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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França e hoje vamos falar de pessoas sonsas. Olá, Eduardo. Ser sonso é um traço de personalidade ou é uma estratégia?
Olá, Judite. É as duas coisas, Judite, tem both verdade. Não que um traço de personalidade seja um acidente de percurso diante do qual acabemos por ser vítimas. Obviamente que não é. Um traço de personalidade é também um vício de forma que em suaves prestações nós vamos assumindo e quando damos por isso, cola a pele. Mas de facto, estas pessoas parecem ser tão assumidamente assim, que de repente até custa perceber que elas não deem conta disso. E de facto, quando nós falamos de um traço de personalidade, parece que estamos a falar de coisas imperceptíveis para quem os tem e que de alguma forma acabam por se traduzir sem que isso represente uma escolha. Mas ser sonso é efetivamente uma escolha, não é das melhores escolhas do mundo, Judite, mas é uma escolha.
Por que o Eduardo diz que as pessoas sonsas nunca dão boas pessoas?
Judite, porque são um bocadinho falsas e são furtivas, porque um sonso é um mau-caráter numa versão português suave, não é verdadeiro. Gosta muito de ser um bocadinho camaleónico. Às vezes faz-se de ingênuo. Às vezes são aquelas pessoas que são os verdadeiros vaidosos envergonhados, que assumem lugares e andam à procura de protagonismo, mas sempre espírito de missão. São um bocadinho manipuladoras. E tudo junto não faz delas, Judite, desculpe, nem bonitas, nem boas pessoas.
À primeira vista parecem inofensivas, não?
Não são nada, Judite. É que não são mesmo. Estas são as pessoas verdadeiramente passivo-agressivas. São aquelas que parecem não fazer mal a ninguém, e depois pelas costas, são pessoas agrestes e um bocadinho violentas até. Nessas circunstâncias, elas sim, tentam fazer o homem invisível. Parecem ter crescido sempre numa atmosfera de medo, tal é a forma como se colocam junto dos outros. São ótimas a fazer de vítimas quando é preciso, mas no final de contas, nós nunca podemos contar com elas, porque acima de tudo, eu acho que elas não conseguem ser simplesmente leais.
Mas há alguma diferença entre ser prudente e ser sonso? Porque os sonsos parecem muito prudentes.
Não. Uma pessoa prudente é uma pessoa que às vezes pode ser medricas ou às vezes pode ser só sábia, não é, Judite? As pessoas sonsas, não. São as pessoas mais calculistas do mundo e que obviamente só vão a jogo depois de controlarem completamente toda a realidade à volta delas para manipularem melhor.
Isso é muito cansativo, não é?
Isso é horrível. Claro que sim, Judite, porque parecem ter uma folha de cálculo permanentemente no coração e estarem-se sempre a adaptar às expectativas que elas presumem que são as mais adequadas ou as mais queridas por causa dos outros. São pessoas sozinhas. Eu percebo que no final de contas, são pessoas muito sozinhas, mas ainda assim, são pessoas que têm uma característica que eu acho que é completamente diferente daquela que nós percebemos nas pessoas sábias. As pessoas sábias são muito cativantes. Às vezes nem precisam de abrir a boca para nós percebermos a forma acutilante como elas pensam. As pessoas sonsas, às vezes sem nos darmos conta, desencadeiam uma atitude tão agreste da nossa parte, que às vezes só nos apetece sermos inconvenientes e provocatórios. Tudo aquilo que no final de contas, elas são lá por dentro, que nós percebemos que elas são lá por dentro, mas que no fundo nos levam a fazer ao contrário daquilo que elas fazem.
E elas têm consciência do impacto que causam nos outros?
Elas têm a ideia de que nós somos todos um bocadinho tolos e distraídos. E, portanto, elas acham que Com jeito, este é o modo mais fantástico de poderem chegar aos outros. Elas não são propriamente cativantes. Agora, verdade seja que numa rádio ou numa universidade, no mundo, às vezes, há muitas destas pessoas e para nossa surpresa. Às vezes estas pessoas são tão hábeis a mover-se que quando damos conta, têm lugares de responsabilidade e nós ficamos sempre perplexos, porque é como se, no fundo, as pessoas transparentes, verdadeiras, aquelas que são mais críticas, mas que trazem mais massa crítica às instituições, acabam por ser muitas vezes prejudicadas por estas, porque aparentemente estas não fazem ondas e adequam-se com uma facilidade fora do lugar a todas as pessoas que mandam. Nem aí são tão cativantes assim.
São corrosivas.
São ácidas, que ainda é pior. Quando afiam a língua, como as pessoas costumam dizer, as pessoas costumam descrevê-las como víboras, que é uma maneira de dizerem, por outras palavras, que quando atacam, espalham veneno, o que é uma coisa que não é seguramente muito lisonjeante para ninguém.
Depois desta definição do sonso, desta dura definição do sonso, vamos terminar o programa por hoje e voltamos amanhã com mais um tema e até lá, já sabem, continuem a escrever-nos para eduardosa@observador.pt. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
E até amanhã.