Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Bem-vindos ao "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Falamos tantas vezes de amor incondicional dos pais que quase esquecemos que esse amor também se magoa. Mas comecemos pelo princípio. Olá, Eduardo. Existe, de facto, amor incondicional na parentalidade ou é uma construção?

Ó Tita, é uma ideia bonita. É uma ideia muito bonita. E verdade seja que quando nós temos um filho no colo, o mundo parece tão arrumadinho naquelas circunstâncias que olhamos para ele e é impossível não gostarmos de tudo o que ele nos traz e que nos dá. E, portanto, nessas circunstâncias, sim, ficamos com a ideia de que o amor é, de facto, incondicional. Mas depois eles crescem. Interagem muito mais, às vezes dão-nos, às vezes desiludem-nos. E aquilo que a mim me preocupa é quando eles nos desiludem, que ficamos um bocadinho calados, magoados, mais ou menos em silêncio, porque aquilo que parecia um amor incondicional vai se constipando e, portanto, o amor pode se constipar. Quanto mais é um amor arrebatador, mais importante, portanto, mais feitas as contas, o amor é à condição. Não que estejamos sempre com uma calculadora na mão ou pelo menos com uma folha de Excel no lugar do coração, mas no fundo estamos a sentir, muitas vezes de forma episódica, aquilo que as pessoas que nós amamos nos dão e até que ponto é que vão de encontro às expectativas que nós colocamos nelas, sendo certo que quando nós amamos intensamente, colocamos sempre tantas mais expectativas naquela pessoa, que às vezes é mais fácil ela decepcionar-nos por isso mesmo, porque são toneladas de expectativas e às vezes até podem ser um bocadinho exageradas. Mas para lhe responder, o amor se calhar é sempre à condição, mesmo que às vezes seja tão arrebatador que parece eterno, sem reticências, sem pontos e vírgulas. Mas a verdade é que quanto mais ele parece incondicional, mais nós estamos a saber amar e mais estamos a ser amados como deve ser.

Há um momento em que o egocentrismo saudável da infância começa a descambar para o egoísmo. Como é que os pais distinguem um do outro?

É como na fisioterapia, não é? Quando aquilo que um filho diz ou às vezes não diz, às vezes é um olharzinho que nos incomoda ou que nos magoa. Quando alguma coisa que um filho nos dá nos magoa, é um pouco como quando os nossos músculos estão a chegar ao limite da extensão e convém não estar a esticá-los demais, porque senão aquilo que podia ser reparador, pode desencadear uma inflamação. E portanto, é quando o nariz da mãe ou do pai acende uma luz e intuitivamente eles dizem: "Não estou a gostar muito disto." Portanto, é sinal que já não é aquele egoísmo compreensível de um miúdo que acha que manda no mundo, porque está tão habituado a ter o mundo disponível para ele, considerando a mãe, o pai, os avós, os tios, etc. E portanto, nessas circunstâncias, é quando ele passa a linha e em vez de estar a ser engraçado, é um bocadinho parvo. E aí temos que pôr um grandessíssimo sinal de sentido proibido.

Os pais educam muito para dar. Dar atenção, dar tempo, dar colo. E como é que se educa uma criança para retribuir sem cair na chantagem emocional ou naquela contabilidade?

A minha vontade era que nós lhe disséssemos: "Meu amigo, olha que aqui ninguém dá nada a ninguém, ok? Ou seja, damos com uma mão, exigimos com a outra." Ó Tita, fazendo aquilo que os pais precisam de fazer nestas circunstâncias, e por isso é que é difícil e às vezes até cansativo, não é? Porque nós nunca temos direito a férias, feriados e coisas do gênero, e temos que estar sempre um bocadinho em cima, a corrigir. E nessas circunstâncias, quando eles fazem assim uma espécie de pequena greve de zelo, cá estamos nós a dizer: "Não, não é permitido." E era bom que ficasse claro que os filhos magoam os pais por omissão. Às vezes é só por omissão, de forma involuntária. São miúdos, nem ponderam as coisas. Mas mal seria que a mãe e o pai se demitissem de fazerem a respectiva tradução simultânea e de certa maneira explicarem onde para a polícia.

Quando o desequilíbrio persistente se instala, o amor também se cansa?

Cansa, Judite. Cansa muito. E eu gostava que isso ficasse claro pra todos nós, porque às vezes nós temos a ideia que estas relações nunca se partem. Partem e às vezes partem de forma estrondosa, que é uma coisa trágica, digo eu, porque nós hoje vamos acumulando um ressentimento, amanhã já não é um ressentimento, é um pequeno rancor. E às vezes as coisas assumem determinada dimensão, que às vezes é uma gota d'água. Às vezes é literalmente uma gota d'água, Judite, que faz com que tudo transborde. Às vezes é um episódio irrelevante. É um bocado como nas discussões entre os casais, discutimos por coisas parvas, às vezes, mas a verdade é que o amor entre os pais e os filhos, e o amor entre as pessoas, quando as relações são muito importantes, primeiro pode se cansar, depois pode adoecer e depois pode se partir, claro.

Como é que uma mãe ou um pai coloca limites sem culpa, quando sente que está a dar muito e a receber pouco?

A pessoa chega-se à frente e diz assim: "Olha-

Impõe-se?

Impõe-se. "Sou capaz de não estar a gostar tanto disto ou daquilo." E os nossos filhos são uns habilidosos. Os nossos filhos quando querem ser demagógicos, dão 10 a zero aos partidos populistas. Desculpam-se sempre com alguma coisa e portanto enganam-nos um bocadinho com a verdade. Mas a questão é um bocadinho esta, uma mãe e um pai são pessoas absolutamente fundamentais. A relação com os pais é do domínio do sagrado, e, portanto, o sagrado tem que se tratar com muito cuidado e com muita delicadeza, porque quem sai a ganhar são os filhos, no final. Quanto melhores os pais forem tratados, quanto mais mimo tiverem, quanto mais cuidadosos os filhos forem com os pais, melhores pais eles são e, portanto, os filhos nem sequer estão a dar nada que não venham a lucrar logo de seguida.

Só pra terminar, o que um filho precisa aprender para não se transformar naquele adulto que só sabe receber e que nunca sabe dar?

Precisa aprender a gratidão, Judite. A gratidão não é dívida, que fique claro. A gratidão é nós termos a noção de que independentemente das 1700 falhas que pai e mãe são capazes ao longo de um ano, eles desdobram-se em tantas coisas e foram capazes de ser tão incríveis, nas mais diversas circunstâncias à medida que nós fomos crescendo, que a forma mais simples de eles perceberem é que a gratidão é uma palavra que não passou de moda, que não paga imposto e que de vez em quando as pessoas sábias da nossa vida precisam de nos chamar a atenção pra ela quando nós estamos distraídos.

É uma boa mensagem pra terminar o "Porque senão é resposta" de hoje. Amanhã voltamos com mais um programa. Até lá, Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Outro e até amanhã, Judite.