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É dia de Português Suave, sempre em podcast e também na Rádio Observador. Eu sou o João Costa e Silva. Olá, Ninja. Olá, Marco.
Olá, está tudo bem? Cá estamos.
Está tudo bem.
Estamos naquela época em que começam a aparecer as constipações e os vírus que vêm das escolas e, para usar uma expressão portuguesa muito engraçada, estou a chocar aqui alguma coisa. Mas pronto, é a vida. Eu gostava, antes de começar, já agora, João, de dizer que hoje, dia 30 de setembro, é Dia Internacional da Tradução.
Olha, e do podcast também. É Dia do Podcast.
É?
Estamos aqui a celebrar.
Exato, estamos a celebrar o Dia do Podcast e o Dia da Tradução. Os tradutores também são muito importantes na história das línguas, mas não é sobre isso que vamos falar hoje. Talvez no domingo possamos falar um pouco mais sobre isso, porque hoje temos muitas dúvidas para resolver, às vezes para resolver, outras vezes para complicar ainda mais.
Exato.
Vamos ouvir a nossa primeira dúvida, que é uma dúvida que veio por áudio, que é do Pedro Gilvaz. Vamos ouvir?
Olá, Marco. Olá, João. Eu sou o Pedro Gilvaz e desde já obrigado pelo vosso trabalho, que nos enriquece de conhecimento sobre o português e sobre o resto das línguas deste mundo. A pergunta que vos quero fazer apareceu porque eu namoro uma menina brasileira há um ano e uns meses e a quem mando um beijinho desde já. E como podem imaginar, tivemos algumas situações engraçadas em relação à nossa língua, que é a mesma, mas aprendida em sítios diferentes. Uma delas, que é a dúvida que eu venho tirar hoje, é: ela achou muito estranho o meu uso da palavra sempre no início de uma frase, com o sentido de ainda, para confirmar algum evento ou confirmar algo. Por exemplo: "Sempre vamos à praia hoje" ou "Sempre vamos jantar fora". Ela estranhou muito esta forma de frasear e de usar esta palavra e eu gostava, Marco, que esclarecesse de onde vem, como surgiu, se está correto, se é uma coisa que Portugal usa em geral ou se será uma coisa mais de região. Gostava de saber se está correto. Obrigado e continuação de um bom trabalho.
Primeiro, olá ao Pedro e olá à namorada do Pedro. O Pedro pergunta-nos sobre este sempre, que é uma pergunta habitual entre portugueses e brasileiros em comunicação, porque os brasileiros acham estranho quando nós dizemos: "Sempre vais ao Brasil". Nós já falámos disto, se não estou em erro, tenho quase certeza que sim.
Eu também acho que sim. É quase como uma mania nossa, não é? Usar o sempre.
Há outros casos em que nós temos construções que são usadas em Portugal e não no Brasil, como quando eu digo: "Vou lá ter." Este ter não é assim tão comum no Brasil. Portanto, a diferença, para ficar claro, é: quando eu digo: "Sempre vais ao Brasil", no Brasil, os falantes vão interpretar isto de forma igual a: "Vais sempre ao Brasil", constantemente. Enquanto que cá nós vamos interpretar como: sempre vais, afinal vais. E o Pedro pergunta pela origem. A origem é difícil de saber, mas começam a aparecer vestígios desta construção no século XVII, não é assim há muito tempo, na escala da língua. Já Portugal e Brasil existiam ambos e por isso este desenvolvimento foi mesmo particular de Portugal. Como é que isto acontece? Acontece porque nós dizemos: "Sempre vais ao Brasil", no sentido: sempre, continuas a planear ir ao Brasil. Portanto, o sempre tem esta ideia de continuidade e de repente perde o sentido temporal e passa a ser uma palavra que quer dizer afinal. Há estes deslizes da língua de forma muito comum. Não é caso único, há muitas outras palavras em que nós mudamos a posição da palavra e ela muda de sentido. Quando eu digo: "Homem grande", estou a falar da dimensão do homem. Quando eu digo: "Grande homem", estou a falar da qualidade do homem. E o mesmo acontece aqui no sempre, não é dimensão e qualidade, mas é o sentido que muda. E é o que eu consigo dizer sobre isto ao Pedro. Na escala da língua, é relativamente recente e desenvolveu-se apenas cá em Portugal.
Muito bem. Um abraço para o Pedro.
Um abraço para o Pedro e para a namorada do Pedro. Espero que continuem a discutir, porque isso é saudável.
Se quiserem mandar áudios, ainda melhor.
Se quiserem, enquanto estão a discutir. O Paulo Rangel dá-nos os parabéns pelo programa, que ouve religiosamente. Vou citá-lo aqui: "Ali com algumas dúvidas de fé quanto às soluções encontradas." Portanto, ele nem sempre concorda conosco, o que também é muito saudável.
Mas isso também é bom, não é?
Sim, exatamente. Ele teria imenso para dizer sobre muitos temas e depois diz algo que eu vou passar a ler. Abro aspas: "O Marco Neves foi muito perentório a dizer que a expressão 'agora é tarde, Inês é morta' só é praticamente usada no Brasil, e isto mesmo quando uma ouvinte alertou para que tal expressão lhe era familiar. Devo dizer que em casa, no grupo de amigos de meus pais e do meu grupo de amigos na escola, na universidade, na vida social e profissional, sempre ouvi esta expressão. Vivi toda a vida no Porto e nesta região esse uso parece-me ser bastante comum. Talvez valesse a pena indagar para ver se é mesmo assim." E eu indaguei. Depois ele diz: "Um abraço e promessa de que voltarei a escrever com as tais dúvidas, algumas de fé." E ficamos à espera. O que te digo, Paulo, é que eu indaguei. Indaguei é um bom verbo, até porque também falei disto noutro canal da concorrência e eu recebi muitas mensagens de pessoas, sempre do Porto, há que dizer, a explicar que usavam esta expressão e que é muito comum. E eu acabei por até já falar várias vezes desta expressão nas últimas semanas, precisamente por causa disto, porque é daqueles casos em que, e não é caso único, os dados que os ouvintes nos dão alertam-nos para alguma coisa. E é verdade que no Porto e noutras áreas do Norte, não no Norte todo, mas noutras áreas, a expressão parece ser comum. Olha, o que pode ter acontecido? Há várias hipóteses e eu não tenho dados suficientes para dizer qual é a verdadeira. A história de Pedro e Inês, quem não sabe do que estamos a falar, tem de ouvir os episódios anteriores.
Tem de estar em dia.
Exatamente. A história de Pedro e Inês é portuguesa, claro. Esta expressão, "agora é tarde, Inês é morta", aparece na escrita Primeiro no Brasil, no século XIX. Pelo menos aquilo que eu consigo ver, aparece na escrita primeiro no Brasil. No entanto, também parece ser comum em certas áreas do norte de Portugal. Pode ter acontecido o quê? Começa no Brasil e vem para Portugal, pode acontecer. Terá começado por cá, foi para o Brasil, mas não se espalhou para o sul de Portugal, também pode ter acontecido. Pode ter sido comum na oralidade em Portugal, perdeu-se em muitas áreas e depois não se perdeu no Brasil. Não sei que caminho é que a expressão deu, mas na verdade, ela é hoje usada muito no Brasil e, pelos vistos, no Porto. Pelos vistos, não, é mesmo, porque várias pessoas já me confirmaram isto.
Houve mais indignação nesta zona do país.
Sim, houve mais indignação. A língua é fé, como ele diz, tem muitas dúvidas de fé, mas também é estas observações que às vezes são incompletas, este desenvolvimento coletivo das expressões e que é tudo muito complexo, como veremos já a seguir, porque a seguir também temos uma dúvida bastante interessante, de que também já falámos, mas às vezes estamos a voltar aos mesmos temas, porque a língua portuguesa também tem muitas coisas que continuam a ser interessantes. Muito obrigado ao Paulo. Ele continue a enviar as dúvidas que nós continuaremos a concordar ou discordar, ou o que for, porque é disso que se faz a discussão sobre a língua. E agora vamos ouvir uma gravação do Artur, se não estou em erro.
Artur Cavaca.
Artur Cavaca, que tem sete anos.
Exato, muito jovem. Vamos ouvir. Olá, senhor Marco. Como é que se diz adega ou adega? Obrigado.
Se bem percebi a dúvida.
Eu também tive aqui alguma dificuldade, vou confessar.
É adega ou adega?
Eu também penso que é essa a dúvida do Artur.
Obrigado, Artur, pela dúvida. Os dicionários, quando apontam a pronúncia, o que é sempre muito arriscado, porque as pronúncias variam muito como vamos ver já de seguida, apontam adega com E aberto, mas isso não quer dizer que não haja zonas ou áreas do país onde algumas pessoas digam adega. Eu nunca ouvi adega, confesso.
Eu também não.
Sempre ouvi adega. Estou só a dar, mais uma vez, os dados que tenho à minha frente, em que as pronúncias que estão registadas são adega, com o E mais aberto. Não sei se o Artur ficou contente ou não com a resposta, mas é o que eu consigo dizer.
Mas foi simples e rápido e esperamos que o Artur depois dê aqui o feedback.
Exatamente.
E eu disse a palavra feedback no "Português Suave". Enfim.
Deu o seu parecer. Que nos transmita a sua reação perante aquilo que foi dito aqui hoje. E o Jorge Costa Braga enviou-nos também uma mensagem. Ele diz olá e diz que na escola aprendeu que havia palavras que se poderiam escrever de duas formas, consoante a região. Torto, toiro, louro, loiro, bêbado, bêbedo, cobrado, covarde ou cobarde, covarde. A minha dúvida prende-se com o seguinte: é errado se na escrita optar por umas palavras de determinada forma e outras por outra, ou tenho que escolher um padrão, se é que existe um padrão. Eu vou concentrar-me aqui no torto, toiro, louro, loiro. Os outros casos são um pouco diferentes, mas eu queria falar só disto. Esta dúvida apareceu muitas vezes nos últimos dias, curiosamente, e devo dizer que há esta tradição antiga de ter duas opções: torto, toiro; louro, loiro; cousa, coisa; tesourro, tesoura. Todas estas opções existem e não, não há nenhuma recomendação geral do padrão da língua que uma pessoa tenha de optar apenas por uma. Eu, por exemplo, eu digo coisa, como quase todos os falantes, e digo tesoura, não digo tesoura. Aliás, digo tesoura, porque, na verdade, este ditongo é lido de três maneiras diferentes. Louro, louro, mais do norte, loiro, mais pra sul, sem uma fronteira muito definida, e louro, que é como eu digo, que é muito usado também pra sul. Vou andar um pouco pra trás e dizer: louro, com este ditongo OU, é muito mais comum no norte, embora também se encontre no sul. Louro, sem ditongo, ou seja, só O, louro. Louro, em vez de louro, é mais comum no sul. E loiro é sempre minoritário, mas aparece no país inteiro. É o que os dados dos linguistas que estudaram, já foram vários linguistas a estudar isto, é o que os dados nos dizem, que as três formas existem, uma mais pra norte, outra mais pra sul e depois uma alternativa, loiro, que é do país inteiro. E é o que eu consigo dizer ao Jorge.
Um abraço para o Jorge. Marco, isto hoje foi uma corrida bem rápida, pra não dizer sprint.
Quanto tempo é que falta?
Já quebramos os tempos todos. Muito mal. É mesmo assim. Dúvidas para o e-mail, Marco Neves.
portuguessuave@observador.pt.
Ou através do nosso WhatsApp, que é o 910024185. Eu e o Marco Neves regressamos no domingo com o episódio habitual e com as nossas rubricas também habituais. Um abraço, Marco. Até lá.
Um abraço. Até domingo.