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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França e hoje vamos falar da subida da idade para acesso às redes sociais, dos 13 para os 16 anos. O Parlamento aprovou o diploma na generalidade, irá ainda descer à especialidade. Olá, Eduardo. Isto é uma questão de proteção das crianças e adolescentes, dos perigos das redes sociais. É capaz de prevenir o problema, parece-lhe?
Olá, Judite. Partindo que eu acho que a intenção é boa, mas porventura vai precisar de muito trabalho. Muito trabalho, por quê? Porque todos os dias anda mais uma onda de desafios do TikTok que alguns adolescentes levam a efeito com um medicamento que tem dado muitas dores de cabeça nalguns hospitais portugueses. E, portanto, de facto, nós temos que ter a noção de que aquilo que se passa nas redes sociais é uma coisa grave para os adolescentes. Volto a dizer, eu sei que pode parecer um argumento demagógico, Judite, mas era a mesma coisa que nós permitirmos a um miúdo de 15 anos poder entrar num jogo de máquinas de cassino sem qualquer tipo de obstáculo ou frequentar filmes pornográficos com 12. Se os nossos filhos fizessem isso, nós ficaríamos alarmadíssimos, mas é isso que se passa, de facto, atualmente nas redes sociais. E portanto, tem que haver alguma regulação. Eu acho que o Estado, aqui entre nós, que ninguém nos ouve, toma uma decisão como esta de uma maneira que não pode deixar no ar uma certa habilidadezinha, ou seja, o Estado não regula, o Estado não toma em consideração uma supervisão que devia ter e, nessas circunstâncias, passa a responsabilidade para os pais, que todavia já existia. Eu acho que os pais também têm que ter a noção que se houver uma relação de causa e efeito entre uma exposição repetida a uma determinada rede social e um conjunto de comportamentos que depois correm mal, falo de aspectos como anorexia, automutilações ou outras coisas do gênero, evidentemente, que os pais, muitas vezes estando completamente à leste de tudo isto, incorrem no risco de serem trazidos a depor por negligência. Portanto, eu acho que é muito importante que os pais tenham bem a noção disto. Agora, eu acho que é importante lançarmos esta discussão, mas também acho muito importante que o Estado, em função de um bem comum, não se possa inibir de dizer assim: há conteúdos que não podem estar ao acesso dos adolescentes e o Estado até porque o crescimento das redes sociais tem sido fulgurante, não pode deixar de chamar a si a sua responsabilidade de regulação, porque se for assim, chegamos aqui a um entendimento que é razoável, sendo certo que neste momento nós temos adolescentes que não são adolescentes. Há miúdos que têm oito e nove anos que já têm redes sociais, que eu acho uma absoluta irresponsabilidade. E como se imagina, eu agora também gostava de imaginar, que aqui é um adolescente de 12 ou 13 anos e o pai chegar lá casa e dizer assim: "Olha, acabou-se, só a partir dos 16." Portanto, vai dar alguma turbulência. Acho que a discussão vai precisar de ser feita e eu acho sinceramente que da discussão vamos chegar a medidas de proteção que têm que ser efetivas, porque a ausência destas medidas deixa ali um buraco imenso que faz com que os miúdos sejam radicalizados, que sejam manipulados de todas as formas e feitios. E isto é um mau trato grave, protagonizado por terceiros sobre os nossos filhos. E o Estado não pode perceber que há muitos adolescentes que estão a ser maltratados e ficar distraídamente a conviver com isso.
Uma das particularidades deste diploma, que ainda não está fechado, é exigir o consentimento autenticado via chave móvel digital. Isto para garantir a idade deste adolescente. Isto é proteção do Estado ou uma intromissão na vida privada das famílias?
Olá, Judite. Eu fico sempre um bocadinho incomodado com esse tipo de argumentos, porque as pessoas que os têm, evidentemente que não subscrevem quando o Estado define, por exemplo-
A compra de tabaco
...uma educação obrigatória, não é?
Sim.
E portanto, a escolaridade obrigatória é o Estado a dizer assim: "Para o bem de todos, as crianças têm que ir à escola, ponto. E se não forem, os pais incorrem no incumprimento grave." Portanto, eu acho que isto é um bocadinho demagógico, como se compreende. Eu não acho que ninguém quer roubar a tutela dos pais em relação ao que quer que se saiba, como é evidente. Mas eu até acho, sinceramente, que os pais têm que ter a responsabilidade de perceber por onde os filhos navegam e com quem Porque de outra forma, se os pais não se sentirem um bocadinho responsabilizados, o que acontece? Chegam à conclusão que os miúdos estão no quarto sossegados e passam horas sossegados no quarto e depois vai-se a ver e aquilo que acontece são relações muito graves que eles acabam por ter. Portanto, eu não acho que tenha nada a ver com a limitação das famílias, acho que é um exagero esse tipo de argumento. Agora, também estamos num patamar em que entre uma iniciativa destas e depois a passagem em letra de lei, de maneira que ela seja exequível, com o contributo de todos, permitirá chegarmos ali a plataformas que efetivamente protejam os nossos filhos. E se protegerem, eu fico muito agradecido.
Até porque colocar o ônus principal nos pais, quando sabemos que muitos adultos também têm uma relação desregulada com o telemóvel, pode não ser o ideal.
Ó Judite, é batote. Claro que há sempre um botãozinho pra limitar a uma hora, duas horas, etc. O botãozinho existe. Depois aparece um anúncio a dizer: "Olhe, chegou ao fim." E depois uma pessoa clica e a limitação deixa de existir. Não é assim. Acho que os pais também têm que ter a noção que o uso absolutamente absurdo de redes sociais pelos pais não é uma questão que deva ser menosprezada. Vamos lá chamar as coisas pelos nomes.
Educa-se por exemplo, não? Educa-se pelo exemplo.
Claro. Judite, e se os miúdos ao ficarem horas e horas a circular em redes sociais, ficam mais desatentos, de cabeça à saia, com dor de cabeça, mais impulsivos, mais incapazes de comunicar, etc., é só porque eles são adolescentes e isto tudo passa ao lado das consequências que este tipo de coisas acaba por ter nos pais? Não, e portanto, eu acho que os pais, se perceberem que vão ter que dar o exemplo, então ganhamos a dobrar. E se formos por aí, tanto melhor.
No fundo, nenhuma lei substitui o exemplo, não é?
Judite, não, como é evidente. Agora, uma lei é o quê? É uma dimensão de bom senso, tomando em consideração aquilo que, em consciência, nós entendemos que é um bem comum. E portanto, eu fico muito contente que o Estado português, estando até à frente de muitos Estados da Europa Ocidental, esteja a dizer assim: "Nós não nos queremos demitir disto." Até aqui, magnífico. Depois, o formato. Que o formato possa ter ali uma habilidade ou outra, faz parte. Não é por aí que nós devemos fazer um drama, porque eu também tenho a noção que a partir do momento em que se discuta e em que se chegue ali a um entendimento onde eu acho que todos os grupos parlamentares deviam envolver-se, para que tudo isto proteja todos os nossos filhos, nós chegaremos ali a um patamar que é razoável, mas isto tem que ser um assunto. Volto a dizer, quando passou a série Adolescência, os pais ficaram num alarme pegado, porque se percebeu que eles andavam distraídíssimos. Boa série já passou e os pais voltaram à sua distração. Isso não pode ser. As redes sociais, é bom que fique claro, em muitos aspectos, para muitos adolescentes, são um atentado à sua saúde mental. E nós estarmos a trabalhar imenso para construir filhos saudáveis e ao mesmo tempo estarmos a ser um bocadinho negligentes, deixando que outros os estraguem, é que não pode ser.
Tal e qual, Eduardo. Aqui vou dar a minha opinião e concordo plenamente consigo. Vamos ficar por aqui hoje. Amanhã voltamos com mais um tema e até lá, já sabem, continuem a escrever-nos para eduardo.sará@observador.pt e nós vamos respondendo à medida que nos for possível. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Boa tarde pra si, Judite. Muito obrigado e até amanhã.