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Mais uma semana com mais episódios do "Porque Senão É Resposta". Comigo, Ana Filipa Rosa, com o Ricardo Conceição e com o Eduardo Sá. Bem-vindos, boa semana.

Olá, boa semana.

Olá, Ana Filipa. Olá, Ricardo. Boa semana.

Um inquérito europeu revelado recentemente concluiu que três em cada 10 mulheres adiaram a maternidade devido à pandemia. Este inquérito, o March Survey, envolveu 10 países, entre eles Portugal, e no nosso país 29% das mulheres com menos de 44 anos admitiram ter adiado os planos de maternidade por causa da pandemia. Eduardo, é sobre isto que vamos falar hoje. A vida ficou adiada, as viagens, os encontros com amigos, mas neste caso a maternidade é algo que demonstra bem a gravidade do que se passou, da percepção de futuro adiado, não é assim?

Ana Filipa, é. Os números dizem-nos que o mês de dezembro de 2020 é o mês em que nasceram menos bebés em Portugal nos últimos 50 anos. Houve, durante a pandemia, menos nascimentos, menos registos, menos testes do pezinho, menos adoções e portanto, houve, de facto, uma quebra muito significativa a esse nível. O que se compreende, porque de repente as pessoas perceberam que havia toda uma conjuntura muito pouco favorável a pensarem em bebés. Não quer dizer que não os desejem, pelo contrário, são muito claras em relação a isso. Aliás, os pais são muito nítidos. A vontade deles, na maioria, seria terem três filhos, só que os filhos implicam um encargo muito grande e obviamente a pandemia varreu completamente esta disponibilidade, que foi aliás transversal a todos os países da Europa, particularmente aos países da Europa do Sul.

Eduardo, mas isto também vem confirmar uma espécie de tendência, e dir-me-ás se aquilo que eu estou a pensar tem ou não algum fundamento. A maternidade está sempre no topo da lista das coisas adiáveis na nossa vida, ou não?

Mais ou menos, Ricardo. Eu percebo que, de alguma forma, esteja adiada, por uma razão simples, ou seja, adiável, se preferir. Porque, de facto, a paridade entre homens e mulheres em termos educativos é igual. Entram, aliás, mais mulheres na universidade e, portanto, não é por aí que a discrepância entre ambos os sexos se dá. Essa discrepância dá-se, de facto, quando uma mulher e um homem decidem ter um bebé. E nessas circunstâncias, quem sai prejudicado na história é a mulher, porque fica prejudicada em termos de salários, os salários médios caem em função disso, fica prejudicada em termos de tempo de disponibilidade, tempo real, etc. E, portanto, eu também percebo que não havendo outro tipo de contrapartidas sociais, tomando em consideração tudo o que implica uma maternidade, que ela seja adiável, porque no final de contas, é adiar até o mais tarde possível estes fatores de discriminação que não deviam existir, mas que existem e são claros e inequívocos. E sinceramente, eu também não sinto que haja quem, de uma forma clara e protetora para todos, tome isto em consideração e tente obviar este tipo de obstáculos que são comuns a todas as mulheres. Quanto mais escolarizadas, compreensivelmente, mais tardia é a gravidez.

Eduardo, e há esse tique-taque constante. Nós vamos falando sempre da gravidez tardia como algo que deve ser evitado, até por razões de saúde, por exemplo. Enfim, não sei, também vamos ouvindo muitas vezes que nunca há um momento ideal, nunca há um momento certo para ser pai, ser mãe. Isto é mesmo assim?

Ana Filipa, eu acho que a primeira vez que somos pais, somos todos pais prematuros, mesmo que os bebés nasçam a termo, sempre pais prematuros. Não há volta a dar, mesmo quando temos 35, 36 ou 37 anos. Agora, eu também compreendo que as pessoas têm uma história de vida e têm uma história amorosa e não lhes chega, e ainda bem, digo eu, terem um pai pro bebê, querem que seja aquele pai. E portanto, é tão importante para as pessoas primeiro identificarem uma relação na qual se reconheçam e identificarem aquela pessoa como o pai que querem para aquele bebê. E obviamente, não se sentirem prejudicadas no seu crescimento profissional, que prejudica, queiramos ou não, quando entretanto aparece um bebê mais cedo, logo após o início de uma atividade profissional, que, de facto, eu compreendo que as pessoas adiem o mais possível, dentro do que é razoável. É uma tendência dos países desenvolvidos e tem a ver com isto. E, portanto, é um bocadinho inquietante. Será, de alguma forma. Mas fica claro que não é por se ter um filho mais tarde, que, por inerência, se é melhor mãe, neste caso, tomando em consideração a maternidade, se é melhor mãe do que quando se tem esse filho aos 22, 23, 25 ou 26.

Temos que fazer contas entre aquilo que são as contas e aquilo que é a postura de tudo se cria.

Não é assim, Ricardo. É claro que feitas as contas, se calhar tudo se cria. Mas tudo se cria com condições em termos de educação De tudo aquilo que uma criança de alguma forma espera, exige e tem direito em relação ao seu crescimento, não é, de facto, tão fácil assim. A mim também me parece que a questão da natalidade nunca foi uma importância de primeira linha para os políticos portugueses, à esquerda e à direita. Isso é que eu não consigo entender, devo dizer. Tenho todo o respeito do mundo pela Presidência da República e pelo senhor Presidente da República, em particular, como é o meu caso. Eu acharia ótimo que uma questão como essa fosse uma questão de regime assumida por ele, porque de facto é uma questão muito importante. Nós discutimos mais a sustentabilidade ambiental, a crise económica e obviamente eu percebo que são questões muito importantes, mas a questão da natalidade é uma questão tão importante quanto essa, porque nós nos arriscamos a ter uma quebra tão vertical de natalidade, já estamos a ter, mas tão vertical nos próximos anos, que se nós pensarmos que estimativas mais ou menos redondas, nem sempre tão certeiras, nos dão a entender que daqui a 30 anos, mais coisa menos coisa, nós já seremos 6 milhões. 4 milhões nas contas da Segurança Social faz toda a diferença. E de repente, 30 anos são os nossos filhos a apanhar tudo isso. Não me parece que haja uma discussão sentida como urgente e indispensável em relação a isso. E era muito importante que existisse, porque se não a tomarmos em consideração, como é que vai acontecer?

Eduardo, e como é que se gere tudo isto também emocionalmente? Porque isto adiar tudo, casamentos, os filhos, portanto, tudo isto foge ao plano que as pessoas tinham inicialmente e se calhar muitos deles nem sequer concretizam isto para anos futuros. Vão deixar andar e ver o que é que acontece. Como é que se gere isto tudo, Eduardo? Porque eu imagino a frustração que não deve ser pequena.

Ana Filipa, às vezes não se gere, dá-se a oportunidade à vida de gerir por nós, porque nem sempre é muito razoável. Eu também entendo que, às vezes, nem é o casamento que está em questão. Nascem mais crianças fora do casamento do que nos casamentos, o que significa que os casais portugueses são muito engraçados a esse nível. Eles entendem que querem ter um filho, desejam ter um filho e que o casamento não é a questão fundamental que os leve a tomar uma decisão dessas. Magnífico. Aquilo que eu acho que é muito importante é que as pessoas vão-se distando nas suas relações amorosas e tardam a descobrir a pessoa das suas vidas, a pessoa com quem entendem: "Pronto, chegamos aqui à altura em que devemos finalmente pensar em bebés a sério e provavelmente as nossas relações amorosas estão na ordem do dia para todos nós, seguramente, mas às vezes não com o empenhamento e a determinação que deviam ter." Eu às vezes tento ser provocatório para os pais de adolescentes, costumo dizer: "Por favor, qual projeto de carreira? Não, encontramos o amor da nossa vida, é o projeto mais importante que pode acontecer para todos nós. A carreira virá depois." Mas é evidente que entre dizer isto aos pais de adolescentes e eles levarem a sério, vai uma grande distância.

Às vezes é melhor não fazer tantas contas, Eduardo, é isso?

Ricardo, às vezes é. É claro que eu também entendo que as pessoas queiram fazer contas e encontrar ali a janela de oportunidade adequada. Às vezes fazem essas contas levadas ao limite. Qual é o mês em que supostamente o bebê deve nascer para depois bater certo entre licença, férias, etc. E eu tenho muito medo, às vezes, dessas contas, porque costumo sempre, em nome da prudência, chamar a atenção que de repente as contas saem furadas quando o bebê começa a chorar de noite. De repente, tudo o que se tinha previsto, às vezes fica razoavelmente comprometido. Há ali uma dose de irresponsabilidade quando nós somos pais, claro que sim, porque nós percebemos que o mundo está constipado em muitos aspectos, mas nós quando decidimos ter um filho, decidimos porque é importante para nós. Porque nós andamos a criar isso desde o momento em que somos filhos. Nós não começamos a ser pais quando nasce o bebê, começamos a ser pais quando somos filhos. E quando nos imaginamos no outro lugar, depois da parentalidade, à natalidade, vai um passo, mas não é assim tão simples como às vezes todos nós imaginamos. Portanto, é preciso uma dose de irresponsabilidade, sim, e já agora é preciso encontrarmos a pessoa que convictamente merece ser a mãe ou pai dos nossos filhos, isso mais do que tudo.

Bom, voltamos à conversa amanhã no "Porque Sim Não é a Resposta" comigo, Ana Filipa Rosa, com o Ricardo Conceição e com o Eduardo Sá. Até amanhã.

Até amanhã.

Até amanhã.

Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM. Na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.