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Assinala-se hoje um dia que nunca devia existir, mas continua a ser urgente. O abuso sexual de crianças é uma ferida profunda que raramente deixa marcas visíveis, mas que alerta para sempre o modo como uma criança aprende a confiar no mundo. É das violências mais difíceis de detetar, mais difíceis de denunciar e mais difíceis de sarar. Este Dia Europeu da Proteção das Crianças contra a Exploração e o Abuso Sexual existe para estar atento aos sinais, acreditar na palavra das crianças, falar do corpo e dos limites desde cedo e criar um ambiente onde o segredo nunca pesa mais do que a segurança. Olá, Eduardo. Por que razão continuamos a ter tanta dificuldade em acreditar nas crianças quando elas falam de abuso?

Olá, Judite. Porque chamar de pesadelo é uma coisa muito leve. É uma coisa tão trágica, tão violenta, tão absurda. É tão assustador imaginarmos que um filho nosso possa ser vítima completamente indefesa de uma pessoa que, em algumas circunstâncias, faz parte da família e, em algumas ainda mais, seria alguém ou será alguém que deveria ter comportamentos de proteção, como um pai, um avô, uma mãe. Nessas circunstâncias, de fato, eu percebo que as pessoas fujam de todas as formas de assumir que tudo isto existe. Mas existe. Eu não acredito que hoje exista mais, existe, sim, a consciência de que este tipo de situações não pode ficar envolvida numa opacidade muito grande. E também existe quem seja batoteiro com este tipo de alegações e às vezes isso também acontece, felizmente cada vez menos, mas ainda assim acontece no contexto de algumas situações de grande litígio no âmbito de um divórcio. A verdade é que eu continuo a achar que uma situação de abuso sobre uma criança, vamos pôr isso entre aspas, vale pela dimensão enfática, como é óbvio, é um atentado à vida, pelo menos na forma tentada. Ou seja, estabelece um dano tão significativo, é uma experiência tão violenta, tão absurda, tão impossível de apagar com uma espécie de lascívia qualquer, que nós devíamos ter um cuidado absoluto e sermos sérios na maneira como se julgam estas pessoas, mas tão duros quanto é possível, porque é absolutamente incompreensível e intolerável uma coisa dessas.

O que um pai ou uma mãe devem observar como sinais de alarme?

Judite, acima de tudo, as crianças são pequeninas, mas não são tolas. E não sendo tolas, isso quer dizer o quê? Quer dizer que elas percebem muito bem que há algum tipo de abordagem que, no fundo, faz com que elas separem o bem do mal. Elas intuitivamente percebem muito bem o que é razoável e o que é intolerável e, portanto, o que é mau. Nessas circunstâncias, a primeira coisa que os pais têm que perceber é que uma alteração súbita do comportamento, e súbita é de um dia para o outro. Súbita significa que na sequência de um fim de semana passado com familiares, amigos, seja quem for, e na segunda-feira seguinte, ela parece metida consigo própria, às vezes muito inflamável, às vezes com reações muito exuberantes, que não têm nada a ver com uma observação ou outra que nós possamos fazer. Este tipo de alteração de comportamento súbita de um dia para o outro significa que, evidentemente, as coisas não estão bem. Muitas vezes, mais de forma muito delicada e muito empática, costumam utilizar o banho para conversar. E ao lavarem a zona genital, sentem imediatamente um comportamento de grande rejeição, um comportamento de grande vergonha, de grande inibição de um momento para o outro. E sobretudo se este tipo de comportamentos não fazem parte do comportamento habitual de uma criança e, portanto, é de repente uma aquisição demasiado nova, quase estranhamente surpreendente, evidentemente, têm que abrir ali uma luzinha amarela que significa: "há aqui qualquer coisa que não está como devia ser". Depois há os corrimentos vaginais, que são de alguma forma o clássico, e a descrição pormenorizada das crianças que quando elas se sentem seguras acabam por fazer, e são, de fato, descrições assustadoramente pormenorizadas. E não vale a pena, como eu infelizmente já vi nalguns tribunais, haver alguns agentes que perguntem: "Mas não é possível que uma criança seja capaz de falar com este requinte de pormenor de uma situação Porventura, a partir de uma série, de um filme que tenha visto indevidamente? Não, não é possível, porque a maneira como elas falam vem acompanhada de um afeto que se percebe que é muito sofrido, muito doloroso e que, nessas circunstâncias, evidentemente, parece uma atenção que nos encaminha, nos indicia que alguma coisa de muito grave pode ter acontecido.

Como é que se fala com uma criança sobre o seu corpo e sobre os limites?

Eu acho que aquilo que habitualmente os pais fazem já é sensato. Ou seja, aquilo que os pais fazem não é criarem um universo de lobos maus, afasta-te de todas as pessoas que não sejam familiares, porque já houve tentativas de comunicar publicamente através de outdoors e outros tipos de recursos desse género. E isso não funciona, como se compreende, até porque em muitas circunstâncias o abuso decorre no contexto da própria família. Mas aquilo que os pais, de uma forma profundamente sensata, dão a entender é que tudo o que seja uma abordagem excessivamente corporal por estranhos, um toque para além do razoável, etc., não pode ser tolerado. Eu acho isto muito importante, mas muito delicado ao mesmo tempo. Ou seja, que não se crie depois uma onda, como eu vi, por exemplo, a propósito daquilo que aconteceu no processo Casa Pia, em que de repente nós ao vermos uma criança e ao termos uma atitude afetuosa, nem que fosse passar a mão pelos caracóis, por exemplo, de repente tudo era assédio e vamos lá separar o trigo do joio. E, portanto, um comportamento carinhoso para uma criança é só carinho. Um comportamento, um toque que ela sinta que vai para além do razoável, obviamente, não é tolerável. E aquilo que os pais dizem, e muito bem, é que mal ela se sinta claramente desconfortável, tem que deitar mão ao adulto de referência que esteja ali ao pé, nem que seja um professor ou nem que seja um tio, por hipótese, uma tia, mas tem que pedir imediatamente essa proteção. Se fizerem isto, já chega. Porque elas intuitivamente depois também reagem a abordagens, porque elas são tão intuitivas que percebem perfeitamente quando é que um olhar é um olhar de ternura ou um olhar manipulador que de certa forma as assusta e, esta é muitas vezes a peça escorregadia, as torna um bocadinho paralisadas de medo e que em algumas circunstâncias é interpretado de uma forma malévola, como se elas de algum modo tivessem colaborado, nem que fosse passivamente. E este tipo de comentários são tão assustadores e são tão de mau gosto que nem merecem ser adjetivados.

Eduardo, hoje ficamos por aqui. Um tema pesado, mas que precisava de ser abordado. Amanhã voltamos com um outro tema. Até lá, um grande abraço e obrigada.

Até amanhã. Um abraço para si e obrigado também.