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"Porque Sim Não É Resposta" com o Eduardo Sá. Olá, Eduardo.
Olá, Ricardo.
Bem-vindo.
Obrigado.
Estamos quase a ir de férias.
É amanhã, não é?
Amanhã é o último dia. Amanhã temos direito a festa. E nesta altura, há muitos ouvintes que estão, por certo, de férias. Por isso, Eduardo, em tempo de férias, quando estamos a ir quase de férias, por que não falar de trabalho?
Eu acho que as pessoas estão tão magníficas. É tudo que nós
É tudo o que lhes apetece, não é?
É, mas até é mesmo, Ricardo, porque no fundo, estamos tão mais disponíveis e estamos tão abertos, pensando no dia depois de amanhã, que aceitamos tudo, até falar de trabalho.
Eduardo, e podemos ficar viciados em trabalho, viciados em trabalhar?
Ricardo, eu acho que há muitas pessoas que vivem viciadas em trabalhar. E acho que era importante que, para além de constatarmos isso, nos perguntássemos: por quê? Claro que todos nós temos exigências muito grandes, todos nós temos compromissos que concorrem uns com os outros, todos nós tentamos ser brilhosos o mais que podemos. E obviamente, temos também pessoas que nos solicitam mais e quando nós somos capazes de dar, solicitam sempre mais um bocadinho. Mas a verdade é que se formos honestos, mesmo quando ninguém nos ouve, eu acho que às vezes nós damos mais importância ao trabalho do que ele merece. O trabalho é muito importante, mas não pode ser o mais importante da nossa vida. E eu receio que em muitos momentos, para muitas pessoas iguais a nós, como é óbvio, o trabalho é, de tudo o que elas fazem, o mais importante. Provavelmente, é mais importante que a família, é mais importante que a relação que deviam alimentar e que por causa do trabalho, dizem eles, não alimentam, mais importante que os filhos. Portanto, dão ao trabalho um protagonismo tão exagerado. Desculpam-se com o trabalho.
Sim, Eduardo, mas aí o trabalho é uma parte importante daquela pessoa, é um pilar fundamental daquela pessoa ou é um refúgio?
Ricardo, eu acho que nessas circunstâncias, eu acho que é sobretudo as duas coisas. Às vezes eu fico com a sensação de que é no trabalho que muitas pessoas encontram a ressonância, o reconhecimento, o respeito, a consideração que procuram no dia a dia das suas vidas. Às vezes não se sentem reconhecidas, às vezes não se sentem úteis e, portanto, às vezes refugiam-se em alguma coisa que sabem que de alguma forma desempenham bem. Mas nessas circunstâncias, é como diz, acho que sim, que é sobretudo um refúgio.
Eduardo, e quando temos profissões que são muito exigentes, em que não há horas, não há dias santos. Estou me lembrando de uma mais ou menos parecida com esta.
Impossível. Não há profissões assim.
Não, que não têm feriados, não têm nada.
Exato, claro.
Estas profissões são muito absorventes e exigem muitas horas, exigem muita dedicação e depois surge então aquele dia de férias. Mas será que estas pessoas, depois desta exigência toda, depois destas horas de trabalho, de estarem ligados 24 horas por dia a trabalhar, estas pessoas depois conseguem desligar no primeiro dia de férias?
Ricardo, vamos lá ver. Há pessoas que se refugiam, sem dúvida, mas há pessoas que são apaixonadas por aquilo que fazem. Não são a maioria, infelizmente. E é pena que não sejam. E, portanto, para essas pessoas que são apaixonadas por aquilo que fazem, parar é quase como quando se anda de bicicleta, desequilibram-se e portanto, têm que ir fazendo uma espécie de desintoxicação aos bocadinhos. Param hoje um bocadinho, amanhã outro, ou fazem férias ativas, que é uma forma de tecnicamente estarem de férias.
Ou seja, arranjam outra ocupação.
É, levam o trabalho para férias, mas como não têm a coragem de o assumir, é só um entretenimento, não é mais do que isso. E, portanto, sim, eu acho que nós devíamos dar muita importância às férias. E às férias grandes, em particular, porque eu acho que às vezes nós ficamos tão invejosos com as férias grandes das crianças. Passamos a vida a dizer que são exageradas, são demais, esquecem-se das coisas que aprenderam e outras coisas do gênero, como se no fundo, elas durante as férias grandes não fizessem rigorosamente nada, não aprendessem e, sobretudo, não vivessem. Que eu acho que era importante que todos nós assumíssemos que amar a vida é aprender a fazer dela férias grandes todos os dias.
Sim, mas às vezes é difícil, Eduardo.
É tão difícil.
É muito difícil. E qual é o perigo de não se conseguir parar, de não se conseguir pôr na prática essas férias grandes, gozá-las na prática, qual é o perigo?
Deitar tudo a perder, porque de repente uma pessoa hipoteca sem dar conta o crescimento dos filhos. Quando descobre, eles já são crescidos e nós não apanhámos o essencial das suas gracinhas. Embrulhamos de tal maneira a nossa vida amorosa que, de repente, um casamento quase se burocratiza, em vez de ser um exercício de paixão. E portanto, a vida acaba por ser a melhor das entidades reguladoras. Põe-nos imediatamente num lugar com uma agravante nessas circunstâncias, é que a determinada altura não conseguimos andar para trás, nem podemos recuperar as férias todas a que tínhamos direito e que entretanto perdemos.
E uma pessoa que está nestas circunstâncias, ou seja, que vive neste vício do trabalho, vamos chamar-lhe assim, que está sempre ligado e sempre a trabalhar, também não espera menos dos colegas, ou espera? Ou é capaz de compreender que os colegas larguem tudo durante três dias e vão descer um rio em canoa?
Ó Ricardo, e que não atendam o telefone? Ou que não respondam de imediato às mensagens?
E aos e-mails.
Sim, como se tivessem que estar permanentemente de plantão, como se fossem irresponsáveis por terem essa ousadia de viver a vida a que têm direito. E, portanto, sim, são muito implacáveis, porque quem faz sem se dar conta, eu acho que vai ficando azeda em suaves prestações e depois o azedume contamina tudo. E elas acham que, no fundo, para o mundo ser correto, todos deviam ser iguais a eles, como se eles, acima de tudo, estivessem certos daquilo que fazem e a imensa maioria dos outros estivesse votada ao engano. Sim, tantas vezes que acontece assim.
Mas essas pessoas são realmente produtivas?
Ricardo, eu acho que não. Isto é um bocado como quando as crianças estão na escola e os pais estão sempre atazanadas para eles fazerem um esforço para estar atentos. Eu acho que quando nós fazemos um esforço para sermos produtivos, habitualmente nunca somos produtivos por várias razões. Primeiro, porque aprender é apanhar as coisas no ar. É este gozo fantástico das coisas quase nos parecerem caírem no colo, porque nós nos demos o direito de as deixar caírem no colo, que é uma coisa que quando andamos sempre a 200, nunca permitimos que aconteça. E, portanto, nessas circunstâncias, eu tenho sempre a ideia que essas pessoas fazem lembrar aqueles motores que estão sempre numa rotação muito alta, mas que depois de feitas as contas andam muito menos. Andam muito pouco. Diga.
Conclua.
Andam muito menos do que eles imaginam. E nós dizermos-lhes isso e mais: e eles serem capazes de escutar isso, Ricardo.
Eu estou a imaginar os nossos ouvintes, hoje não, porque o tempo até não está grande coisa, mas estou a imaginar os nossos ouvintes agora deitados numa espreguiçadeira, a beber um coquetel e a concordar com aquilo que o Eduardo está a dizer. Eduardo, o trabalho, já falámos nisso também no arranque desta conversa, o trabalho é também uma forma de nos realizarmos, é uma peça fundamental da nossa existência. E aqueles que amam o que fazem e têm a sorte de poder trabalhar naquilo que gostam, não conseguem também abdicar facilmente do trabalho. E mesmo quando há um conflito familiar, quando as pessoas dizem: "Trabalhas demais, trabalhas demasiadas horas", as pessoas também podem ter alguma dificuldade em abdicar daquilo que é muito importante para elas, ou não? E aí é mais legítimo?
O trabalho põe-nos problemas e nós precisamos de problemas. Nós precisamos de problemas para aprender a pensar, nós precisamos de problemas para crescer. E, portanto, nessas circunstâncias, naturalmente que nós precisamos de ser capazes de fazer uma coisa que todos temos imensa dificuldade de fazer, que é conciliar tudo isso, tudo aquilo que no fundo a vida nos dá de bom, com aquilo que também é bom, como por exemplo, trabalhar. E portanto, nessas circunstâncias, claro que nós precisamos de ir conciliando tudo isso, até porque é um bocadinho como as partidas simultâneas de xadrez. Nós precisamos de jogar várias partidas simultâneas para nos sentirmos a ter várias vidas. Nós precisamos de várias vidas para nos sentirmos vivos. E portanto, a dificuldade, a certa altura, é termos esta capacidade de nos apaixonarmos pelas várias coisas que fazemos, pelas várias pessoas que são importantes para nós e ao mesmo tempo, termos o equilíbrio de, de repente, percebermos que temos que conciliar aquilo que às vezes parece quase a quadratura de um círculo.
Eduardo, diga-me aqui uma coisa. Isto é uma sensação, não sei se já foi estudada, se calhar alguma universidade americana já estudou isto e há um estudo sobre isto, de certeza.
Seguramente.
Aquela sensação de à medida que vamos ficando mais velhos, no início, quando estamos a trabalhar e vamos de férias, temos saudades do trabalho, temos saudades dos colegas, vamos 15 dias de férias, mas ficamos ali sempre com saudades do trabalho. Isto vai desaparecendo ao longo da idade. É normal, não é? Não é nada de assustador.
Mas eu acho que quando somos pequenos também não é tão assim. Sabe quando é que as crianças têm saudades dos colegas? Quando já estão cansadas de descanso.
Das férias.
Claro. E já passou, entretanto, muito tempo. Não, nós também temos a ideia. Eu acho que quando chegamos mais velhos percebemos que viver a vida intensamente não é passar a vida a correr. Nessas circunstâncias, nós percebemos que as pessoas estão lá e que estarão seguramente lá à nossa espera quando chegarmos e que continuarão a ter conosco a relação que têm. Eu acho que às vezes, quando somos muito jovens e estamos a viver muitas coisas ao mesmo tempo e muito entusiasmados com elas todas, vivemos numa certa ganância, e queremos tudo ao mesmo tempo, tudo muito depressa. E quando é assim, obviamente, não vivemos quase nada como deve ser.
E devemos ser capazes de desligar o telemóvel no primeiro dia de férias ou não?
Não, por favor, eu estou a contar amanhã às 17h30 desligar o meu.
Olhe que eu vou cobrar essa.
Não, promessa, por favor. Eu nunca desligo, está certo?
Sim, nós temos um pombo que nos leva as mensagens e nem precisamos de telemóveis. Mas o Eduardo recomenda a quem nos está a ouvir que desligar o mais possível desta realidade e viver as férias grandes a sério.
E da televisão. E de repente percebermos que não se trata de nos transformarmos em ermitas isolados num sítio qualquer, mas percebermos que esses instrumentos importantes para o nosso crescimento, para comunicarmos, para tudo e mais alguma coisa, às vezes não são tão indispensáveis como nós imaginávamos que podiam ser. E o que é mais engraçado é que quando eles não estão a atravessar-se permanentemente à frente de nós, as pessoas que estão conosco nas férias nos têm no todo. Isso é uma coisa tão rara e é tão preciosa que se nós a levássemos a sério, desligaríamos seguramente os telemóveis, os jogos de computador para as crianças, as televisões. E depois tínhamos aquela obrigação que nós exigimos aos nossos filhos tantas vezes de: "Pronto, agora amanhemo-nos e sejamos capazes de descobrir aquilo que até agora nunca descobrimos".
E obriga as pessoas a conversar e às vezes obriga à noite, nestas noites agora de verão, olhar para o céu estrelado e ver que há estrelas no céu e que é um prazer imenso poder passar uma noite de conversa a olhar o céu.
Mas é fabuloso. E de repente, coincidência das coincidências, Ricardo Conceição, quando nós olhamos por algum tempo, às vezes não é uma eternidade, é só algum tempo, descobrimos que o céu estrelado é mesmo um património da humanidade, é uma coisa tão bonita. E depois há sempre o Diabo de uma estrela cadente que nos cria um problema, porque passa e nós temos esta ideia de que a seguir temos que inventar um desejo para pedir, que é das coisas mais divertidas que podem haver.
Eduardo, voltamos amanhã, último dia antes de férias. Amanhã ainda cá estaremos com igual empenho. A Ana Filipa Rosa, que é a nossa anfitriã, essa sim, está de férias e regressará depois no arranque de setembro. Ora, deixemos já avisar que o "Porque Sim" vai de férias durante os próximos 15 dias, mas vamos repetir alguns daqueles que foram os melhores programas deste ano. Por isso, quase que nem vão sentir a nossa falta.
Seguramente.
Eduardo, um abraço. Até amanhã.
Outro também. Até amanhã.
Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.