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Bem-vindos ao "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de um caso de um adolescente que foi expulso do grupo de amigos. Quem nos escreveu foi a mãe, preocupada com o isolamento do filho. Olá, Eduardo. Como é que um grupo que partilhou anos, muitas experiências, muita cumplicidade, consegue de um dia para o outro virar as costas a um dos seus? Que tipo de comportamento é este?
Olá, Judite. É um comportamento completamente atípico. Isto não é nada frequente no grupo de adolescentes. Os adolescentes são leais, claramente leais uns em relação aos outros, a não ser que possa ter acontecido alguma coisa que tenha fugido aos parâmetros de avaliação do que era recomendável pelo grupo, ou que possa ter havido alguém que tenha feito uma interpretação muito própria de um comportamento ou outro e que essa interpretação tenha pegado fogo a ponto de se chegar a uma atitude tão extrema. Este cancelamento de um adolescente em relação ao seu grupo é uma coisa muito violenta e portanto faz com que ele se sinta minimizado a um nível tal que claro que o deixa destroçado, claro que o deixa triste, claro que o deixa a desconfiar da própria sombra, sobretudo se, e pode acontecer, Judite, se houve alguém que decidiu criar uma realidade que não corresponde à verdade e ele se sinta completamente perplexo, atônito, sem perceber nada dos motivos pelos quais isto se deu.
Vamos por partes. Aparentemente, ninguém do grupo questionou a exclusão. Portanto, vem aqui a pressão, de alguma forma, para todos agirem como um só. Isto é normal?
Judite, é mais ou menos normal. Não é de todo normal num grupo saudável, mas muitas vezes nós distinguimos dois tipos de grupos de adolescentes. Os grupos heterogêneos, aqueles que são constituídos por pessoas das mesmas idades, que têm o mesmo tipo de vestuário, enfim, aqueles parâmetros habituais dos adolescentes, mas que depois têm redes sociais diferentes, histórias naturalmente muito distintas umas das outras e que, portanto, serve ali de guarda-chuva para esta diversidade de adolescentes que fazem parte do mesmo grupo. Unem-se em função de gostos, de músicas, de clubes, ou simplesmente porque gostam de estar e de conversar uns com os outros. E depois há os grupos um bocadinho homogêneos, que são grupos em que tudo que seja diversidade nem sempre é bem aceito ou bem tolerado. E nessas circunstâncias, quem pisa o risco ou quem é, de alguma forma, um bocadinho menos abnegado em relação às regras de um grupo homogêneo, tem, claro, grandes probabilidades de ser posto à margem. Evidentemente, para que um grupo aja em bloco, eu fico preocupado, porque não é normal de todo num grupo de adolescentes, porque eles são, de facto, solidários uns com os outros. E, portanto, têm uma aragem de ajuste de contas. É como se alguém no grupo parecesse, de alguma forma, pautar os comportamentos de todo o grupo, muitas vezes acontece. E nessas circunstâncias, por persuasão ou até por intimidação, tenha colocado todos contra ele, tenha o transformado numa espécie de inimigo público número um do grupo, que é uma coisa de uma hostilidade sem fim.
Um adolescente mais reservado, menos presente digitalmente, é mais ou menos vulnerável a este tipo de dinâmica?
É mais vulnerável, Judite. É mais vulnerável, porque pode ser reservado na relação com os outros, o que já de si introduz alguma vulnerabilidade. Um adolescente mais expedito, que verbaliza de uma forma mais intensa e que, portanto, aceita um conflito e de alguma forma lute, no sentido de clarificar posições, é um adolescente mais difícil de se deixar enrolar nestes enredos, que às vezes são, de facto, muito agressivos. Um adolescente que, para além de ser reservado, possa ser digitalmente reservado, aumenta significativamente tudo isto. E nessas circunstâncias, é verdade que sim, há grupos que fazem derivas pelo bullying adentro e nessas circunstâncias, estas derivas, que é o que parece, Judite, estas derivas ilesem alguém que seja mais simples, mais frágil, mais sensível ou mais discreto. E nessas circunstâncias, acabam por, de uma forma um bocadinho perversa, digo eu, fazer estes ataques pelas costas e podem ser muito violentos. Ou seja, isto pode criar constrangimentos tais Que um adolescente tem dificuldade, num primeiro momento, em comunicar aos pais, tem dificuldade em ir à escola a determinada altura e muito mais ir pra um recreio ou socializar-se com os colegas de uma mesma turma.
As redes sociais também vieram mudar a forma como este tipo de exclusão acontece e como é vivida pra quem fica de fora?
Ah, Edite, tornaram estes movimentos bem mais violentos.
Sim.
Porque são mais liofilizados, não são tão francos e abertos. E lá está, às vezes, insultar numa rede social, que é sempre um ato de covardia, até porque tem lá o nickname, às vezes aboleia, não é a mesma coisa que confrontar cara a cara com tudo que isso implica numa relação. E, portanto, favorece muito este tipo de coisas, mais escorregadias, mais ínvias e, de facto, muito mais hostis. E claro, ninguém está preparado pra uma coisa destas, essa é a verdade, mas um adolescente que esteja em alguma fragilidade e que tenha no grupo um referencial muito importante pro seu bem-estar, admito que fique feito em fanicos. E, portanto, fique numa aflição tão grande que não saiba, literalmente, como sair dela.
E só pra terminar, como é que um pai ou uma mãe acompanha um filho que está a viver este isolamento?
Edite, eu percebo muito bem os pais quando dizem que as coisas que são geradas entre adolescentes devem ser resolvidas entre eles. No primeiro momento eu percebo, compreendo e acho que faz sentido, dentro de alguns limites, porque vamos admitir que isto é, de facto, um ajuste de contas feio e um grupo que podia ser um sítio acolhedor, se transforma num pequeno gangue. Aí as coisas ficam completamente diferentes e, portanto, os pais não podem permitir, em circunstância nenhuma, que um filho seja alvo de violência, mesmo que seja violência promovida por colegas ou por amigos até há pouco tempo. Enfim, por miúdos da idade deles. E, portanto, nestas circunstâncias, se os pais perceberem que é isto que está a acontecer, eu acho que eles têm a obrigação de contactar alguns dos outros pais no sentido de trazerem bom senso onde ele parece estar a faltar e de uma forma gritante. Mas vamos admitir que haja pais que reagem mal, e há, às vezes, Edite. Há pais que reagem muito mal e que nos ajudam a perceber, aliás, por que alguns adolescentes são hostis, acintosos e até mal-educados. E, portanto, nessas circunstâncias, Edite, é um caso de polícia como outro qualquer. Eu acho que, às vezes, os miúdos ganham se ficarem um bocadinho assustados. Ninguém quer andar aqui a judicializar o mundo.
Claro.
Mas ganham se ficarem um bocadinho assustados e percebendo que aquilo que seria mostrar os pitons é uma coisa, às vezes já desce um bocadinho parva, nalgumas circunstâncias, outra completamente diferente, é entrar diretamente às canelas do maní, ainda por cima por trás, com todos aqueles que podiam fazer de árbitros mais ou menos distanciados ou distraídos. Isso não, porque a distração dos pais magoa ainda mais do que um ato desta natureza daqueles que eram amigos até há pouco tempo.
Ficamos por aqui hoje. Amanhã voltamos com mais um tema. Eduardo, um grande abraço. Obrigada. Até amanhã.
Outro. Obrigado e até amanhã, Edite.