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Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do "Porque Sim, Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Bruno Vieira Amaral. Hoje, Eduardo, boa tarde, falamos de violência doméstica de seda. Que violência doméstica é esta? É uma violência doméstica suave, invisível, mas que também deixa marcas?

Olá, Bruno. Boa tarde. Sim, deixa. Claro que deixa. São aquelas circunstâncias em que as pessoas não se maltratam fisicamente, que não se maltratam psicologicamente, pelo menos à primeira vista, mas que às vezes se ignoram, que fazem questão de ter caminhos paralelos, mesmo quando a existência de um e de outro tem pontos de fricção e pontos de choque. E portanto, são aquelas circunstâncias em que nós estamos lá, existimos, mas é como se estivéssemos menos do que era suposto estarmos. E portanto, este exercício de solidão em presença de alguém, porque as pessoas estão distraídas por nós, porque não somos a prioridade pra sua atenção ou sequer para os seus cuidados, acaba por ser tão doloroso que, por mais que não desencadeie uma fratura ou uma ferida exposta, acaba por ir desvitalizando e acaba por ser, de facto, mais do que parece, uma violência com que se convive em muitas famílias, aliás.

De maneira alguma, não me entendam mal, afirmar as qualidades ou alguma virtude da violência doméstica e física em comparação com esta violência de seda. Mas a verdade é que enquanto a violência física qualquer pessoa percebe, até mesmo quem está de fora, que ela existe, por vezes é mais difícil reconhecer, aceitar e começar a lidar e a tentar ultrapassar a violência que não é física, esta violência subtil, que sufoca, mas que não agride verdadeiramente.

Porque a outra corre o risco de ser preto ou branco, ser de alguma forma mais clara.

Claro. Qualquer pessoa reconhece uma agressão física, o que é uma agressão física, mas a agressão psicológica nem toda gente reconhece que é.

E às vezes não é uma agressão franca, é insidiosa. Às vezes é a maneira como se desqualifica. Às vezes é o modo como se faz questão de ignorar. Às vezes é só o jeito como nós transformamos alguém na culpa de todas as coisas que vão acontecendo e que são ao lado do que nós desejaríamos. E portanto, nessas circunstâncias, sim, sem dúvida, é muito mais confusa, porque habitualmente estas pessoas são falsas. E perante terceiros até podem assumir uma atitude que aparentemente é uma atitude mais cortês, mais atenciosa, quando no fundo acaba por ser até mais intimidatória, porque o fazem com o sorriso de uma maldade tão arrepiante que fazem com que a pessoa perca qualquer pingo de sangue pra reagir de uma maneira mais quente. E portanto, nessas circunstâncias, sim, estas pessoas que em muitos momentos nem sequer levantam a voz, acabam por ser violentas só às vezes com o olhar, com que nos perfuram de uma ponta à outra. E portanto, nessas situações, acaba por ser uma violência mais confusa do que aquela que é uma violência franca e aberta e que nos deixa a todos muito mais solidários perante quem sofre.

Em certos casais existe uma dinâmica de culpabilização em que, por exemplo, um dos elementos do casal culpa o outro, de tal forma insidiosa, pelos seus fracassos, por não atingir determinados objetivos. E isto não é ao longo de um mês, de dois meses, de um ano. Às vezes é ao longo de uma vida inteira, de uma relação que está assente nesta base. As pessoas resignam-se muitas vezes a estas situações, tentam acomodar-se a este tipo de desconforto.

Bruno, às vezes seguram-se às pontas que sentem que justificam aquela relação, às vezes não têm autonomia para dar o passo a seguir, às vezes são só muito assustadas ou já se deixaram assustar tanto, como acontece em tantas circunstâncias, que depois chegam a duvidar até das coisas que são capazes de fazer e portanto vão-se deixando andar, porque de facto esse tipo de violência funciona como uma bruma que se cola à pele e que de repente faz com que as pessoas vão definhando e envelhecendo a uma velocidade estonteante, nomeadamente aos olhos dos outros. Sim Nós estamos mal porque tu não és capaz disto ou daquilo. Ou acontece muito com os filhos: "Vê lá o que é que andas a fazer aos teus filhos". Como se, no fundo, os atos de um adolescente, por mais que possam ser, às vezes, oblíquos, sejam só e unicamente da responsabilidade de um dos pais, sendo que o outro é uma vítima no meio de tudo isso. E portanto, nessas circunstâncias, sim, as pessoas deixam-se estar sem se darem conta como estão a morrer aos bocadinhos naquelas relações. Mas é verdade também, Bruno, que muitas vezes elas sentem-se muito sozinhas, porque mesmo as pessoas ali ao lado parecem fazer por não reparar nesses aspectos, ou às vezes porque manifestamente não têm meios para sair de uma relação dessas e, portanto, é uma espécie de tortura que se vai prolongar por toda a sua vida, com custos absolutamente incalculáveis.

E como é que se distingue um pedido de ajuda ou uma queixa, que também é um pedido de ajuda por parte de quem se está a queixar, e aquele momento em que passa para uma agressão ao outro, ou seja, uma culpabilização do outro, essa tal tortura? Porque também, por vezes, acontece que as pessoas se queixam de certas dinâmicas da relação, legitimamente. Só que noutros casos, aquilo torna-se sistemático e a queixa ocasional torna-se um modo de funcionamento dentro da própria relação.

Começando pelo princípio, eu acho que quando alguém nos magoa, e esta baliza pode ser importante, nós temos uma sensibilidade tão acutilante que imediatamente acende uma luzinha dentro de nós. E todos já passámos por esse tipo de situações. Às vezes magoamo-nos de forma absolutamente acidental, mas magoamo-nos. E a nossa sensibilidade acende logo uma luzinha. É só muito difícil nós sermos capazes, em tempo real, de dizermos: "Olha, não gosto, percebo que não querias, mas magoaste-me" e outras coisas do género. Agora, esta sensibilidade, muitas vezes vai ficando mais ou menos adormecida, porque está permanentemente em modo de alarme. E sempre que está em modo de alarme, a certa altura, uma pessoa convive com ela como se já não valesse a pena perceber as luzinhas acesas que nós temos dentro de nós. Começamos a minimizá-las, se for o caso. E de facto, aquilo que é verdade é que há pessoas que quando se queixam o fazem de uma forma simplesmente verdadeira, com uma dor que vem de dentro. Há pessoas que fazem uma lamúria constante, como se, no fundo, precisassem de se vitimizar. A diferença em relação àquilo que pergunta é justamente essa. As pessoas que se vitimizam são provavelmente aquelas que nos estão, de certa forma, a tentar enganar com a verdade, porque no fundo se vão acomodando e até lhes dá jeito, nalgumas circunstâncias, perceber que o outro é o mal daquela relação. E as pessoas que se queixam sem que se façam de vítimas são aquelas que precisam, antes de mais, de ser escutadas, porque têm uma dor que elas ganharam coragem para transmitir e que muitas vezes, mesmo as pessoas que são mais próximas, não reparam.

Eduardo, esta semana já aqui falámos de boa educação dentro de uma relação. Eu não vou falar tanto de boa educação, mas dentro de uma relação, a rispidez, a brusquidão com que se trata o outro torna-se muitas vezes a norma?

Torna. Claro que torna. E a má educação também, Bruno. Por isso é que eu acho graça que às vezes os pais exijam aos filhos que sejam bem-educados, sem repararem que às vezes eles, os pais, entre si, em muitas circunstâncias, são profundamente mal-educados.

E isso também é uma violência contra o outro.

Sem dúvida, absolutamente nenhuma, com a qual, muitas vezes, um filho acaba por crescer. São os comentários que se fazem em relação à tua mãe, que não faz nada bem feito. É o tom, exatamente o tom com que se fala de uma forma constante. É um comentário que se tem num impulso, sem que a seguir se seja capaz de, de uma forma leal, se assumir que se foi exagerado e que se estava de cabeça quente e de se pedir desculpa. São os modos como muitas vezes se constroem vidas paralelas em que se chega a esta coisa humilhante de serem as mães a pedir aos filhos que falem com os pais para elas poderem perceber o que se passa com eles ou até poderem nos convencer a tomar uma atitude ou outra. São tantas coisas tão estranhas que obviamente acabam por ser pequenos pedacinhos de violência com que os nossos filhos vão convivendo, que nós às vezes nem pensamos quais são as consequências no seu crescimento e a consequência pode ser trágica, porque é como se nós lhes estivéssemos a dizer: "Olha, o exemplo de uma relação amorosa é esta e, portanto, queremos muito que tu sejas feliz", que é tudo aquilo que há de mais paradoxal que se pode dizer a um filho.

Uma violência que pode ser comparada ao monóxido de carbono, que às vezes não se dá conta. Esta violência de seda que é invisível, pode não ter o mesmo impacto imediato da violência física, mas que também cria muita dor, muito sofrimento. Eduardo, chegamos ao fim deste "Porque sim, não é resposta". Estamos sempre em podcast, nas plataformas habituais, no site observador.pt e pode sempre enviar-nos as suas questões para o e-mail eduardosa@observador.pt. Eduardo, muito obrigado. Um grande abraço. Até amanhã.

Um grande abraço e até amanhã.