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Está.

Já está? Bem-vindos ao "Porque Sim Não É Resposta". Eu sou a Judite França, comigo está o Bruno Vieira Amaral e estamos sempre com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de um tema muito interessante, porque é sempre muito estranho quando as grávidas e as recém-mães falam em perturbações de memória, pequenos esquecimentos. E isto tem um nome, chama-se mamnésia. Calha bem. E a esmagadora maioria das mulheres refere isto no pós-parto, portanto, não é uma questão eventual. Significa que as mulheres ficam um bocadinho na lua, como diz o Eduardo Sá. Olá, Eduardo, boa tarde.

Olá, Judite. Olá, Bruno.

Olá, Eduardo.

É verdade que têm noção de tudo o que se passa à sua volta, é evidente, mas será o quê? A memória de curto prazo, aquela que não é tão importante para que a mulher se concentre no que é fundamental? Nalgumas circunstâncias chamava-se a isso um estado de graça, e de alguma forma é. Porque ao mesmo tempo que ficam, às vezes, um bocadinho distraídas, às vezes fazem erros perante coisas absolutamente básicas, que são erros desconcertantes, às vezes falha-lhes uma palavra ou outra, ou às vezes estão simplesmente na lua. Tem, de facto, a ver com algumas transformações que também se dão no cérebro das mães quando estão em plena gravidez e que as vai tornando mais capazes para se centrarem sobre o bebê, mas que faz com que aquela gestão do dia a dia pareça ser empurrada para um segundo plano. Não significa que estejam a perder qualidade, significa que se estão a preparar cada vez mais para aquela chegada, sendo certo que ela, de alguma forma, já se deu e, portanto, é dessa maneira muito subtil, muito digital, que vão conversando com o bebê e ele agradece. É um estado muito saudável, muito bonito, mas muitas vezes muito mal entendido. Tem uma particularidade: logo que o bebê nasce, isso não desaparece assim. Naquilo que nós observamos, é que às vezes há aqueles sobressaltos durante uma gravidez, um susto. Às vezes o parto não foi aquilo que se esperava e de repente isso parece ser varrido subtilmente para baixo do tapete, porque a prioridade das mães é outra, e a prioridade das mães tem três quilos, tem um baby grow e uns olhos muito bonitos ali ao lado e tudo o resto parece ser um segundo plano, que faz com que os pais, às vezes, se sintam empurrados, sabe Deus para onde.

Eduardo, mas isto não é um estado emocional apenas. Isto tem que ver com transformações no cérebro das mulheres, das grávidas e que deram à luz recentemente.

Sim, é um dois em um. Estas transformações tornam mais visíveis e mais intensas estas mudanças emocionais e vice-versa. E é portanto este mix que faz com que as mães sejam muito diferentes. O que é muito bonito, porque estas manifestações que elas acabam por ter, nomeadamente ali numa zona do nosso cérebro, que orquestra a memória, é também uma zona que depois tem uma outra formaçãozinha lá de baixo, que é muito responsável por aquilo a que nós chamamos as memórias implícitas. Ou seja, nós quando vimos, quando alguém faz no meio de um café: "Pst", todos olhamos e nem nos damos conta que aquele som está aqui guardado desde há milênios, porque o silvar das serpentes fez com que nós tivéssemos tantos patrimónios genéticos de uma forma muito particular e as mães depois avivam muito também essa sua capacidade e avivam também o seu lado muito territorial, muito de mães. E portanto, são transformações endócrinas, são transformações que depois têm impacto nalgumas formações do próprio cérebro e são transformações emocionais. São tanto mais exuberantes, digamos assim, quanto mais uma mãe é expansiva, expressiva, não é tão metida consigo e portanto, aquelas mães mais descontraídas, mais vivas, acabam por viver isto tudo num tom cor-de-rosa choque, digamos assim.

Portanto, perde algumas competências, mas ganha outras.

Oh, meu Deus! Judite França. Sabe o que é o sexto sentido? É isto. Depois esta acutilância, que é uma acutilância que ainda por cima depois é avivada a partir do momento em que se amamenta, é uma acutilância absolutamente notável, que faz com que depois, quando se trata de associarem informação e portanto quando pegam na informação dos dois hemisférios cerebrais e misturam aquilo tudo e são intuitivíssimas, de facto, isto torna as mães muito mais intuitivas. Claro que o nosso amigo Bruno vai logo dizer assim: "Mas que discriminação pateta". Não é, Bruno, porque O que é bonito é que quanto mais o pai faz esta função, que nós muitas vezes atribuímos à mãe, mais acutilante ele fica.

Ainda há esperança para os homens, então?

Bruno, não sei se está a ver. Há muitos anos estava a ver um artigo internacional que era delicioso e que dizia assim: num jardim zoológico, a gorila fêmea morreu e o gorila macho sentiu-se obrigado a cuidar das crias. E a certa altura tiveram que lhe fazer um doseamento hormonal e para surpresa de quem o fez, ele tinha doseamentos de prolactina muitíssimo superiores àquilo que era suposto haver num homem. Quanto mais um homem faz de mãe, mais doseamentos de prolactina tem, o que significa, veja bem, Bruno, porque os homens não querem assumir isto.

Estou a ver.

Aquela acutilância auditiva que as mães têm, que é uma coisa lindíssima, que o bebê ainda nem sequer começou a fazer um som.

E já o estão a ouvir.

Exatamente.

Os homens são insensíveis a isso, não é? Ou velhos.

Se fizerem mais de mãe, passam a ser sensíveis. E, portanto, a verdade, que é muito bonita nisto tudo, é que de facto as transformações do nosso cérebro traduzem-se em algum tipo de comportamento, mas os comportamentos depois puxam por ele e adaptam-no para que ele fique mais competente. É muito bonito. E portanto, nós podemos ser mais do que possa ser.

Eduardo, e estas transformações na mulher são a causa, depois, de alguns atritos e mal-entendidos entre os casais? Porque é uma fase complicada em que, regra geral, os homens, os pais se sentem um pouco excluídos. Tem a ver também com estas transformações?

Tem. Mas eu acho que não se sentem um pouco excluídos. Às vezes sentem-se muito excluídos mesmo, o que não é uma coisa fácil, porque a esmagadora maioria dos homens é de uma bondade e de uma compreensão muito grande a esse nível, mas às vezes têm a sensação de ser uma versão atualizada do homem invisível e, portanto, de repente, parecem ocupar muito pouco espaço. E há uma espécie de relação a dois tão íntima. A mãe está tão virada sobre a sua gravidez, sobre o seu bebê, sobre a sua barriga, que de repente, um homem está a ocupar um bocadinho mais de espaço do que era suposto. E sim, nessas circunstâncias, há homens que fazem as suas birras e depois parecem estar a falar línguas diferentes, quando no fundo, as coisas bem legendadas e se calhar ficam ainda mais perto um do outro do que era suposto.

Não é natural que nesse período o homem entenda aquilo que a mulher está a passar?

Ó Judite.

Perguntou eu.

Ó Judite, claro que é. E a maior parte dos homens entende. Gostava que se fizesse essa justiça, porque é tão difícil entre um bebê começar a ganhar espaço e volume dentro de uma mãe e depois de ele nascer, com tudo o que isso implica de trabalho árduo, muito árduo para uma mãe e consumi-la ali quase totalmente. Os homens são muito compreensivos e tentam ocupar o mínimo espaço possível. Só que a determinada altura, qual é o problema? É que falam por sinais de fumo, não são claros. De repente, andam ali em picardias um pouco absurdas, mas de facto, a determinada altura, a grande dificuldade é compatibilizar estas duas coisas: uma paixão absolutamente sem fim e um deslumbramento, um encanto por um bebê, que é partilhado, aliás, pelo pai, mas sem que o pai faça de filho mais velho, como alguns infelizmente fazem, a sentir-se colocado fora da equação, como se de repente não tivesse lugar a um protagonismo que obviamente continuará e tem que continuar a ser seu.

Eduardo, hoje ficamos por aqui. Voltamos amanhã com mais um episódio. Até lá, escreva-nos em eduardosa@observador.pt. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Até amanhã, Eduardo. Um abraço.

Até amanhã. Um grande abraço para os dois.