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Já estamos em novembro e o Português Suave nunca para. Há sempre muitas dúvidas. Esclarecemos tudo contigo, Marco Neves. Olá, bem-vindo.

Cá estamos.

Já em modo natalício. Ho, ho, ho.

Não sei quando é possível começar a falar de Natal.

Eu vou ser muito sincero: eu não sou uma pessoa muito entusiasta do Natal. Para mim, o Natal começa a ser planeado a partir do dia 1 de dezembro.

Pensei que ias dizer 24 de dezembro.

Não. Há muitas pessoas que se queixam: "Ainda estamos em outubro e já estão a falar de Natal". Mas também já percebi que há pessoas que fazem de propósito porque percebem que outras pessoas se irritam. E já ouvi pessoas a falar das prendas em agosto, com um sorriso no vocal.

Tenho amigos que já começaram as prendas de Natal. Aliás, amigos que já fizeram todas as compras de Natal.

Isso é preocupante.

Isso é uma patologia que eu também não quero incidir aqui.

Porque nós estamos num país.

Num programa sobre a língua portuguesa.

Estamos num país onde as pessoas deixam tudo pra última, mas também é verdade que comprar todas as prendas em outubro é peculiar. Mas vamos avançar.

Vamos a isto. O que temos hoje no menu?

Temos príncipes, países, tênis ou sapatilhas.

Vamos ter discussão. Vamos a isto. Começamos com a língua nas notícias.

Esta semana tivemos muitas notícias.

Sim, o normal.

Eu tenho que escolher uma das notícias.

É a parte mais difícil do episódio pra ti.

É, porque ou são muitas ou é nenhuma.

Às vezes é difícil escolher porque é muita coisa.

Outras vezes não há nada que chame a atenção.

Assim, de grande destaque.

Ou não há nada relacionado com a língua. Faz parte. Mas a verdade é que as notícias são sempre dadas em português, cá em Portugal. Portanto, a língua está sempre lá. Mas, neste caso, reparei no príncipe André, que perdeu os títulos todos e passou a ter um nome comum, o que tem aqui uma curiosidade.

Se isto fosse no futebol, perder os títulos todos.

Pois, também acontece. Temos também muitas notícias sobre eleições do Benfica.

Sim, vamos ter a segunda volta.

Exato. Portanto, cá falamos sobre isso.

Aliás, pra semana, dia 8, vamos saber quem é.

O origem do Benfica.

Passamos aqui um bom monte.

Mas hoje pensei falar do príncipe André, não por causa dele, mas por causa do nome dele, porque nós temos este hábito de chamar príncipe André, tal como chamávamos príncipe Carlos ao atual rei. Príncipe, como é que se chama o irmão? Agora passou-me. Felipe? Não, Felipe é do pai. Estou um bocadinho baralhado.

Eu confesso que a monarquia não é o meu forte.

Eu agora tive aqui uma branca e não me lembro do nome do irmão, depois temos a princesa Ana. Enfim, a questão é: em português é habitual, primeiro, nós traduzirmos em português, em Portugal, no Brasil não é bem assim, os nomes dos reis britânicos. Portanto, eles ficam com os nomes traduzidos, rainha Isabel II, rei Carlos III. Curiosamente, também fazemos o mesmo aos príncipes que estão nas notícias, ou pelo menos fazíamos, embora a geração do príncipe Guilherme já é mais raro de chamarmos Guilherme. Tudo isto pra dizer que o príncipe André vai passar a ter um nome comum e é bem provável que a tradução desapareça, porque ele deixou de ser membro da família real, pelo menos na prática, e por isso o nome vai ser Andrew Mountbatten, já não sei quantos, Windsor. Eu queria olhar aqui para o nome príncipe, porque príncipe é uma palavra muito interessante, porque se virmos bem, muda de cultura pra cultura. Nós cá em Portugal chamávamos príncipe ao herdeiro do trono, mas os outros irmãos, ao contrário do que acontece no Reino Unido, não eram príncipes, mas sim infantes, ou pelo menos não eram habitualmente chamados de príncipes. O infante Dom Henrique, a infanta. Portanto, tínhamos infante e infanta, e príncipe estava reservado para o herdeiro. Depois também temos príncipe, que quer dizer o monarca de alguns países, como Andorra, Mônaco. E aqui leva a uma questão cultural: até muito tarde, o que era importante num estado era o título do seu chefe. Nós estávamos no Reino de Portugal, mas se estivéssemos, por exemplo, num estado em que o chefe era um grão-duque, então era o Grão-Ducado.

Grão-Ducado, já não ouvia isso há muito tempo.

Temos o Luxemburgo. O que eu queria dizer é: os países também tinham importância relativa ao seu chefe e estavam numa hierarquia. Um Grão-Ducado, provavelmente, era parte de um espaço maior, que seria um império ou um reino. O que eu quero dizer é que havia uma hierarquia de estados. E hoje não, hoje estamos num mundo, depois de um desenvolvimento bastante prolongado e difícil de explicar aqui em poucos minutos, onde estamos em países. Depois, cada país pode ser chamado de reino, de república, de grão-ducado, mas já é só quase um vestígio desse outro momento em que eles tinham uma hierarquia. Grão-Ducado, gostas do nome?

Não, já não ouvia há algum tempo. Ouvia-se isto e falava-se muito isto na altura. História.

Sim, grão-ducado. Hoje temos só o Luxemburgo, mas o Luxemburgo, apesar de ser chamado Grão-Ducado e ter um grão-duque, mudou agora há pouco tempo, o Luxemburgo é tão soberano como qualquer país à volta. Portanto, não é menor ou com menos importância do que o Reino da Bélgica. Ou seja, já é só mesmo um título que não tem importância no que toca à hierarquia dos países.

O príncipe, que agora já não é príncipe, André, e que agora vai passar a ser como? Como é que se vai chamar?

Andrew não sei quantas.

Vai à sua vida, vai começar do zero.

Andrew Mountbatten Windsor, salvo erro. Exatamente, agora tem a sua vida toda pela frente e vamos ver.

Nós vamos seguir viagem até o Mapa da Língua.

Há uns dias fiz um desafio no Instagram, onde às vezes estou a passear quando quero descansar.

A passear. É muito bom.

Vou passear o Instagram. Criei um vídeo em que fiz um desafio a quem quisesse responder. Dei o exemplo de um país, não vou dizer qual, vou deixar para o fim desta secção, de um país onde há apenas uma língua materna da população. Claro que há sempre exceções, há pessoas que vêm de outro país, eu sei, mas a população daquele país, todas as pessoas falam aquela língua e essa língua só é falada nesse país. É um desafio. Que país é este? Não precisas responder se não quiseres, mas eu dei este exemplo de um país em que isto se aplica e perguntei se havia mais algum país na Europa, onde isto também se aplicasse. E excluí as línguas gestuais, porque todos os países têm também uma língua gestual, portanto, isto não faria sentido se não fizesse essa exclusão. E também excluí, imaginem uma família de portugueses que vai viver para esse país, claro que vai falar português, mas não conta para este exercício. E várias pessoas fizeram várias tentativas e todas falharam. Até agora, o único país continua a ser aquele que eu disse, que eu já vou dizer qual é.

Estou curioso.

Luxemburgo. Será que o Luxemburgo é este país? O Luxemburgo tem uma língua que só é falada-

Não é. Se estás a dizer primeiro é porque não é.

Pois, não é. Porque repara, o Luxemburgo tem o luxemburguês, mas também tem o francês e o alemão. Há muitas pessoas que falam francês e alemão como língua materna também por lá. Um outro país que muitas pessoas indicaram é Malta, onde se fala maltês e de facto o maltês só é falado em Malta, mas os malteses também falam inglês. O inglês também é língua de Malta.

Ok.

Também me disseram a Finlândia, mas a Finlândia tem três línguas. Tem o finlandês, o sueco também é uma língua da Finlândia. Aliás, na Eurovisão deste ano, o grupo que foi representar a Suécia eram finlandeses, da língua sueca. A Suécia também tem a sua língua falada na Finlândia, portanto não se aplica. Também temos o lapão no norte, a língua do Pai Natal, todos sabemos que o Pai Natal fala essa língua. O dinamarquês também é falado na Alemanha. Em Espanha obviamente que não, porque temos muitas outras línguas.

Já estamos a retirar aqui muitas hipóteses.

Estamos. Portugal também não, temos o mirandês e o português também é falado em certas zonas de Espanha, por dizer a verdade. Alivensa.

Ali mais a norte.

Alivensa, que é Espanha para os espanhóis, para nós isso é outra discussão.

Não quero entrar nessa luta.

Eslovénia, também me disseram Eslovénia, mas há partes da Itália onde o esloveno é falado e até é oficial. E podia continuar por aqui. O único país, diz-me lá, sabes qual é que é?

Não. Não sei mesmo, estou curioso.

Na Europa, atenção. É a Islândia. Todos os islandeses falam islandês e não há mais nenhum país onde se fale islandês, pelo menos como comunidade.

Isso deve ser muito giro. E se calhar as pessoas entendem-se melhor, não é? Ou não.

Isso aí é outra discussão.

É um país pacífico.

É, mas a Suíça também é pacífica e tem quatro línguas. Ou cinco, ou seis. Não, tem quatro. Isto tudo para dizer que o normal é não ter só uma língua que seja falada só nesse país, ao contrário do que nós pensamos. O normal é ter várias línguas ou pelo menos uma língua a ser partilhada entre vários países. A Islândia é mesmo uma exceção aqui na Europa.

Muito bem.

Quanto tempo é que temos agora para os ténis e para as sapatilhas?

O suficiente. Estou pronto pra batalha. Vamos a isto. Já calçaste as luvas de boxe.

Eu tinha dito até que era interessante trazermos cá alguém que defendesse o ténis.

Porquê? Não te consideras suficientemente forte para defender o ténis?

Não, porque eu tenho um problema. Tenho vários, todas as pessoas têm vários problemas. Não há ninguém sem problemas no mundo. Mas eu fiz uma pergunta, mais uma vez, também pelas redes sociais.

Não vou gostar dos resultados dessa sondagem, tenho certeza.

Não sei se vais gostar ou se não, mas eu fiz uma sondagem e eu estou à procura dela agora em tempo real e não sei se consigo encontrar em tempo real.

Eu estou aqui, posso te ajudar nesta condução.

Mas posso dizer que as várias pessoas deram vários argumentos.

Porque as pessoas não votam só, depois esgrimem argumentos.

Depois eu fiz uma pergunta: "Quem diz ténis, onde é que vive? Quem diz sapatilhas, onde é que vive?" Para nós podermos tentar fazer aqui uma linha. E claro, isto não é uma análise científica, um linguista ia mesmo para o terreno perguntar às pessoas, mas o que se percebeu claramente desta pequena sondagem é que sim, há uma diferença entre o norte e o sul. E depois há uma fronteira difusa.

Até onde vai.

Mas no sul é muito mais ténis, e não é só Lisboa, é o sul em geral, com algumas pessoas que dizem também sapatilhas no sul, mas são muito menos. E o norte diz sapatilhas com muito mais frequência, embora também haja pessoas que dizem ténis no norte. Como tu, tu és um homem do norte, não é?

Sim, claro. Vou continuar a defender sempre e não aceito o argumento de que dizem muitas vezes: "Sapatilhas é pra ginástica". Não, sapatilhas é universal.

As pessoas do norte, como tu, muitas vezes também dizem que ténis é um desporto.

Sim, também.

Mas também devo dizer que há palavras que têm dois significados.

Marco, não vamos nisso. Desculpa.

Há muitas palavras que têm dois significados.

O primeiro significado que tu aprendes da palavra ténis é o quê?

É aquilo que se calça.

Não. Mas sabes que isso é interessante, porque até na escola-

Mas eu não te disse o que é que se dizia na minha terra

...não, mas até na escola, por exemplo, eu lembro-me. Eu estudei no norte, em São João da Madeira, e nunca, pelo menos eu não me lembro.

Não ouviste ténis.

Nunca ouvi um professor ou alguém que nos estivesse a ensinar, a referir-se ao ténis como aquilo que nós calçamos. Foi sempre sapatilhas.

As pessoas de Lisboa dizem que sapatilhas é para o ballet.

Exato. Para a ginástica, para o ballet.

Estamos aqui numa luta inglória. Não há nada a fazer. Isto é um regionalismo, tanto um como outro.

Sem fim à vista.

Ténis está a ganhar pela simples razão de que Lisboa tem muita exposição.

E é o teu público também. Se calhar tens mais público de Lisboa. Eu acho que se fizesse, por exemplo, essa sondagem no meu Instagram, se calhar-

Faz.

Vou fazer.

De qualquer forma, os resultados também não foram nada espantosos para um lado. Foram 40% de ténis, 37% de sapatilhas, portanto, quase empatado. É empate técnico.

Sim, está na margem de erro. Se a sondagem era-

E ambos 23%.

Ok, também é um número interessante.

Portanto, há um grande empate, o que é muito raro neste tipo de regionalismos. A maior parte das vezes, há uma palavra que é muito mais usada e depois há outra que é usada numa determinada região. E aqui estamos perante um caso em que o país se divide mesmo entre ténis e sapatilhas.

Dou muito valor às pessoas que responderam ambos, porque eu

Agora pergunta-me: o que se dizia em Peniche? Pergunta-me lá.

O que se dizia em Peniche, Marco?

Essa pergunta é muito interessante, porque Peniche parece estar mesmo no centro do furacão da fronteira. Não é a fronteira, porque como em tudo na língua, é uma questão de frequência que vai diminuindo ou aumentando, mas eu ouvia mais sapatilhas, tenho que dizer. Em Peniche ouvia mais sapatilhas, os meus pais diziam sapatilhas, mas ouvia também bastante ténis. Não foi nenhuma surpresa o ténis quando vim para Lisboa, não senti nenhum choque, era perfeitamente natural. Familiarmente era sapatilhas, e os meus pais compravam-me sapatilhas, mas os meus colegas, se fosse preciso, o colega do lado já dizia ténis. Era uma questão de cada família ter a sua opção.

Vou aceitar esse desafio, vou fazer uma sondagem no meu Instagram pra perceber se o meu público do Instagram, porque tenho muitas pessoas também do norte a seguirem, algumas cá de Lisboa, que entretanto mudei-me pra Lisboa, como é que são as respostas e pra semana analisamos isso pra ver se muda muito. E vou pôr as três opções como tu: ténis, sapatilha ou ambos.

E só pra te dizer que há pessoas que ficam muito irritadas e dizem que eu tenho de dizer qual é a opção certa, mas isso tirava todo o interesse à língua, se nós tivéssemos sempre de optar pela opção certa.

Concordo.

Achas que é sapatilha? Eu tô no teu clube, eu também tenho sapatilhas.

Nós nunca vamos chegar a uma resolução deste enigma.

A minha mulher, que é de Ponta do Sol, que é no Alentejo, mas não é mais a sul do que Peniche, ela dizia ténis.

Exato. Eu vou continuar a defender sapatilhas, vou continuar a dizer, mas o que me irrita mais, e já disse aqui, é téni. Por favor, não usem ténis. Quer dizer, usem, mas não digam dessa forma.

Temos que ter uma conversa com o Sam the Kid, já tive um episódio com ele há uns tempos.

Seria interessante um dia trazer aqui o Sam the Kid.

Em que falamos muito sobre ténis. Não vou falar mais, mas devíamos conversar com ele sobre isto.

Vamos tratar disso, vamos fazer esse convite. Nós ficamos por aqui neste episódio do "Português Suave" de domingo, mas estamos de regresso na quarta-feira. Se tiver dúvidas, já sabe qual é o e-mail, Marco?

portuguessuave@observador.pt e o número de telefone. Diz lá o número de telefone.

Assim é fácil: 910024185.

910024185. Eu decoro os números de uma forma muito estranha.

Como tu decorarias este?

O 24 e depois o 85 é mais do que 40. Não sei, tinha que fazer aqui umas contas. Eu faço assim, tenho uma forma muito estranha.

Isso é muito confuso pra mim. É que eu só sei este número assim. Se me disserem de outra forma, já tenho que decorar.

Para decorar o meu número do cartão de cidadão, quando fiz os exames nacionais há muito tempo, andei a fazer contas. Um dos números é mais um do que o anterior e lá consegui decorar.

Olha, agora também no TikTok, apanhei essa trend, anda-se a falar muito de como as pessoas veem os meses.

Ah, sim.

Como é que isolam os meses. Por exemplo, há pessoas que isolam janeiro, depois fevereiro, março, abril, depois maio, junho. Como veem os meses e como é que os separam numa altura do ano.

Já não temos tempo pra dizer a minha resposta.

Diz lá.

Eu tenho junho, julho, agosto.

Sim, esses são os normais.

Depois eu faria janeiro, fevereiro e março. Eu acho que ia pelos semestres.

Farias de três em três, sempre.

Não, não é bem três em três. Janeiro, fevereiro, março, abril, maio, depois junho, julho e agosto, setembro, outubro e novembro, dezembro.

Faria igual, só separaria o setembro. Deixava setembro isolado. É um mês sombrio. Não gosto de setembro.

Mas também é o mês do início.

É verdade.

Início de muita coisa.

Marco Neves, até quarta-feira. Um abraço.