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"Português Suave" na Rádio Observador, hoje em direto. Olá, Marco Neves. Bom dia.
Cá estamos.
Até parece estranho estarmos aqui ao domingo a falar assim.
Pois, normalmente as pessoas não sabem. Muitas vezes gravamos uns dias antes e hoje estamos aqui mesmo em direto.
Tudo pode correr mal.
Exato. Mas vamos aproveitar isso, se quiser nos enviar uma mensagem pro nosso WhatsApp, 910024185, mensagem de texto a dizer que nos está a ouvir, pode fazê-lo.
Vamos ver quem é que está aí desse lado. Vai começar aqui o telemóvel a vibrar intensamente. O que falamos hoje?
Hoje falamos de eleições, tem de ser, embora de uma forma que não é bem das eleições, mas de algo que aconteceu e de uma expressão que usamos para descrever isso que aconteceu. Depois vamos passear por Lisboa, hoje não vamos sair de Lisboa, e depois temos uma dúvida no final.
O dia hoje não combina assim muito a passeios.
Pois.
Só que a chuva só vem mais para o final do dia aqui, pelo menos na zona de Lisboa.
Passeamos com a voz.
Vamos a isto.
A língua nas notícias.
Vamos falar de uma expressão que usamos muitas vezes.
Usamos na última semana, digo eu, porque tivemos um resultado eleitoral aqui em Lisboa, em que dois partidos ficaram separados por três votos.
Na contagem oficial.
E isso teve influência no resultado e no número de vereadores. E as pessoas provavelmente usaram, digo eu, rés-ves-Campo de Ourique. Resultado rés-ves-Campo de Ourique, que é uma expressão muito engraçada.
Antiga.
Muito antiga, com um bairro de Lisboa e que tem uma origem, cuja questão não é ser misteriosa. E é misteriosa. Há demasiadas soluções, há demasiadas teorias pra esta expressão. Pode existir porque a estrada que delimitava Lisboa no século XIX passava por Campo de Ourique, era ali rés-ves-Campo de Ourique.
Sim.
Pode ter sido porque o terramoto de 1755 chegou quase a Campo de Ourique, mas não ultrapassou.
Tantas explicações.
E pode ter sido por causa da Batalha de Ourique e nesse caso não terá nada a ver com o bairro de Lisboa. A verdade é que eu, das três, não tenho nenhuma forma de adjudicar esta questão.
É daqueles que ficam em aberto.
Ficam em aberto. Eu das três desconfio que a primeira é a mais provável, da estrada que limitava Lisboa. A última, da Batalha de Ourique, parece-me ser a menos provável, porque apesar de tudo, a expressão parece-me estar muito associada a Lisboa. Enfim, mas é só uma impressão, não tenho nenhum dado concreto. E isto acontece muito com as expressões populares. Muitas vezes as pessoas perguntam: "Mas qual é a origem desta expressão ou daquela?" E ficam muito tristes quando eu digo que não se sabe. Em alguns casos sabemos, mas estas expressões são criadas no dia a dia, às vezes num grupo de amigos ou uma pessoa que se lembrou de fazer uma piada. Às vezes a piada já podemos nem sequer compreender, porque já não temos o conhecimento do que aconteceu ali, mas a expressão depois fica, vai ficando e não sabemos. A língua é assim, há coisas que nós não sabemos. E este é um daqueles casos em que nós não sabemos.
A Vanda não nos está a ouvir de Campo de Ourique, mas sim de Campo Grande. Está a ouvir a Rádio Observador.
Por acaso eu ontem fui a Campo de Ourique e a Campo Grande e andámos ali às voltas em Campo Grande e Campo de Ourique, e estão lá muito perto um do outro.
Envie-nos mensagem através do 910024185. Marco Neves, vamos avançar, vamos até ao Mapa da Língua. Continuamos em Lisboa, não é?
Sim.
E vamos falar de expressões com ruas ou bairros.
E se alguém quiser enviar agora pelo número de telefone, que vais dizer outra vez.
910024185, é o WhatsApp da Rádio Observador.
Se alguém quiser enviar mais alguma, eu lembrei-me aqui de quatro. Três delas nós até sabemos bastante bem o que aconteceu. Só esta de Campo de Ourique. A primeira é rés-ves-Campo de Ourique. A segunda são as Obras de Santa Engrácia, que nós sabemos que foram obras que duraram muito tempo e a origem é bastante clara. Cair do Carmo e Trindade está-
Gosto muito desta, por acaso.
Está relacionada com o terramoto e é muito engraçada, cair do Carmo e Trindade.
Não do terramoto.
Sim, da expressão, imagino.
Não vamos confundir aqui conceitos.
O acontecimento histórico.
Senão as pessoas podem ouvir e podem achar que eu sou a favor do terramoto.
Não, nós somos contra o terramoto, mas não há nada que possamos fazer contra os terramotos, na verdade. Depois temos meter o Rossio na Rua da Betesga, que também tem a ver com o terramoto, em princípio. Aí já não temos tanta certeza, mas ela aparece pela primeira vez num livro que já falei aqui muitas vezes, que é um livro muito engraçado, o "Enfermidades da Língua" de Manuel José de Paiva, que surgiu ali dois ou três anos depois do terramoto, em que ele já refere esta expressão, meter o Rossio na Rua da Betesga. Pra que esta expressão faça sentido, é preciso que o Rossio seja muito maior do que a Rua da Betesga, e antes do terramoto não era. A Rua da Betesga era muito grande. Só depois do terramoto é que ficou um pouco mais pequena. E por isso, imaginamos que esta expressão, em princípio, terá surgido entre o terramoto e o momento em que este livro é escrito, que é a primeira vez que ela aparece, que foi dois ou três anos depois. É uma expressão que, ao contrário do rés-ves-Campo de Ourique, está ali muito bem localizada no tempo, terá vindo entre 1755 e 1759, no máximo.
Qual é a expressão que tu mais gostas destas que acabaste de dizer?
O Carmo e Trindade, acho que é engraçado.
Ainda assim, acho que uso mais o rés-ves-Campo de Ourique.
É possível. Eu acho que todas elas é a mais usada. Embora o Carmo e Trindade também se use muito, acho eu. O Rossio na Rua da Betesga já não é assim tão usada, mas acho que todos conhecemos. Há aqui uma particularidade, eu não sei, e é mais uma pergunta pra quem nos está a ouvir. A verdade é que são expressões que praticamente todo o país conhece. Isto demonstra algo que é uma característica da língua, não só de Portugal. Muitas vezes a capital está particularmente exposta ao resto do país e o resto do país conhece bem a capital e as expressões que vêm da capital.
Usa o norte a sul.
Exato. Ao contrário, nem sempre acontece. Muitas vezes os lisboetas não conhecem expressões do resto do país. E neste caso, quem está a perder são os lisboetas, há que dizer.
Pois, não queria ser eu a dizer, mas foste tu. Enfim.
Tens alguma expressão da tua zona?
Eu já sabia que tu me ias perguntar isso.
Eu ia te perguntar. Te ia avisar.
Eu sofro de uma doença, de um problema que é: uso muito as expressões, mas depois não me lembro.
É normal, isso é normal.
Porque às vezes é tão Normal usá-las. Eu uso muito a palavra morcão.
Pronto, é lá de cima.
Mas não sei se pode ser considerada uma expressão.
Lá de cima também é uma expressão lisboeta, porque as pessoas do norte não vão dizer lá de cima.
Agora não me estou a lembrar de nenhuma. Entretanto, estamos a receber aqui chamadas do nosso telemóvel. Não sei se querem falar conosco.
Isto mostra bem uma coisa: nós damos atenção à língua, neste programa estamos sempre a dar atenção à língua e a olhar para as expressões e para as palavras, mas a língua no dia a dia está ali por baixo, quase consciente. Ou seja, nós temos a língua toda no cérebro e vamos usando sem estarmos: "Olha, será que a expressão que eu vou usar é adequada?" Não, nós temos de usar de forma muito imediata. Isso é muito bom.
Mas agora fiquei frustrado, porque me perguntaste e eu não estou a lembrar de nenhuma.
Para o próximo episódio, para a semana nós falamos disso. Tens trabalho de casa.
Vamos para os mitos e dúvidas.
Se tu me perguntasses-
Alguma de Lisboa.
Ou de Lisboa ou do Pinhal.
Do Pinhal, pois.
Eu também, se calhar, não ia conseguir dizer nada. É assim.
Estamos quites. Vamos para os mitos e dúvidas da língua portuguesa.
Temos mensagens?
Temos mensagens. A Sofia Figueiredo disse: "Ouço a Rádio Observador a partir de Vila Nova de Gaia e uso muito o caio, caro e a trindade. Um bom domingo para vocês".
Lá está, até Vila Nova de Gaia.
Um abraço até Vila Nova de Gaia. O que é que temos aqui na nossa última rubrica?
Pronto, já fomos de Campolide a Vila Nova de Gaia. Na última rubrica, eu tinha pensado num tema, mas vou confessar que mudei agora à última hora. Ou será à última da hora? Fica para depois.
Olha, aquela questão do presidente de câmara e presidente da câmara, muitos jornalistas aqui da rádio me perguntaram qual é que era, e eu: "Ouçam o episódio".
E ouviram?
Sim.
Espero que sim. Mesmo em semana de eleições tiveram tempo. Bem, eu tinha pensado falar de algo um pouco mais, digamos, quase teórico, que é a idealização que nós fazemos de determinadas fases da língua. Nós muitas vezes pensamos que a língua se falava muito bem em determinada altura. No entanto, se formos a essa altura e se perguntarmos-
E geralmente sempre para trás, não é?
Sempre para trás. As pessoas, em geral, acho que não idealizam o futuro, nem o presente. O presente, então, ninguém idealiza. Não há ninguém que diga: "Bem, hoje estamos na época em que melhor se fala português". Nunca ouvi ninguém dizer isso. É sempre o passado e é sempre uma altura particular. Muitas vezes é a infância da pessoa ou às vezes é a altura em que os clássicos foram escritos, mas esquecem-se que se nós aterrássemos nessa época e falássemos com as pessoas, as pessoas teriam precisamente a mesma impressão. Não saberiam sequer que estavam na época em que os clássicos foram escritos e diriam que todas as pessoas andam a falar de forma um pouco estranha e que os jovens, enfim. Mas acabei por receber uma mensagem que eu recebo com muita frequência, e nós já falámos disto aqui.
Então.
Que é o Carlos Guilherme, que me enviou uma mensagem poucos minutos antes de nós começarmos, a dizer que estava a discutir, se não foi com um amigo brasileiro, e o amigo estava a dizer: "Por que vocês aí em Portugal dizem mais pequeno?" E nós dizemos menor. E o Carlos perguntou-me o que aconteceu aqui. Por que razão nós dizemos mais pequeno, mas depois não dizemos mais grande?
O que aconteceu, Marco?
O que aconteceu foi.
Explica lá.
Nós temos uma forma regular de criar os comparativos de superioridade dos adjetivos. Dizemos mais alto, mais baixo, mais forte, mais fraco, mais aborrecido, mais o que nós quisermos. E no pequeno também sempre usámos isto em português. Desde o início, nós temos registros escritos de mais pequeno. Há uma exceção com o maior, porque nós, de facto, não dizemos mais grande. Por que razão é que esta exceção surge? É porque os falantes acharam que era estranho dizer mais grande, por algum motivo. Ninguém sabe, mais uma vez, ninguém sabe exatamente de onde é que vem. Mas a exceção em Portugal é só mais grande, não se pode dizer, só podemos dizer maior. Podemos dizer mais grande se for algo como mais grande que bonito, por exemplo. Nesse caso, podemos. No Brasil, também sempre foi assim, até ao século XX, em que algumas pessoas pensaram: "Então, mas se nós não podemos dizer mais grande, também não deveríamos poder dizer mais pequeno". E então começaram a propalar esta teoria e ela pegou.
Mais grande, confesso, é muito estranho.
Não, e em português nós não dizemos mais grande em geral, ou pelo menos se dizemos, somos corrigidos a seguir. Em espanhol já se pode dizer, más grande.
Más grande.
Mas em português, tanto em Portugal quanto no Brasil, o grande é maior, é um comparativo irregular. No pequeno, nós usamos o regular. No Brasil, também se tornou regra não dizer mais pequeno e passar a dizer apenas menor. Mas nós em Portugal temos aqui uma particularidade, nós continuamos a usar menor, só que usamos menor em situações muito particulares. Usamos menor como, ou seja, um menor, uma pessoa que tem menos de oito anos, mas enquanto adjetivo, nós usamos para dimensões particulares. Por exemplo, se eu disser: "Tem um peso menor", nós dizemos assim, nós não dizemos: "Tem um peso mais pequeno", fica muito estranho, ou um comprimento menor. Quando estamos a falar de dimensões, que são medidas numericamente, aí nós dizemos menor. Portanto, é uma particularidade, uma complicação da língua, que é assim, a língua é complicada. Mas só para dizer então que em Portugal nunca foi erro dizer mais pequeno, ao contrário de dizer mais grande, aí sim é considerado erro. No Brasil, também não era erro, e agora é. Portanto, não é uma questão de falta de lógica, porque, na verdade, o mais pequeno é que está a seguir a lógica normal.
Olha, nós entretanto fomos aqui recebendo mensagens no WhatsApp. A Madalena Marques diz que nos está a ouvir da Torreira, que é perto de mim, eu sou de São João da Madeira, portanto, somos quase vizinhos, com uma manhã chuvosa, e ela disse: "Filho de peixe sabe nadar".
Filho de peixe sabe nadar?
Sim, deixou esta expressão por aqui.
Para nós analisarmos?
Sim.
Está bem. Hoje não, mas obrigado.
Fica pra uma próxima.
É uma expressão engraçada. Nós podemos fazer uma lista com expressões com animais. Havemos de fazer isso.
Pois é, e ainda deve haver imensas.
Há muitas.
Recebemos outra mensagem que não está identificada, mas que diz: "Nasci e vivi metade da minha vida em Campo Mourão". E a pergunta é: de onde é que vem o rés ves, sem o Campo Mourão?
O rés ves, não tenho aqui agora assinalado, mas está perto de resvalar. Ou seja, é uma expressão que tem uma origem antiga, que quer dizer estar ali mesmo perto de alguma coisa. E usamos lá fora desta expressão. Está ali rés ves a bater na parede. Mas não deixa de ser uma palavra que está a caminhar para ser um vocal fóssil. Ou seja, uma palavra que já quase só se usa nesta expressão em particular.
Lembras-te que no último episódio falámos sobre Braga. És de Braga, deixar a porta aberta. O João Torres, nesse episódio, no Spotify, diz que é de Braga e que nunca sentiu essa expressão como ofensiva e diz que está relacionada com o facto de não se fechar a porta e que é uma alusão ao Arco da Porta Nova, que é um monumento que fica em Braga e que não tem porta. E depois o Tiago do Carmo, em resposta, diz: "Sempre achava que fosse por causa do São Bento da porta aberta". E depois houve alguém que disse: "Já mandar abaixo de Braga, é outra história". Mandar abaixo de Braga tem aqui uma conotação mais negativa, não é?
Temos de fazer um episódio só sobre Braga e sobre outras cidades. Lá mais para norte.
Há tanta riqueza nessa língua portuguesa.
E tenho a certeza que todas as cidades têm algumas expressões que se calhar estão relacionadas com um bairro. Enfim, enviem, até ao próximo episódio.
Sim, e isto foi giro aqui com a dinamização dos nossos ouvintes ao longo deste episódio, que fica por aqui.
Temos de fazer mais vezes assim.
Sim. Nós estamos de regresso na quarta-feira. Dúvidas para o e-mail, Marco?
portuguessoave@observador.pt.
E o número do telefone.
91.
Boa! 002 41 85. Podem enviar áudios através do nosso WhatsApp até 30 segundos ou se quiser escrever uma mensagem texto para depois esclarecermos tudo no episódio de dúvidas de quarta-feira.