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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar da impulsividade dos pais. Olá, Eduardo. O que se passa quando um pai ou uma mãe reage de forma impulsiva? Um grito, um castigo dado a quente perante o comportamento de um filho.

Lá esdito, em condições normais, não se passa nada. É tão normal da vida de uma família, sendo certo que os pais não são tão bucólicos, tão tranquilos e tão apelativos a tudo aquilo que se passa à sua volta e, portanto, reagem em muitas circunstâncias desta maneira. Vamos lá separar, todavia, aquilo que é extraordinário e aquilo que, de alguma forma, é o habitual. Se for habitual, significa que aquele pai ou aquela mãe estarão à beira de um ataque de nervos. E isso significa o óbvio, ou seja, às vezes, como os pais em tantos momentos acabam por confessar, descarregam nos filhos aquilo que vão acumulando ao longo de um dia. E depois uma criança, sabe como é, esdito, percebe perfeitamente que o pai ou a mãe estão tensos e falta só um letrejozinho na testa a dizer: "Cuidado, alta tensão" e o resultado é o que nós sabemos.

Esta impulsividade pode ser, lá está, o cansaço ou falta de paciência, mas também diz algo sobre as expectativas que os pais têm em relação ao que o filho devia ser capaz de fazer naquela idade ou devia ser capaz de compreender naquela idade.

Sim, esdito, mas repare, nós acabamos por ter sempre muitas expectativas em relação aos nossos filhos, muitas delas que têm a ver conosco, com aquilo que nós, de alguma forma, colocamos sobre eles, projetamos sobre eles. Nada disso faz de nós más pessoas, nada mesmo. E, portanto, nessas circunstâncias, o que acontece? Às vezes baralham-se as histórias e quando se baralham as histórias é mesmo uma situação que escorrega para além do razoável, porque estamos a exigir que eles concretizem coisas que nós, por qualquer motivo, não fomos capazes de conquistar. E, portanto, nessas circunstâncias, sim, isso faz com que haja uma exigência absurda, que muitas vezes se exige este mundo e o outro e quando se chega aí, temos uma dor de cabeça, porque por mais que uma criança faça, arrisca-se a nunca ser capaz de concretizar os seus projetos de vida e os projetos de vida que a mãe e o pai tinham pra ela. Quando é assim, fica um bocadinho escorregadio. É verdade que sim, mas tenho esperança que depois os pais tenham toda a clarividência indispensável para concluírem que às vezes estão, de facto, a exigir demais. E quando é assim, para baixarem um bocadinho o nível de exigência, porque se há coisas que tornam um filho muito inseguro, mas mesmo muito inseguro, é esta exigência, às vezes, absolutamente exagerada dos pais.

E a diferença entre disciplinar e aquilo que acaba por ser um, afinal de contas, descarregar sobre a criança?

Esdito, eu às vezes tenho medo da palavra disciplinar. Eu percebo que criar regras é também, às vezes, por alguns sentidos proibidos e alguns sentidos obrigatórios, mas disciplinar, às vezes, parece que elas, no fundo, precisam de uma disciplina. E eu tenho pra mim que quando se fala muito de disciplina é porque, no fundo, nós temos a ideia de que as regras que desejávamos que um filho levasse por diante talvez não estejam a ir para onde deviam. E, portanto, nessas circunstâncias, a disciplina às vezes é aquilo a que nós deitamos a mão quando as regras nos fogem. Eu não acho que o filho precise de ser disciplinado, valha-me Deus. Precisa de ter regras e pôr regras implica, sobretudo, uma gestão de bom senso, onde os pais falham, esdito, na maneira como, às vezes, a mãe e o pai nem sempre têm as mesmas regras. Não precisam de as ter milimetricamente, já dissemos isso algumas vezes, mas precisam ter ali um perímetro de regras que seja mais ou menos coerente e, sobretudo, constante. Eu não me canso de chamar a atenção que quando a mãe e o pai não têm o mesmo diapasão de regras, numa família acaba por haver quatro regras: a regra da mãe, a regra do pai, a regra da mãe e do pai quando estão sintonizados e a regra de uma criança quando pega nos seus ímpetos de confederação sindical e faz as reclamações que sente que tem direito. E, portanto, quando há esse tipo de conflito de regras, evidentemente que uma pessoa fica à beira de um ataque de nervos e tudo lhe foge das mãos, tudo, esdito.Mas por regra geral, uma criança não significa uma disciplina, não significa um contrato. Eu acho uma ternura que os pais façam um contrato, mas atenção, quando fazem um contrato, já estão de alguma forma a baixar os braços e a assumir que aquilo não vai lá de outra maneira, só com um contrato escrito invariavelmente aplicado no frigorífico para que todos vejam. E, portanto, esta é uma gestão de bom senso, que volto a dizer, não vale a pena nós imaginarmos que uma mãe ou um pai, chegados a casa depois do trânsito, o trabalho nem sempre corre bem, etc. Não vale a pena nós imaginarmos que uma criança está distraída, não percebe aquela tensão e não cria condições porque essa tensão às vezes desencadeia uma atitude mais impulsiva. Mas isso não é a regra, é importante que nós não ponhamos as coisas em alternativa: ou pais muito regrados ou pais muito impulsivos. Não, os pais, que são a esmagadora maioria e que conseguem organizar as regras para os seus filhos, volta não volta, ficam à beira de um ataque de nervos, ficam destemperados, pedem desculpa a seguir e é com asneiras que acabam por crescer, como todos nós.

Ia lhe perguntar precisamente isso. O que a criança aprende quando vê um pai ou uma mãe a pedir desculpa pelo erro de impulsividade que cometeu?

Aprende com bons exemplos. Porque eu acho de tanta graça que os pais criem a ideia de que não podem pedir desculpa, porque isso é quase uma espécie de rendição àquilo que são as expectativas de um filho. Eu não acho nada disso. Os pais, se são sábios, erram e, como todos os sábios, aprendem com os erros. E quando manifestam isso junto dos filhos, estão a lhes a dizer exatamente o mesmo, que de cada vez que errem, não vem de lá mau ao mundo. Até os pais que sabem tantas coisas erram, quanto mais os filhos que estão a aprendê-las e, portanto, estão a lhes a dar um excelente exemplo. Estão a lhes a dizer: precisamos de errar para aprender. Não vale a pena lutarmos contra os erros e, no entretanto, não nos entregarmos à vida e, portanto, viver é também criar oportunidades para errar e, como se diz muitas vezes, errar é humano, mas de facto, insistir no erro é que se torna diabólico.

A ideia de que pedir desculpa a um filho enfraquece a autoridade dos pais é um disparate?

Completo. É um disparate que eu percebo que seja sensato, mas é um disparate, Edite, porque, na verdade, de cada vez que um pai ou uma mãe pedem desculpa, a autoridade dos pais sai a ganhar. Ganha um rosto humano, ganha sentido de justiça, ganha humildade. Isso é uma coisa tão importante que não se deve nunca deitar fora.

À medida que os filhos crescem, a mesma reação impulsiva tem custos diferentes. Gritar com uma criança de cinco anos e com um adolescente de 15 é diferente.

Sim, com um adolescente de 15 dá umas cenas à italiana. E depois troca-se ali umas bolas, vamos ver quem é que grita mais alto e depois a gritaria fica com situações mais feias, como é evidente. E é claro que os adolescentes são muito sensíveis às incoerências dos pais. Claro que os adolescentes são também muito hábeis a manusear os pequenos pecados dos pais. Quando os adolescentes não têm razão em relação a qualquer advertência ou reparo que os pais fazem, nunca dizem: "Desculpa", dizem: "Ao menos escusavas de me falar nesse tom", que é uma maneira habilidosa de descentrar a mãe ou o pai e pô-los a falar de questões laterais quando o essencial não se discute. Mas eu tenho muita esperança que isso não seja, de facto, tão habitual assim. As cenas à italiana são mais ou menos comuns, mas eu acho que às vezes é mais corriqueiro o contrário, Edite. É quando um pai ralha, brafusta, etc. E o filho fica a olhar para ele, o que faz a um pai literalmente em fúria. E às vezes nem sequer se percebe que um filho não reage, não é porque não queira, é porque tem medo daquela fúria, porque um pai é, de facto, muito maior em termos de tamanho. Só que um pai grande ou uma mãe, tanto faz, com uma fúria a embrulhá-lo, fica tão maior que às vezes abrir a boca e soltar um som torna-se uma tarefa quase impossível.

Bom senso, é preciso bom senso nestas alturas, Eduardo.

Sempre.

Sempre. Um grande abraço, obrigada e até amanhã.

Até amanhã, Edite. Um abraço fortíssimo.