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Bem-vindos ao "Porque Sim, Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de escolas que estão a expulsar a bola do recreio, a de futebol, a de basquete, a de rugby. Isto começou em Espanha com o argumento, que não é o do vidro partido, é de que a bola seria tóxica porque apenas é dos rapazes e empurra as raparigas para as margens. Olá, Eduardo. Vamos começar pelo essencial. O que uma criança aprende com uma bola no recreio que não aprende de mais maneira nenhuma?

Olá, Judite. Aprende a brincar com o corpo, aprende a competir, aprende a desafiar. Uma questão que eu acho lindíssima é que muitas vezes os alunos que têm boas notas a matemática ou português têm que comer muita relva por jogar à baliza e, portanto, ajuda a que se seja humilde. Não é verdade essa questão das crianças e dos rapazes, porque a verdade é que se nós formos ver neste momento, termos meninas a jogar à bola é muito mais frequente do que termos rapazes a brincar com bonecas. Portanto, vamos lá deixar o discurso demagógico e perceber que as crianças no recreio podem brincar, podem correr, podem transpirar, isso tudo. E esta ideia de que no fundo fazem uma grande algazarra e que depois vão um bocadinho transpirados para dentro da aula e que no fundo podem estar menos atentos, é exatamente ao contrário. E portanto, eu acho que as escolas portuguesas, privadas e públicas, deviam ter vergonha e perceber que a bola é uma forma de as crianças brincarem, que elas já estão demasiado tempo quietas e caladas, e se as queremos atentas, por favor, acabemos a dar-lhes o corpo para elas brincarem com o corpo. Quanto melhor é a motricidade, melhor a atenção, melhor a verbalização. E, portanto, o que nós estamos a fazer com argumentos que não têm nem pés nem cabeças, Judite.

O recreio sem os adultos a tentar organizar o tal caos onde se formam as equipas, se discute quem joga e quem fica de fora.

Sim.

Isso é um caos que tem valor próprio.

Aprende-se muito mais no recreio muitas vezes do que dentro das salas de aula, não é, Judite? Portanto, eu acho que nas escolas não vale a pena andarmos com circuitos de televisão. É importante que haja alguém que esteja ali a olhá-los de longe, a tirar as medidas, a perceber o que se passa de bom ou de mau. Mas o que eu acho que é importante é que haja um letreiro à entrada dos recreios a dizer: "Proibida a entrada a pessoas com mais de 18 anos".

Há algum problema real por baixo deste exagero, ou seja, a ideia de que no recreio mandam sempre os mesmos, quem não joga fica de facto encostado à margem. Isso magoa uma criança?

Claro que magoa, mas por isso é que eu acho que é importante que haja um adulto a tirar as medidas de longe e sempre que as coisas passam das marcas, que esteja lá para ajudar a corrigir aquilo que precisa de ser corrigido. Agora, nós estamos a criar uma geração de crianças aparentemente liofilizadas, tão sem vida, tão sem mundo, que chegamos a este ponto de imaginar que uma bola lhes faz mal, quando é uma coisa muito importante. Eles têm escola e às vezes este tipo de choques frontais, este tipo de tensões e tudo mais, ajuda-os a ter mundo, e eles precisam de ter mundo, Judite. E portanto, esta ideia de que eles só crescem quando nós os trazemos pela mão, é mentira. E nós temos que acabar com isso de uma vez, porque eles agradecem muito que nós olhemos por cada um deles, mas não agradecem nada quando funcionamos de pais helicóptero, professores helicóptero, sempre em cima deles, como se eles não pudessem ser livres. O tempo livre, o brincar é tempo livre, e o tempo livre ensina-os essa coisa magnífica de aprenderem fora da sala de aula e de cada vez que aprendem, ficarem mais competentes, mais agudos, mais capazes de pôr problemas e, sobretudo, de os resolver.

Esta ideia de criar espaços de jogos mistos, desenhados de forma a que nenhuma criança se sinta de fora, isto vai retirar autonomia às crianças.

Judite, mas eu não tenho nada contra o lado misto destas experiências. Aliás, as escolas ganhavam se fossem aos torneios de futebol. E vão reparar que muitas turmas ou muitas equipas, preferem de menos de 10, menos de 12, etc, são equipas onde está uma, duas ou três raparigas. E devo-lhe dizer que eu conheço raparigas que jogam futebol com uma capacidade absolutamente fora do lugar, melhor que a maioria dos rapazes. Mas podem jogar ao mata. As bolas fora dos recreios é que não, Judite.

Hum. Esta solução proposta de tirar a bola, o que isto diz sobre o caminho que estamos a seguir quando tratamos os nossos jovens?

Diz que estamos numa patetice pegada, Judite. Que nós estamos a pôr à frente de tudo a formação escolar e estamos a dizer que tudo o resto são amendoins. Ora, tudo o resto, em muitos momentos, é muito mais importante que muitos conhecimentos. Agora, as duas coisas juntas dão-nos uma capacidade absolutamente fora de vulgar. E nós estamos a fazer uma coisa tão absurda, Judite, porque, no fundo, estamos a dar a ideia que o importante é a escola. Brincar com os outros, brincar e inventar regras e, de alguma forma, fazê-las cumprir por todos. Isso é importante para quê? É importante para eles crescerem. Brincar é uma vitamina do crescimento. E eu acho que em determinada altura, nós estamos a dar à escola a importância que ela não merece. É muito importante, sim, mas não é a única coisa importante na vida deles. E verdade, muitas vezes o recreio é mais importante que muitas salas de aula.

Esta ideia de que vamos remover o que cria desigualdade, em vez de ensinar a partilhar o que está.

É demagogia pura. Eu acho que o mundo vive das redes sociais para dentro de cada uma das pessoas, isso é só demagógico. A diversidade é aquilo que nos faz crescer, é aquilo que faz com que nós possamos perceber que pessoas muito diferentes de nós são muito mais competentes em muitos outros aspectos. A diversidade é aquilo que nos desafia a crescer para sermos pelo menos iguais ou às vezes melhores que os outros. E, portanto, isto não é, de facto, liberdade, isto é unicidade. É nós estarmos a fazer uma espécie de ideia de que as crianças devem ser crianças de aviário, todas iguais para serem iguais. E quando nós estamos a ir por aí, estamos a estragar todo o trabalho magnífico que os pais e as escolas fazem com uma ideia de igualdade que é absolutamente mentirosa.

Fica aqui o apelo para não tirar as bolas do recreio.

Sim, salvem as bolas.

Salvem as bolas do recreio. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Outro para si, Judite. Até amanhã.