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Seja muito bem-vindo ao "Português Suave", episódio de quarta-feira. Eu sou o João Costa e Silva, comigo está a Vanessa Cruz e, claro, o Marco Neves. Olá, bem-vindo, Marco.
Sei que a Vanessa tem aqui algo a dizer.
Uma declaração de interesse.
Sobre cerveja.
Tenho, porque no programa de fim de semana falamos sobre cerveja e sobre birra. E eu referi, porque me lembrei, porque é parecido com birra, o barrilinho. É um tipo de cerveja. Eu tinha dito que era uma cerveja mais pequena. É uma cerveja normal, uma imperial, neste caso, normal, ou um fino, como queiramos designar, só que é num copo um pouco mais largo, mais gordinho. Era só pra fazer essa referência.
Pronto.
Já agora, digo que a birra que nós usamos para o que as crianças fazem.
Sim?
Que nós não falamos disso, mas acho que é interessante. Não tem a mesma origem, é diferente. Essa birra vem de uma palavra latina que era o RS, com aquela letra que depois se tornou um V, que era porco, aquilo que vem de porco. E havia uma palavra que era parecida com essa, que era o barulho que o porco faz quando está a guinchar. Portanto, uma birra de uma criança.
Aí já podemos associar a uma birra.
A língua é, de facto, fascinante.
O guincho de um porco. O que não deixa de ser. Mas depois de birra, nós criamos embirrar, criamos embirrações.
Eu já estou a imaginar os pais a explicarem aos filhos: "Olha, o que estás a fazer parece..."
Um porco a guinchar. E o filho ainda faz uma birra pior. Mas repare, nós depois criamos mesmo muitas palavras a partir desta. Birrento, embirrar. Estou a embirrar com isto.
Birrento também é um apelido, sabiam?
É?
Por acaso não sabia.
Tenho uma amiga que é Birrento, Inês Birrento.
Não precisas de insultar assim os teus amigos, também.
Mas não é o único apelido dela.
Mas é muito fácil perceber de onde é que esse apelido vem, porque os apelidos muitas vezes vêm ou da profissão ou de uma característica da pessoa, e alguém chamou Birrento a alguém. E sabem como é que se diz em castelhano, birra? Berrinche, que eu acho muito engraçado.
Berrinche?
A birra da criança. Mas vamos avançar.
Olha, Marco Neves, estou aqui, não enviei e-mail nem enviei WhatsApp, mas tenho uma dúvida: de onde é que vem o roscof?
Então, tens o número de telefone.
Diz lá. Não sabes?
Não digo não. Roscof, o que é uma coisa roscof? O que vocês entendem por roscof?
É uma coisa que envolve algo sem valor, sem grande valor.
Acho que ainda é muito usado, porque a sensação que eu tenho, ainda fiz um vídeo há pouco tempo sobre isso no Instagram, e muitas pessoas dizem: "Pois, de facto, já não usamos muito". E eu também tinha a sensação que não usava muito.
Eu no Norte uso mais, roscof. Aqui em Lisboa, nem tanto.
Mas eu notei, estava numa conversa com a minha mulher e reparei que disse alguma coisa roscof. E foi sem querer, não foi por causa do vídeo. Afinal, ainda usamos e nem reparamos. Porque nós não reparamos muitas vezes na língua. Às vezes até costumo dizer: nós não conseguimos reproduzir palavra a palavra o que nós dissemos há cinco minutos, como é que as pessoas podem conseguir dizer quantas palavras é que usam. Mas roscof vem de uma marca de relógios, roscof, criada por um suíço chamado Roskopf, que não se escrevia assim, Roskopf. Este suíço criou uma marca bastante conhecida, ainda há muitas pessoas que têm relógios desta marca em casa. Esta marca, além de já ser barata por si, mas não necessariamente má, deu origem a não sei quantas imitações de relógios. Também se dizia roscof patente, ou seja, patente roscof, que eram parecidos com aqueles, mas eram piores, alguns deles. E deste ser pior, acabou por surgir o roscof, palavra portuguesa para algo que é não muito bom, assim um bocadinho roscof.
O que me aparece mais aqui até são relógios de bolso.
Sim. Mas a palavra vem daí, mas vi uma teoria mais recente, que dizia que o roscof vem de uma cidade francesa, da zona da Bretanha, mas está bastante claro quando nós vamos ver a forma como foi usado ao longo do século XX e agora XXI, que é do relógio. Tu já sabes.
Está esclarecido. Pronto, já fiquei mais descansado.
E é muito engraçado, porque nós sabemos a origem, porque há muitas palavras que nós imaginamos, mas é muito difícil provar. E esta como é relativamente recente.
Olha, e estávamos aqui em off a preparar este nosso programa e tu partilhaste comigo e com a Vanessa que tinhas uma proposta.
Sim, eu não sei se temos tempo ainda, mas eu posso dizer, porque muitas pessoas reclamam, e às vezes com muita razão, outras vezes não, porque há pessoas que reclamam e dizem: "Não deveríamos usar nenhum estrangeirismo". Mas isso seria impossível. Não há nenhuma língua sem estrangeirismos. Agora, a verdade é que nós às vezes exageramos. Quer dizer, nós por vezes temos anúncios a coisas que se passam em Lisboa e que está tudo em inglês, no meio do português. E uma das palavras que me parece às vezes exagerada é o famoso sunset para falar de uma festa ao pôr do sol.
Estou a notar aqui uma certa irritação.
O sunset party é um pouco exagerado, na minha opinião. E eu vinha aqui propor que usassem não pôr do sol, que me parece uma coisa um bocadinho, como é que eu hei de dizer, vamos ali ao pôr do sol. Não é suficientemente específico do que estamos a falar. Mas temos outra palavra que está ali relacionada com aquela altura do dia, que é lusco fusco. Eu acho que é um nome muito bom.
Até dava um bom nome pra um bar. Onde haja possibilidades.
Ou então um lusco fusco.
Exato.
Vamos ter um lusco fusco às 18h. Ou seja, eu gostava de fazer aqui a proposta de que algum estabelecimento em Lisboa ou noutra zona do país.
Mas há.
Existe?
Estou a ver aqui no TripAdvisor, faço a publicidade. Lusco Fusco Café Bar, no Porto.
Mas o Lusco Fusco Café Bar no Porto tem de organizar lusco fuscos.
Há também na Costa da Caparica.
Mas isso é o espaço. Eu estou a falar é do evento.
Da festa, não é? Tu queres da festa, Marco Neves.
Exato. Lusco fusco.
Não sei se ainda temos tempo pra ir a esta dúvida do grátis, a origem do grátis.
Quanto tempo é que temos?
Temos três minutos.
Estamos aqui a discutir o tempo. Grátis. A Lina Silva perguntou-nos de onde é que vem grátis e por que existem tantas línguas de famílias diferentes, como o dinamarquês e outras, que usam esta palavra pra falar de uma coisa que é gratuita. E a resposta é fácil. Grátis vem do latim, que já significava isto, coisa gratuita. E o latim deu-nos a nós, portugueses, grátis e outras palavras relacionadas E também deu a outras línguas, porque a verdade é que o latim é tão importante que dinamarquês, inglês, então nem se fala. Todas estas línguas vão buscar muitas palavras ao latim e é por isso que esta palavra é usada em tantas línguas. Posso dizer que o facto de terminar em S é um sinal de que ela foi importada para o português bastante tarde, ou seja, que não vem do latim devagarinho pelas gerações fora. Houve algum momento em que alguém decidiu: "Olha, eu quero ir buscar uma palavra latim" e foi buscar, porque as palavras portuguesas em geral não terminam em S, porque vinham de uma forma particular das palavras do latim, que é o acusativo, que não terminava assim. Portanto, o grátis é bem provável que seja muito mais recente do que outras palavras latinas. Está relacionado com graças, com o agradecimento espanhol gracias. Todas estas palavras têm a mesma origem.
Muito bem. Temos tempo?
E dá para perceber bem. Eu queria só voltar, porque a minha pesquisa está a ser em construção, claramente, há vários dias, uma pesquisa sobre cerveja. Eu disse que era barrilinho, mas o termo correto é barrilito.
Ok.
É só para...
Isto vamos discutir.
Isto na próxima semana. Não, nós vamos discutir isto num lusco-fusco que vai ser organizado por algum bar de Lisboa, onde todas as pessoas do Observador vão lá estar a discutir.
Estou a amar esta investigação da Vanessa Cruz. E estamos a aprender mais. Cerveja já esteve presente noutro episódio e volta a estar aqui presente. E os nossos ouvintes depois ainda vão dizer de sua justiça, quer seja no Spotify, onde podem comentar o episódio, ou através do e-mail ou do número de telefone, que o Marco Neves não sabe, mas um dia há de saber e de chegar aqui como um rouxinol e dizer. O nosso número do WhatsApp é o 910024185 e também através do e-mail portugueschuave@observador.pt. Podem enviar as suas dúvidas sobre língua portuguesa. Muitas vezes estamos no trabalho, já aconteceu aqui no Observador, e temos dúvidas que surgem, portanto, o local ideal para discutir.
Para a semana vamos falar de vinho, porque já chega de cerveja.
A sério? Tem uma origem engraçada, será? Já pensaste nisso?
Não vou dizer nada. Para a semana vemos.
Porque tu sabes. Ok, muito bem. Vanessa Cruz, vamos poder continuar a ouvir-te na Tarde Política e também no Fora do Baralho.
Sempre, Fora do Baralho.
Aliás, quero sugerir aqui um crossover, também te podem enviar perguntas.
Já agora sim, foradobaralho@observador.pt. Estamos sempre à espera de perguntas, provocações, críticas. Os ases respondem a tudo.
Exato. Aqui perguntas sobre a atualidade política, aquilo que acontece por cá, no mundo, temas da atualidade.
Sim.
Pronto, fica aqui a promoção feita.
Obrigada.
Um beijinho, Vanessa. Marco, nós estamos de regresso no domingo.