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Bem-vindo ao "Porque Sim Não é Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de um tema enviado por uma ouvinte: a mãe da melhor amiga da filha tem leucemia, vai ficar um mês internada e a dúvida é como falar disso com crianças de 13 e 11 anos, quando a doença deixa de ser dos outros e fica assim tão perto de casa. Olá, Eduardo. Esta ouvinte que nos escreve contou às filhas por fases. Primeiro, que a mãe da amiga estava no hospital para se tratar mais rápido e só depois é que lhes explicou o diagnóstico. Fez bem em dosear a informação?

Olá, Judite. Eu acho que a bondade materna é sempre muito sensata e, portanto, acho que fez bem. Claro que sim. Sendo certo que depois, degrau a degrau, vão ter que chegar à verdade, com tudo o que isso implica. Felizmente, os quadros oncológicos hoje não são o que eram há 20 anos e, portanto, a sobrevida acaba por ser muito diferente e acaba por ser uma realidade, aliás, muito palpável. Faz-se um trabalho único no Sistema Nacional de Saúde a esse nível, e eu acho que não é demais chamar a atenção para isso. Mas, de facto, o grande problema, quando chegar a altura das crianças terem acesso a todos os contornos da realidade, é simplesmente até que ponto os nossos pais, mesmo que sejam razoavelmente jovens, correm o risco de ficar doentes, em primeiro lugar, e correndo o risco de ficarem doentes, até que ponto é que podem efetivamente morrer. E é natural, é compreensível que perante uma notícia dessas, estas crianças fiquem numa de duas atitudes, Judite: ou aparentemente indiferentes, que é aquilo que deixa sempre os pais um bocadinho sem jeito, mas será que têm sentimentos? Que é uma maneira de varrerem para baixo do tapete uma realidade que os assusta e porque assusta, as crianças fazem muito bem aquilo que os adultos fazem ainda melhor. Se não pensar nisso, faz de conta que não existe e, portanto, é assim que eles funcionam. Ou a alínea B, pode perfeitamente acontecer, acontece muitas vezes, que a partir daquele momento, esta mãe só porque entretanto ficou com uma rinite alérgica ou está um bocadinho indisposta porque entretanto comeu ao almoço qualquer coisa que não foi o alimento mais adequado, faz com que as crianças entrem em alerta geral e fiquem um bocadinho em pânico de cada vez que a mãe se constipa, porque de repente, uma realidade que não tinha nada a ver com elas passa a estar na ordem do dia. Querendo dizer então que a mãe, como a mãe das minhas amigas, afinal de contas também pode morrer. Elas vão precisar de estar assustadas e vão precisar de perceber que a mãe é aquela força tranquila e que se calhar vai precisar de zangar uma vez ou outra perante este excesso de cuidados, se for o caso, porque uma mãe zangada assusta sempre muito menos do que uma mãe frágil e doente.

A pergunta que está por trás disso tudo é mesmo essa: e se fosse comigo? E talvez o fato de ser mãe de uma amiga leve a mais pensamentos destes. Como é que se responde a isto sem mentir?

Se tu pensas que a mãe algum dia vai ficar doente, esquece.

Portanto, mentir.

Não é bem assim, sabes, Judite. Porque as questões põem-se um pouco neste registo. Afinal de contas, nós quando morremos, não morremos. Ficamos cá dentro. Ficamos dentro das pessoas que são muito importantes para nós e, portanto, numa circunstância dessas, evidentemente que quando uma mãe ou um pai se vendem desta maneira, não estão a mentir, não estão a criar uma ilusão. Estão a responder ao nível de uma coisa que as crianças percebem bem: os pais não morrem. Não podem, não têm como morrer. E isto é uma espécie de acordo tácito entre um filho, independentemente da idade, e a mãe e o pai. Aliás, os filhos, mesmo que sejam crescidos e os pais estejam doentes, muitas vezes parecem não levar em toda a linha a doença dos pais, porque é quase como se há meninos pequeninos achassem que se eles estão acordados, vivos, a funcionar, com opiniões e a pensar, então se calhar não estão tão doentes quanto os diagnósticos às vezes dão a entender. E, portanto, não é bem uma mentira, nem uma mentira piedosa. É uma forma de as pessoas se sintonizarem num comprimento de onda que não é bem com os pés na Terra, mas é com a cumplicidade própria das pessoas que se amam.

Neste caso, a avó também está doente. Estas duas situações somam-se na cabeça delas?

Não, multiplicam-se, Edite. E multiplicarem-se significa o quê? Tanto pode significar aquilo que a Judite ou eu somos capazes de fazer quando estamos muito abalados, fazemos terapia ocupacional, trabalhamos mais. A ideia é quanto mais andarmos dispersos em coisas que nos preenchem, tentamos não pensar nas coisas tal qual elas vão acontecendo ao nosso lado. E por isso é muito comum nestas alturas as crianças, ao contrário de todas as previsões dos pais, começarem a ter melhor rendimento escolar e parecerem até com uma desinibiçãozinha que incomoda os pais. Não é uma alegria, é uma euforiazinha que incomoda os pais. Depois os filhos são um pouquinho como vasos comunicantes. Se um anda muito desinibido e muito eufórico e a fazer de conta que não percebe, o outro anda muito abatido e, portanto, é natural que as notas de um vão para ali acima e as notas do outro vão para ali abaixo e de repente já toda a gente é hipocondríaca em casa e uma dor de cabeça já não é uma dor de cabeça, Edite, é um tumor intracraniano. E esta diversidade de reações resulta deste efeito multiplicativo, porque de repente nós estamos tão seguros com o nosso presépio privado, tudo no lugar, e de repente vem lá uma ventania e aquilo que parecia tudo inabalável para toda a vida, começa a tremer e nós a sentirmo-nos cada vez mais pequeninos, porque essa é a consequência, não é, Edite? Quanto mais as pessoas importantes para nós se constipam, mais nós ficamos pequeninos, desamparados e muito sangrados com a vida, porque temos a ideia que as pessoas importantes para nós, porque são importantes, devem estar vivas enquanto nós precisamos delas.

Claro que sim. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Muito prazer, Edite. Até amanhã.