Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
"Português Suave" no ar, comigo, João Costa e Silva e, claro, com o ninja da língua portuguesa, que hoje vai estar na Feira do Livro, mas já vamos falar sobre isso. Olá, Marco Neves.
Olá, tudo bem? Estou de volta depois de umas viagens.
Ia também, entretanto, dizer: "Já tenho dentes". Não, eu sempre tive dentes.
Também estás de volta.
Já tenho outra vida, já consigo falar melhor e estar mais bem-disposto sem ter dores de dentes muito chatas.
Estás de volta ao mundo dos bem-dispostos.
Sim.
Se há coisa que nos põe mal, há muita coisa que nos põe mal-dispostos, mas os dentes.
Não, parece que vem das entranhas. Eu não sei explicar, é uma dor tão forte, que nos deixa tão desconfortáveis, e eu falo por mim, eu fico sem vontade nenhuma de comer. E outras coisas. Enfim.
Vamos então avançar pra língua nas notícias. Hoje vamos falar de música.
A sério? Mas vais cantar?
Não. Calma. João, então esta semana foste a algum concerto?
Fui.
Então diz-me lá.
Claro, fiz parte daquelas 120 mil pessoas. Era o uniqueinho que estava lá a ver o Benito, Bad Bunny.
O mauzinho, o Benito mauzinho.
O coelho mau.
O coelho mau. Então, e gostaste?
Eu gostei muito, foi incrível. Eu fiquei mesmo à frente. Os meus vídeos ficaram incríveis, porque estava mesmo lá na zona da frente. Só quando ele ia pra, porque depois há uma casita, não sei se estás a par desse conceito, Marco Neves.
Sim, já ouvi falar.
Só nessa parte é que quem estava à frente tinha de olhar pro ecrã gigante. E depois há uma particularidade que é: eu podia me virar pra trás. Só que como as pessoas não se viravam pra trás, era estranho eu virar-me pra trás para a casita e ter as pessoas a olhar pra mim. Então decidi também virar-me para o ecrã. Era uma situação um bocadinho desconfortável.
Bem, eu trouxe o Bad Bunny aqui. Aliás, nós já falamos dele há uns tempos por causa daquela grande polêmica do espanhol.
Do Super Bowl, não foi?
E por aí fora. Eu ainda não sei muito bem, não consegui perceber de onde é que vem a discussão exatamente, mas o concerto levou a uma grande discussão nas redes sociais entre brasileiros e portugueses.
Eu não estou a par dessa discussão.
Houve, principalmente no antigo Twitter, naquela rede social que-
Rede social X, agora
Sempre chamaremos Twitter, para todo o sempre, é um pouco como a Torre do Paço. Nunca será Praça do Comércio. E houve uma grande discussão que apanhei já na fase de explosão, não sei de onde é que aquilo vem exatamente. Sei que está relacionada com o concerto do Bad Bunny, em que alguns brasileiros estavam muito chocados com os portugueses dizerem que também são um povo latino e os portugueses estavam muito chocados com o facto de os brasileiros não perceberem que nós também somos um povo latino e as discussões estavam ali, já a certa altura, eu ia dizer a raiar o insulto, mas não, mesmo com insultos.
Meu Deus!
Como é costume, aliás, nas redes sociais, quando a coisa explode. Agora, o que é que acontece aqui? Na verdade, o que nós temos é uma diferença, como existem outras entre o português de Portugal e o português do Brasil, não é bem linguística, é uma diferença de discussão cultural ou de utilização dos termos. Em Portugal, eu sempre me lembro de usar o termo, eu lembro-me e está registado e está nos livros da escola, nós somos um povo latino, no sentido em que somos um povo que fala uma língua latina na Europa. Nós dizemos, vamos à Itália e sentimos: "Isto é outro povo latino". A Espanha também é um povo latino. Os romenos também são um povo latino, porque falam romeno. Portanto, na Europa, no contexto europeu, ser um povo latino é ser um povo que fala uma língua latina, uma língua neolatina, uma língua que vem do latim. E acho que nenhum português tem dúvidas disto. Se eu disser: "Portugal, um povo latino". Não sei, diz-me, tu consideras isto algo estranho?
Pra mim não é uma questão.
No Brasil, no contexto americano geral, muito também por causa do desenvolvimento de certos conceitos nos Estados Unidos, que depois se espalharam pelo resto do continente, que nós chamamos um continente, e os Estados Unidos, por acaso, até chamam dois, para os Estados Unidos são dois continentes, a América do Sul e a América do Norte. O termo latino passou a ter uma conotação muito diferente dos povos que se desenvolveram com línguas latinas, isto na origem, obviamente, mas que depois têm uma certa mistura cultural, étnica, musical, no fundo, nos Estados Unidos, muito associada à língua espanhola, menos à língua portuguesa. Por isso é que também há uma discussão, às vezes, no Brasil, se os brasileiros são um povo latino nesse sentido. Mas a verdade é que o termo latino ganhou uma outra conotação, não está relacionado diretamente com a língua em si, mas sim com todo o caldo cultural latino, latino-americano, neste caso.
Gosto dessa expressão, caldo natural.
Caldo natural, pois. E, portanto, para alguns brasileiros, atenção, esta discussão não é todos os brasileiros como todos os portugueses. Para alguns brasileiros, foi um choque perceber que os portugueses dizem que são um povo latino. Para os brasileiros que ficaram chocados com isto, os portugueses são claramente um povo europeu, como se um europeu não pudesse ser latino, porque têm esta ideia do latino como aquele resultado do caldo cultural, particularmente americano. Há apenas aqui uma diferença cultural, há um conflito, mas é só por quê? Porque, na verdade, nós estamos numa época, é aqui que eu queria chegar. Nós já falamos aqui várias vezes, nós temos uma língua que é falada em países muito separados geograficamente e estamos numa época onde, de repente, nós, os portugueses, já dávamos muita atenção ao Brasil, por causa das telenovelas, e não só. O Brasil dava-nos muito menos atenção, é verdade, durante muitas décadas. E ainda hoje dá menos do que nós damos ao Brasil, mas está a dar mais atenção. De repente, os brasileiros estão a reparar em Portugal e nos outros países de língua portuguesa.
Alô, sempre estivemos aqui.
Sim, verdade, eles estão a reparar. Isto é bom. Aliás, eu vi isso quando fui agora ao Brasil. Quer dizer, seria se calhar muito estranho alguém que fala a língua portuguesa estar a falar com brasileiros. Isso não era assim nada de muito comum.
Usual, se calhar.
Sim, agora parece ser muito mais comum. E eu reparo que há estaEsta pequena mudança em que, de repente, em alguns setores, também por causa das redes sociais e não só, os brasileiros reparam. E às vezes, esta maior atenção, o fato de estarmos a conversar uns com os outros, leva a estes conflitos que já lá estavam, mas que explodem precisamente porque de repente os brasileiros reparam que nós nem sempre usamos os termos da mesma maneira que eles e vice-versa. Então eu até acho que é um bom sinal, é um sinal que estamos a conversar uns com os outros, coisa que não acontecia há uns anos, em que estávamos separados nestas ilhas de países que falam português, mas que não comunicavam uns com os outros.
Mas não se chateiem, não vale a pena.
Chatearam-se muito. Se fores ver às redes sociais, procura e vais ver que foi um daqueles casos em que andava tudo ali, para usar uma expressão muito portuguesa, à batatada.
Pensei também nessa.
Depois passa. Eu sinceramente acho que é um bom sinal. São dores de aproximação. Não é aproximação linguística, não acho que estejamos a falar de forma mais diferente. Estamos é a ouvir-nos mais e a perceber.
O que não é de todo mal, é um bom sinal.
Acho que é um bom sinal. Mas pronto, vamos avançar para o Mapa da Língua. E hoje no Mapa da Língua, lembras que tivemos o Luciano, que participou no nosso último episódio, que falava 30 línguas.
Há bocado estava a partilhar contigo que ouvimos esse áudio e eu fiquei com uma imagem mental do Luciano e depois vi o teu vídeo nas redes sociais. Isto é muito giro, porque é esta a magia da rádio e às vezes do som, porque nós ouvimos a voz de uma pessoa, pintamos uma imagem mental da pessoa na nossa cabeça.
Já me aconteceu ano passado, quando falei com uma pessoa que só me conhecia pelo Português Suave, e começou: "Ah, eu tinha uma imagem muito diferente." Depois ficamos sempre com medo. O que é que ele vai dizer? Será que isso é para bom ou para mal? E eu assim: "Ah, eu pensava que eras muito alto." E eu: "Tu, mas eu também não sou baixo." E ela: "Sim, mas mais alto." Pronto, a minha voz é uma voz alta, pelos vistos. Acho que depois também varia muito de pessoa para pessoa.
Claro.
A imagem que cada pessoa cria.
Nós pintamos aquilo que queremos e a voz também, às vezes, desperta-nos diferentes sensações nesse sentido.
É o que acontece também quando lemos um livro. Os filmes não têm isso. Quando nós vemos um filme, obviamente que os actores são reais.
A imagem está pintada.
Está pintada por nós. Quando lemos um livro, cada pessoa cria uma imagem das personagens diferente.
E é por isso que muitas vezes, quando vamos ver o filme, depois até pensamos assim: "Eu achava que esta personagem ia ser mais desta forma" e afinal não é.
Mas ao contrário, se vires o filme primeiro e fores ler o livro, estás preso à imagem dos actores. Não vais conseguir escapar dessa imagem. Estava a dizer, o Luciano, que vive na República Checa, explicou-me, ele e também o aluno de português que estava com ele, que é o Radan, salvo erro, eu nunca consegui dizer bem aquele nome, explicaram que a República Checa tem um problema parecido com a Holanda/Países Baixos. Nós já discutimos aqui várias vezes que Holanda era um termo que nós usávamos e ainda usamos para designar os Países Baixos.
Agora menos, não é? Já se começa a utilizar mais Países Baixos.
Os Países Baixos insistem que internacionalmente se use o termo correspondente a Netherlands, portanto, Países Baixos. Estou a dizer à inglesa, mas disse o termo inglês porque é o termo mais conhecido internacionalmente, se calhar. Aliás, Netherlands penso que é o termo mesmo holandês. Netherlands será mais o termo inglês. Os Países Baixos insistem, mas na verdade, nós sempre usámos Holanda, há muitos séculos. É o que se pode chamar de uma sinédoque geográfica. Sinédoque, se alguém se lembra da escola, é um tipo de metonímia em que nós chamamos a parte com o nome do todo ou chamamos o todo com o nome da parte. E neste caso, nós chamamos Holanda, quando, na verdade, estamos a falar dos Países Baixos, quando a Holanda é apenas uma parte dos Países Baixos. Estamos a usar o nome de uma parte para o todo. Mas há mais, foi isso que o Luciano me chamou à atenção. A República Checa, o nome Chéquia, que é o nome novo.
Que é o que utilizamos agora.
Chéquia quer dizer da Boêmia, ou seja, o termo em checo está relacionado com a Boêmia, e a Boêmia é só uma parte da República Checa, também tem a Morávia. Portanto, também na República Checa nós estamos a usar um termo que se refere a uma parte para designar um todo. Mas há mais: a Croácia. A Croácia também é um termo que designava apenas uma parte desse país e que hoje designa um país inteiro, que tem a Croácia propriamente dita e outras partes, como a Dalmácia, por exemplo. E eu estive a pensar, foi um desafio, se também havia ao contrário. Ou seja, se nós temos casos de países que usam um termo mais geral para falar de uma parte apenas. E temos. Por exemplo, Espanha, na verdade, está a usar o país Espanha, que não inclui Portugal, como nós sabemos muito bem, está a usar um termo que na origem designava toda a Península Ibérica. Portanto, Hispânia era toda a Península Ibérica e Espanha acabou por absorver esse termo para designar apenas uma parte da Península Ibérica. Também fazemos o mesmo com os Estados Unidos, dizemos muitas vezes América, quando a América é o continente inteiro. Os próprios Estados Unidos são muito pecadores neste ponto, porque muitas vezes dizem América para designar só o país.
O próprio Donald Trump, muitas vezes.
Exatamente. Nos Estados Unidos isto nem sequer é uma questão. Eles usam América como o nome do país. E no fundo, aqui também temos uma sinédoque em que o nome de um todo é aplicado a uma parte.
Até nós muitas vezes estamos a dizer: "Na América", e estamos só a referir-nos aos Estados Unidos.
E é um uso impreciso, mas tradicional, tal como também Holanda é um uso impreciso, mas tradicional. Croácia já não é tão impreciso, porque tornou-se mesmo o nome oficial do país, o mesmo com a República Checa, o mesmo com Espanha, já América não é bem o caso. Eu ainda lembro, voltando ao primeiro caso, que Inglaterra foi usado durante muito tempo para designar todo o Reino Unido, aqui em Portugal também de forma muito imprecisa. Hoje já não se faz isso. Penso que hoje acho que já há muito mais cuidado. Nós sabemos bem que Inglaterra é uma parte do Reino Unido. E também não nos podemos esquecer que o nosso próprio país, na origem, Portugal era uma parte que depois se expandiu. Mas aí já é uma questão de expansão, não é propriamente uma questão de usarmos o nome de uma parte para o todo, mas sim um nome que começou por designar uma parte e depois designou um território maior. E pronto, foi só para falarmos um pouco de sinédoques geográficas.
Sinédoques, já tinha saudades de ouvir falar sobre isto. Lembro-me bem dos tempos da escola, que já lá vão. Vamos aos mitos.
Vamos aos mitos e origens.
Exatamente.E hoje, para não descansarmos com as nossas próprias vozes, vamos ouvir um áudio de Tiago Teles.
Ora viva, Marco Neves e João Costa e Silva. Eu tenho uma dúvida náutica: quando se está dentro de um barco, a olhar para a frente, a parte do lado direito chama-se em português estibordo, starboard em inglês e em holandês é stuurboord, que indicaria que é o lado de onde se guia, literalmente, em holandês. A minha pergunta é: qual é a raiz da palavra estibordo, se é esta palavra holandesa ou se tem uma outra origem? Muito obrigado.
O Tiago Teles não sabia que nós íamos falar aqui também do holandês neste episódio.
Foi coincidência.
Planeado, mas não.
Não foi. Eu tinha pensado primeiro em falar e depois fui buscar o áudio e nem sequer reparei que estávamos a falar também da Holanda/Países Baixos. E a resposta para o Tiago é que, de facto, estibordo e bombordo são dois termos que chegaram ao português a partir do francês e partiram das línguas germânicas, presume-se que do holandês. Não se tem exatamente a certeza, porque às vezes as línguas germânicas eram um caldo, vou usar caldo outra vez, de onde saíam palavras, nem sempre se sabia exatamente de qual, mas o mais provável é mesmo que tenham saído do holandês para o francês, do antigo holandês, não o holandês atual, para o francês e depois o francês espalhou estas palavras estibordo e bombordo. O estibordo queria dizer, como ele próprio explicou, o lado de onde se pilotava. Portanto, é uma palavra de origem holandesa. O bombordo tem origem em algo como backboard, que queria dizer o lado das costas. O piloto pilotava virado para estibordo e ficava de costas para bombordo. Portanto, aquele bombordo tem ali uma palavra que quer dizer costas na origem. E por isso, no fundo, o Tiago deu a própria resposta à pergunta que fez. Eu agradeço e fica aqui esta dúvida náutica esclarecida.
Muito bem. Não é um tema que eu domine muito. Deixo para ti, Marco Neves, este tema de coisas náuticas.
Eu também não domino. A questão da língua tem essa particularidade. Nós falamos da língua em geral, mas depois a língua é usada por todas as pessoas, todas as profissões, e depois a língua numa determinada profissão ou área, a especialidade então é das pessoas dessa área ou dessa especialização, mas neste caso eu consigo dizer a origem das palavras, mas depois não consigo dizer muito mais sobre as questões náuticas, que também não sou grande especialista nesse aspeto.
É isso mesmo. Vamos para a nossa última secção.
E os ouvintes perdoarão que hoje faça só aqui um pouco de promoção à Feira do Livro.
Mais do que merecida.
Vou lá estar. Mas faço à Feira do Livro toda. A Feira do Livro de Lisboa. Eu às vezes digo Feira do Livro, como estou cá em Lisboa.
É verdade, porque há várias espalhadas pelo país.
É verdade, ainda bem. Há muitas Feiras do Livro e ainda bem, gosto disso. Gosto de ir às Feiras do Livro. Gostei muito do ano passado de ir à do Porto, que há de ser daqui a uns tempos. A de Lisboa está agora viva e vou lá estar hoje, dia 31 de maio, às 16:00, na Praça Vermelha, já agora, a falar sobre palavras por causa do meu último livro. Mas vão à Feira, mesmo que não me queiram ir ver, mesmo que sejam fãs do João Costa e Silva.
Não, têm de ir ver.
Vão à Feira do Livro. Hoje não faço nenhuma sugestão de nenhum livro. Já fiz nas últimas semanas várias sugestões. Hoje é mesmo a sugestão só de passar pela Feira do Livro e ver livros, comprar livros e conversar com os autores que também vão estar por lá.
Olha, peço-te desculpa, porque eu era para estar lá contigo, mas não vou conseguir, porque, mais uma vez, os sisos. Não é tenho de ir tratar, tenho de ir tirar os pontos. Portanto, tenho que regressar ao norte, dentista, e depois volto. Mas tu ainda vais estar por lá também, não é?
Ainda vou lá estar, depois mais na semana a seguir.
Exato. Eu vou lá num desses dias para te ver ao vivo e a cores. E quem sabe estar com ouvintes do "Português Suave", que vão estar lá de certeza.
Sempre que estou num sítio em que falo com pessoas, no público, há sempre alguém que diz que ouve o "Português Suave" e que te envia um abraço. Por isso eu já nem me lembro exatamente de todas as pessoas.
Olha, abraço para todos.
Fica aqui um abraço geral.
Marco Neves, um grande abraço para ti. Nós estamos de regresso na quarta-feira.
Até quarta.
Até lá.