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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar da paternidade depois dos 30 anos. Há quem diga que só se está mesmo pronto pra ter filhos quando se passa a fronteira dos 30, mas será que maturidade significa ter mais paciência? Olá, Eduardo. Hoje vamos falar desta questão da paternidade depois dos 30. Há alguma diferença real entre a parentalidade dos 20 ou dos 35 anos, ou estamos a confundir maturidade emocional com capacidades parentais?
Olá, Judite. Acho que estamos a confundir. Nada contra os pais terem mais de 30 ou às vezes mais de 40, como vai acontecendo, mas não é uma ligação tão direta assim aquilo que se observa entre maior idade e mais capacidade parental. Às vezes, pelo contrário. Às vezes, quando os pais têm uma grande experiência de vida e têm mais idade e foram gerindo, porque às vezes é isso que acontece. Foram gerindo toda a sua vida de maneira a encontrarem uma janela de oportunidade pra que finalmente sejam pais. Eu acho que às vezes têm um pouquinho de medo, Judite, porque é tudo tão planeado que as coisas só fogem do planeamento quando o bebê chora a primeira vez de noite e aí tudo se estraga um bocadinho. Por outro lado, não é tão fora de lugar que uma mãe ou um pai mais novos possam ser intuitivamente melhores pais. Feitas as contas, se calhar, acaba por ter menos a ver com a idade, mais a ver com o perfil e já agora, mais a ver com o formato com que se vive um bebê, todas as expectativas que se colocam sobre ele e um quanto basta de alguma inexperiência que em alguns momentos ajuda a que seja mais intuitivo, mais sexto sentido e menos mãe ou pai 5G.
Os pais mais velhos tendem a ser mais ansiosos?
Olá Judite, às vezes, sim. Sabe por quê? Porque eles têm a ideia de que por serem mais velhos, têm outra tarimba, outros quilômetros de rodagem, e têm, sem dúvida nenhuma, em relação a muitas coisas. Nem sempre em relação ao modo como sossega uma criança quando ela está a choramingar ou quando está num acesso de birra. E portanto, nalgumas circunstâncias, eu tenho medo que em vez de serem mais serenos, mais condescendentes, mais capazes de aceitar as oscilações de humor de uma criança, por exemplo, eu tenho medo que vivam na ânsia de serem tão exemplares na forma como são pais, tão "by the book", digamos assim, que depois quando se vai ver, se assustem com coisas que talvez não mereçam esse tipo de reação e, portanto, sim, nalgumas circunstâncias, lá estás, Judite, porque esperaram muito por aquele bebê, se calhar vivem-no com uma intensidade magnífica, às vezes, porque foram conseguindo tantos ganhos aos mais diversos níveis da sua vida, que quando surge um bebê, eles entendem que se calhar já deviam ter um conjunto de competências ou a sabedoria adquirida, que só a experiência e as tais asneiras de 88 horas que todos fazemos acabam por ensinar de uma forma robusta quando se trata de termos um filho.
Mas a experiência de vida de que falava não devia descomplicar um bocadinho?
Olha, Judite, às vezes, descomplica. Por quê? Porque já se foi muitas vezes a jogo, já se ganhou, já se perdeu. Isso traz-nos outra versatilidade. É verdade que sim. Mas não se esqueça que nós, quando somos pais, e então pais pela primeira vez, temos um caderno de encargos colocado por nós, que é absolutamente imbatível. Tudo o que não for ali nas desenhanças da perfeição, corre o risco de não ser como deve ser. E portanto, nessas circunstâncias, quando se foi então acumulando experiência e sucessos e de repente se fica no: "Ai, Jesus, e agora como é que eu resgato desta birra?" Às vezes, não ajuda. Portanto, eu acho que se pode criar a ideia de quanto mais velhos, melhores pais. Não, quanto mais disponíveis para errar, com bom senso, todavia, mas pra errar na medida em que todos precisamos de errar para aprendermos, aí, sim, quanto mais abertos ao erro, mais humildes, naturalmente, também, tendencialmente melhores pais.
E as crianças percebem a diferença? Há algum tipo de impacto no comportamento ou na segurança emocional dos filhos?
Não necessariamente, Judite. O que faz a diferença é eles sentirem que os pais podem ter meia dúzia de cabelos brancos comparados com os pais dos amigos, mas que, em muitas circunstâncias, que não, às vezes, numa ou noutra dificuldade que tenham, são hábeis e sábios a resolver as coisas. É isso que dá segurança. E depois, repare, dá segurança saber que se tem uma mãe ou um pai que estão ali para tudo o que é indispensável, mas que depois se permitem desmontar em pequenas peças, abraçar, rebolar no chão, se for o caso. E, portanto, é essa dose de segurança que faz com que as crianças se sintam mais protegidas. Elas não olham a idade, olham a sabedoria e olham a capacidade de brincar e de errar que os pais lhes podem trazer.
Acho que ficou respondida a pergunta sobre se somos melhores pais depois dos 30 ou não. Eduardo, um grande abraço. Obrigada.
Obrigado a ti, Judite.
E até amanhã.
Obrigado eu e até amanhã.