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Seja muito bem-vindo ao "Português Suave", episódio extra, à quarta-feira, comigo, João Costa e Silva, com o José Rafael Lopes e com o Marco Neves, ainda por cima com dúvidas, não temos capacidade para responder.

Então, nada. Todos nós.

Temos dúvida. Eu posso responder, mas vou dar a minha opinião, não vou dar a tua opinião.

A tua é exatamente melhor, Marco. Seja bem-vindo. Estou na rádio Observador. Temos muitas dúvidas e vamos começar por onde, João?

Vamos começar por "bué". Isto é "buéda" fixe fazer isto.

Então, é "buéda" fixe?

É.

Nós tivemos uma dúvida de Lourenço Bordalo, se não estou em erro.

Exatamente.

Que nos perguntou qual era a minha opinião sobre a possibilidade de haver uma diminuição do vocabulário com a utilização de uma só palavra para substituir uma série delas, como o "bué" que poderá substituir muito, frequentemente, bastante. Eu aqui devo dizer que esta ideia do uso de uma palavra pode empobrecer a língua, é algo que é muito comum, aparece há muito tempo, mas depois os dados não confirmam que isto aconteça. O que eu quero dizer com isto? Nós ouvimos muito "bué" entre os jovens e não tão jovens. É uma palavra que já dá algumas décadas. A minha geração usa bastante, usa "bué". Mas isso não quer dizer que as outras palavras estejam a desaparecer. É claro que não me parece que um miúdo de 12, 13 anos use o advérbio "frequentemente". Esse será mais raro nos seus discursos, mas depois vai ganhar esse.

Sim, pode ganhar esse hábito.

Mais à frente. "Muito" certamente que usa, com muita frequência. Tal como também pode usar o "bué". As pessoas rapidamente percebem que há palavras que têm o seu sítio e por isso o facto de usarem "bué" num lado, não quer dizer que vão usar "bué" sempre.

Eu nunca vou usar "bué" contigo, Marco Neves.

Acabaste de usar.

Não, mas usar o "bué" no sentido de estar numa conversa contigo.

Isso é engraçado, porque mesmo pessoas que usam o "bué" de várias gerações, entre gerações não usam. Em geral, atenção, pode haver exceções.

Tem que ter muito a boa conta e penso do gênero: "Com o Marco não posso usar 'bué'."

Mas é um pouco como as formas de tratamento, ou seja, a diferença de idade pode levar a que as pessoas não usem palavras com certas pessoas que até utilizariam com pessoas da sua geração, e a outra pessoa também usa. É complexo isto. Mas só para dizer que não parece que haja uma diminuição, até porque tudo indica, pelos estudos que vão sendo feitos, que a frequência das palavras numa língua, as palavras mudam, as mais frequentes vão mudando. Ou melhor, as mais frequentes até não mudam assim tanto. As palavras mais frequentes da língua portuguesa são palavras como: o, a, de, do, das. Essas palavras são muito sólidas. O "que" também é muito frequente, são as palavras gramaticais, são as peças com que se ligam as outras. Quando olhamos para os nomes, advérbios, adjetivos, estas palavras podem ir mudando ao longo do tempo, mas a frequência relativa não muda muito. Nós até já falámos disto. Isto pode parecer contraintuitivo, as pessoas podem não acreditar nisto, mas uma língua natural, em geral, não empobrece, simplesmente muda. E as pessoas dizem: "Então, mas se uma pessoa ler muito, não vai ficar com mais vocabulário?" Vai ficar com mais vocabulário no geral, mas não quer dizer que no dia a dia use todo aquele vocabulário com mais frequência. Vai conseguir perceber mais livros, mas a utilização geral do dia a dia, há este fenômeno que é muito curioso e se calhar pouco conhecido, as línguas todas, as naturais, não as artificiais, como o esperanto, aí comportam-se de maneira um pouco diferente, mas as naturais tendem todas a seguir um determinado padrão de frequência de palavras. Portanto, o "bué", o que vai acontecer? Os miúdos usam e ao longo do tempo, se tudo correr bem, pode não correr bem no caso de alguma pessoa, vão ganhando outras palavras e vão deixando o "bué" para os seus amigos. Pergunta-me também, Lourenço, em relação a "tipo". "Tipo" que mais uma vez os mais jovens usam muito.

Outro sinônimo da língua.

Exato, é uma bengala.

Pode-se comparar ao "bué" ou estamos a falar aqui de coisas diferentes?

São coisas ligeiramente diferentes, porque o "bué" é uma palavra que, de facto, tem conteúdo.

Sim, e serve para quantificar.

Serve para quantificar. Substitui o "muito" de vez em quando, outras vezes não substitui. Portanto, é um sinônimo de outras palavras e os sinônimos, voltando um pouco atrás, não empobrecem. Os sinônimos são mais recursos da língua. O "tipo" é uma bengala, o "tipo" é só para encher chouriços, o "tipo" é um chouriço da língua, que normalmente é muito usado quando a pessoa ainda está numa fase em que não estou a falar do "tipo" em particular. Ou estamos mais cansados, ou estamos nervosos, ou somos novos e ainda não lidamos bem com tudo o que está à nossa volta.

É uma forma do cérebro quase que descansar.

Como vimos, acho que já foi na semana passada, mesmo numa situação em que isso não aconteça, nós continuamos a, por exemplo, eu acabei de dizer "ã"

Sim, o "ah" também pode ser considerado.

Como eu acabei de dizer outra vez. Isto são formas do cérebro. Reparem, mesmo aquilo que eu estou a dizer agora, são tudo fenómenos muito individuais. A forma como nós repetimos as palavras ou como nós usamos estas bengalas é muito individual, mas são tudo estratégias que o cérebro tem quando começamos a reparar nelas. Parece que é como quando estamos ao telefone e ouvimos a nossa própria voz, de repente já não conseguimos falar. E eu agora estou a sentir a mesma coisa.

Pois, estás a falar nisso. Eu também estou a sentir a mesma coisa.

Ou seja, são bengalas para o teu cérebro ou o cérebro de quem está a falar, naturalmente, para pensar no que vai dizer a seguir.

É processar o que vem a seguir.

O nosso cérebro, enquanto processador, é muito eficiente. Reparem, para o tal ChatGPT fazer coisas parecidas com o que nós fazemos, é preciso uma quantidade de processamento. O nosso cérebro é muito eficiente, mas não é particularmente rápido. Ou seja, nós não somos assim tão rápidos quanto isso. Precisamos de tempo. Nós falamos muito depressa, como já falámos aqui antes, e por isso irrita-me um pouco, confesso. Às vezes ouço pessoas com quem estamos a falar, estamos até a explicar as coisas o melhor possível, ouvimos uma pessoa que até está a falar razoavelmente sobre aquilo que entende e alguém diz: "Ah, mas ele acabou de ter ali um verbo que não concordava." E tudo bem, nós todos nos enganamos. Isso é mesmo ser picuinhas. É mesmo a palavra certa. Porque é claro que nós temos de nos esforçar para que isso não aconteça, mas vai acontecer inevitavelmente. Nós não somos robôs. E se estamos a falar muito tempo, certamente que vamos tropeçar aqui e ali e certamente que vamos precisar, de vez em quando, descansar um pouco ou pôr lá um bocadinho de chouriço.

Como é que o chouriço vem aqui parar?

Não sei, é porque é encher chouriço.

Ah, ok. Encher chouriço serve para encher chouriço. É a expressão.

Atenção, isto não quer dizer que um professor, perante um jovem, não sei quanto tempo é que temos, mas só para dizer isto.

Três minutos.

Um professor, quando tem um jovem a falar, um adolescente, uma criança não diria, mas a falar em público na sua aula, deve ensinar, e ensina, que estas palavras devem ser evitadas num discurso em público. "Tipo". A pessoa tem de fazer um esforço para evitar dizer isto quando está a apresentar um trabalho, está nervoso, há ali um esforço consciente para tornar o seu discurso mais claro, tal como também falar em público implica esse esforço. Isso deve ser ensinado, é um esforço, mas também não devemos dramatizar de tal maneira. Ou seja, os jovens não vão chegar a um ponto em que só dizem "tipo", isso não vai acontecer. Portanto, aquilo é um fenómeno. Neste momento é com essa palavra, já foi com outras, e indica que as pessoas estão a passar por uma fase da sua vida em que estão a aprender a lidar com a língua.

E as pessoas mudam e vão crescendo. Diz, diz.

E esse é o tipo de explicação que era precisa para este assunto.

Exatamente. Já agora, nesse caso, usaste o tipo com conteúdo.

Com o real significado.

Exatamente, como o bué.

Muito bem. Fica aqui uma promessa.

Vamos falar de cerveja, exato. Mas não é hoje. Não temos tempo.

Fica aqui a promessa.

Fica a promessa para o próximo programa. Até pode ser no Mapa da Língua. Vamos falar da origem e por que razão é que nós dizemos cerveja e há outros europeus que dizem birra e beer, e por aí fora. De onde é que vem esta duplicidade da cerveja?

E eu estou curioso com essa origem. Não com a origem da substância em si, mas da palavra. Também podemos falar disso, como quiserem. Entretanto, fica por aqui este episódio extra do "Português Suave". Estamos de regresso no domingo, mas já sabe que pode enviar dúvidas para o e-mail. Olha, Marco Neves, distraído. Apanhei-te!

Não, eu a pensar: "Ele vai me pedir outra vez." É sempre a mesma coisa.

O homem já está a procurar a cerveja.

Exatamente, já estou aqui a pensar na cerveja.

Qual é o e-mail, Marco?

portuguessuave@observador.pt.

E o número de telefone é o 9

9.

Agora! 91 002 41 85. Podem enviar-nos dúvidas, mensagens de voz para o nosso WhatsApp e depois, neste episódio extra de quarta-feira, esclarecemos tudo aqui com o Marco Neves. Marco, um grande abraço.

Um grande abraço.

Até domingo.

Foi um gosto.