bom senso e as coisas bem enquadradas, tudo é razoável para uma criança. Eu percebo. Eu também percebo o lado dos pais. Eles querem muito que os filhos estejam com eles. Eu entendo isso. Só que não é possível parti-los ao meio e, portanto, aí é sempre muito importante o pai e a mãe conversarem. É sempre, em todas as circunstâncias, muito importante conversarem, mas às vezes têm muita dificuldade em fazê-lo, claro.
É preferível dividir a consoada e o dia do Natal ou manter blocos de tempo mais claros? Isto parece uma minudência, mas há muitos pais e mães que pensam nisso, não é?
Judite, sendo possível partir 24 e 25, sem grandes sobressaltos. A mãe e o pai moram a duas ruas de distância, etc. Claro que aí talvez fique toda a gente mais sossegada, sem que haja uma tensão muito grande. Mas o que faz mesmo a diferença é a gestão que acaba por se fazer de tudo isto. Muitas vezes as famílias, quando não têm a possibilidade ou quando não acham sequer razoável andar numa correria, de facto, alargam o Natal e isso acaba por ser uma tradição que depois ganha sentido e significado e a partir daí se repete. Mas lá está. A mãe e o pai têm mesmo que conversar, porque se não o fazem e fica ali uma nuvenzinha que seja no ar, é como se fizessem um presépio e depois alguém se esquecesse de acender as luzes.
Há depois um outro problema que é a criança que sente que está a trair um dos pais ao escolher o outro.
E que é muito vulgar, não é, Judite? Porque a mãe e o pai nem precisam de dizer nada, bastam que sejam só iguais a si próprios e, portanto, se se despedem de uma criança no dia 24 e estão ou com uma lágrima ou canto de folha ou estão um bocadinho tristes. Às vezes basta que seja só um bocadinho tristes. Claro que uma criança se sente a magoar a mãe ou o pai de forma completamente involuntária. Isso acontece muitas vezes. Também não adianta que os pais estejam falsamente bem, mas se puderem respirar fundo e às vezes até falar disso, Judite. Mas partilharem um outro tipo de estar, isso é magnífico para todos, porque depois uma criança não fala, não é capaz de entrar no carro do pai, por hipótese, e dizer: "Estou um bocadinho incomodado, porque a mãe ficou triste", porque depois tem medo de magoar o pai, depois engole tudo aquilo e às vezes chega à casa do pai e está lá um irmão mais pequenino que se armou em tolo e pronto, e leva uma palmada fora de tempo da parte do irmão que acabou de chegar, porque alguém tem que pagar estas faturas. Mas uma criança sente tão bem estas oscilações de humor Que mais vale os pais às vezes dizerem a verdade: "Olha, quando tu te fores embora, a mãe está um bocadinho triste, mas calma, a mãe não morre, a mãe percebe as coisas e calma, que a responsabilidade não é tua, era o que faltava". Porque isto com legendas fica muito mais leve. Com silêncios e mal-entendidos, aí fica uma confusão.
Falava há pouco de um irmão mais novo. Quando há novos companheiros ou novas famílias, é ainda mais difícil gerir o Natal sem que haja aqui problemas, porque todas as famílias vão puxar para si a exclusividade daquele filho ou daquele neto.
Sim. Eu tenho duas casas, mas há uma que é mais minha do que outra. Às vezes isto acontece. E às vezes acontece das piores formas e nós até percebemos que, tomando em consideração o preço das casas, é muito difícil uma pessoa quando se separa, ter um quarto para cada um, ou mesmo que repartam um quarto, quem lá está há mais tempo sente que aquele quarto é mais seu. E às vezes é ter a noção de que se tem uma família que se alargou, mas isso é raro. Às vezes há muitos pais que fazem um esforço seríssimo para que isso seja possível, mas o esforço só não chega, precisa de ser muito comentado, precisa de ser muito explicado, para que depois uma criança não reaja só com a sua sensibilidade absolutamente acutilante e não fique às vezes tristonha, metida consigo, quando, no fim de contas, era suposto que estivesse no meio de uma festa.
Isso acumula-se de anos para anos. Cria-se uma certa ansiedade, depois, perante esta altura das festas.
Sim. Sabe que eu acho que as festas são muito bonitas. Acho magnífico tudo isto. Mas a impressão que eu tenho quando se entra num supermercado, quando se está na estrada, na rua, só isto, as pessoas estão entre o tristonho e o agitado. O agitado eu até posso perceber, porque às vezes as três logísticas são complicadas, porque vêm os filhos, as noras, aquela gente toda, os netos, etc. As famílias são muito cuidadosas em muitos aspetos. Alargam aos amigos que estão a passar o Natal sozinhos e são bonitas nesse tipo de gestos, mas há sempre uma agitação no ar que faz lembrar uma espécie de protocolo de Estado, de muitas sensibilidades, muito à flor da pele e uma criança apanha-as todas. E às vezes quando as apanha todas, chama a si a responsabilidade de aprontar uma cena, quase como quem diz: "Pronto, eu agora vou fazer de engraçadinho, vai-se toda a gente virar para mim, repreender e dizer umas coisas mais ou menos feias, mas entretanto talvez o ambiente dissipe". As crianças fazem isso muito a preceito, sem que nós nos demos conta que elas estão a cuidar de nós e das nossas dificuldades em termos o Natal no ambiente de festa, como era suposto que ele fosse.
E esperemos que seja, para todas as famílias que nos estão a ouvir. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Muito prazer, Judite. Até amanhã.