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Bem-vindos ao "Porque Sim Não É Resposta" com Eduardo Sá. Eu sou a Judite França, comigo está o Bruno Vieira Amaral e, claro, está conosco o Eduardo Sá. Boa tarde, Eduardo. Hoje vamos falar de um tema difícil. Por que tantas raparigas de 10, 11, 12 anos, ainda antes da puberdade, se preocupam em definir-se como homossexuais, bissexuais ou pansexuais?

Olá, Judite, olá, Bruno. Eu respirei uns minutos extras.

Pois, eu notei. Porque o tema merece um bocado de fôlego.

É tão inquietante, Judite, porque, de facto, é uma tendência que se observa cada vez mais nas crianças a partir dos 10, como se, no fundo, quinto ano de escolaridade. Vejam que é uma criança de quinto ano de escolaridade, é uma criança muito pequenina. De repente, isso tivesse uma agenda que lhes é trazida muitas vezes por algumas séries japonesas, por exemplo, e por discussões que se vão fazendo de uma forma regular no contexto das escolas, o que faz com que os pais fiquem invariavelmente à beira de um ataque de nervos, porque não sabem como se hão de colocar diante disto. E, de algum modo, isto traz um conjunto de questões como se muito antes de terem entrado na puberdade, terem descoberto a sexualidade, estivessem a discutir identidade de gênero como se fosse qualquer coisa absolutamente primária, como se isso acontecesse antes dos conflitos da adolescência, antes da construção da própria identidade, etc. E este registro de tão banal e com alguma conivência das escolas, devo dizer, a mim preocupa-me particularmente.

Quando diz conivência das escolas, conivência ou algum apoio das escolas?

Estímulo.

Estímulo, é isso, Bruno.

Vamos cá ver. Eu acho muito importante, eu não acho que não se devam discutir. Aliás, acho que não há questões que não se devam discutir na escola, depende da forma como elas se conversam. E, portanto, essa não é uma questão que me pareça que deva estar interdita em relação à escola. O que eu acho que não é razoável é que a escola e os pais fiquem numa atitude de quem vai atrás da tendência e não fossem eles, de alguma forma, a marcar o caminho. Isso a mim preocupa-me, porque, de facto, quando uma escola decide dar um conjunto de explicações obviamente supérfluas, porque são muito anteriores a tudo aquilo que é a descoberta da própria sexualidade. A mim preocupa-me particularmente, porque se em aparência a escola está a ter uma mente aberta, uma certa descontração ao abordar mesmo os temas que podem ter mais arestas na conversa com estas crianças, a mim preocupa-me, porque eu continuo a achar, com toda a abertura do mundo, todavia, que a sexualidade ainda não é um assunto para o qual as crianças estão habilitadas. E, portanto, tudo aquilo que for uma discussão aberta, com pormenores e com tudo e mais alguma coisa, em vez de lhes trazer recursos pra elas crescerem de forma saudável, traz ruído, ruído e ruído, que eu não vejo qual é a mais-valia disso. E, portanto, conivência, sim, às vezes mais do que conivência. Aqui, nomeadamente em relação às escolas, eu fico sempre muito preocupado, sem dúvida.

E este desejo de rotular, de encontrar logo uma caixa à qual se pertencer, também não é preocupante, não é prejudicial no desenvolvimento, que deve ser também de experimentação um pouco mais livre, antes de se tentar encontrar logo a caixa ou o rótulo que nos serve. Isso não é preocupante, essa tendência?

É, Bruno, mas sabe o que me preocupa? E não tomem isto, porque não é de todo. Não tem nada a ver com um discurso homofóbico. Zero, nada a ver com isso. Agora, aquilo que a mim me preocupa é que muitas vezes circule entre os adolescentes esta ideia de que o que está a dar, o que é moda, o que acaba por ser sinônimo de ser-se diferente, logo estar-se à frente no seu tempo. É amarmos alguém, independentemente dessa pessoa ser um homem ou uma mulher. Isto muitas vezes é colocado como uma espécie de slogan, que é curiosíssimo, porque se me disser assim: "Pode-se amar?" Claro que sim. Meu Deus, a amizade em muitas circunstâncias é um ato de amor muito sério e pra toda a vida. O que a mim me preocupa é que com meias-verdades, se torne oblíquo o crescimento de uma criança e de um adolescente. E, portanto, por favor, a determinada altura, começando pelo princípio, parece que sermos homens ou mulheres, parece ser uma discriminação de identidade de gênero com que a natureza nos blindou. Não é! E depois tudo o resto se constrói em cima disso, que tem a ver com os homens e as mulheres significativas da nossa vida, com tudo o resto que nos faz sentir bem numa identidade ou noutra, precisa de tempo, precisa de conflito, precisa de muita discussão e não desta leveza toda, como se no fundo, ser heterossexual ou homossexual fosse qualquer coisa como pintar o cabelo de vermelho ou então deixar que ele tenha a sua coloração natural.

Na opinião do Eduardo, quais são os efeitos mais nocivos para o desenvolvimento das crianças de se começar a discutir estas questões numa idade ainda muito precoce?

Bruno, dito desta maneira parece feio, mas por favor, eu gosto muito que os adolescentes sofram um bocadinho com a adolescência. Não me interpretem mal, ou seja, eu acho fantástico que eles, à boleia de não sei quantas transformações, passem por construir um corpo, por pensar tudo aquilo que tem a ver com a vida familiar, por desidealizarem ou passarem a admirar mais os pais, etc. E no limite, perguntarem-se: quem é que eu sou? Por onde é que eu quero ir? Com quem é que eu quero contar? Magnífico. E às vezes, quando nós lhes trazemos uma ideia muito fácil de "eu sou desta maneira", nós em vez de lhes estarmos a permitir fazer todo este percurso, tentando eventualmente não os contrariar, estamos a impedir que eles construam uma identidade em tudo o que ela tem a ver. Tudo, identidade de género incluída. E, portanto, nessas circunstâncias, o custo é nós estarmos a pôr etiquetas muito antes de eles porem as perguntas. É quase como se lhes déssemos respostas feitas antes de eles aprenderem a perguntar. Isto é catastrófico, claro.

E por que este fenômeno parece ter uma maior adesão nas raparigas?

Por muita influência dessas séries do momento, sobretudo de origem japonesa. Os modelos referenciados têm um bocadinho a ver com isto. E portanto, nessas circunstâncias, elas replicam em muitos momentos estes modelos, e daí nós termos esta discussão de uma forma muito mais banalizada do que devia ser. Que fique claro que nós não estamos a dizer que estas discussões devam ser interditas. Não de todo. O que as escolas não podem é perceber que isto tem uma tendência massiva nas escolas da cintura de Lisboa, de toda a Lisboa. Isto é uma constante e as escolas em relação a isto deviam ter, de facto, uma discussão séria no sentido de dizer assim: "Sim, há coisas que são muito importantes, a sexualidade é muito importante, sobretudo, depois de nós descobrirmos o que é, para que serve e claro, o que queremos fazer com ela."

Só mesmo para terminar, já temos pouco tempo, mas se um pai lhe trouxer este problema, qual é a primeira coisa que lhe diz?

Com toda a clareza. Por mais conservador que isto lhe possa parecer, e a ideia não é, acredite. Eu acho que a primeira coisa que um pai tem que fazer em relação à sexualidade de um filho é interditá-la. Não me interprete mal. Ou seja, muitas vezes quando nós criamos uma barreira, estamos a tomar o pulso no filho para perceber se aquilo é, de facto, uma questão que é importante ou não. E a importação que eu tenho é que em relação à sexualidade, nós nos esquecemos de uma regra que devia servir para tudo. Quando uma criança põe uma pergunta, tem sempre uma resposta. E quando nós antecipamos as respostas às perguntas que ela ainda não colocou, em vez de nós a estarmos a ajudar a crescer, estamos a criar obstáculos para esse crescimento, seja a propósito da sexualidade ou do que quer que seja. Não é um caminho sensato para seguir.

Obrigada, Eduardo. O Porque Sim Não É Resposta volta amanhã. Estamos todos os dias depois do jornal das 17h e estamos também, claro, em podcast nas plataformas habituais, em observador.pt e pode sempre escrever-nos para eduardosa@observador.pt. Abraço, Eduardo, e até amanhã.

Até amanhã, Eduardo. Um abraço e até amanhã.

Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.