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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos de inteligência artificial. Quase 30 professores universitários pedem a suspensão generalizada do uso de inteligência artificial generativa. Acusam o uso acrítico de promover fraude, plágio e mesmo empobrecimento cognitivo. Olá, Eduardo. Proibir o uso de inteligência artificial é proteger o pensamento ou é fingir que o problema não existe?
Olá, Judite, boa tarde. É uma situação delicada, mas é uma situação que eu acho que merece que abordemos como deve ser. Fico contente que isto seja trazido à discussão. E fico contente por uma razão simples: porque cada vez mais nos vamos confrontando na universidade com este tipo de episódios, que são episódios um bocadinho desconcertantes. Os trabalhos dos alunos, obviamente honrosa das exceções, exceções que para quem está habituado a corrigir trabalhos, são claramente detetadas, mas são cada vez mais objeto de inteligência artificial e a mim preocupa-me. Preocupa-me porque os temas que depois eles choice para os trabalhos são clonados uns nos outros, a construção do trabalho e até a maneira como se escreve em português, é a mesma coisa. Mas aquilo que me preocupa também, Judite, é que quando eu converso com miúdos de 12 ou 13 anos, a naturalidade com que eles reagem a isto é desconcertante. Eles muitas vezes, quando há duas ou três turmas que têm a mesma professora e que têm teste de matemática, por hipótese, numa determinada manhã, evidentemente que a primeira turma fotografa o teste com o telemóvel e depois a inteligência artificial resolve o teste para as turmas seguintes e às vezes, respondendo a estas fotografias iniciais para a primeira turma que faz os testes. E, portanto, eu acho que isto é cada vez mais preocupante. E é mais preocupante por várias razões, porque os alunos no ensino superior leem muito pouco. A leitura é cada vez mais uma leitura que vem via redes sociais, com todos os enviesamentos e o lado muito lacónico que isso tudo tem. A capacidade de síntese é mais pobre, claramente mais pobre, e a forma como eles se resignam a isto tudo é muito desconcertante. O que é mais grave ainda é que eles fazem trabalhos, muitos deles alavancados em inteligência artificial, e quando finalmente não têm uma nota de acordo com aquilo que são as suas expectativas, porque às vezes não fazem todas as sínteses indispensáveis, porque nem sempre a inteligência artificial lhes dá um produto rigorosamente acabado, ainda assim se insurgem por não terem notas muito altas. E, portanto, nós estamos a criar aqui uma onda que me parece muito preocupante, porque termos jovens com formação universitária é uma coisa ótima, mas eu receio que a avaliação esteja muito constipada, e esta avaliação está constipada desde toda a atividade escolar até a atividade universitária, já lá chegou. E, portanto, termos pessoas diplomadas que nem sempre dominam os conceitos, aprendem a aprender e, no fundo, fazem todas as démarches que era suposto para mastigarem conhecimento e para o produzirem a seguir, a mim preocupa-me. E, portanto, nós estamos a criar uma autoestrada muito facilitada. A relação custo-benefício disso em termos dos desempenhos que nós observamos nos alunos é capaz de não ser aquela que nos leva a supor que a inteligência artificial os torne mais inteligentes. Eu tenho medo que isso esteja a limitar mais do que era suposto.
Mas é possível ensinar a utilizar a inteligência artificial sem que isso se transforme num atalho?
Claro que sim, Judite. Mas afinal de contas, é uma outra forma de copiar. E aquilo que a mim me preocupa é que isto, tal como está, torna-se uma bengala que os parasita muito e, portanto, mesmo em termos de criatividade, eles ficam à espera que haja um ChatGPT qualquer que lhes apresente uma solução criativa para aquilo que têm que ser eles, de facto, a construir. E, portanto, a escola, neste momento, para além de todos os desafios que tem, e a escola desde muito cedo, porque eles manuseiam as novas tecnologias com uma versatilidade fora de lugar, tem que os ensinar a fazer esta destreza ou usar aquilo que é suposto usarem através da inteligência artificial. Mas a ir muito para além disto, a escola vai ter que começar a valorizar muito mais a criatividade, vai ter que valorizar muito mais a capacidade de síntese. Isto de repetir conhecimentos, como muitas vezes a escola favorece, vai cair em desuso, porque obviamente, o mundo já pede muito mais do que isso. E portanto, nós vamos fazer aquilo que a humanidade sempre fez. Primeiro somos engolidos por uma novidade, deslumbramo-nos, usamo-la como se fosse uma facilidade inacreditável e depois quando percebemos que isso traz custos, os pais e as escolas à frente de tudo, vão começar a educar e a permitir que, de facto, a inteligência artificial seja um lápis mais caro, mas um lápis inacreditável, sem que contudo, isso sirva para que eles fiquem menos capazes, menos inteligentes, como transitoriamente parece que vai acontecendo.
É dar tempo ao tempo. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Prazer, Judite. Até amanhã.