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Está no ar o Português Suave, na Rádio Observador. Eu sou o João Costa e Silva, comigo o ninja da língua portuguesa, Marco Neves.
Ainda não ouvimos a origem de ninja.
Pois é, está aqui em esquecimento. Não nos podemos esquecer disto até o final do ano.
E também não nos podemos esquecer de falar do Natal, mas também não vai ser hoje. Mas temos muita coisa de Natal.
Estamos a caminhar a passos largos.
As línguas do Natal, a língua do Pai Natal, a língua do Menino Jesus.
Não sei se sentes o cheiro.
O Natal.
Das filhoses, das rabanadas.
E da lareira.
Sim, está bom.
Das filhoses, já temos aqui várias pessoas em fila a perguntar como é que se diz o plural de filhosa. É filhoses ou é filhós?
Pois, acabei de dizer filhoses.
Já decidiste por aqui. Não é hoje que vamos falar disso. Hoje vamos falar de dúvidas. É um episódio de domingo, mas sobre dúvidas, por vários motivos.
Então.
Porque, primeiro, tivemos a palavra do ano.
Sim.
A palavra do ano que foi decidida, ou melhor, foi uma iniciativa da Porto Editora que acabou por revelar que a palavra do ano é pagão. Mas além disso, também tivemos as palavras mais pesquisadas no Google.
Mas isso é um exclusivo que tu tiveste acesso?
Não, eu não tive exclusivo às palavras mais pesquisadas no Google. Tive um acesso exclusivo às dúvidas de português mais pesquisadas no Google. E é disso que vamos falar hoje.
Vem confirmar a teoria de que és um ninja. No fundo.
O Google confirmou que sou o ninja da língua portuguesa.
É verdade.
Não sei se alguém pesquisou essa expressão no Google. Eu vou dizer quais é que foram as 10 dúvidas relacionadas com expressões.
Ok.
Também temos as 10 dúvidas relacionadas com verbos. Não sei, qual é que tu escolhes? Qual é que queres? Expressões ou verbos?
Não, vamos às expressões, acho que é mais engraçado.
Expressões, neste caso, é palavras, se escreve-se assim ou se escreve-se assado. E depois os verbos ficará para outra altura. Antes disso, olhando para o pagão, eu gostava de responder a uma menina de 10 anos, a Maria Pilar. O pai da Maria Pilar, João Pires da Cruz, mandou-me a dúvida, e eu mando aqui um abraço ao pai e um olá à Maria Pilar. E a dúvida é: por que razão é que nós dizemos apagar a televisão, se não estamos a apagar nada, não se apaga nada. E esta palavra é muito interessante, porque se nós formos à história da palavra, eu às vezes digo, se nós pegarmos uma palavra qualquer e se formos pesquisar, não estou a dizer sempre, mas quase sempre temos ali qualquer coisa interessante ou uma metáfora que se cristalizou. O que eu quero dizer com isto? Esta palavra apagar, e por isso depois a pagão também mais tarde, a palavra apagar vem da palavra paz, em latim. A palavra paz criou-se depois uma forma que queria dizer pacificar, que era já parecida com apagar, mas em latim. Portanto, apagar era pacificar o fogo. Tínhamos fogo e trazíamos paz àquele fogo, e isto era apagar o fogo. Depois, o apagar o fogo levou a que utilizássemos apagar para apagar a vela, e a luz desligava-se. Depois, por extensão, quando nós já tínhamos luz elétrica, passamos a apagar a luz. E a televisão, não nos podemos esquecer que era a luz.
Exato, sim.
Era uma luz que nós também apagávamos, e apagamos ainda hoje. Agora, aqui o interessante é por que nós dizemos apagar se temos uma folha de papel e apagamos o que lá está escrito, que é algo muito mais português do que outra apagar, porque os espanhóis não dizem apagar a folha.
Exato, é interessante perceber essa diferença.
Ou seja, aqui em Portugal, ou melhor, em português, nós fomos buscar esta ideia de estar a apagar a vela, o fogo, a televisão, e pensámos também: "Vamos pacificar a folha de papel e vamos tirar o que lá está escrito". Parece um salto um pouco diferente, mas os falantes fazem destas coisas. De repente ficamos com apagar e já ninguém se lembra que vem de pacificar, que vem do fogo.
Nunca me tinha passado pela cabeça tal explicação.
É o que nós chamamos, por vezes, metáforas mortas. Começou como uma metáfora, que a pessoa sabia que era uma metáfora, e depois morreu no sentido em que já não vemos aquilo como uma metáfora.
Vai-se perdendo.
Vai-se perdendo o sentido da metáfora e fica mesmo só o sentido da palavra. É interessante. Há um linguista que se chama Guy Deutscher, que chama a língua uma acumulação de metáforas mortas, que é uma imagem interessante. Não sei se a Maria Pilar ficou satisfeita com a resposta.
Se vai continuar a dizer apagar a televisão ou não.
Pode continuar a dizer à vontade.
Sim. Eu, por acaso, lembro muito do apagar a televisão em relação aos meus avós. Tenho essa noção de que eles diziam muito o apagar a televisão, em vez de desligar.
Não há problema nenhum, claro que desligar já vem do outro lado. Desligar quer dizer que está ligada à corrente e nós desligamos da corrente, mas o apagar é uma imagem mais antiga, do tempo das velas.
Um beijinho pra Maria Pilar, um abraço pro João Pires da Cruz, que escreve também aqui regularmente para o Observador. E agora sim, vamos ao teu trabalho de ninja.
Sim. Não sei se temos tempo para falar das 10. Algumas são dúvidas ortográficas, quer dizer, são quase todas dúvidas ortográficas.
Sim.
Eu gosto de olhar pra elas, tirando as duas primeiras, que não são propriamente ortográficas, todas as outras são se se escreve de uma maneira ou se escreve de outra. E temos tigela ou tigela, o que é uma dúvida um pouco absurda na rádio.
Sim, porque estamos a dizer da mesma forma.
Estamos a dizer da mesma forma, mas a dúvida, claro, é se é com J, se é com Gui ou Gi, essa é outra questão.
É uma dúvida muito recorrente, esta.
E tem a ver com a origem. Ou seja, é uma questão, neste caso, etimológica, tem a ver com a palavra latina de onde vem a palavra tigela e é com Gui. Ortografia é daqueles pontos onde nós podemos ser mais Como é que eu hei de dizer? Diretos.
E concisos, não é? Porque ou é desta forma ou a outra está errada.
Há um ou outro caso em que pode haver alguma variação, mas em geral a ortografia é muito mais sólida, mesmo com todos os problemas.
Não te dá tantos problemas.
Não, não dá. Porque a ortografia é planeada, essa é que é a questão. A ortografia é mesmo um caso em que alguém se pode sentar e: "Olha, vamos fazer aqui uma ortografia." E depois as pessoas aceitam ou não aceitam. O que pode correr mal, como sabemos. Mas a gramática, as palavras, já não. É a comunidade, em geral, de forma bastante mais complexa e demorada, que cria a gramática, cria as palavras e por isso demora mais tempo. Bem, bem-vindo ou bem vindo, mais uma vez, para a rádio isto não corre muito bem. É a nona dúvida: será que tem espaço e hífen? Será que é bem com N e depois o V? Com espaço não, com hífen. Portanto, bem-vindo. Depois temos recepção ou receção.
Esta aqui tem a ver com o novo acordo, não é?
Sim, com o novo acordo, receção perdeu o P cá em Portugal. O curioso é que no Brasil mantém e por isso foi um daqueles casos em que o acordo criou uma diferença. O que aconteceu com mais frequência do que seria suposto para um acordo ortográfico. Recepção será no Brasil, receção será em Portugal, ou então recepção com P, mas sem se ler, será a ortografia anterior, que ainda é usada por muitas pessoas. Sétima dúvida: imigrantes ou emigrantes com E, imigrantes ou emigrantes. Ao contrário do que talvez possamos pensar, a pronúncia mais habitual ao longo do tempo era igual nas duas palavras.
Exato.
Porque nós líamos o E.
Daí a dúvida também, se calhar.
Exatamente. Há pessoas que fazem o esforço de dizer o emigrantes para marcar a diferença, mas tradicionalmente, em muitas zonas do país, estas duas palavras liam-se e leem-se da mesma maneira. Imigrantes para quem migra para cá, emigrantes para quem migra para lá. Dia a dia ou dia a dia com hífen ou sem hífen, é a sexta dúvida. E neste caso, eu estou aqui a dizer estas dúvidas todas e posso-te dizer que a primeira foi muito surpreendente. Eu não estava nada à espera que a primeira dúvida fosse esta.
Por acaso acho que já me tinham falado sobre esta dúvida para o "Português Suave". Não sei se já chegámos a falar sobre isto, mas lembro-me de já me perguntarem sobre isto.
Pronto, então já lá chegamos.
Já lá vamos.
Dia a dia tem hífen ou não tem hífen. Tem hífen antes do acordo ortográfico, não tem hífen depois do acordo ortográfico. Depende da ortografia que a pessoa está a cumprir.
Pois, e depois existe esta facilidade que é: "Está errado." "Não, mas eu estou a escrever conforme o..."
Sim, mas eu também uso quando escrevo da minha própria iniciativa.
O acordo, ou antes.
Eu uso a ortografia anterior. O que acontece quando se mexe na ortografia numa sociedade em que já todas as pessoas sabem escrever, é confusão.
Pois.
Posso-te dizer. Aconteceu na Alemanha também, aconteceu por cá, mas enfim, isso é uma discussão para outro dia, que nunca mais acaba. A quinta dúvida é comprimentos ou cumprimentos.
Esta aqui eu não consigo perceber.
São duas palavras diferentes. Comprimentos.
Exato.
O comprimento é uma medida.
É sim.
O cumprimento é quando nós chegamos ao pé de alguém e dizemos: "Olá." Nesse caso, é com U.
Mas aqui acho que é tão evidente a diferença.
O que às vezes é evidente para umas pessoas, não é para outras, porque talvez tenha a ver com a pronúncia que a pessoa usa, não sei. Mas eu também não vejo uma grande dúvida, mas que ela existe e que foi pesquisada.
E está em quinto lugar.
E é que está em quinto lugar.
Quer dizer alguma coisa.
Em quarto lugar, temos com certeza e com certeza.
Esta sim, também.
Aliás, acho que já falámos disto aqui. É uma questão ortográfica e há pessoas que pensam que não é uma questão ortográfica, que é uma questão de pronúncia. Mas não é, porque nós não dizemos aquele espaço, nós não fazemos uma pausa em com certeza, tal como não fazemos pausas entre a maior parte das palavras. Nós dizemos com certeza, sem espaço, da mesma maneira que dizemos com certeza, com espaço. Tanto que eu tenho que estar aqui a especificar qual é que eu estou a dizer.
Também seria só estranho se fizéssemos essa pausa. Com certeza.
Porque se nós falássemos com espaço, seria muito estranho.
Este programa tinha 40 minutos.
Mas há pessoas que têm mesmo na cabeça, porque a escrita dá-nos a sensação que nós dizemos pequenas pausas entre as palavras, e não dizemos.
Exato.
Podem ir estudar e ver a onda sonora. Não há lá pausa nenhuma. Fazemos pausas de vez em quando, em certos pontos da frase, mas com certeza é com espaço. Portanto, em português, por convenção, não se usa com certeza, tudo junto.
Estamos a entrar no top três.
Ainda temos tempo para o top três?
Temos.
Então, dispensa ou dispensa. E agora? Também são duas palavras diferentes.
É dispensa.
As duas existem.
Sim, verdade. Mas estou-me a referir àquele lugar onde guarda.
Sim, e é com E.
Já estava a ficar assustado.
A dispensa de ir ao serviço militar, por exemplo, aí já é com I. Mas também lemos da mesma maneira, porque o E e o I misturam-se muito nas primeiras sílabas.
Pois é.
Não nos podemos esquecer disso. É uma característica da língua portuguesa. Há pessoas que insistem em tentar artificialmente separá-los, mas, na verdade, nós misturamos. Tanto misturamos que nós até dizemos o E sozinho, quando é uma palavra, nós dizemos I. Depois, consultoria ou consultadoria. As duas existem, é uma questão de preferência. Há quem insista que tem de ser consultadoria, mas podem ver nos dicionários que as duas existem. E a primeira é muito surpreendente, porque eu não estava nada à espera que esta fosse a dúvida mais frequente dos portugueses em 2025.
Agora entrava os tambores.
Posso dizer também que é um sinal negativo o facto de esta ser a primeira dúvida.
Então.
Porque no fundo, isto só está aqui por causa dos incêndios.
Verdade.
Porque se não fossem os incêndios, nós não teríamos esta dúvida.
Por acaso é verdade, não tinha pensado nisso.
É a única explicação que eu vejo para que a dúvida mais frequente dos portugueses, ou seja, a pesquisa mais frequente sobre expressões em português, em Portugal, em 2025, seja fagulhas ou fagulhas.
Por acaso já tínhamos falado sobre esta dúvida. Eu digo fagulhas
Eu sei que a maior parte das pessoas vão dizer o mesmo, que fagulhas é mais comum, mas eu também ouço faúlhas.
Mas já ouvi as duas.
E as duas vêm do latim, ou seja, houve alterações diferentes numa e noutra, mas as duas existem há muito tempo. Consultadoria e consultoria, eu imagino que haja pessoas que insistam numa delas e eu acho legítima essa discussão.
E se calhar até podem achar que têm significados diferentes.
Talvez, não sei.
Não sei se calhar aqui por influência do português do Brasil.
Mas agora faúlhas e fagulhas são mesmo tradicionais as duas e são as duas corretas. Querem dizer o início de um incêndio e por isso não há aqui nenhum erro, há simplesmente duas opções. E há quem fique muito irritado com isto e diga: "Mas temos mesmo de escolher?" E eu respondo o seguinte: havia faúlhas, fagulhas, falulhas, fabulhas, fagulhas. Nós tínhamos não sei quantas possibilidades de ter aqui palavras diferentes a significar o mesmo. A língua deu-nos duas. Pronto, é assim, nós temos de aceitar que a comunidade de falantes deu duas, podia ter dado só uma ou até podia ter dado três. Não é dramático, em todas as línguas há estes casos em que as palavras têm duas formas diferentes, com significados parecidos, mas é assim. Estas foram as 10 dúvidas mais frequentes sobre expressões portuguesas. Também tivemos dúvidas sobre verbos, que também é interessante.
Temos aqui algum tempinho, se quiseres só dizer o top três dos verbos.
O top três, tá bom. Então temos aceito ou aceitado, mas não vou responder, isso fica para outro dia. Mexer ou mexer com X ou com CH.
Esta aqui não consigo perceber, sinceramente.
Pronto, é com X.
Eu muito indignado: "Esta aqui não consigo perceber. Por quê?"
E depois vem ou veem. Vem é do verbo vir e veem é do verbo ver e as duas escrevem-se de maneira diferente. Estas são as três dúvidas relacionadas com verbos. Alguma te surpreendeu destas 10 que nós falámos? Eu já disse que a primeira surpreendeu muito, as outras não me surpreenderam.
Não me surpreende estar aqui, surpreende-me o lugar em que está. No primeiro. Faúlhas ou fagulhas.
Se me tivesses perguntado: "Faz aí uma lista de 20 expressões".
Tu não irias colocar.
Eu não ia pôr faúlhas nunca, nem fagulhas, não me passaria pela cabeça.
Acho tigela com J ou com G mais recorrente, o com certeza acho que faz sentido. O dia a dia, por exemplo, o bem-vindo.
Esta primeira, sinceramente, não estava nada à espera, mas como eu disse, parece-me que é um sinal de um momento no ano que infelizmente temos com muita frequência.
O mesmo aconteceu com a palavra do ano, o apagão, que vai marcar aqui um acontecimento que vivemos.
Ali muito particular daquela altura, mas o apagão marcou. As faúlhas ou fagulhas marcam meses, mais uma vez, infelizmente.
Marco Neves.
Repara só que nós começámos com o fogo pacificado, o apagar.
Pois foi.
Terminámos com as fagulhas. Isto deu tudo a volta.
Não tinha pensado nisso. Meu Deus! Marco Neves, nós ficamos por aqui neste episódio de domingo. Dizer que esta semana recebemos imensas dúvidas e vamos esclarecê-las no episódio de quarta-feira, mas continuem a enviar para o 91 002 41 85. É o nosso WhatsApp. Envie áudios até 30, 40 segundos para podermos esclarecer na quarta-feira, mas se for uma pessoa mais tímida, é enviar por e-mail.
Sim, não há problema nenhum. O e-mail é portuguessuave@observador.pt. Não há problema nenhum. Envia por e-mail. Vamos pesquisar.
Aliás, temos uma dúvida para quarta-feira que vai ser esclarecida e foi enviada por, aliás, não foi nada por e-mail. Estou enganado. Foi pelo WhatsApp. Só que foi escrita.
Que também é possível.
Exato.
Não me tinha lembrado dessa possibilidade.
Exato, não foi nada por e-mail, eu estava aqui a enganar-me. Mas pronto. Marco, um abraço e até quarta-feira.